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POLÍTICA SOCIAL E A REVOLUÇÃO NO COTIDIANO

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA DEPARTAMENTO DE SERVIÇO SOCIAL
NÚCLEO DE ESTUDOS SOBRE DESENVOLVIMENTO DE COMUNIDADE
SEMINÁRIO: POLÍTICA SOCIAL E A REVOLUÇÃO NO COTIDIANO PERÍODO: 07 e 08 DE JULHO DE 1986
ABERTURA: PROF. ANTÔNIO DIOMÂRIO DE QUEIROZ

1. INTRODUÇÃO
A filosofia do encontro: reflexão sobre o mundo de hoje. A visão do homem neste mundo. A política social que está se formando hoje. A escolha dos temas e dos painelistas.

2. A REVOLUÇÃO NO COTIDIANO

A revolução é um processo de transformação social que ocorre sempre no presente. É um processo de mudanças nas pessoas e em suas relações entre elas. A revolução só é possível agora, e não no futuro.

“O que em geral se chama revolução, é apenas uma mudança ou continuação da direita, de acordo com as ideias da esquerda. A esquerda, afinal de contas, é a continuação da direita, sob forma modificada. Se a direita tem seus fundamentos nos valores sensoriais, a esquerda não é mais do que uma continuação dos mesmos valores com diferença apenas de grau ou de expressão. Por conseguinte, a verdadeira revolução só poderá realizar-se quando vós, o indivíduo, vos tornardes bem cônscio das coisas, em vossas relações com outrem. Por certo, o que sois em vossas relações com outra pessoa, com vossa esposa, vosso filho, vosso patrão, vosso vizinho, é que forma a sociedade. A sociedade, por si só, não existe. A sociedade é aquilo que vós e eu criamos, em nossas relações, é a projeção exterior de todos os nossos estados psicológicos interiores. Portanto, se vós e eu não nos compreendermos, a simples mudança do exterior, o que é a projeção do interior, não tem significação, absolutamente; isto é, não pode haver alteração ou modificação significativa da sociedade, enquanto eu não compreender a mim mesmo, nas relações convosco. Se estou confuso, nas minhas relações, crio uma sociedade que é a réplica, a expressão exterior daquilo que sou. É um fato óbvio, susceptível de investigação. Podemos investigar se a sociedade, a expressão exterior, me produziram ou se eu produzi a sociedade.(…)
A compreensão de mim mesmo não depende do tempo; posso compreender-me neste momento exato. Se digo “compreender-me-ei amanhã”, estou atraindo o caos e o sofrimento, minha ação é destrutiva. Quando digo que haverei de compreender, introduzo o elemento tempo e, portanto, já estou envolvido na onda de confusão e de ruína. A compreensão existe agora, não amanhã. 0 amanhã é para a mente preguiçosa, a mente que não tem interesse. Quando estais interessados numa coisa, e a fazeis instantaneamente, há compreensão imediata, transformação imediata. Se não vos transformardes hoje, nunca mais vos transformareis, porque a
transformação que fica para amanhã é simples modificação. A transformação só se realiza imediatamente; a revolução só pode ser agora, e não amanhã.”
(KRISHNAMURTI, “A primeira e última
liberdade”).

3. POLÍTICA SOCIAL

Poderia haver aparente incoerência em aceitar a ideia de que toda transformação só pode ser hoje e a proposição de políticas sociais. Política ê uma regra para selecionar uma decisão. Mas as decisões também ocorrem sempre no tempo presente, no cotidiano.
“Uma política adequada é uma regra que leva em consideração as condições relevantes que prevalecem na ocasião em que a ação é requerida. As políticas, por isso, permitem a utilização de toda a informação relevante de que se dispõe na ocasião da decisão. Por esta razão, elas proporcionam mais flexibilidade do que decisões específicas. Consequentemente, o planejamento deve preocupar-se com decisões somente no momento exato e com as políticas quando se requer uma ação no futuro.”
(ACKOFF, Russel L., “Planejamento empresarial”).

Por conseguinte, a definição de políticas é a base do pro cesso de planejamento e baseia-se na crença de que o futuro pode ser melhorado através de uma intervenção ativa no cotidiano. Como define este mesmo autor “A sabedoria é a qualidade de perceber a longo prazo as consequências das ações presentes(…). 0 homem sábio tenta controlar o futuro.” A Política Social nos proporciona, pois, regras para selecionar nossas ações e nossas decisões cotidianas, procurando conformar um futuro desejável.

