Vivências da minha Casa de Infância.

Vivências da minha Casa de Infância.

A casa em que me criei é grande. É uma dessas casas sólidas, de dois andares, com forte traço germânico, típica de Blumenau daqueles tempos. Com as varandas bordadas de gerânios em cada quarto do piso superior, pé direito alto e com paredes duplas reforçadas para o exterior, mostra a sua adaptação ao clima tropical que castiga terrivelmente Blumenau nos meses de verão. O jardim de inverno, localizado em parte nobre da casa, no entanto, denuncia os fortes traços da arquitetura alemã, que face ao clima inclemente do demorado inverno europeu, exigia a criação de uma área especialmente reservada para o verde.

A casa está situada bem no início do Bom Retiro, onde permanece firme, sob a proteção do patrimônio histórico da cidade. Foi desenhada pelo então reconhecido arquiteto blumenauense von Knoblauch e construída especialmente para a união de mamãe e papai em meados dos anos trinta. Ela foi cuidadosamente alocada na parte mais alta do terreno e elevada ainda por um generoso aterro. Esta precaução já era tomada naquela época, em vista do risco de enchentes que assolavam periodicamente toda a cidade.

Um belo projeto de paisagismo cercou a casa com jardins de pedra, canteiros multicolores, passeios, escadarias, um lago e espaçosos gramados. Muitas árvores foram plantadas cultuando a memória germânica com pinheiros de várias espécies entremeadas com exóticas plantas tropicais e flores europeias. Hoje este jardim é esplêndido e suas frondosas árvores, entre elas um maravilhoso pau-brasil, ocultam, quase, a soberba casa. Abrigam centenas de aves canoras que ali residem, felizes com a proteção e alimento que lhes é assegurado. Ali moram ainda meu irmão e minha mãe, na altura de seus 95 anos, lúcida, usufruindo de suas inúmeras memórias quase centenárias. Fez-me saber um dia, que inicialmente nesse terreno havia um abatedouro, local, portanto, de muito sofrimento para a natureza, mas que mais tarde fora transformado em pasto onde o Opa Max, avô paterno, criou por uns tempos umas dengosas vaquinhas de leite.

O Opa

Isto me remete a uma passagem curiosa atribuída a meu Opa Max. Contaram-me fontes fidedignas que no início do século 20, naquelas paragens, meu avô, que morava em uma bela mansão, recebia diariamente o seu leite, como era de costume, trazido pelo sobrinho de Guilherme Jensen. Essa tradicional família se dedicou à indústria de laticínios por muitos anos, vindo a fabricar os deliciosos queijos da marca “Olho”, entre eles o famoso Kräuterkaese, jamais igualado em seu sutil sabor de ervas aromáticas, apesar de recentes esforços nesse sentido. Lamentavelmente, como ocorreu com muitas das empresas tradicionais da região, esta fábrica teve que fechar as portas diante dos desafios da desencontrada economia nacional e internacional.

Um belo dia, o jovem entregador, ao encontrar o Herr Max na soleira da porta para receber o esperado desjejum, preveniu-o que a partir daquela data o leite sofreria um pequeno aumento no preço, naquela época contado em alguns vinténs. O Opa ficou muito indignado com tal absurdo, e o advertiu:
– Ach so? (Ah, é?) Neste caso vamos comprar uma vaquinha para termos nosso próprio leite. Não vamos aceitar esse aumento escandaloso!
No ato, o audacioso Wolfgang respondeu-lhe, encarando aquele respeitado empresário têxtil:
– Neste caso, Herr Max, nós também vamos comprar um tear e fabricar nossas próprias camisetas!
E saiu disparado, não sem ouvir umas blasfêmias do meu Opa que esbravejava pela ousadia do rapaz.

Dias depois o ilustre Senhor Jensen receberia uma carta de meu avô, queixando-se das malcriações de seu sobrinho.
Então, foi por essas e outras, provavelmente, que o Opa criou as vaquinhas naquele terreno! Não acredito que tenha economizado no custo do leite, mas por certo curtiu a vingança pelo atrevimento daquele jovem que logo se fez homem e herdou a indústria de seu tio.

A mãe professora e arquiteta.

A casa de minha infância era cheia de vida, e sempre estava em obras. Minha mãe tinha um forte dom para a arquitetura, o qual, herdado provavelmente de seu tio avô, o grande arquiteto dos primórdios de Blumenau, Heinrich Grohberger, nunca pôde desenvolver. Chegaram a viver sob o mesmo teto, mas sua grande barba branca inspirava muito respeito e medo. Assim, os dois artistas, separados por duas gerações, nunca se encontraram em suas vocações. Eram muitas as restrições sociais que predominavam na época e para uma moça ficavam reservados os afazeres domésticos, ou quando muito, os estudos do Normal, em que se formavam os professores de primeiro grau. Mamãe, por sua vivacidade e inteligência, conquistou esse direito, e foi estudar em Florianópolis, na conceituada Escola Normal Dias Velho, recém construída junto à Marinha, nos altos da Saldanha Marinho. Atualmente o imponente prédio continua dedicado à educação, abrigando o curso de Pedagogia da UDESC. E foi com emoção que vi recentemente nossa caçula Ângela ali frequentar muitas aulas e obter seu diploma de Pedagoga.

Mamãe teve aulas com mestres de incontestável domínio da língua vernácula, como Antonieta de Barros, Francisco Barreiros Filho e Altino Flores. Todos professores de Português. Os dois últimos, segundo mamãe, verdadeiros rivais no ensino da nossa língua. Com Antonieta de Barros teve aulas particulares de Português. Fora morar com seus tios Paulo e Mariana Baier, na Rua Tenente Silveira, número 34, próximo à sua Relojoaria Müller, localizada na Trajano. A residência era emoldurada por um frondoso jacarandá-mimoso de fartas floradas azuis. Pobre árvore, que poucos anos depois teve que ceder seu perfumado espaço para as vorazes construtoras de progresso. Tio Paulo amargou dois roubos na sua loja, o que torna evidente que larápios são tristes personagens que assolam a humanidade provavelmente desde os primórdios dos pretensos Homo sapiens.

