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SOBRE LA UNIVERSIDAD BRASILERA

SOBRE LA UNIVERSIDAD  BRASILERA*

* Artigo escrito por Antônio Diomário de Queiroz, para a Revista Solidaridad Global da Universidad Nacional de Villa Maria, Córdoba, Argentina, publicado na edição  Año 4 – N°7- Marzo 2007, “CON LAS DIFICULTADES DE LO NUEVO”.

 

            A universidade brasileira é muito recente. Somente no início do século passado foram criadas as duas primeiras universidades, nos estados do Paraná e do Rio de Janeiro, aglomerando escolas isoladas. Ao longo dos últimos cem anos, no entanto, seu número cresceu exponencialmente. O Censo da Educação Superior do Ministério da Educação  elaborado pelo Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas (INEP) divulgou a existência no país, em 2005, de um universo de 305.960 docentes e 4.453.156 alunos matriculados em 20.407 cursos de graduação  de 2.165 instituições de ensino superior. Destas instituições, 176 são universidades, 90 públicas e 86 privadas. As demais são centros universitários, faculdades integradas ou isoladas, escolas e institutos.

             Foi a partir de 1960 que essa expansão se acentuou, firmando-se políticas públicas de qualidade do ensino superior e as bases da pesquisa, ciência e tecnologia.  O Governo Federal passou a instalar ao menos uma universidade pública em cada estado brasileiro. Desde 1962 criou-se o Fundo do Desenvolvimento Técnico-Científico (FUNTEC) para viabilizar os primeiros programas de pós-graduação. Em 1967, o Fundo Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (FNDCT) passou a dar sustentação ao esforço deliberado de respaldar os planos nacionais de desenvolvimento pela ação integrada com as universidades. Somente entre 1968 e 1971 foram criadas 17 novas universidades públicas. Em 1980, o Brasil contava com 882 instituições de ensino superior, sendo 45 universidades públicas e 20 universidades privadas. Consolidava-se a institucionalização dos sistemas nacionais de educação, ciência e tecnologia.

             A história da educação superior no Estado de Santa Catarina ilustra o vertiginoso crescimento havido no país. Em 1962, instalou-se em Florianópolis a Universidade Federal de Santa Catarina, com 49 professores e 847 alunos, únicos universitários catarinenses. Atualmente, seu número ultrapassa 200.000, matriculados em 162 instituições de ensino, das quais 12 são universidades, 5 públicas e 7 privadas. A grande maioria das demais são instituições privadas, surgidas sobretudo na última década. Essas instituições que se localizaram inicialmente no litoral, hoje se distribuem em todo o território estadual.

             Mas esses dados de grande sucesso tornam-se pequenos quando comparados com as enormes necessidades de educação dos brasileiros, escondendo graves problemas estruturais e de injustiça social.

             O número de matrículas representa muito pouco em relação aos 180 milhões de brasileiros. O Censo da Educação aponta que, em 2004, apenas 2.498.000 jovens entre 18 e 24 anos frequentavam a universidade, o que significa apenas aproximadamente 10% dos 25 milhões de brasileiros dessa faixa etária, o qual é um indicador muito baixo, se comparado com os países desenvolvidos ou com os vizinhos da América Latina. O Plano Nacional de Educação prevê que, em 2010, 30% dos brasileiros dessa faixa etária estarão matriculados no ensino superior. Para assegurar a qualidade da educação e maior acesso ao ensino gratuito, propõe a meta de crescimento anual de 5% de mestres e doutores atuando nas universidades e que 40% das vagas sejam oferecidas pelas redes públicas federal e estadual.

             Essas metas beiram a utopia, quando se observam historicamente os contínuos cortes do orçamento da União e dos Estados, acionados em função de sucessivas crises financeiras internas e internacionais, os quais não têm absolutamente poupado as minguadas dotações para a educação. Como consequência, observa-se, de um lado, a crescente degradação da universidade pública, tanto física quanto humana, e, de outro lado, o avassalador crescimento da universidade privada, em todas as suas formas de existir. Ou seja, a privatização da educação superior no Brasil avança a passos largos, sem que tenha havido ainda necessidade de privatizar as instituições públicas de educação superior. O Censo de 2005 demonstra que baixou para 27% o percentual das matrículas de alunos no ensino superior público, proporção inversa da que prevalecia nos anos 1970.

             A perda de espaço da educação pública brasileira começou a acentuar-se nos anos 1980, na chamada década perdida. A acentuada crise econômica e o nível de incertezas de um período de inflação galopante frearam a expansão do ensino superior no país. O número de matrículas aumentou de 1.337.286 em 1980 para somente 1.518.904, em 1989, com taxas anuais de crescimento bem inferiores às da população.