4. DUAS CARACTERÍSTICAS DE NOSSO COTIDIANO
4.1. Crise mundial de instabilidade social.

“Situações de instabilidade social ocorreram um sem número de vezes na história da humanidade, mas nenhuma se aproximou em relevância à que a humanidade vem enfrentando nas duas últimas décadas.
Enquanto ao passado os conflitos, por mais gerais que fossem, se restringiam às populações de apenas parte do globo, hoje, as evidências são de que praticamente toda a humanidade está envolvida no processo: A crise atual de instabilidade social é mundial! e isso é um fato novo; que a distingue das demais.”
(Prof. Crodowaldo PAVAN, Aula Magna UFSC).

4.2. Emergência de uma nova civilização abrindo novos e fascinantes horizontes para a humanidade, a qual Alvin TOFFLER denomina de A Terceira Onda.
“Por espantoso contraste, a civilização da Terceira Onda resultou ter muitas características — produção descentralizada, escala apropriada, energia renovável, desurbanizaçao, trabalho em casa, altos níveis de prossumo, para nomear apenas algumas — que realmente lembram as encontradas na Primeira Onda. Estamos vendo algo que parece notavelmente uma réplica dialética.”

(TOFFLER, Alvin, “A Terceira Onda”).

TOFFLER vislumbra nessa civilização um novo papel para as sociedades como a nossa, a brasileira.
“As estratégias de “desenvolvimento” de amanhã virão não de Washington ou de Moscou ou de Paris ou de Genebra, mas da África, da Ásia, e da América Latina. Elas serão indígenas, adaptadas às verdadeiras necessidades locais. Não super enfatizarão a economia à custa da ecologia, da cultura, da religião ou da estrutura da família e das dimensões psicológicas da existência. Não imitarão qualquer modelo de fora.”
(TOFFLER, Alvin, “A Terceira Onda”).

Concordamos com o autor que, a partir do momento em que tenhamos condições de colocar em relevo nossos valores, estaremos contribuindo para a formação da sociedade do futuro.

5. POLÍTICA SOCIAL, REVOLUÇÃO NO COTIDIANO E UNIVERSIDADE

“Uma Universidade democrática, amplamente aberta às massas, proporcionando ao mesmo tempo cultura geral e formação profissional, aberta ao mundo exterior, praticando em todos os níveis uma seleção-orientação, cultivando a diversidade (e permitindo, portanto, uma certa concorrência entre as universidades e os diplomas que elas conferem), fornecendo à pesquisa e à qualidade um lugar fundamental: estas são as linhas básicas de um projeto de Universidade moderna mais ou menos válido para todos os países avançados.”
(SCHWARTZ, Laurent, “Para salvar a Universidade”) .

No entanto, para o mesmo autor, “A Universidade não está bastante integrada na vida nacional, no mundo produtivo; ela vive voltada sobre si mesma, e é provavelmente aí que está a fonte de todos os seus males.(…)

Não há exemplo de país desenvolvido que possua uma Universidade subdesenvolvida; a degradação da Universidade nos conduz ao subdesenvolvimento, à perda da nossa identidade nacional e nossa cultura, uma das mais belas do mundo, enfraquecendo nossa tecnologia e baixando nosso nível de vida.”
E em relação à Universidade brasileira? Coloca-se para nós o desafio de desenvolver a Universidade para desenvolver a própria sociedade.

5.1. Ensino
Os alunos estão expostos a currículos estáticos e voltados para o passado, condicionados frequentemente a culturas alienígenas. A Universidade, no entanto, seleciona o aluno que será o profissional do futuro, devendo entrar no mercado de trabalho daqui a cinco anos. Há necessidade, pois, de uma revolução curricular que possibilite, desde hoje, infundir o futuro e a nossa realidade nos currículos.
“Eis o grande desafio ã ciência social contemporânea: criar e transmitir o conhecimento necessário a que se compreenda e faça frente a um futuro que continua em grande parte desconhecido. Para uma resposta adequada, talvez seja necessário nada menos que uma revolução na ciência social — revolução nas teorias e perspectivas dominantes, nas metodologias, no conteúdo do que se ensina, e nas próprias técnicas de ensino.