Esse tio estava deveras preocupado com o forte sotaque alemão e germanismos que mamãe trouxera de Blumenau. Para poupá-la de humilhações dos colegas de aula, contratou a já então afamada professora Antonieta para corrigir as imperfeições da fala. E que grande mestra! A jovem Eulália assimilou rapidamente seus ensinamentos, e passou mais tarde a ser invejada por muitos blumenauenses pela sua pronúncia perfeita e a capacidade de articular frases genuinamente brasileiras. Valeu-lhe essa conquista durante a segunda guerra, quando foi sempre respeitada pelos militares e governantes da época, os quais humilhavam e castigavam descendentes de arianos, supostamente simpatizantes do regime nazista e em sua maioria identificados tão simplesmente pelo seu carregado sotaque alemão.

O professor Barreiros Filho, baixinho que era, como grande parte da população ilhoa da época, era um professor de grande vocação e, no alvoroço do recreio costumava perguntar à minha mãe:
– Faz frio lá encima, Eulália?
Mamãe era alta, vistosa e de uma beleza quase impossível. Tímida, porém, respondia simplesmente com seu belo sorriso. Confessou-me, um dia, que suspeitava que o respeitável Professor mantinha por ela uma velada paixão, e a isto atribuía as excelentes notas em Português, sempre um pouco mais altas do que as julgava verdadeiramente merecidas.

Das suas andanças para a escola mamãe recorda-se ainda do cheiro da tainha frita, forte e penetrante, que exalava de cada casa com frequência nos dias de inverno. As portas das residências, que tipicamente davam diretamente na calçada ficavam abertas, e para receio de mamãe, mesmo à noite não eram chaveadas. Desde aquela época o prodigioso peixe já era pego em abundância nos lances dos pescadores e exposto em grandes pilhas no mercado público. A notícia da chegada do peixe se espalhava rapidamente naquela cidade ainda provinciana. Por falta de geladeiras, tinha que ser comprado muito cedo, consertado e preparado no mesmo dia. Por isso essa coincidência de cardápios. Quando mamãe chegava em casa, enojada, a surpresa: o prato do dia era … tainha frita! Ficou muitos anos sem poder sequer sentir aquele penetrante cheiro, a coitada.

Recorda-se também do bonde puxado a cavalo que transportava os passageiros desde a Praça XV até a Agronômica. E da inauguração da Ponte Hercílio Luz em 12 de maio de 1926. Naqueles tempos românticos todas as mulheres usavam chapéus. Esses eram tão somente retirados em público no cinema localizado próximo à Praça da Figueira, ainda mudo, em que Charles Chaplin era sonorizado por um piano tocado na sala, espirituosamente adequado aos episódios. Somente crianças ou estudantes uniformizados podiam transitar na cidade com cabelos ao vento. Tão importante era essa peça da moda, que mamãe aprendeu na escola a confecção de flores e adereços necessários para decorar esse indispensável elemento do traje de passeio. Então lá foi ela, para a grande inauguração, vestido esvoaçante, chapéu florido, acompanhada de sua grande amiga Olga Kirchner, um pouco mais velha, porém fiel confidente. Seu avô havia imigrado juntamente com o bisavô da Oma Müller. Esta identidade aproximava as duas moças como o elo de um passado convivido.

Dos tempos de colégio, recorda-se de outra grande amizade, Rita da Costa Ávila, de Lages, mais tarde Senhora Malheiros. Esta, com vocação poética, e mamãe com grande facilidade para desenho, juntas fizeram um álbum ilustrado. Lamentavelmente este perdeu-se no tempo.

Da grande inauguração lembra-se ainda da multidão vestida com seus melhores trajes de domingo, dos homens engravatados e de chapéu, pois estes também raramente circulavam sem os mesmos. Foi um dia glorioso, inesquecível. Sobretudo, trazia um grande alívio à travessia daquele estreito braço de mar. Até então essa passagem era assegurada por balsas e barcos, sempre sujeitos aos humores do clima, ditado até hoje pelos frequentes e intrépidos ventos Sul e Nordeste.

Embora professora formada, apenas por poucos anos exerceu essa nobre profissão. Ali ao lado da residência de sua mãe, no Colégio…….. deu aulas para colegiais apenas poucos anos mais jovens, entre eles Neuza, que mais tarde se casou com o seu irmão Érico. Pouco tempo depois conheceu meu pai, recém vindo da Alemanha. Este logo se apaixonou por tão bela e culta moça. Logo casaram, e sua vida foi de dedicação ao lar e aos seus três filhos nascidos em grandes intervalos de tempo.

De volta para casa

Os dois andares da casa se comunicavam por dois lances de escada solidamente ladeados de um belo corrimão de madeira de lei. Era nosso escorregador e seguramente a maneira mais rápida de alcançar o térreo. No mezanino havia um quarto de hóspedes e a sala de costura, no qual nossa perpétua costureira, Ana, vinda especialmente de Brusque, duas vezes por ano, trabalhava freneticamente para reparar, readequar e elaborar novos trajes para toda a família. Mamãe teve sempre muito bom gosto para conceber roupas, e com ajuda da Burda, revista alemã que ditava a moda na época, elaborava modelos avançados e glamorosos que embeveciam suas amigas, todas muito conservadoras.

Mamãe foi elegante a vida toda, e mesmo agora, já quase sem visão, prima pela sua aparência, surpreendentemente jovem. Quando moça, sendo de família relativamente simples que não poderia se dar ao luxo de pagar costureira, já era assim, e gaba-se de muitas vezes ter comprado o tecido na sexta, cortado, alinhavado e costurado no sábado e vestido no domingo. Então derretia corações nas domingueiras e nos animados bailes do Schützenhaus, hoje Tabajara Tênis Clube. Era mesmo muito bela. Ia sempre acompanhada da sua mãe, que em um canto do salão, junto com outras mães zelosas, assistia o alegre rodopiar dos pares que se formavam após cada novo intervalo da orquestra. Depois, já de madrugada, voltavam a pé, por um longo caminho de terra, de sapatos na mão, os pés doídos, mas felizes da vida. Uma charrete puxada por dois cavalos e dotada de uma confortável cabina coberta de lona preta, a já aposentada Kutsche, era o recurso utilizado em necessidade extrema de chuva. O barro então era tanto, que a sombrinha não seria um alívio suficiente para esse cansado regresso.

