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A POLÍTICA DE EXTENSÃO DA UFSC: REFLEXOS NO ENSINO DE SERVIÇO SOCIAL

“A POLÍTICA DE EXTENSÃO DA UFSC: REFLEXOS NO ENSINO DE SERVIÇO SOCIAL”.
Prof. Antônio Diomário de Queiroz

Embora não exista oficialmente uma política de extensão definida pelos conselhos superiores da UFSC, as normas que estão atualmente sendo propostas ao CEPE pela Câmara de Pesquisa e Extensão incorporam as principais diretrizes norteadoras da ação extensionista em nossa Universidade, que serão melhor explicitadas através de alguns comentários.

I- COMENTÁRIOS À DEFINIÇÃO DE EXTENSÃO DAS NORMAS DE EXTENSÃO APROVADAS PELA CÂMARA DE PESQUISA E EXTENSÃO.

“Art. 19 – A Extensão, entendida como uma das funções básicas da Universidade, é a interação sistematizada desta com a comunidade, através da mútua prestação de serviços, visando contribuir para o desenvolvimento dessa comunidade e dela buscar conhecimentos e experiências para a avaliação e vitalização do Ensino e da Pesquisa”.

1. Função básica da Universidade…

A Universidade surge tradicionalmente centrada na atividade de Ensino, que preenche o tempo de seus recursos humanos, ocupa seus espaços físicos e absorve os recursos orçamentários. É o Ensino que condiciona e define a estrutura organizacional da Universidade. É ao Ensino que se atribui aquele que é considerado o principal produto da Universidade: o profissional para o mercado de trabalho.

A segunda função historicamente atribuída à Universidade é a função Pesquisa. A Universidade se torna uma instituição geradora de novos conhecimentos. O professor dedica parte de seu tempo à investigação científica. Como produto, publica artigos em revistas especializadas, apresenta comunicações em congressos, escreve livros. A estrutura da Universidade se amplia através de laboratórios, institutos e outros órgãos de Pesquisa. Verbas específicas se adicionam aos orçamentos da Universidade, captadas por meio de Projetos de Pesquisa.

A função Extensão é a mais moderna, o estágio mais avançado da Universidade. Não existe ainda hoje a plena aceitação e compreensão da Extensão na Universidade. O tempo dos professores e alunos dedicados a esta função é muito pequeno. Os recursos financeiros, escassos e, quando existem, estão via de regra limitados a
atividades assistenciais e culturais. A existência de órgãos extensionistas constitui-se raridade na estrutura da Universidade. E não se distingue claramente qual o produto gerado pela Universidade através da Extensão.
A experiência da UFSC não foge à regra do desenvolvimento histórico da Universidade. A nossa Universidade também teve sua origem no Ensino e ainda hoje é essencialmente uma Universidade de Ensino, embora em transição para um novo modelo que incorpora a Pesquisa e a Extensão.

Basta citar a favor desta constatação alguns fatos:

1. a contratação de novos professores e a utilização do tempo dos docentes nos Planos Departamentais se justificam fundamentalmente pela atividade de Ensino, sendo as de Pesquisa e Extensão consideradas complementares;

2. a legislação federal e as normas internas da UFSC (Res. N° 40 do CEPE) estabelecem número mínimo de horas para o Ensino e número máximo de horas para a Pesquisa e Extensão;

3. recente legislação criou incentivo de produtividade para o professor (GRAPE) somente pelas horas de Ensino em sala de aula;

4. a estrutura e a organização curricular exigem dedicação quase exclusiva do tempo do aluno à atividade de Ensino em sala de aula;

5. o orçamento para a Extensão é muito pequeno e são relativamente raras as fontes externas para o seu funcionamento;

6. a estrutura universitária comporta uma Pró-Reitoria de Ensino e outra dividida para a Pesquisa e Extensão e não existe representação de pesquisadores e extensionistas nos órgãos colegiados superiores;

7. os Departamentos ditos “de Ensino” e os Colegiados de Curso vivem frequentes conflitos de atribuição, por se sobreporem ao exercício da mesma função Ensino;

8. coordenadores de Pesquisa e Extensão de Departamentos e Centros, com frequência, não encontram atividades suficientes para preencher produtivamente as horas de trabalho que lhes são atribuídas para o exercício de suas funções.

2. … interação sistematizada da Universidade com a
comunidade …

O processo de Extensão não pode ser pontual e intermitente. É necessário que a organização desta função permita um fluxo permanente e contínuo de atividades. Daí porque precisa de uma estrutura própria e de normas claras que definam a responsabilidade da Universidade como instituição pelos compromissos assumidos junto à Comunidade.

Na prática extensionista, uma das dificuldades observadas em alguns projetos de Extensão é que eles às vezes começam e não terminam, envolvendo negativamente o nome da Universidade, sem que ninguém seja responsabilizado.

Para assegurar que a interação entre a Universidade e a Comunidade ocorra de forma sistematizada, as novas Normas de Extensão propõem dispositivos de ao menos três ordens:

1. que definem as competências (CAP II) dos diversos órgãos da UFSC pelas atividades de Extensão, centrando no Departamento a autoridade e a responsabilidade básicas para o planejamento, aprovação, execução e avaliação das ações extensionistas;

2. que determinam a necessidade, para a aprovação das atividades de Extensão, de ser demonstrada a viabilidade de obtenção de recursos humanos e financeiros, e, para sua execução, que os recursos estejam garantidos;

3. que cada Departamento Acadêmico deva ter uma carga de Extensão média igual ou superior a 02 (duas) horas semanais por professor.

3. … através da mútua prestação de serviços …

A Extensão é uma atividade de dupla mão, de transferência e busca de conhecimentos, por conseguinte, de mútua prestação de serviços. O bem objeto de transação entre a comunidade e a Universidade é o saber. A sua transferência, pode-se dar na forma de “consultoria, assessorias, cursos, simpósios, congressos, conferências, seminários, debates, palestras, atividades assistenciais, artísticas, esportivas, culturais e outras atividades afins, realizadas interna ou externamente à Universidade, podendo ser remuneradas ou não”. (Art. 2° das novas normas de Extensão.

Entendida como uma mútua prestação de serviços, a Extensão pressupõe uma Universidade aberta a todas as ideias, a todas as pessoas e a todas as idades, com humildade suficiente para valorizar inclusive o saber não formal. Neste sentido, a Extensão significa a recuperação da unidade do conhecimento que fundamenta o Ensino e a Pesquisa, pois recupera sua dimensão do real.

4. … visando contribuir para o desenvolvimento da comunidade e dela buscar conhecimentos e experiên¬cias para a avaliação e vitalização do Ensino e da Pesquisa.

Este final da definição diz respeito aos objetivos da Extensão.

