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O MUNDO, A AMÉRICA DO SUL, O BRASIL EM 2022: METAS DO BICENTENÁRIO por Samuel Pinheiro Guimarães

O MUNDO, A AMÉRICA DO SUL, O BRASIL EM 2022: METAS DO BICENTENÁRIO.

Samuel Pinheiro Guimarães – Versão Preliminar, junho de 2010

Algumas considerações de Antônio Diomário de Queiroz.

Considerações Gerais
  
 No seu conjunto o trabalho está bem estruturado e redigido de forma correta e clara, proporcionando, de forma sucinta e agradável de ler, uma visão prospectiva do futuro do Brasil, até 2022, data do bicentenário de sua independência política, posicionando-o em relação à América do Sul e ao Mundo. Eventuais contribuições à sua versão final restringem-se a indicar algumas lacunas e alguns pontos que poderiam ser objeto de análise mais aprofundada, conforme abaixo especificado.

O Mundo

Neste primeiro texto, são estas as considerações:

• No item 1, a ideia do povo como dono do Estado brasileiro vincula-se a um conceito de propriedade objeto de muitos questionamentos, desde o Contrato Social de Rousseau. Sendo o Estado a organização do Poder na sociedade, é esta relação de propriedade que o define?

• Nos itens 2 a 8, concordo que refletem a tendência a se realizar, mas caberia ampliar um parágrafo sobre a alternativa de se criar uma nova ordem mundial em função do agravamento da crise do sistema capitalista.

• No item 9, quando se identificam as grandes tendências do sistema internacional, teria acrescentado algumas, tais como:

1. a emergência do conceito de inovação, que permeia todo o processo  de educação e transformação científica e tecnológica, com o surgimento das novas tecnologias da informação, e que, na nova economia do conhecimento, passou a ser fundamental para a competitividade das empresas, para o fortalecimento das instituições e para o desenvolvimento econômico sustentável dos países, inclusive o Brasil, cuja política industrial e de comércio exterior também se fundamenta  na inovação;

2. as mudanças climáticas e os desastres naturais decorrentes, bem como seus efeitos econômicos sobre a agricultura, a escassez de alimentos, o controle da natalidade, os movimentos migratórios e a mobilização da Defesa Civil a nível local e internacional;

3. a água, como fator estratégico e escasso no mundo, abundante no Brasil, e sua utilização;

4. a emergência da sociedade em redes, com a universalização dos processos de comunicação instantânea e a formação crescente das redes sociais e das redes de empresas transnacionais, com descentralização espacial de seus centros de competência, pesquisa e desenvolvimento;

5. na questão ambiental-energética, a emergência de novas formas de energia, como o hidrogênio e de energias limpas como as decorrentes das novas tecnologias do carvão;

6. a difusão do acesso à educação, em todos os níveis, como base de sustentação do desenvolvimento regional equilibrado;

7. a permanência ou agravamento da crise financeira internacional, a partir da estrutura de capital debilitada dos Estados Unidos;

8. o fortalecimento e as novas responsabilidades mundiais dos BRICs.

Algumas dessas questões poderiam ser melhor trabalhadas nos itens que se seguem do trabalho apresentado.

• Nos itens 10 a 16 caberiam as considerações já mencionadas sobre a inovação, a economia em redes e a universalização da internet em banda larga; atenuaria também a afirmação do item 15 relativa à correlação direta entre progresso científico e concentração de poder de toda ordem, quando o acesso às bases de dados e informações que fluem pelas redes amplia também o acesso ao conhecimento e, por conseguinte, ao poder e à vida de qualidade;

• Nos itens 17 a 24 observaria as limitações naturais e tecnológicas existentes para que haja a transição da matriz energética baseada no carbono para outra com base em fontes renováveis de energia, havendo necessidade de incluir as potencialidades da energia nuclear e do hidrogênio;

• Nos itens 25 a 28 incluiria, também, alguma análise sobre o agravamento da pobreza nos países do centro do sistema mundial, EEUU e Europa;

• Nos itens 29 a 33 mencionaria os fluxos migratórios decorrentes do agravamento das mudanças climáticas e a necessidade do estabelecimento de uma ordem mundial mais justa, de acordo com os princípios universais dos direitos do homem, com remuneração igual, para igual trabalho, no conjunto dos países;

• Nos itens 34 a 36 é possível considerar a hipótese de que as redes complexas de unidades produtivas cada vez mais transcendem aos territórios em que se localizam, assumindo caráter transnacional, independente de onde se situam suas sedes;

• Nos itens 37 a 54, não vejo como o Brasil possa deixar de se incorporar aos blocos de países “de forma parcial”.

A América do Sul
 Neste segundo texto, são estas as considerações:

• No item 1 a primeira frase poderia ser simplificada para: “A América do Sul é a região onde nos encontramos.”