No mezanino havia um tapete. Crime hoje, glória naqueles tempos de equivocada ilusão de abundância, era uma pele de onça. Com cabeça e tudo. Em um de seus lados, aquela abertura irreparável causada pela bala certeira. Para mim essa silenciosa criatura despertava todos os misteriosos perigos da mata, que pululavam em minha mente infantil quando sobre ela me sentava e inspecionava o enigmático olhar daqueles amarelos olhos de vidro. Por vezes, Klaus, meu irmão mais velho, sabedor de meus medos mais profundos, vestia a pesada pele, e apagando a luz quando eu subia distraidamente as escadas, soltava terríveis urros, fazendo despejar fortes doses de adrenalina no meu frágil corpo de menina. Meu terror era tão somente aplacado, quando nos braços de minha mãe descobria a fugidia dimensão que separa o real daquele imaginário tão intensamente vivido.

Klaus, meu irmão, primogênito da família, mais velho de quase uma década, era meu herói, ainda assim. Cedo saiu de casa para seus estudos de segundo e terceiro graus. Fora expulso do colégio de padres na cidade, pelas suas opiniões e atitudes, muito ousadas para aquela época, para as quais não havia espaço junto aos jovens naqueles tempos de cidade pequena. Mas quando chegava, nas férias, admiravam-me seus braços fortes, nos quais me balançava qual num ramo de goiabeira. Tinha ele uma trupe de amigos, o Mono e outros que se comunicavam por um código de assovio. Tipo assim: mi bemol, si bemol, mi bemol, si bemol terminando em uma ascendente seqüência de semitons impossíveis de descrever. Então tudo estava combinado. Por vezes, escapava à noite, sem que nossos pais percebessem, pela varanda de seu quarto, para a qual dava uma frondosa árvore, a qual emprestava seus galhos para a proibida aventura noturna. Em uma daquelas noitadas usurparam uma placa de trânsito de estacionamento proibido, que naquela época era apenas chumbada em uma placa de cimento. Para o desespero e vergonha de meu pai a placa foi localizada no caminho da floresta na Cia Hering, onde papai era Diretor.

Tinham mesmo uma imaginação fértil aqueles adolescentes. Brincando de índios, em um daqueles dias inspirados, amarraram minha irmã Elke em um grosso tronco do jardim, e ensaiaram acender uma fogueira a seus pés. Felizmente mamãe chegou a tempo para por fim a essa atroz brincadeira. Decepcionados, a fogueira foi então aproveitada para fritar algumas poucas linguiças, conquistadas com muita choradeira na cozinha da casa. Seu duvidoso sabor, meio queimado e fortemente temperado pela fumaça, deve ter dado àquela turma uma virtual sensação de autenticidade indígena.

Porém o que mais me impressionava em meu irmão, era sua agilidade em subir nas árvores. Valorizando nossas vocações mais remotas, sabia pular de uma árvore para outra, fazendo seus galhos se curvarem perigosamente, e remetendo-o depois para o alto, não sem seus gemidos secos e o forte farfalhar das folhas. Não sei se por isso, ou também por isso, passei a ler com grande interesse a revista mensal de Tarzan, o rei das selvas.

No piso superior ficavam os quartos. O de meus pais era amplo, com dois cômodos. No primeiro ficava a grande cama e armário, ambos de imbuia, madeira maciça, escura com seu inconfundível desenho contorcido de linhas ainda mais escuras. E no outro quarto todos os móveis eram importantes apenas para dar conforto ao meu pai para as longas horas diante do rádio, o qual em hora marcada, e precedida por uma curta e intermitente mensagem melódica, trazia as notícias internacionais da Deutsche Welle. Então o silêncio era imperativo, e meu pai ouvia coisas muito importantes, me parecia, ao meio dos silvos e uivos das interferências radiofônicas transmitidas por aquele precioso equipamento. Meu pai então dava suaves puxões no seu cachimbo, e um odor cativante, quase doce, quase amargo, penetrava minhas narinas. Seduzida, propus-lhe, em uma daquelas longas noites de trololó alemão no rádio, duas opções: ou permitia-me provar seu precioso cachimbo, ou dava-me um polpudo troco para compra de balas e picolés. Após alguns minutos de reflexão e olhando-me profundamente com seus tranquilos e doces olhos, estendeu-me sua mão com o cachimbo. Triunfante, tomei-o de suas mãos e desajeitadamente suguei com muita força aquela misteriosa fumaça. Não podia ser diferente. Saí correndo e tossindo compulsivamente, meu jovem pulmão violado em sua pureza, e definitivamente curado em seu desejo. Papai ficou tranquilo, acomodado em sua poltrona, fumando seu cachimbo, seguro que era de sua sabedoria paterna.

Por vezes era-me permitido dormir entre papai e mamãe. Essa sensação quase embrionária de aconchego, segurança, de puro amor e mistério deveria ser concedida por lei a cada ser, pelo menos uma vez na sua vida de criança. É o referencial vital do bom, do justo, do doce, do puro e meigo, do perfeito, do infinito vislumbrado. E antes de adormecer podia assistir ainda ao doce balé de figuras estranhas e alegres que se moviam em sombras projetadas na parede pelos gerânios balançados pela brisa da noite nos vasos da varanda adjacente.