Pela Extensão, a Universidade assume plenamente sua responsabilidade social de agente do desenvolvimento. Ela ajuda a compreender a dinâmica do meio ambiente físico, econômico e social que a envolve. E transferindo conhecimento, dá sua contribuição às mudanças que assegurem às populações a transição a níveis mais elevados de vida.

Não quer isto dizer que a Universidade assuma todo o encargo da transformação social e do desenvolvimento.

O limite de sua ação extensionista se subordina ao objetivo de avaliação e vitalização do Ensino e da Pesquisa. A Universidade não deve substituir-se a outros órgãos com responsabilidades específicas de desenvolvimento. Mas só alcançará sua plenitude como instituição, quando tiver condições de libertar seus estudantes de uma for mação curricular livresca, fundamentada em ensinamentos, na sua maioria de natureza alienígena, envolvendo-os no contexto de conhecimentos adquiridos através da Pesquisa e do convívio com a nossa realidade.

II – AS ATIVIDADES DE EXTENSÃO NO SERVIÇO SOCIAL

O Pe. Fernando Bastos de Avila destaca como sendo da própria dinâmica do Serviço Social:

“a) fazer ‘com’ os indivíduos, os grupos e as comunida¬des e não ‘para’ eles;

b) ir às causas dos problemas para resolvê-los e não, apenas, atuar sobre os efeitos”.

Em razão desta dinâmica, pode-se inferir a importância do aprendizado de Serviço Social em estreita interação com a comunidade. De fato, como aprender a fazer com os indivíduos, grupos e comunidades e como buscar as causas de seus problemas sem um estreito contato com os mesmos?

A Extensão se harmoniza, outrossim, com a própria metodologia do Serviço Social, conforme explicitada pelo Prof. Vicente de
Paula Faleiras em sua exposição sobre “A questão das alternativas metodológicas da Pesquisa em Serviço Social”, no 2° Seminário Regional de Pesquisa em Serviço Social realizado em Florianópolis, em outubro de 1985.

“Uma tarefa que implica um “saber da historicidade que vivemos”, pois é situando o “caso social” ou a “realidade social” em seu contexto histórico que se desvenda o movimento social. Movimento que vincula os homens entre si, provocando entre eles, tanto exigências de participação social, quanto exigências pessoais das mais variadas qualidades. Em outras palavras, é preciso saber ler os temas das discussões que mobilizam as relações interpessoais. Descobrir os es tilos de críticas, os estilos de ação social, cujos efeitos práticos não satis fazem exigências humanas mais eminentemente práticas e concretas; uma tarefa que implica um “saber epistêmico”, ou seja, um conhecer específico referente às articulações do social, presentes no interior de “caso social”, ou na “realidade social”, responsável pelo desenvolvimento do processo; e, uma tarefa que implica um “saber pedagógico”, provocador direto ou indireto de uma nova dinâmica social. Pedagogia que visa provocar a constituição de uma comunidade onde seus membros sejam reconhecidos como pessoas, onde a consciência se torna “cada vez mais tensa em pura dialética com a liberdade e a verdade. Ela dá a sua medida”.

Se a aquisição da “historicidade que vivemos” assim como definida pelo autor se nos afigura como uma tarefa possível de realizar-se dentro do espaço da Universidade, não podemos imaginar a assimilação do “saber epistêmico” e do “saber pedagógico”, sem a atividade de Extensão.

No entanto, é forçoso reconhecer que essas atividades vêm sendo prejudicadas em seu desenvolvimento pelas mesmas dificuldades por nós anteriormente apontadas para o pleno exercício da função Extensão na Universidade.

Conforme diagnosticou a Professora Dymuth Meinicke em suas “Reflexões sobre a Extensão Universitária e sua operacionalização na UFSC” realizadas em setembro de 1979, pág.7, desde aquela época “respaldada na legislação federal e específica, a Universidade Federal de Santa Catarina demonstra estar cônscia da importância da função extensionista para todo o sistema universitário, e procura incrementá-la”.

Mas esse incremento parece ter encontrado seus limites, ou ao menos difícil obstáculo, que desestimula professores e alunos, na estrutura caduca da Universidade.

A consciência da importância da Extensão deve ser rea vivada, para que as atividades correspondentes a esta função possam sair do terceiro plano a que hoje se encontram relegadas nos currículos escolares e nos programas departamentais. Que a Reforma Universitária resgate a importância da Extensão na Universidade parece-nos condição indispensável para o fortalecimento de sua credibilidade junto à sociedade brasileira.
* * *
São pois nossos votos que o presente Seminário possa trazer importante contribuição do Serviço Social à valorização das atividades extensionistas da UFSC, mas também, que desde agora, embora no âmbito das limitações apontadas, mas na esfera do possível, resulte em novo ânimo para o maior envolvimento dos professores e alunos de Serviço Social em projetos e programas de Extensão.

Florianópolis, 21 de setembro de 1987.

Pró-Reitor de Pesquisa e Extensão da UFSC

 

CONVERGÊNCIA DE DIRETRIZES, SIM. LOTEAMENTO DE CARGOS, NÃO.

CONVERGÊNCIA DE DIRETRIZES, SIM. LOTEAMENTO DE CARGOS, NÃO.

Minha CARTA DE PRINCÍPIOS EM PROL DA UNIVERSIDADE revelou um ponto polêmico que desejo aprofundar e esclarecer o máximo possível, reiterando minha postura de princípio e respeito.

As pressões dos grupos na conquista do poder são legítimas, mas impõem uma disciplina ética também. No regime democrático, ninguém pode aspirar ao poder sem buscar a convergência de princípios e diretrizes com os grupos de pressão, legítimos, que representam as diferentes facções de um processo eleitoral. No caso da Universidade, por exemplo, qualquer candidato deve necessariamente se propor a administrar dentro da convergência de diretrizes propostas pela APUFSC, ASUFSC e Diretórios Estudantis. Essa convergência, além de ser objeto de debates, pode ser objeto de compromissos formais firmados pelos candidatos, para serem seguidos rigorosamente pela gestão administrativa que for eleita com base em tais compromissos formais.

É evidente que, formalizados tais compromissos, não poderão ser nomeadas para os cargos executivos dos mesmos, pessoas que deles discordem. Entretanto, dentre as pessoas que concordarem em executar rigorosamente as diretrizes firmadas pela convergência política dos grupos de pressão, cabe ao mandatário maior, no caso o Reitor eleito, escolher nomes de sua confiança, para que se executem rigorosamente os compromissos formalizados nas convergências de diretrizes com os grupos legítimos de pressão eleitoral e organizacional dentro da Universidade.