             Essa situação provocou forte mobilização das comunidades acadêmica e científica brasileiras, por meio de entidades representativas tais como a Academia Brasileira de Ciências, a Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência (SBPC), o Conselho dos Reitores das Universidades Brasileiras (CRUB), a Associação Nacional dos Docentes de Ensino Superior (ANDES). A sociedade e a classe política se sensibilizaram para o enfrentamento do problema. Implantou-se então o Ministério de Ciência e Tecnologia para dinamizar os programas científicos e tecnológicos, com fundamento em política de pesquisa aplicada. E as demais propostas, resultantes do debate nacional aberto, foram canalizadas para a Assembléia Nacional Constituinte de 1987 que preconizava oportunidades amplas de educação para todos, nos diversos níveis e modalidades de ensino e pesquisa.

             A Constituição Federal de 1988 incorporou três princípios fundamentais que deveriam determinar melhor futuro para a educação brasileira: a gratuidade do ensino público (art. 206), a autonomia técnico-científica, administrativa e de gestão financeira e patrimonial das universidades e a indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão (art. 207). Para garantir o efetivo cumprimento do dever do Estado com a educação, o artigo 212 obrigou a aplicação anual de nunca menos do que 18 % da receita dos impostos federais e de 25 % dos estados e municípios. Na prática, porém, vários dispositivos constitucionais viraram letra morta ou se inviabilizaram em função das restrições orçamentárias do governo, sendo a arrecadação prejudicada pela evasão fiscal e pelos persistentes índices inflacionários elevados.

             Quando Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, de 1992 a 1996, e Presidente da Associação Nacional dos Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior (1995-1996) – ANDIFES, as questões centrais do debate nacional sobre a educação superior eram como recuperar a década perdida, garantir a expansão da universidade pública, o acesso gratuito e as condições de permanência dos jovens de baixo nível de renda, a efetivação da autonomia constitucional das universidades e a implementação de um programa de avaliação institucional para garantir a qualidade da educação na plenitude do ensino, pesquisa e extensão.

            Prevaleceu então o entendimento governamental, reiterado em diversos artigos e pronunciamentos da Professora Eunice Duhran, do Ministério da Educação, de que o país não tinha condições financeiras para expandir a oferta do ensino superior público e gratuito nos padrões de custos praticados, para atender à crescente demanda dos jovens que se apresentavam ao exame vestibular. Não seria possível ultrapassar o teto anual de 5 a 6 bilhões de reais que vinham sendo despendidos pelo Governo Federal com as Instituições Federais de Ensino Superior – IFES, o qual era ainda pressionado pelo crescimento vegetativo do orçamento. Como as universidades federais não abrissem mão do modelo vigente, a alternativa para o país era o favorecimento de um modelo de ensino privado menos oneroso para os orçamentos federais. Considerava-se fundamental ampliar as vagas de ensino superior no Brasil, mas como o céu não é o limite das finanças públicas, não havia então como criar novas universidades federais, nem como expandir seus cursos, vagas e programas de pesquisa, pós-graduação e extensão comunitária. A não ser, concluía a professora Eunice, que fosse votada para as IFES a plena autonomia universitária. Nesse caso, o governo estaria disposto a transferir-lhes o mesmo volume de recursos do passado, cabendo a cada instituição utilizá-los da melhor maneira, eliminando desperdícios e buscando, por intermédio das mensalidades, receitas de serviços ou de outras fontes não orçamentárias, os montantes suplementares necessários à sua expansão ou melhoria de qualidade.

         A questão pressupunha abdicar de alguns paradigmas que haviam predominado historicamente. Neste caso seria necessário repensar, por exemplo, o ensino gratuito universal, o número limitado de alunos em sala de aula, o regime jurídico do servidor universitário, a igualdade de carreira e de remuneração entre todas as IFES, o mérito na avaliação do servidor docente e técnico-administrativo, os termos do contrato do trabalho, a distribuição do tempo de trabalho entre as atividades de ensino, pesquisa e extensão, a estrutura organizacional da universidade.

      Impunha-se a necessidade de abrir mão de verdadeiros tabus, dogmas ou pautas de governo e de movimentos de luta reacionários a qualquer proposta de mudança. Não tendo isso ocorrido, estabeleceu-se o impasse que levou à estagnação por vários anos da universidade pública, tratada a pão e água, e ao crescimento explosivo e desordenado das instituições privadas de ensino. As contradições, a ineficiência e a ineficácia social da universidade brasileira vieram então à tona. O sucesso da expansão do ensino superior foi prejudicado por várias distorções básicas.