Nós, duas irmãs, Elke e eu, de personalidades tão diferentes, e distantes de quatro significativos anos, partilhávamos outro quarto. Aliás, eram também dois cômodos, os quais alternavam seus papéis de tempos em tempos, seguindo os desejos de mudanças tão característicos de mamãe. Ora um era o quarto de dormir, ora era o outro. Havia também uma grande varanda com gerânios vermelhos, local de muitas brincadeiras e de alívio nas quentes noites de verão. Tão diferente que éramos, tínhamos, no entanto algo em comum. A vocação para a bagunça. Um terror para minha mãe, a qual ficava escandalizada cada vez que entrava em nosso quarto. Irritada exclamava:
– Mein Got, das sieht aus wie eine Reuber Höle. Meu Deus, isso parece com uma cova de ladrões.
Por um tempo eu pensava na história de Aladim, e estranhava que uma cova de ladrões pudesse ter outra coisa senão joias e pedras preciosas. Logo percebi que mamãe tinha razão. Era bagunça mesmo! Mas infelizmente seus esforços em corrigir suas filhas foram em vão. Até hoje não gosto de gastar meu tempo organizando coisas.

Elke era artista. Desde pequena. Necessariamente, aprisionada, abençoadamente, por fortes laços genéticos. De corpo e alma. De atitudes e desejos. Era cheia de energia e poderosa, mas divertida também. Deixou um legado de arte forte e eterna em suas esculturas geniais em bronze, madeira, vinil e cristal. Eu, naturalista. Desde sempre. Obrigatoriamente. Cargas genéticas, também. Mas delgada e fraca. Frágil e magra, de tal maneira que mamãe temia que fortes rajadas de vento pudessem me carregar facilmente, e me fazia entrar sempre que uma trovoada se anunciava.

Assim tão diferentes partilhávamos o mesmo quarto. Eu a admirava, por vezes temia, mas, sobretudo, a amava. Facilmente influenciável que eu era, e ainda sou, Elke conseguia sempre me convencer das coisas. Um dia fez-me posar, sentada sobre a cama, por horas a fio, imóvel, para fazer meu “portrait”. Concentrada desenhava e desenhava, o olhar sério e observador. Chamava-me severamente a atenção quando, irrequieta, ensaiava algum movimento para o alívio das dores e câimbras que já me acometiam. Finalmente a obra ficou pronta! Passou-me gentilmente o papel, e para minha grande surpresa e decepção …. ela desenhara uma cabra! Era assim que papai costumava me chamar, saltitante que era: cabrita “Ziege”. Fiquei tão indignada, mas tão indignada, que ousei ofendê-la da forma mais forte que podia naquele momento de grande raiva. Exclamei:
– Sua… irmã de um camelo!
E ela desatou a rir apontando-me o dedo:
– Irmã tua…….
Que frustração! Mas eu era assim mesmo. Incapaz de uma maldade. Pelo menos das grandes e raramente com meus irmãos…

Para chateá-la um pouquinho, decidi num daqueles fins de tarde, banho tomado, recolhidas já no quarto, desafiar sua paciência. Ela recebera em seu último aniversário um perfume que estava em grande moda, chamado Cachemire Bouquet. Seu perfume era forte e enjoativo, e eu sabia que o detestava, tanto que o frasco ainda se encontrava praticamente intocado. Fazendo ares matreiros, abri o frasco e arrisquei colocar umas gotinhas em sua cama. Seu olhar sério, que acompanhava atentamente meus movimentos, tornava-se progressivamente ameaçador. Mesmo assim insisti na perigosa brincadeira. De repente, Deus sabe como e porque, meu dedo escapou da abertura do precioso frasco e todo o perfume se derramou sobre seu leito. Os odores tornaram-se penetrantes e insuportáveis e ela saltou sobre mim. Tive tempo de refugiar-me em minha cama, mas com um forte tapa que visava meu rosto e que protegi com a mão, deslocou meu dedo. A dor foi tanta que abri um grande berreiro. Mamãe veio correndo, e quis saber do acontecido. Foi então que tudo mudou entre nós. Aos prantos culpei-me pelo desajeitado incidente, afirmando que havia caído de mau jeito. Minha irmã ficou tão surpresa com este meu gesto, que me abraçou efusivamente, e de lá para frente passou a admirar minha índole. De certo sabe ela agora, em sua dimensão etérea, que foi mais um ato de covardia do que de compaixão. Não me fez muito mal, acredito, este mérito não merecido.

O fato é que cresci muito com essa vivência. Mais tarde pude exercer a compaixão com um pouco mais de consciência. Numa daquelas brigas de infância, entre puxar cabelos e proferir blasfêmias, levei um forte tapa daquela menina, um pouco mais velha e visivelmente mais forte do que eu. Prima de minha prima, Marlise fazia parte da nossa turma de brincadeiras. Ardeu-me muito a bochecha e era então certa minha derrota. Em uma súbita inspiração, ofereci-lhe a outra face e disse-lhe:
– Bate, bate agora!
Marlise ficou paralisada e aos prantos saiu correndo para sua casa.
Esta vitória me deu muita força. Possivelmente nascida de puro medo, e copiada de minhas aulas de catequese, foi para mim um momento de glória e profundo aprendizado.

Minhas artes

Com os jardineiros da minha casa era bastante arteira. Tivemos um, de nome Adolfo, grande e forte, porém com um grave defeito. Tinha medo de sapos! Mas eu não! Os sapos faziam parte da minha lista de animais dóceis. Então lá um belo dia, tendo encontrado um grande sapo-cururu, que distraidamente se fazia visível em pleno dia, fiz o meu plano esperto. Peguei-o cuidadosamente, de maneira que suas grandes glândulas de veneno, que sobressaem como sinal de advertência ao lado de sua face, não encostassem nos meus dedos. E assim, de sapo em punho aproximei-me, pé ante pé, silenciosamente, daquele grande vulto encurvado que mecanicamente extraia da terra os bulbos das teimosas tiriricas que infestavam o canteiro de rosas.
– Te pego com o sapo! Exclamei, encostando as suas frias pernas em suas costas.
O pobre homem levantou-se num pulo só, e saiu disparado pelo jardim afora. Deveria ter sido inusitado para quem assistisse a cena. Aquele homenzarrão correndo desesperadamente, seguido de perto por aquela criança que agitava o desconcertado sapo em suas mãos. Deixei-os em paz, assim que me cansei. Adolfo me perdoou e continuamos amigos, como já o éramos antes. Era um homem bom, muito bom. O sapo, não sei se entendeu alguma coisa. Mas recoloquei-o no seu esconderijo, e à noite deve ter coaxado insistentemente como o fazia de costume.