O mero loteamento de cargos, sem definição prévia da convergência de princípios e diretrizes, e abolindo o direito do mandatário maior de exercer o privilégio da confiança, dentro do respeito à convergência de diretrizes previamente definidas, é imoral, é corrupção dos processos políticos com base em meros interesses venais, por cargos.

Florianópolis, 12 de agosto de 1987.
Prof. ANTÔNIO DIOMÁRIO DE QUEIROZ

CONSTITUIÇÃO DE 1988 E O DESENVOLVIMENTO DA CIÊNCIA, TECNOLOGIA E INOVAÇÃO

Implicações da Participação e da Solidariedade na Dimensão da Universidade

CÁTEDRA UNISUL
I FÓRUM TEMÁTICO SOBRE FUNDAMENTOS PARA UMA SOCIEDADE PARTICIPATIVA E SOLIDÁRIA
Tubarão 19 de junho de 2009
Implicações da Participação e da Solidariedade na Dimensão da Universidade
Antônio Diomario de Queiroz

 A dinâmica da sociedade do Século XXI tem como símbolo a NET, isto é, a rede.  Como propõe Manuel Castels, em A Sociedade em Rede, vive-se cada vez mais nessa sociedade, cuja dinâmica condiciona progressivamente o funcionamento de todas as instituições. As redes são estruturas abertas nas quais as pessoas se comunicam compartilhando os mesmos códigos de comunicação, valores ou objetivos de desempenho. A sociedade em rede promove a cultura participativa e a integração; gera uma quantidade imensa de oportunidades e impele o valor. Organizações e indivíduos são estruturados em uma oposição bipolar entre o ser e a rede,  tornando-se a busca pela identidade, coletiva ou individual, a fonte básica do significado social. Assim, entender como funcionam as redes passou a ser fundamental para compreender o processo de educação no mundo contemporâneo.
 Como educar hoje, para formar o novo profissional da sociedade em redes, crítico, criativo, flexível, capaz de conviver com pessoas de todo o mundo, de diferentes culturas, alinhado com as necessidades dessas pessoas em processos permanentes de mudanças?
 Que implicações essa realidade impõe à dimensão da universidade?
 Em primeiro lugar, a universidade precisa ter como paradigma a solidariedade, o caráter público da educação para todos. Inclusive, no que diz respeito à pesquisa para todos, em que o custo social é recuperado pelo compromisso de atuar criticamente a favor do desenvolvimento sustentável, formando cidadãos éticos e conscientes de seus direitos e obrigações. É o que se entende como responsabilidade social da universidade, cuja eficácia se mede pelos resultados de sua ação na  melhoria da qualidade de vida dos cidadãos. Na educação de qualidade, o ensino se dá no contexto da pesquisa e da extensão universitária, pela interação sistematizada com a comunidade, por meio de mútua prestação de serviços. A extensão pressupõe uma universidade aberta a todas as idéias, a todas as pessoas e a todas as idades, com humildade suficiente para valorizar o saber não formal. Neste sentido a extensão integra unidades do conhecimento e a dimensão das vivências do real.
 O processo participativo de professores e alunos em trabalhos interativos com a sociedade ajuda a compreender a dinâmica do meio físico, econômico e social que os envolve. A relação entre o ensino, a pesquisa e a extensão supõe transformações no processo pedagógico tradicional, pois professores e alunos se constituem como sujeitos do processo de ensino-aprendizagem, propiciando a socialização do saber acadêmico e desencadeando mudanças sociais importantes.  O conhecimento gerado pela pesquisa passa a ser objeto de políticas públicas, e o desenvolvimento científico e tecnológico  constitui etapa que antecede e favorece o desenvolvimento econômico se social com distribuição justa de renda e inclusão social.
 A universidade aberta, empreendedora, participativa e solidária e que não perca de vista sua função libertária e cultural, torna-se guardiã dos princípios mais elevados da cidadania e da interação livre na sociedade em redes.
 O advento das novas tecnologias da informação e da comunicação proporciona o repensar do processo ensino-aprendizagem em todos os níveis educacionais.  Os modelos didático-pedagógicos contemporâneos se fundamentam na capacidade de criar e inovar, superando as limitações milenares do processo de memorização de verdades ditadas pelo mestre aos alunos, ou da habilitação profissional com base na re-elaboração ou construção de saberes e informações do professor. Educar se torna cada vez mais um processo interativo  entre pelo menos duas pessoas, sujeitos em permanente processo de transformação e desenvolvimento da realidade. A dinâmica de aprendizagem se gera nas contradições dialéticas do ser ou não ser. Intensifica-se a prática do interacionismo subjetivista e social. Subjetivista, porque mesmo o conhecimento coletivo se dá a partir do aprendizado individual. E social, porque o processo de comunicação que favorece o novo conhecimento se enriquece exponencialmente pela atuação de um número maior de atores.
 Na sociedade em rede, o professor tem a responsabilidade ética do acesso aos meios de comunicação. Ele deve empregar os melhores meios possíveis para estimular a aprendizagem. A utilização didática das novas tecnologias da informação e da comunicação favorece o processo pedagógico da proposta curricular no mundo novo. É, pois, obrigação de uma política pública de educação, ampliar as possibilidades de utilização desse poderoso meio didático. Os jovens e as crianças de hoje são sujeitos de aprendizagem ativos e rebeldes a uma prática pedagógica uni-direcionada ao aluno.  Cabe então ao professor de sucesso exercer o importante papel de líder e facilitador do processo interativo de ensino-aprendizagem.
 Esse esforço interativo de aprendizagem confere caráter social à educação. O conhecimento se dá em benefício de todos. A sociedade em redes oportuniza processos abertos de participação e solidariedade que ampliam a capacidade das universidades de exercerem sua responsabilidade social.
 
 

CASPAR ERICH STEMMER por Arno Blass

Livro:  CASPAR ERICH STEMMER
Administração, ciência e tecnologia
Parecer para publicação Pela Editora da UFSC
De: Antônio Diomário de Queiroz
       Florianópolis, 20 de março de 2015
  Sr. Presidente da EDUFSC, Prof. Fábio Luiz Lopes da Silva,
Senhores Conselheiros,