      A primeira dessas distorções é certamente a falta de equidade social na oferta e no acesso à educação superior. Diz-se no Brasil “que os ricos estudam de graça nas melhores universidades, as públicas, e que os pobres pagam muito caro nas universidades privadas, nem sempre de boa qualidade”. Esta é uma meia-verdade, certamente, pois as estatísticas demonstram que há uma maioria de pobres nas universidades públicas e uma grande parcela de ricos nas universidades privadas. O fato é que a incapacidade de preparar-se convenientemente para o exame vestibular das universidades públicas ou de pagar um curso universitário faz com que o sonho do ensino superior esteja ainda muito longe de realizar-se para uma camada significativa da população brasileira. E esta realidade se agrava quando a análise da exclusão se aprofunda aos estratos sociais das famílias de baixa renda e às minorias étnicas, mormente indígenas e afro-descendentes. Agrava-se ainda pela concentração das instituições de ensino superior no litoral, nas capitais dos estados, nas regiões mais ricas do país.

         O descompasso entre a educação superior e a educação básica constitui também um problema de imensas proporções. Somente no ensino fundamental o Brasil conseguiu alcançar níveis próximos à universalização, com qualidade questionada pela sociedade.  No ensino médio, na educação infantil e na educação profissional, 60 % ou mais dos jovens na idade escolar correspondente estão fora das salas de aula. As universidades, mesmo assim, não estão preparadas para assimilar o total dos egressos da educação básica.  Com freqüência são obrigadas a recuperar nos primeiros semestres letivos os níveis primitivos da formação pré-universitária. É um problema que se agrava conforme a situação sócio-econômica dos alunos.

          A falta de efetiva autonomia administrativa e financeira é outra distorção histórica jamais resolvida no Brasil. Contrariando o dispositivo constitucional, a universidade pública federal, principalmente, vem sendo submetida a restrições cada vez mais rigorosas de sua livre gestão, face a multiplicidade e a superposição de instâncias decisórias do serviço público com sucessão interminável de leis e atos normativos e descontinuidade do repasse dos recursos financeiros.  Para fugir às limitações burocráticas do plano de contas público, criaram-se as Fundações de Apoio às universidades, que asseguram um espaço mais flexível ao exercício das atividades de pesquisa e uma interface ágil nas relações com as instituições externas e o setor produtivo, pela extensão universitária. Alguns excessos cometidos na gestão dessas fundações provocaram a reação do Ministério Público e dos Tribunais de Conta, desestimulando, e em alguns casos paralisando, sua ação. Por outro lado, desde 2004 foi aprovada a Lei da Inovação pelo Congresso Nacional para estimular as relações das universidades, instituições científicas e tecnológicas, com os setores produtivos, públicos e privados, a favor das políticas de desenvolvimento. Mas ainda são pequenos os efeitos práticos desta nova legislação que só agora começa a ser replicada nos estados, como em Santa Catarina.

          No problema da autonomia universitária se configuram vários itens importantes como  volume e forma da dotação orçamentária, carreira docente e técnico-administrativa, regime jurídico próprio, escolha de dirigentes, criação de cursos de graduação e pós-graduação, controle público e compromisso social da universidade. O modelo de autonomia à época defendida pela ANDIFES, conforme registram seus relatórios oficiais, era o da autonomia plena, com definição clara de fontes de financiamento, em valores reais e liberação regular. Lutava-se por autonomia “que respeite o caráter público e gratuito das IFES, cumpra os preceitos constitucionais de educação para todos, de gestão democrática e de indissociabilidade entre ensino, pesquisa e extensão, preserve o sistema federal de educação superior, garanta o financiamento público à educação de qualidade e valorize os profissionais da educação”.

         Nenhum, porém, dos diversos projetos de reforma da universidade elaborados e levados à discussão, daquela época até hoje, inclusive na forma de projetos de lei submetidos ao Congresso Nacional, teve sucesso. Sua aprovação esbarra em propostas governamentais de autonomia de gestão e de orçamentos percebidos pela comunidade universitária como forma de descomprometimento do governo com a universidade pública. Por outro lado, as autoridades denunciam a incapacidade das lideranças corporativas de abdicar do discurso alienado da realidade, do assembleismo não representativo, da prática fundamentada apenas em pretensa legitimidade, quando no estado democrático os direitos se afirmam pela legalidade.