Os estudantes devem ser sensibilizados para correntes da mudança, para as probabilidades de futuros alternativos, para um rol de possibilidades futuras, para modos de adaptação, e para a ação corretiva e inovadora. Precisam ser estimulados a transcender a experiência passada, a inventar criativamente o futuro e a definir meios sadios de implementação. Precisam entender a natureza do poder social e sua capacidade decisória. A maneira pela qual as opções serão especificadas e o contexto de interesses conflitantes em que são selecionadas precisam receber uma significação na sala de aulas.

Ademais, tendo em vista que para dominar o futuro ê preciso que haja participação ativa, libertação dos meios passados e certo grau de escolha, o papel do estudante deve tornar-se menos passivo do que tem sido, ao mesmo tempo que sem permitir a rendição ao simples comodismo ou à expressão.”
(WENDELL BELL in “Aprendendo para o Futuro” de AIvin TOFFLER) .

5.2. Pesquisa e Extensão
0 desenvolvimento do ensino num contexto de pesquisa e extensão ê o único meio de quebrar as resistências mentais e corporativistas e de cultivar as ideias e as atitudes necessárias â revolução do cotidiano na Universidade.
“Na atividade universitária o mais difícil é romper as inibições e resistências mentais, quando se busca, pelo diálogo, criar algo em comum. Quando seguimos um expositor e ouvimos coisas realmente novas para nós, com frequência trabalhamos mentalmente para contradizê-lo, como se nos sentíssemos ameaçados de perder pé, de ver nossas referências se apagarem. 0 desafio com que se confronta o professor é vencer essas resistências.”
(FURTADO, Celso, “A Fantasia Organizada”).

0 aprendizado num ambiente de criação só pode se fazer num contexto de pesquisa e de extensão, com mentes abertas para novas ideias e atitudes, em que tenhamos condições de integrar o tempo. Temos de assimilar a nova noção de tempo presente que vem surgindo na ciência, conforme expõe Joêl de ROSNAY, em seu livro “Le Macroscope”, quando situa a energia, a informação e o tempo como elementos eternos dos quais depende nossa ação, a trama de todo o conhecimento e de toda significação, e que traduzimos:
“Pela observação e na certeza do tangível, descobrimos o mundo em uma direção análoga àquela que seguiriam as ondas divergindo a partir de uma fonte: a direção do tempo convencional. 0 universo nos aparece assim sob seu aspecto energético, quantitativo, material, objetivo. Pela ação criadora e sua riqueza do vivido, descobrimos uma outra face. A direção das ondas que convergiriam para um centro.

É o aspecto espiritual e subjetivo pelo qual o universo torna-se de mais em mais significante.

As duas entidades fundamentais que se reencontram ao final desta reflexão, como as duas faces de uma única realidade, são a energia e o espirito. Seus aspectos intermediários podem ser a matéria e a forma (ou a informação). Mas tudo aparece como se existisse no Universo apenas energia informada (a matéria), substrato do conhecimento; e espirito materializado (a informação), suporte da ação criadora. Se existe conservação do tempo, a liberdade está totalmente contida no instante presente.”

Na Universidade de Santa Catarina, estamos hoje diante da decisão tomada pelo Conselho Universitário de Reforma Universitária em pleno processo constituinte no País. É um momento histórico importante que se integra ao nosso cotidiano. É a hora de participarmos. De mudar nossas ideias, nossas atitudes, nossas relações interpessoais. É neste estado de espírito que lemos uma última mensagem positiva de Alvin TOFFLER.

“A responsabilidade da mudança, por conseguinte, está em nós. Devemos começar com nós mesmos, ensinando-nos a não fechar as nossas mentes prematuramente à novidade, ao surpreendente, ao aparentemente radical. Isto significa repelir os assassinos de ideias que arremetem para matar qualquer nova sugestão, alegando sua impraticabilidade, enquanto defendem o que quer que exista agora como prático, por mais absurdo, opressivo ou impraticável que possa ser. Significa lutar pela liberdade de expressão — o direito das pessoas de exporem suas ideias, mesmo que sejam heréticas.”
(TOFFLER, Alvin, “A Terceira Onda”).

Estas são as ideias que trazemos ã vossa reflexão, neste seminário. É assim que vemos a revolução no cotidiano de nossa Universidade.

Professor Antônio Diomário de Queiroz