 Recebi, com satisfação, “para análise e parecer com vistas à possível publicação pela Editora da UFSC”, o livro escrito por Arno Blass sobre ERICH CASPAR STEMMER, Administração, ciência e tecnologia.
 Conheço bem este livro para o qual contribuí com alguns comentários acerca da pessoa do biografado. Por várias vezes o li e consultei ao longo dos últimos anos. Considero que é um livro excelente, muito bem elaborado pelo Dr. Arno Blass, rico e preciso em informações bem documentadas, intenso de fatos e relatos das realizações do Professor Stemmer, da sua personalidade ímpar e da sua contribuição inovadora para a formulação conceitual da universidade brasileira.
 Somos um país de pouca memória escrita, mormente com a competência alcançada pelo Dr. Arno Blass. E vivemos um momento histórico em que se torna muito oportuno reforçar as lembranças relacionadas à esplêndida obra de construção da Universidade Federal de Santa Catarina, seus propósitos e fundamentos, que a tornaram líder do processo de afirmação do Sistema Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação para o desenvolvimento catarinense.
 O Professor Stemmer emerge como um forte pilar de sustentação de todo esse processo, com amplo reconhecimento local, nacional e internacional. Por conseguinte, emito parecer totalmente favorável à republicação pela Editora da UFSC da obra que retrata sua vida.
 À guisa de sugestão, proponho oferecer ao Professor Arno Blass a oportunidade de escrever as complementações que julgar necessárias ao texto original, ou quiçá, de adicionar um capítulo relatando os últimos feitos do Professor Caspar Erich Stemmer e de incluir recentes homenagens como a instituição do Prêmio Stemmer de Inovação pela FAPESC e o título post morten de Cidadão Catarinense outorgado pela Assembleia Legislativa.
Atenciosamente,
  

O JOVEM E A FORMAÇÃO ÉTICA E MORAL NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

CENTRO ARQUIDIOCESANO DE PASTORAL
ESCOLA MISSIONÁRIA DO MOVIMENTO DE EMAÚS
O JOVEM E A FORMAÇÃO ÉTICA E MORAL NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

Antônio Diomário de Queiroz

Florianópolis, 14 de novembro de 2000

1.- A atualidade do tema

• No início da era do conhecimento, quando o amplo acesso às informações coloca o jovem diante da multiplicidade de valores, muitas vezes conflitantes entre si, gerando mais incertezas do que certezas, quando tudo se volatiliza face à rapidez das mudanças, quando se cobra cada vez mais a responsabilidade individual e social das pessoas, sem que no entanto essas pessoas saibam em quem possam confiar e a quem responder por seus atos, a questão do certo e do errado, do bem e do mal, ou seja, da ética e da moral, se  lhes impõe como inevitável.
• Nas empresas, prevalece a percepção de que, neste mundo volátil, os valores éticos de seu quadro de colaboradores é uma das poucas condições perenes que as pessoas podem contar para fazer face aos desafios do futuro e têm incorporado explicitamente esses valores em seus modelos de gestão estratégica.
• Na Política, ao perder-se em sua prática, frequentemente, a percepção do princípio fundamental de que existe para prover o bem comum de toda a sociedade, promove-se a descrença no cidadão que aspira por transparência e por ética no trato da coisa pública. O resultado das últimas eleições no Brasil traduz claramente essa aspiração: o povo votou pela ética na política. As revelações do resultado eleitoral da eleição ainda não definida nos Estados Unidos têm suscitado, outrossim, sérios questionamentos em todo o mundo sobre a liderança moral daquele país.
• Na própria Justiça, a percepção cotidiana de sua incapacidade de assegurar a plenitude da dignidade e dos direitos humanos induz as pessoas a interrogar-se permanentemente sobre a consistência de sua condição de cidadania.
• Que referência estável propor então ao jovem para ser feliz neste tempo em que os valores tanto flutuam? No que é possível crer ou não crer no meio de tantas incertezas? O que é o bem e o mal em nossas vidas?

2.- Conceito de ética e de moral

• Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa: Ética é a ciência da moral. Ético é o concernente à moral. Moral: parte da Filosofia que trata dos costumes ou dos deveres do homem.
• Novo Dicionário Aurélio: Ética (e moral): estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade ou de modo absoluto.
• Emmanuel KANT, na Crítica da Razão Pura (1781), distingue ética e moral, ao afirmar que o homem é livre e que encontra em si mesmo o guia de sua ação, a lei moral, um imperativo categórico que o faz agir de acordo com sua natureza, a qual distingue, de maneira inata, o certo e o errado. Só quando alguém faz alguma coisa por considerar seu dever seguir a lei moral é que se pode então falar em ação moral. Só quando agimos segundo a lei moral é que agimos em liberdade. (História do comerciante que devolve o troco correto à menina ingênua: ao agir por dever, tem uma atitude moral; ao agir conforme o dever respeita a ética dos negócios). A moral é um imperativo categórico, a ética é um imperativo hipotético ou de prudência. A lei moral é universal. A ética constitui um compromisso entre a moral e o interesse. Ao contrário da ética inteligente animada por razões localizadas e temporais, a moral impõe deveres que desafiam a nossa própria condição de liberdade. (O mundo de Sofia, p. 356).
• Leonardo BOFF, em A águia e a galinha (1997), desenvolve, para minha surpresa, uma visão bem distinta de ética e moral. Partindo da etimologia dessas duas palavras, Ethos em grego designa a morada humana, e Mores em latim, os costumes e as tradições, infere que a moral esteja vinculada a um sistema de valores próprio de cada cultura, sendo, assim, por sua natureza, sempre plural. Nesse sentido, para o autor, “a ética assume a moral, quer dizer, o sistema fechado de valores vigentes e de tradições comportamentais (…) A ética desinstala a moral. Impede que ela se feche sobre si mesma. Obriga-a à constante renovação no sentido de garantir a habitabilidade da moradia humana: pessoal, social e planetária.” E conclui que “a moral deve renovar-se permanentemente sob a orientação e a hegemonia da ética “. (pp.  90 e ss). Como posicionar-se diante de conceitos tão contraditórios?
• Santo Agostinho, nas suas Confissões (pp. 397 e 398), se interroga sobre o bem e o mal. (pp. 163 e ss.). Tendo sido todas as coisas criadas por Deus, que não somente é bom, mas a própria bondade, sendo Ele o sumo bem e as criaturas bens menores, mas sendo todos bons, de onde então vem o mal?  Santo Agostinho compreende que o mal “não é uma substância existente em si, mas a perversão da vontade que, ao afastar-se do Ser supremo, que és tu, ó Deus, se volta para as criaturas inferiores; e, esvaziando-se por dentro, pavoneia-se exteriormente.”(p. 179)  Ao afastar-se de sua natureza espiritual, cedendo às aspirações da carne contrárias ao espírito, as pessoas se afastam da verdade e da felicidade que corresponde à presença de Deus em nossa memória.(pp. 274 e ss.) É pois no senso de Deus que se afirma, de maneira universal, o senso moral do homem. É nele que se fundamenta o poder ético de julgar do homem espiritual, feito à imagem de Deus, no seu afã de transformar o mundo. É a ética, pois, que se fundamenta na moral. Conforme observado por Santo Agostinho em sua leitura do livro do Gênesis: “Tu não disseste: Faça-se o homem segundo a sua espécie, mas façamos o homem à nossa imagem e semelhança, a fim de que possamos reconhecer a tua vontade. Para isso o teu servidor, gerando filhos pelo teu evangelho, não querendo que permanecessem sempre criancinhas aqueles que ele alimentara com o leite e que, como ama, criara, assim fala: Transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, e o que é bom, agradável e perfeito. (Rm 12,2) Por isso não dizes: Faça-se o homem, mas façamos o homem. E não: segundo a sua espécie, mas à nossa imagem e semelhança. Quem tem a alma renovada, e contempla e compreende a tua verdade, não precisa das indicações de outro homem para imitar alguém da sua espécie. Graças aos teus ensinamentos, ele mesmo compreende a tua vontade, e o que é bom, agradável e perfeito.” (pp.  400 e ss). Daí decorre o poder de julgar do homem espiritual.