Pior foi o trato que dei a um jovem jardineiro, recém contratado, aquele alemão, “alemão batata come queijo com barata” que nunca tinha saído da roça nem da barra da saia de sua mãe. O coitado ficou dias sem falar uma palavra sequer, não obstante nossos esforços para integrá-lo à harmonia da casa. Meu pai já estava preocupado e pensando em levá-lo de volta, quando um dia, retornando da chácara, trouxe um punhado de pequenos frutos amarelos, típicos de nossa floresta, dotados de uma polpa muito saborosa que envolve sua grande semente. Olhando-os atentamente, e abrindo um largo sorriso exclamou:
– Bacupariiiiii ! Com seu erre gutural tão característico dos colonos alemães. Era o nome daquele frutinho saboroso, que conhecia tão bem das matas de seu sítio. E nesse desabafo recuperou suas raízes e as plantou finalmente em nosso jardim.

Foi então que maquinei minhas traquinagens. Os fundos do nosso jardim dão, a uma certa distância, para um grande hospital da cidade. Nessa extrema do terreno eram depositados todos os restos de vegetais recolhidos no jardim, para lentamente se transformarem em adubo a ser então reutilizado nos canteiros. E como o jardim era bem grande, este monte também assim se tornou. Era um local escurecido pela sombra de grandes árvores, e ninguém transitava pelas redondezas. Eu tinha então já conquistado a confiança daquele galego, e comecei a lhe falar de almas penadas que vagavam infelizes nas redondezas do hospital, e que vez ou outra apareciam naquele canto do jardim. Ele ouvia minhas histórias com grande interesse. Eu havia recebido, em uma recente visita à minha madrinha em São Paulo, uma máscara de borracha, horrível, feia de verdade. Era uma grande novidade na época, e que não chegara ainda ao comércio blumenauense. Após alguns dias de doutrina, que devem ter povoado seus sonhos mais assustadores, coloquei a tal máscara e me escondi atrás daquele amontoado vegetal. Após alguns minutos, pude observar como se aproximava, com seus tamancos de madeira, carregando o carrinho de mãos lotado de folhas. Assoviava desconfiado, olhando para a direita e para a esquerda, os olhos atentos a qualquer movimento. Foi então que me levantei ligeiramente, a máscara à mostra, aos gritos de horror e de espanto. O alemão ficou estático por alguns segundos. Então deixou cair o carrinho e correu desabaladamente, os tamancos voando pelos ares e de olhos arregalados que, vez ou outra, arriscavam uma olhadela para trás. Voltei rapidamente para casa, e lá estava ele na cozinha, arfando, contando sua visão para nossa empregada:
– Eu fi, eu fi….
– Mas o que você viu? Perguntou a moça espantada.
– Eu fi a alma penada…. lá embaixo no chardim….
– Tais louco, isso não existe! Disse ela sem largar da colher de pau que remexia uma copiosa sopa.
– Eu não fou mais lá! Nunca mais! E se recolheu em seu quarto para remoer sua surpreendente experiência do outro mundo.
Voltou, sim, àquele lugar, desconfiado, para buscar seus tamancos e o carrinho de mão. A alma penada nunca mais voltou, e aos poucos ele recuperou sua autoconfiança.

Jamais lhe contei minha versão da alma, e o meu algoz, que hoje já deve estar na casa dos 70, deve ainda lembrar-se e talvez até rir desses seus medos vividos naquele jardim. Meus sentimentos vagavam então entre a glória e a pena. Um pouco de vergonha, sentida, talvez. Não sei mais. Foram sentimentos de criança que se diluíram com o tempo.

Voltando para dentro de casa.

Meu irmão tinha seu próprio quarto, que ao contrário do nosso era extremamente organizado. Assim mamãe sempre o citava como exemplo a seguir. Para nossa raiva, e como já disse, em vão. Como já mencionei anteriormente, ele raramente ocupava o quarto, na minha memória de criança, e quando, apenas nas férias. Então, seu grande amor pela natureza, herdada de papai, se manifestava com todas as forças.

Assim, em uma ocasião, manteve, para o pavor de todos da casa, um aquário no qual criava uma jovem jararaca. Uma daquelas cobras venenosas, facilmente reconhecível pelo seu desenho característico em V de cor marrom escura sobre seu delgado corpo bege. Belo espécime aquele, longamente estudado pelo meu irmão, que o alimentava com pardais caçados no jardim com sua espingarda de pressão. Mamãe teve que argumentar muito, e gastar todas as suas paciências, até que finalmente soltou a cobra lá no ribeirão que corta o jardim em seus fundos.

Em outra ocasião, resolveu que camundongos faziam parte do ecossistema e que seria crime envenená-los. Assim lembro-me ainda que sua população aumentou de forma alarmante, e que se tornou usual que um daqueles pequenos roedores peludos e cinzas cruzasse sobre nossas pernas quando brincávamos sentadas no chão. E fomos nos acostumando com esse novo elemento de nosso habitat caseiro. Até que um dia minha mãe deu um basta a essa duvidosa teoria, e eliminou todos, sob protestos do mano, com umas boas doses de veneno. Que alívio! Acho que meu irmão partilhou esse mesmo sentimento, embora não o tivesse jamais admitido.