• No item 2 destacaria positivamente o papel que as novas tecnologias de informação e comunicação podem exercer para facilitar a integração regional embora todas sejam tecnologicamente dependentes;

• No item 6 o catolicismo é igualmente dominante no Brasil e não percebo porque o seja em especial nos países hispânicos;

• No item 8 não creio existirem bases objetivas para classificar a América do Sul como “o continente mais desigual do planeta”; (E a Ásia?)

• No item 10 considero a agricultura familiar “na maioria das vezes” de baixa produtividade e que a análise desse tema poderia ser aprofundada;

• Nos itens 14, 17, 21 e outros, mencionar a influência norte-americana e não americana, quando se referir aos EEUU;

• Nos itens 22 e 23, ao invés de focar sobre Espanha e China, preferiria uma análise com enfoque continental, Europa e Ásia, pois me parece muito simplificador excluir a influência histórica de Portugal e também a presença crescente de outras economias européias, Alemanha, França, Itália, Noruega e, além da China, Japão, Coréia, Índia, por exemplo;

• Compactaria os itens 27 e 28;

• No item 36 pode-se realmente atribuir à Venezuela a liderança do movimento bolivariano, sobretudo se o considerarmos do ponto de vista histórico?

• No item 38 não caberia mencionar o papel da coordenação política da OEA na Guerra das Malvinas?

• No item 41, ao explicar as causas históricas do paradoxo do continente extremamente rico e população com níveis extraordinários de pobreza, considero que Portugal e Espanha se situavam dentre os países mais desenvolvidos do mundo à época dos descobrimentos e nos períodos iniciais da colonização, com sistemas de controle administrativo muito eficientes, e que não estiveram à margem do Renascimento e do Iluminismo;

• No item 42 caberia alguma observação sobre o endividamento internacional a juros variáveis que está à base da elevadíssima (e injusta?) dívida;

• No item 43 incluiria alguma menção ao populismo dos movimentos políticos latino-americanos e à descaracterização ideológica e programática dos partidos políticos;

• No item 55 excluiria a expressão “quer se queira ou não”;

• No item 56 destacaria os esforços para a implantação de ferrovias, rodovias e outras infraestruturas e programas de desenvolvimento de natureza trans-oceânica;

• Para o conjunto desta parte, abriria um espaço bem mais amplo para educação, ciência e tecnologia, enfatizando a necessidade de ampliar a cooperação inter-universitária regional, com base nos cursos e programas de excelência existentes nas universidades dos diversos países e em laboratórios e institutos de pesquisa de nível de excelência internacional, revertendo um histórico de cooperação internacional dos países sul-americanos isoladamente concentrado com os países europeus e com os EEUU.

O Brasil – Metas do Bicentenário.

 Neste terceiro texto, são estas as considerações:

• Nos itens 1 e 2, pareceu-me haver alguma inconsistência entre “Estado ainda mais soberano” e “Estado plenamente soberano”, sendo esta última a opção que prevaleceu nos itens seguintes, de maneira ufanista, excessivamente idealizada, sem maiores fundamentos, embora concorde que “O Brasil em 2022 deixará de ser um dos países mais desiguais do mundo”;

• Item 11 será que em 2022 “todos os brasileiros se sentirão seguros em seus lares e nas ruas das cidades” ?

• No item 18 a matriz de transporte também me parece por demais idealizada, pois observa-se uma tensão social crescente em função do ritmo dissonante dos investimentos nacionais em infraestrutura nos diversos meios de transporte e o aumento exponencial da sua demanda pela população.

• Itens 20, 21 e seguintes: caberia explicitar melhor algumas questões, como, por exemplo, o saneamento básico, a matriz energética, incluindo as potencialidades do pré-sal e os programas de valorização do carvão mineral, a educação, analisando a expansão da educação infantil e da profissionalizante, a interiorização e diversificação da educação superior, a inovação e os setores estratégicos da política nacional de industrialização e exportação, as reformas política e tributária e a transição para um novo tipo de governo menos burocratizado;

Enfim, como destacado pelo autor, não foram definidas as metas para alguns setores de atividade. Mas, neste caso, é de se perguntar se, para o escopo deste trabalho, é necessário chegar-se ao nível de definição dessas metas, o que caberia na formulação de um plano de governo. Considero que o trabalho avançou muito bem no campo das idéias, que contribui em muito para a reflexão estratégica do futuro do Brasil, e que bastaria, ao final, exemplificar com algumas metas indicativas de nosso potencial em relação à América do Sul e ao Mundo.

Reitero que minhas observações as faço exclusivamente a título de contribuição, em respeito à qualidade do trabalho e ao reconhecimento de sua importância. 
               Florianópolis, 15 de agosto de 2010
  
     Antônio Diomário de Queiroz.