3.- Ética e moral no mundo contemporâneo

• Alain ETCHEGOYEN, em La valse des éthiques (1991), observa como a transição da moral singular para as éticas plurais é um sinal dos tempos de hoje. “Os homens do poder sabem, desde Maquiavel, que a moralidade da imagem pode ser um poderoso elemento de eficácia concebido como fundamento essencial de sua ação. Se a ética funciona bem, é preciso dela usar e mesmo abusar. (…) Mas a obscuridade triunfa quando os atores sociais se investem de nova legitimidade em múltiplos lugares: propõem então sua ética àqueles que dominam, comandam ou controlam. O indivíduo, vagando entre essas esferas, não reconhece mais a voz da consciência. Ei-lo envolvido por uma valsa das éticas no ritmo dissonante de partituras heterogêneas cada vez orquestradas de modo diferente (…) A oferta de éticas responde mal à demanda de moral.” (pp.  14 e 15).
Para esse autor, a desmoralização nas práticas sociais e individuais desorienta o comportamento das pessoas e em especial dos jovens, que se subordinam aos discursos dominantes. Os direitos, desconectados da essência de sua dimensão moral tornam-se abstratos, considerando o homem como uma generalidade vaga, não mais o outro, ou o próximo; e no cotidiano nosso comportamento não pode ser conduzido apenas pelos grandes preceitos dos direitos dos homens. Porém no cotidiano, a destruição do sentimento religioso e dos valores tradicionais da família aumentam essa desorientação das pessoas. Por outro lado, a corrupção do político parece não mais poupar qualquer partido. O Estado oferece aos cidadãos, por todos os seus poderes, freqüentes exemplos da palavra descumprida. No mundo dos negócios, os valores éticos não correspondem também ao mundo da consciência, pois subordinados aos valores econômicos. O dinheiro, reconhecido como padrão internacional de valor, recompensa, mérito e sucesso, não responde também à questão moral da felicidade das pessoas.
Assim, conclui Alain ETCHEGOYEN, no mundo contemporâneo, “banida dos discursos, eliminada das ações, a moral continua, no entanto, a exercer uma fascinação essencial sobre o imaginário das pessoas.”  Como a distinção entre o bem e o mal é uma necessidade social e existencial, “o desejo de moral deriva de uma dupla exigência: precisamos de referências e da espiritualidade”. Os homens e as mulheres de hoje precisam de referências de valor, “mas não se deve multiplicá-las ao infinito. De tanto sofisticar as formulações, a gente se perde em valores infundados, ao passo que a consciência poderia apreender essas referências de maneira bem mais simples e imediata”.
• Luigi GIUSSANI, em O Senso de Deus e o Homem Moderno (1997), ao perguntar sobre o sentido exaustivo da existência, o significado último da realidade, o por que no fundo vale a pena viver, identifica no senso religioso a vocação da vida, que é, em síntese, “a própria essência da racionalidade e a raiz da consciência humana.” Daí compreende o renascimento religioso que aflora no mundo de hoje e percebe o cristianismo “como resposta imprevisível ao desejo que o homem tem de viver descobrindo e amando o próprio destino”. (…) “O senso religioso coincide com aquele sentimento de dependência original, total, que é a maior e mais impressionante evidência para o homem de todos os tempos, como quer que tenha sido traduzida, na imaginação primitiva ou na consciência mais evoluída e serena do homem civilizado. (…) É como se dentro de nós houvesse uma exigência que nos impele a uma devoção total, a algo do qual tudo depende. E é justamente este algo que se chama explicitamente, na tradição religiosa, Deus.” (pp.  9 e ss).
Essa compreensão se aproxima do entendimento de Santo Agostinho do senso moral do homem que carrega consigo a consciência do bem e do mal. “Deus é o destino, o sentido, Deus é o fim do homem. O homem deve ser livre diante Dele, porque liberdade significa responsabilidade no fazer a si mesmo, no realizar-se, isto é, no alcançar o próprio fim. Essa liberdade encontra um campo de ação já no primeiro passo em direção a Deus: reconhecê-Lo, descobri-Lo. E este primeiro passo se dá exatamente na interpretação daquele sinal que é o mundo.” (pp.  29 e 33) E por ter o homem o livre arbítrio, se afirma também o conceito do pecado: “ a incoerência entre a fé e as obras”. Quando a liberdade leva o homem a perder o significado da sua existência, à incapacidade de realizar a sua humanidade, afasta-se da sua própria condição humana que consiste na relação com o infinito. O homem entra “em desespero ético a respeito da possibilidade de uma dignidade ou de uma lealdade última” (pp. 122 e ss.).

4.- Conclusões
• Também no mundo contemporâneo, é no seu mais íntimo eu que o jovem encontra o senso moral impresso indelevelmente por Deus, de caráter, pois, espiritual e religioso, que dá significado à sua existência e que o coloca em comunhão com todas as existências, proporcionando-lhe a referência do bem e do mal para as práticas e decisões do cotidiano bem como para a afirmação, com liberdade, do próprio destino, de sua vocação e da sua felicidade.
• É no senso moral que estão as referências da consciência, capazes de livrar o jovem da solidão, do desespero e da valsa das éticas que perturbam a identificação do certo e do errado nas relações sociais que compõem a condição humana, pois se limitam freqüentemente a obedecer aos imperativos da razão e da lei, quando a verdade se origina do plano divino do mistério e da transcendência de Deus.

5.- BIBLIOGRAFIA

AGOSTINHO, Santo – Confissões. S.P.: Paulus, 1984.
BOFF, Leonardo – A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1997.
DENIS, Henri – Histoire de la Pensée Économique. Paris: Presses Universitaires de France, 1967.
ETCHEGOYEN, Alain – La valse des éthiques. France: Editions François Bourin, 1991.
GAARDNER, Jostein – O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. S.P.: Companhia das Letras, 1995.
GIUSSANI, Luigi – O senso de Deus e o homem moderno. S.P.: Editora Companhia Ilimitada, 1997.