 Ele é muito letrado, meu irmão Klaus. Filósofo e economista por formação, sempre tentou estimular suas irmãs para o exercício da lógica. Lembro-me de um daqueles invernos, que eram verdadeiramente frios em Blumenau. A geada chegava a queimar nossas alfaces e muitas bananeiras sucumbiam, tal sua intensidade. A lareira era a grande atração da casa nessas ocasiões e ela aquecia uma dependência do andar térreo que recebia o laudo nome de Herrenzimmer, o escritório de papai, com sua bela escrivaninha toda entalhada em madeira quase negra. Ali também ficava sua biblioteca, repleta de enciclopédias e romances, estes últimos a leitura preferida de mamãe. Tal era o frio naqueles tempos, que para dormir cobria-nos um volumoso cobertor de plumas de ganso, e mamãe passava o ferro na cama para que pudéssemos adormecer aquecidos. Hoje, as visíveis mudanças macro e microclimáticas se encarregaram de amenizar o clima, e raramente, creio, a lareira terá o mesmo significado daquelas décadas passadas.

Numa daquelas tardes frias de doer, em que curtíamos a inércia das férias de julho, aquecidos pelo fogo reconfortante, ele decidiu nos introduzir nos emaranhados caminhos da lógica. Iniciou a leitura, para nós duas, discípulas em potencial, os primeiros capítulos do renomado e volumoso livro do filólogo alemão, Werner Jaeger, a Paidéia ou “Die Formung des griechischen Mannes”, a Formação do Homem Grego. No início, tudo bem. Eu podia dispor das auspiciosas conexões que meus neurônios infantis me propiciavam. Mas logo, logo comecei a perder o fio da meada. Orgulhosa que era, e entreolhando minha irmã, que parecia perfeitamente à vontade com todo esse raciocínio, fazia os ares de menina prodígio. Mas a pressão foi aumentando e aumentando, até que perdi totalmente o controle de meus sentimentos, e desatei a chorar copiosamente, num misto desabafo de raiva, vergonha e decepção por minhas reveladas limitações no domínio da lógica. Decidi que não era essa a minha praia! Minha irmã confessou mais tarde que também estava literalmente “boiando” naquela nutritiva sopa filosófica.

Dias depois me vinguei do ultraje que sofrera. No quarto do mano tinha uma boa biblioteca com livros de filosofia. Criativamente colei alguns papéis sobre parte do título de alguns volumes, de forma que desfiguravam totalmente seu sentido. Lembro-me especialmente de um cujo título era “Du und die Filosophie”, Tu e a filosofia. Com minha intervenção o livro passou a se chamar “Du und die Sophie”. Tu e a Sofia. Ficou indignado, meu irmão, e silenciosamente curti a doce vingança.

A cozinha

A cozinha era grande e ocupava um importante espaço no andar térreo. Ali reinavam soberanas as cozinheiras que foram se sucedendo ao longo do tempo, todas elas marcando fortemente minha vida. Sob forte controle de mamãe, tinham, no entanto, bastante liberdade, e, sobretudo, exerciam um importante papel na minha vida pessoal.

Naqueles tempos todas as informações sobre as relações de homem e mulher eram estritamente omitidas às crianças, e mesmo aos jovens que experimentavam os primeiros apelos da puberdade. Assim eu nada sabia, nem ao menos suspeitava, até aos treze anos, mais ou menos. Um dia, em minhas idas ao Colégio Sagrada Família, em que estudava desde o jardim de infância, da minha inesquecível e querida Irmã Carmosina, observei uma coisa muito estranha. Próximo ao Colégio se situa aquele hospital das almas errantes. Na calçada que levava a este hospital, cruzei com várias mulheres, todas com um ventre muito inchado. Fiquei impressionada com essa aberração, e fiquei dias remoendo essa estranha visão. Um domingo, em casa da minha Oma Müller, onde tradicionalmente tomávamos o café da tarde, enchi-me de coragem e perguntei à Vera, filha açoriana adotiva da casa, o que era aquilo, tão estranho. Um pouco encabulada, com o rosto tornando-se curiosamente vermelho disse-me:
– Isto é uma doença! Que só dá em mulheres!

Fiquei apavorada! Nos dias que se seguiram vi, assustada, uma porção de mulheres naquela calçada, todas acometidas dessa terrível doença! Que coisa horrível. Foi uma empregada, a quem indaguei sobre esse monstruoso mal, que me desvelou o mistério. Da forma mais crua e nua. Levou-me ao anoitecer a um canto do jardim que divisa com uma praça. Sob uma soberba figueira havia uns bancos, meio escondidos pela vegetação. E lá estava um casal, apaixonado, aos abraços, beijos e suspiros. Atingiram finalmente o clímax dessa ardente paixão, ali, bem à minha frente, uma menina atônita, que brutalmente desvendou os mistérios do amor carnal, acocorada na matinha, entreouvindo as risadinhas maliciosas da empregada que se deliciava com o espetáculo.

Mais algumas explicações desajeitadas, e finalmente compreendi aquelas barrigas. Fiquei por muito tempo revoltada com o fardo que deviam carregar as mulheres, os homens saindo impunes. E eu, futura mulher, estaria sujeita a essas injustiças do gênero. Só mais tarde, os hormônios fluindo, me trouxeram a descoberta do verdadeiro amor, o que tudo torna mágico e maravilhoso, injustiças esquecidas, enterradas naquele canto do jardim.

Naquela cozinha se faziam maravilhas. Bolos, docinhos, patos e gansos assados, ou ao molho pardo, o famoso “Schwartzsauer”. Esse prato é resultado de um fino trato dado ao sangue recolhido com vinagre e preparado em bechamel. Este molho, cor de chocolate, era então derramado sobre miúdos da ave, preferencialmente de ganso, previamente ensopados com muitas ervas e ameixas pretas. De sabor suave, selvagem, vem acompanhado por um refogado de repolho roxo, este, por sua vez, agridoce. Para quem não tem preconceito de sangue de ave, é uma verdadeira delícia culinária. A história dessa curiosa receita remete ao tempo feudal na Europa. Naquela época as partes nobres das aves eram reservadas aos senhores feudais. Para os empregados sobravam os miúdos e o sangue. Assim elaboraram esse nutritivo ensopado, que lhes assegurava as energias para enfrentar as agruras do clima e dos duros trabalhos a que eram submetidos. Mais tarde, como aconteceu também com nossa saborosa feijoada elaborada pelos escravos, este prato passou a frequentar as mesas da burguesia que soube valorizar seu sabor e suas virtudes nutritivas.