          Assim, por exemplo, há que se perceber a inexistência de lei complementar à Constituição Federal regulamentando o direito de greve do servidor público, condição em que se acomodaram ambas as partes. No entanto é a causa  que ajuda em muito a explicar algumas prolongadas, infrutíferas e desgastantes greves da universidade pública. Mesmo quando vitoriosas, as reivindicações acordadas não são cumpridas, pois não há um poder judiciário arbitrando a favor do legítimo, da negociação e do cumprimento dos acordos de conclusão da greve. No entanto, muitas e boas lideranças se acomodam ao vazio legal, acreditando ser esse o interesse do trabalhador, quando se sabe que, na ausência do estado de direito, prevalece a lei da selva que impõe sempre a vontade do mais forte. Na melhor das hipóteses se provoca o impasse e a estagnação. As poucas vezes nas quais o Ministério da Educação aceitou as mudanças propostas pela comunidade universitária, ou recuou de suas pretensões descabidas,  decorreram da força da lei ou da forte pressão da opinião pública.

         Contudo, nos últimos anos, observa-se um novo movimento de sucesso da educação superior, com a criação de novas universidades e a evolução vigorosa do sistema nacional de Pós-Graduação. De 1990 a 2003 o número de alunos matriculados nos cursos de doutorado e mestrado das universidades brasileiras aumentou à taxa geométrica anual de 13,3%, passando de 7.039 para 35.724. De 1996 a 2004, o crescimento anual dos cursos de mestrado e doutorado foi de 8,6 %, na média das diversas áreas de conhecimento, alcançando 2993 cursos de pós-graduação strictu sensu, em funcionamento. A estes somavam-se outros 8.800 cursos de pós-graduação lato sensu, inclusive importantes programas de educação à distância aspirados pela comunidade brasileira. Em recente mesa redonda sobre o desenvolvimento da Pesquisa e Pós-Graduação no cenário sul-americano, destacava o potencial desse sistema para ampliar o fluxo de estudantes e os programas de cooperação interuniversitária entre os países de América Latina.

          Em síntese, há que se reconhecer à universidade brasileira o crédito de haver, em poucas décadas de existência, implementado um sistema educacional de amplas dimensões e complexidade nas diversas áreas de conhecimento e em todos os níveis de educação.  Respaldada por princípios constitucionais, a qualidade do ensino vai-se afirmando gradativamente, no contexto da pesquisa e da extensão universitária.  É fundamental reconhecer que a universidade brasileira vem formando profissionais altamente qualificados para dar sustentação ao desenvolvimento do país, com vários programas de excelência respeitados internacionalmente. O desenvolvimento social, científico e tecnológico do país está alicerçado pelas pesquisas acadêmicas, com ênfase na atuação das universidades públicas e institutos públicos de pesquisa que concentram 91% dos programas de pós-graduação. Nas universidades públicas, 77,4% dos docentes trabalham em regime de tempo integral, sendo 42,9% doutores. No conjunto da universidade brasileira, um terço do quadro de professores é formado por doutores e outro terço por mestres.

          Todavia o sistema padece de alguns problemas graves, como os apontados no presente artigo, que desafiam os avanços para o futuro. Os acertos e erros das vivências de um século permitem a visibilidade e a transparência da universidade brasileira em níveis aprofundados de análise e síntese indispensáveis para o seu aprimoramento. As soluções resultarão certamente da convergência plural em torno de projetos alternativos, construídos com a participação da sociedade, pautados pela lei e por princípios fundamentais claramente definidos, para consolidar a universidade brasileira aberta a todos, autônoma e democrática.

          Não se pode perder a consciência de que toda organização social para ser efetiva precisa manter-se fiel às suas funções e à sua identidade. É o caráter público que define a universidade. Independentemente de qualquer governo, forma de organização ou das crises, a organização universitária se fortalece na adesão e no reconhecimento das pessoas à sua existência, pela qualidade dos seus serviços.

         Um modelo participativo de universidade voltada ao bem comum, à valorização dos recursos humanos e ambientais do país, à formação do profissional crítico, à construção da justiça social, certamente encontrará na opinião pública os apoios necessários à sua perene afirmação.

        Concluindo este pensamento sobre a universidade brasileira, torna-se necessário ressaltar, com respeito, os outros olhares que percebem a realidade e as necessidades da universidade brasileira e que podem contribuir para a crítica e valorização do conhecimento como fonte de inovação, melhoria da qualidade de vida da população e desenvolvimento equilibrado.

 Antônio Diomário de Queiroz *, fevereiro de 2007.

 * Doutor em Economia pela Universidade de Paris I, Sorbonne, foi Reitor da Universidade Federal de Santa Cataria, Presidente da ANDIFES, Associação Nacional de Dirigentes das Instituições Federais de Ensino Superior e Secretário do Estado da Educação, Ciência e Tecnologia de Santa Catarina.