A SABEDORIA DA CHINA SOBRE O GOVERN0

(Extrato  de Diomário Queiroz do livro de Lin Yutang para atender pedido de sua filha Simone)

1.- LAOTSE, O LIVRO DE TAO (Nasc. 570 AC)
“Governa um reino normalmente. (…)
Quanto mais proibições há, mais o povo empobrece.
Quanto mais armas ferinas existem,
mais o caos prevalecerá dentro do estado.
Quanto mais engenhos técnicos,
mais coisas perniciosas serão inventadas.
Quanto maior número de leis,
Maior quantidade de ladrões e saqueadores”. (…)
“Governa um grande país como se desses liberdade a um peixinho”.

2.- AFORISMOS DE CONFÚCIO (Nasc. 551 AC)
“Há prazer em descansar a cabeça contra um braço encurvado depois de uma refeição de vegetais simples acompanhada por um gole de água. Por outro lado, gozar riquezas e poder sem chegar a eles através os meios corretos é para mim o mesmo que muitas nuvens flutuando no céu”.
“A princípio, quando ouvia um homem falar eu esperava que sua conduta estivesse de acordo com o que ele dizia. Porém, agora, quando ouço um homem falar, reservo meu julgamento até ver como ele age”.
“O homem que cometeu um erro e não o corrige está cometendo outro erro”.
O ideal moral de governo para Confúcio: “Guie o povo com medidas governamentais e controle-o ou regule-o pela ameaça de castigo, e o povo tentará conservar-se fora de prisão, porém não terá sentimento de honra ou de vergonha. Guie o povo pela virtude e controle-o ou regule-o por meio da disciplina moral (li) e o povo terá o sentimento de honra e de respeito.”
O Barão K’ang Ch’i perguntou a Confúcio acerca do governo e Confúcio respondeu:
“Governar é simplesmente pôr as coisas em seus lugares. Quando você mesmo lhes dá o bom exemplo, como ousarão agir erradamente?”. (…) “Se deseja o que é bom, o povo se tornará bom. O caráter do governador é como o vento, e o caráter do povo comum é como a relva, e a relva curva-se na direção em que sopra o vento”.
“Quando o próprio governador faz o que é direito, terá influência sobre o povo sem dar ordens e quando o próprio governador não faz o que é direito, todas as suas ordens de nada adiantarão”. (…) “Uma nação não pode existir se não houver confiança no homem que a governa”.

3.- O MEIO DOURADO DE TSESZE (neto de Confúcio)
“A lei moral é uma lei a que não podemos, por um só instante que seja em nossa existência, fugir”. (…) Quando há ordem moral social no país, quando o homem entra na vida pública não deixa de ser aquilo que era quando ele estava dela separado”.
“O homem moral não pode encontrar-se em nenhuma posição na qual não seja dono de si mesmo”.
“Quando um homem compreender como pôr em ordem sua conduta pessoal e seu caráter, compreenderá como governar os homens”.
“Imaginado pelos que estão no poder, um sistema pode ter falhas em autoridade histórica embora possa ser excelente; o que lhe falta em autoridade histórica não pode merecer fé; e o que não pode merecer fé, o povo jamais obedecerá. Imaginado pelos que não estão com a autoridade, um sistema pode não merecer respeito, mesmo que seja excelente; o que não merece respeito não pode ter crédito, e o que não pode ter crédito o povo jamais obedecerá”.

4.- MOTZE (Nasc. 468 AC)
Motze disse: “A vantagem de um governo está em manter a ordem entre o povo e evitar o que possa acarretar confusão”.
Mas como se mantém a ordem entre os homens?
“Quando a administração do soberano corresponder aos desejos do povo, reinará ordem; no caso contrário, haverá desordens”.
Porque então os superiores se tornaram hoje incapazes de governar os seus súditos e estes, ineptos para servirem os governantes?
“Unicamente pelo mútuo desrespeito”.
“Deixando os bons sem recompensa e os maus impunes, fatalmente o governo levará o país à desordem”.

          ADQ, set 2017

Posse na Secretaria de Educação, Ciência e Tecnologia do Estado de Santa Catarina, 2005

DISCURSO DE POSSE
SECRETARIA DO ESTADO DA EDUCAÇÃO, CIÊNCIA E TECNOLOGIA DO ESTADO DE SANTA CATARINA
ANTÔNIO DIOMÁRIO DE QUEIROZ
FLORIANÓPOLIS, 26 DE JULHO DE 2005

Exmo. Sr. Governador Luiz Henrique da Silveira, prezado amigo que me buscou no “doce exílio acadêmico” e preencheu minha biografia de extraordinários desafios e missões, como o de dirigir a Secretaria do Estado da Educação, Ciência e Tecnologia.
Exmas. autoridades,
Magníficos Reitores,
Queridos familiares, amigas e amigos,
Senhoras e Senhores,

Aceito, lado a lado com a professora Elisabeth Anderle, este novo e extraordinário desafio de dirigir a Secretaria do Estado da Educação, Ciência e Tecnologia, sem a pretensão de vir a substituir o saudoso e querido professor Jacó Anderle.
Viemos para dar continuidade ao seu trabalho, para consolidar o avanço na direção que ele apontou: a construção de um sistema  de educação de qualidade para todos os catarinenses, integrado e articulado em todas as modalidades de ensino, num processo de aprendizagem aberto e comprometido com o social, no qual, mais do que instruir se educa o cidadão, estimulando sua criatividade e seu espírito crítico, no contexto da pesquisa e das relações comunitárias, para construir uma vida e um mundo melhores.
Como é bom poder dar continuidade a um programa de governo, num país carente de referências exemplares e da estabilidade institucional e de valores!
Como é tranquilo assumir novas responsabilidades, quando se mantêm sólidas as crenças e a confiança nos princípios e na prática política avançada de nossas lideranças maiores!
Como é gratificante integrar uma equipe de governo compromissada com a gestão democrática, com o respeito à coisa pública e a todas as pessoas, trabalhando de forma extremamente devotada e inovadora para superar a herança nefasta da injusta distribuição social de renda e dos entraves burocráticos de uma organização pública tradicional em permanente crise.