Às vésperas do Natal, nessa mesma cozinha, em uma grande bacia, era preparada uma bebida milenar, receita herdada dos antigos bárbaros, o Meet. Atualmente denominada de Honigbier, cerveja de mel, o Meet é resultado da fermentação do mel, diluído em água, às custas de fermento biológico e aromatizado com fatias de gengibre. Por algum tempo a bacia descansava em um canto da cozinha, à espera da fermentação. Depois o líquido era engarrafado e lacrado com rolhas firmemente amarradas ao gargalo do frasco. Depositadas no porão da casa, onde a temperatura era mais amena do que os quase quarenta graus do úmido verão blumenauense, descansavam até os festejos natalinos. De baixo teor alcoólico, era-nos permitido degustar esta aromática e borbulhante bebida germânica. Assim, ficávamos atentos, e muitas vezes, à noite ouvíamos de nosso quarto o estouro da rolha de uma garrafa que não resistira à pressão da fermentação. Corríamos então para o porão e degustávamos, com o gosto do prazer antecipado, o saboroso líquido amarelo.

Em outra época, uma delícia do mesmo quilate era preparada em uma grande panela de cobre. O puxa-puxa. Melado de cana era cozido e mexido com uma grande colher de pau por horas a fio até atingir o exato ponto de poder ser esticado e esticado até tomar aquela sedutora coloração dourada. Era então cortado em pequenas varetas da espessura de um dedo minguinho, momento tão esperado por nós crianças para ser provado e aprovado por muitas vezes. A preparação do puxa-puxa era acompanhada impacientemente por mim em todas as suas etapas, ano a ano. Num daqueles momentos, minha irmã ficara encarregada de remexer o denso líquido, quase no ponto de fio. Angustiada perguntei-lhe se poderia provar a tão esperada guloseima. Sem titubear disse-me:
– Prove!
Feliz da vida, enfiei meu dedo naquele caldeirão escaldante. Não sei que temperaturas alcança uma massa líquida tão densa e borbulhante. Lembro-me apenas da dor terrível que se alastrou para toda a minha mão, e que me fez correr aos berros pela casa. Minha irmã, profundamente arrependida da insensatez de seu gesto, acompanhava-me solidária aos abraços, até que fui socorrida por mamãe. Não trago nenhuma cicatriz no dedo, e acho que não o afundei muito na puxa-puxa escaldante. A cicatriz ficou na alma da caçula traída em sua confiança para com a irmã quatro anos mais velha e tão amada.

A copa

Era ali, uma pequena sala anexa à cozinha, onde tomávamos o café da manhã e o lanche da noite, o “Abendbrodt”. Era ladeada por uma varanda, onde uma trepadeira de longos cachos de flores amarelas decorava a vista para o vasto jardim.

A hora do café era sempre fixa, às sete, porque papai tinha que ir à fábrica, religiosamente, de segundas à sábado, anos a fio, sem férias, as quais não se permitia pela responsabilidade de seu cargo de Diretor Técnico da Cia Hering.  Geleias, queijinho branco caseiro, o “Quark” sobre pão caseiro de trigo, de batata ou aipim e o café recém coado, com o gordo leite de vacas Jersey, trazido da chácara, eram desfrutados com a família reunida. À noite nos encontrávamos novamente ali, para um delicioso refogado das sobras do almoço, o mesmo pão da manhã, agora acompanhado de linguiça defumada, morcela branca, “Leberwurst” e morcilha vermelha, “Blutwurst”, os dois últimos preparados recentemente na chácara por mamãe, na ocasião de matança de um porco. Essas linguiças, depois de preparadas, respectivamente com o fígado ou o sangue misturado ao toucinho do porco e vários temperos verdes e pimenta preta, eram introduzidas por um funil nas vísceras do porco previamente lavadas. Em seguida eram cozidas em um grande caldeirão. Lembro-me de como mamãe furava as linguiças vez ou outra com um espinho de laranjeira para aferir o ponto de cozimento das mesmas. Assim formava-se um caldo de forte aroma, o qual era considerado uma guloseima por mamãe, e por isso servido à noite como uma sopa. Era chamado de “Metzgersuppe”, sopa de açougueiro. Não encontrei termo próprio em português para esse substancioso caldo. Na tradição açoriana a preparação das morcelas se fazia praticamente da mesma forma, mas o caldo era descartado para os porcos. À noite daquele intenso dia a sopa era tomada com devoção, pela sua raridade, e com introspectiva reverência àquele dia consagrado à matança do porco. Para mim era um verdadeiro martírio, pois detestava seu sabor. Sofrendo pela obrigação de corresponder ao entusiasmo de mamãe, perscrutava o rosto de meu pai e irmã à procura de alguma careta que traísse a falsidade no saborear do estranho líquido. Em vão. Não sei se realmente apreciavam a sopa, ou eram exímios atores nesse espetáculo festivo em torno do sacrifício desse pobre animal.

A sala de visitas.

A sala de visitas era o espaço reservado para recepções e festas. Com suas largas poltronas e sofás, ostentava um antigo tapete persa e era coroado de um amplo lustre de ferro trabalhado em tramas ondulantes portando muitas lâmpadas em forma de vela. Este espaço era ampliado pelo jardim de inverno, “Wintergarten”, que estava sempre decorado com inúmeras plantas de interior, cuidadosamente cultivadas por mamãe. Em setembro e outubro belíssimas orquídeas, principalmente lélias e catleias, ocupavam os locais de honra desse espaço e perfumavam sutilmente aquele ambiente. Posteriormente, numa dessas súbitas inspirações arquitetônicas de mamãe, foi adicionado um pequeno ambiente de bar. Pouco espaçoso, foi valorizado por um belíssimo mosaico de vidros coloridos concebido e concretizado pela minha irmã e que se harmonizava luminosamente com os preciosos líquidos ali depositados.