Tenho a profunda convicção de que somente a educação, ciência, tecnologia e inovação podem promover a geração dos conhecimentos necessários ao estabelecimento de uma nova ordem política e de um processo duradouro de desenvolvimento harmônico com a natureza. Por isso dimensiono com clareza a imensa responsabilidade que me está sendo delegada de liderar e coordenar o sistema de educação, ciência e tecnologia em Santa Catarina, composto de instituições tão proeminentes como o Conselho Estadual de Educação, a Universidade para o Desenvolvimento de Santa Catarina, a Fundação de Apoio à Pesquisa Científica e Tecnológica de Santa Catarina, a Fundação Catarinense de Educação Especial e o Instituto Estadual de Educação. Essas instituições se articulam com o restante do sistema educacional no Fórum Catarinense da Educação Superior que tem contribuído para dar direcionamento estratégico à educação em nosso Estado. Para articular as ações de pesquisa e inovação dos agentes econômicos e sociais catarinenses foi ainda criado o Conselho Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação que nos caberá implementar brevemente.
Sou-lhe, pois, muito grato, senhor Governador, por me designar para esta nova missão que procurarei exercer com fidelidade e com o melhor dos desempenhos para que dignifique a minha biografia e corresponda à sua confiança.
Agradeço-lhe pessoalmente, e à sua esposa Ivete, pelo exemplo cotidiano de incansável trabalho, honradez e espírito público, o que energiza os nossos ânimos, mesmo nas horas das maiores dificuldades.
Agradeço a todas as lideranças políticas e a todos os colegas de governo que avalizam a indicação de nosso nome e nos oferecem o suporte indispensável para o trabalho cotidiano conjunto.
Agradeço a todos os amigos, colegas e familiares que têm sido tão generosos em estímulos, amor e carinho, o que é fundamental para que possa manter o equilíbrio da alma indispensável para enfrentar problemas com alegria e serenidade.
Confiando nas bênçãos de Deus, compartilhando os ideais de Jacó Anderle, contando com o firme apoio de Elisabeth Anderle, dos competentes diretores e gestores e de milhares de colegas professores comprometidos com a educação, prioridade das prioridades do governo Luiz Henrique da Silveira e Eduardo Pinho Moreira, e como educador há mais de 40 anos, concluo estas palavras com o pensamento e o coração voltados aos estudantes, crianças e jovens que constituem a razão de ser de nosso trabalho.
A eles especialmente, extensivo a todos os catarinenses, reitero, no exercício das novas funções, a promessa pública que fiz ao aceitar vir para o governo:
prometo que todas as minhas decisões e que todos os meus atos serão pautados exclusivamente pelos mais elevados propósitos da Educação, da Ciência e da Tecnologia e pela promoção do desenvolvimento social em Santa Catarina.
Disse.

Discurso de renúncia sapiens parque

Discurso de renúncia de Antônio Diomário de Queiroz ao Conselho de Administração da Sapiens Parque S/A.
Florianópolis, 19 de agosto de 2016.
(…)¹
A relação com a administração anterior da Universidade tomou o rumo desejado e se acertou o convênio existente entre as instituições e a retomada dos investimentos da Universidade no Sapiens Parque. Inclusive a minha presença neste Conselho era para segurar o lugar para a presença do Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, já que a Reitora Roselane não aceitava essa ideia por se sentir legalmente impedida.
Está ocorrendo hoje o fato inverso ao do momento de minha entrada: a Universidade está procurando com vários projetos a presença no Sapiens Parque, e, em função desta delicada situação financeira, não tenho conseguido sequer dar as condições para a entrada desses novos projetos da Universidade. Assim, também, ao projeto de saneamento do Rio do Braz e de toda a macro bacia do Norte da Ilha com propostas de pesquisadores do Rio Grande do Sul avalizadas pelos pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina que, estou convencido e plenamente convencido, apresentam alternativas para solucionar todos esses problemas ambientais, inclusive os de Santo Antônio de Lisboa que tem toda rede de saneamento e esgoto construída há mais de 10 anos sem solução porque as subestações tradicionais não oferecem soluções que possam ser aceitas pela população local. (…)²
De outro lado, tenho participado do empenho extraordinário liderado pelo nosso Presidente Saulo para solucionar as necessidades de financiamento do Sapiens Parque, de sua luta para o convencimento de que havia realmente um compromisso de integralização de capital por parte do Estado, que inicialmente era negado, cuja integralização jamais ocorreu.
O empenho do Secretário Murilo Flores viabilizou ao Sapiens 3,5 milhões de reais ao final do ano passado com recursos oriundos de sua própria Secretaria, mas desse total recebemos apenas 1 milhão e duzentos mil e o restante dos recursos se perdeu em áreas que não são aquelas das necessidades da Ciência e Tecnologia e especificamente as do Sapiens Parque. Se aquele dinheiro houvesse sido liberado integralmente não estaríamos hoje nesta condição.
De outro lado, impulsionados pela necessidade, nossos diretores, liderados pelo Fiates, abriram dois processos de venda de terrenos através de licitação pública, que a crise do país inviabiliza. Embora houvesse interesse dos empresários, a crise tira a tranquilidade para novos investimentos imobiliários no Sapiens Parque.
A terceira licitação, que está sendo trabalhada em novo edital, mesmo que venha a ter sucesso, não conseguirá resolver os problemas de curto prazo para a sobrevivência da própria instituição.
A Fundação CERTI é que normalmente nos salvava dessas necessidades de curto prazo. Até hoje, todos sabem que a Fundação CERTI antecipava os recursos na esperança de um retorno que não teve. Por outro lado, com a situação crítica do país, e sendo membro do Conselho Consultivo da Fundação CERTI, tenho acompanhado o esforço extraordinário liderado pelo Prof. Schneider, e agora pelo Dr. Fiates, para superar a condição de crise e garantir a continuidade da própria instituição inclusive a direção do Sapiens Parque e os investimentos da Fundação CERTI. Mas efetivamente, ou a CERTI sobrevive ou socorre o Sapiens Parque. A própria sobrevivência e sucesso da Fundação CERTI é fundamental para o sucesso e o futuro do Sapiens Parque.
Outra fonte que nos socorria no curto prazo, em vários momentos e de forma extraordinária, era a FAPESC! E acontece que a FAPESC hoje não tem como apoiar projetos de 50 ou 100 mil reais que seja, porque está se cometendo um crime contra o futuro do nosso Estado e o futuro da nossa cidade por não se viabilizar o compromisso constitucional da Lei da Inovação de aplicar os 2% das receitas liquidas do Estado na área de Ciência, Tecnologia e Inovação para o desenvolvimento sustentável de Santa Catarina. Ao contrário, os orçamentos da FAPESC chegaram a um nível crítico. Por ter sido Presidente da FAPESC por vários anos, sei que jamais alcançamos tão baixo volume de recursos durante toda nossa gestão. É outra fonte alternativa de financiamento que se esvaiu!
Ciente dessas dificuldades, como membro da Diretoria do Sapiens e deste Conselho de Administração, e percebendo o esforço do Presidente Saulo de liderar uma alternativa de solução junto ao Estado, e também as frustrações das promessas não cumpridas, tive o cuidado de alertar o Presidente da Federação das Indústrias, o amigo Glauco Corte, sobre a importância que tem o setor empresarial para salvar os investimentos no Sapiens Parque, pois vem inclusive antecipando recursos, como os alocados pela Softplan, para viabilizar a sua decisão de ali se instalar, destacando-se a decisão da Federação das Indústrias de implantação do Instituto de Inovação em Sistemas Embarcados e a Escola do Futuro do SENAI. Alertei o Presidente da Fiesc, nosso amigo Glauco, sobre a crise orçamentária e grave por que passava o nosso empreendimento.
Também por ocasião da posse da nova Presidência do Conselho Estadual de Educação, em reunião presidida pelo Vice-Governador Eduardo Pinho Moreira, ao final tive uma conversa com ele, alertando-o que a situação era de fato grave e urgente, o que estava levando ao Saulo e a todos ao esgotamento. Nesse momento informei-lhe que eu estava prestes a viajar para a França por um mês e apelei que tomasse as iniciativas a favor do Sapiens Parque, prevenindo que se não fosse encontrada uma solução para o problema até o retorno de minha viagem eu me sentiria obrigado a me afastar da direção do empreendimento.
Ora, durante a viagem à França recebi a grata informação de que houve até a marcação de uma audiência e visita ao Sapiens Parque do Vice-Governador, ocorrendo, porém, que a mesma foi suspensa. Mas voltando da viagem tivemos a última reunião deste Conselho onde este empresário em quem tenho confiança e ao qual dedico profunda admiração, o Costinha, apresentou uma solução para o Sapiens Parque a se realizar em três momentos: 1.- liberação imediata de R$ 200.000,00 para pagar os débitos com impostos; 2.- uma segunda parcela para sanar os compromissos financeiros de curto prazo; 3.- um processo de capitalização que daria condições ao Sapiens de superar seus compromissos deste ano. Aí me senti contemplado. O meu sentimento ao término daquela reunião foi de total satisfação, alívio e confiança na proposta aprovada.
De repente, ouço a notícia de que o Governo do Estado retirou R$ 120 milhões das reservas da SCPar, ou seja, praticamente inviabilizou a solução acordada! Senti na conversa anterior a esta reunião com nosso amigo Costinha que ele continua tentando viabilizar uma solução para a proposta aprovada na reunião passada, sem encontrar os meios.
Daí voltei à conversa com o Vice-Governador. Não sou homem de ameaçar. Não sou homem de dizer “vou fazer” e não faço! Havia alertado que se não houvesse uma solução eu deixaria a Direção do Sapiens Parque e a participação neste Conselho. Isto simplesmente porque não sinto apoio, nem consideração, nem respeito, nem uma relação de boa vontade com os projetos do Sapiens Parque. Sinto-me impotente para atender aos professores e pesquisadores da Universidade que propõem projetos e programas de pesquisa e saneamento e, inclusive, para atender aos reclames justos dos empresários que estão “fazendo das tripas o coração” para poder honrar os seus compromissos.
Não perco, porém, em nenhum momento, a crença firme no Sapiens Parque. É realmente o futuro de Santa Catarina, é um projeto de sucesso que precisa acontecer! Abandonei interesses de meus filhos para atender aos interesses do Sapiens Parque porque eu dizia a eles que estava trabalhando para o bem dos seus filhos, meus netos. E que aqui estavam sendo criados milhares de empregos para a juventude do Estado de Santa Catarina, pois tínhamos um projeto de futuro. Sacrificava o curto prazo da minha família para não sacrificar o futuro das outras famílias! Era este o argumento que me motivava! De repente estou sem argumentos junto à família…
O custo de oportunidade se torna muito grande! Então estou solicitando a demissão deste Conselho, assim como fiz ontem o pedido de afastamento da Direção do Sapiens Parque.
Comunico, no entanto, que este é um ato de apoio ao Sapiens Parque! Espero que, efetivamente, este ato ajude a despertar e a reafirmar a consciência dos governantes de Santa Catarina, da Prefeitura Municipal e do país, de que o único caminho certo para o desenvolvimento do Brasil é a Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação, mas que esta prioridade tem que ser consubstanciada e efetivada por orçamentos dignos, pelo compromisso de realizá-los, e não por falsas promessas que matam o entusiasmo.
Que os compromissos do governo sejam honrados: que se cumpra o dispositivo constitucional com a Ciência, Tecnologia e Inovação, que se viabilize a FAPESC, que se viabilizem os empreendimentos do Sapiens Parque; que se reforce a SCPar, entidade que faz os empreendimentos avançados do Estado!
Em síntese, o meu apelo ao fazer este gesto de renúncia a este cargo – que espero venha a ser ocupado pelo atual Reitor da UFSC, que manifestou esta disposição, porque o estava guardando para ele – é que os nossos governantes retomem o compromisso com o futuro do país, com a clareza de que o futuro melhor se constrói pelo caminho da Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação.
Enquanto as prioridades forem somente para o passado, para tapar os buracos das estradas do passado, para curar os males da saúde e da pobreza do passado, e não se der uma efetiva prioridade ao futuro, não poderemos ser o país que queremos ser!
Enquanto as despesas da burocracia consumirem os orçamentos, se avolumem e retardem todos os processos decisórios de construção do futuro, não seremos o país que tanto sonhamos!
Gostaria que este Conselho compreendesse que meu gesto de renúncia não é um gesto de fuga de responsabilidades, mesmo tendo-se chegado ao ponto de já estarmos respondendo no Sapiens Parque a processos junto ao TCE por não pagar impostos em dia. E a única razão para não pagar os impostos em dia é porque não recebemos em dia os recursos do Governo do Estado… Estas situações paradoxais põem em risco a própria credibilidade e condição bancária dos diretores do Sapiens Parque! Como continuar voluntário sendo tão maltratado? Como continuar sendo voluntário e tão maltratado, vindo isso ainda em prejuízo da família? Esta é a razão da renúncia!
Faria ainda um apelo ao amigo Costinha, encerrando minhas palavras, para que faça um esforço complementar para viabilizar aquela solução para o Sapiens Parque aprovada pelo Conselho de Administração, e que transmita ao Governador, ao Vice-Governador, ao Secretário Gavazzoni, aos outros membros do governo do Estado, a notícia desta renúncia, que vai junto com um apelo de solução que assegure o futuro deste empreendimento que se desenha de uma forma extraordinária!
Então me retiro com os agradecimentos a todos por me terem tolerado durante todo o período de gestão.

Antônio Diomário de Queiroz.

Texto salvo com base em gravação de José Eduardo Fiates.
( )¹ Não foi gravada a saudação inicial do discurso, relembrando minha posse na Direção do Sapiens Parque para exercer e intensificar a interface entre o Sapiens Parque e a UFSC.
( )² Segue trecho inaudível na gravação.