Tenho muitas lembranças boas dessa sala. Das noites de Natal, com a grande árvore toda enfeitada com bolas coloridas e decorada com “Lameta”, os longos fios prateados importados da Alemanha e que pendiam luminosamente dos galhos. Das inúmeras velas. Quando acesas, o encanto do Natal acontecia e em coro cantava-se Noite Feliz, em alemão, naturalmente. Dizem que quando pequena eu errava um trecho do complicado cântico. Com todas as minhas forças vocais, felizmente bem afinadas, eu cantava:
¬- Dorme na mofada paz…. “…schlaffe in schimlicher Ruhe, ….” o que resultava em disfarçadas risadas naquele solene momento. Todos reunidos, emocionados, com os melhores trajes, nós crianças, porém, tínhamos os olhos mais voltados aos presentes que se acumulavam sobre as poltronas do que para a árvore. Era um momento mágico e de grande confraternização.

Dessa sala também me recordo de grandes decepções. Reunidos tios e amigos de meus pais, todos riam e se divertiam tomando Whisky com soda. Partilhávamos, com admiração, aquela animada e variada conversação de adultos. Em determinado momento, porém, éramos convidadas a sair. Era a hora das piadas. Meus sentimentos eram de injustiça, revolta e até vergonha dos próprios pais. De longe ouvíamos estridentes risadas, que me soavam como traição aos bons princípios que nos eram incutidos diariamente por papai e mamãe. E assim a festa terminava em tristeza na alma da criança.

A lembrança mais forte e humilhante desses encontros me remete a um tio paterno, triste lembrança esta. Tendo sido afastada, como de costume, quase adolescente, fui tomar meu banho na gostosa banheira dos meus pais. Fiquei longamente imergida no tépido e relaxante líquido. Acho que remoía as lembranças vividas no longo dia daquelas férias de fim de ano. Repentinamente aquele tio adentrou a sala de banho e com uma grande risada e, ostentando seu glorioso Roleiflex, tirou várias fotos de mim, ali, indefesa e nua, como nunca me sentira antes e jamais depois. Ultrajada em minha mais profunda intimidade, ferida em minha privacidade tão jovem, jamais perdoei aquele tio. Tornou-se para mim um referencial. Um limiar. Nunca, mas nunca, ultrapassar o limite do respeito ao próximo. Sobretudo o respeito à criança, em sua individualidade, em seu ser, tão puro, tão verdadeiro, tão sublime. Jamais, meu tio, jamais faças isso de novo. Saberás agora, certamente, o que me fizeste. Porque deves ter evoluído nas esferas etéreas que saboreias já há tantos anos.

A sala de jantar.

Anexo à sala de estar se estendia a sala de jantar. Sua mesa de madeira escura tinha um mecanismo especial para aumentá-la um pouco mais para os dias de festa ou de eventuais visitas. Mas no diário era ali, naquela mesa, que era servido o almoço. Nas férias éramos cinco. O papai na ponta da mesa. Sempre se criava uma atmosfera solene, e profundamente respeitosa, quando papai, voltando da fábrica, anunciava todos os sucessos, infortúnios e prognósticos para aquela empresa, então ainda de caráter familiar.

O inverno não estava suficientemente frio, então os colonos comprariam poucas camisetas. Novas circulares recém-chegadas da Alemanha aumentariam a produção e certamente melhorariam a qualidade da malha. A língua oficial era naturalmente o alemão. Mamãe dava vez ou outra uma opinião sobre a notícia. E nós, calados. Pois a estrita educação germânica assim o determinava. Somente com licença obtida com muita sabedoria podíamos arriscar alguns comentários que nos pressionavam a garganta.

Havia também momentos de descontração naquela mesa, pois papai era muito espirituoso. Em uma ocasião ficou me falando durante vários minutos de curiosas histórias sobre o sal. Atenta à sua sabedoria, nem desconfiei de nada. Até que todos, rindo, me fizeram saber que ele queria que eu lhe alcançasse o precioso tempero.

Naquela sala se festejavam sempre os aniversários. Bolos e cucas de diferentes receitas, todos preparados pela nossa talentosa cozinheira, preenchiam aquela mesa. Canapés de queijo, de ovos cozidos e patês, ricamente decorados, completavam o cenário apetitoso. Café com leite e chá preto eram servidos em xícaras de coleção, todas elas diferentes entre si e belamente ornadas de flores e desenhos dourados sobre a fina porcelana Schmidt. Não se serviam refrigerantes na época de minha infância. Apenas o capilé, bebida feita à base de xarope de groselha diluído em água, era uma alternativa para as crianças. Havia ainda o suco de vinho, servido em casa de minha avó materna, Oma Müller, e preparado pelo tio Roberto, seu irmão. Vinho tinto colonial, ao qual era adicionado um grande prego de ferro, era diluído em água e adoçado fartamente, para nosso maior deleite. Era uma sábia e saborosa receita para prevenir anemia. Mas esse suco só era servido em casa da Oma. Nem sei porquê.

Cenas surpreendentes também se desenrolaram nessa mesa. Em um daqueles dias de verão o almoço decorria em relativo silêncio. Apenas papai mencionava um ou outro acontecimento do dia, mas todos sem muita importância. Foi então que comecei a ouvir ao longe o som daquela flauta de tons ascendentes assoprada em uma e logo em seguida em outra direção. Priiiii, Priiii……… e um pouco adiante outra vez, Priiiii, Priiii…. Era o código musical do vendedor de picolé. Meu Deus, era meu sonho chupar um picolé! E aquela música, era assim que soava aos meus ouvidos, se aproximava e se aproximava. No meu interior aquela melodia assumia um volume cada vez maior, até que meu corpo inteiro, vibrando fortemente em harmonia com aquela escala, ameaçava explodir feito um vulcão. Mas…. falar era proibido naquela mesa. Fiz um esforço descomunal por ainda alguns minutos. Quando o vendedor finalmente passou em frente ao portão com sua sedutora flauta mágica, não pude mais reter todo aquele desejo represado e desatei a gritar:
– Picolé, picolé, picolé……….

Todos à mesa me olharam atônitos, e embora as boas maneiras e o rígido ritual germânico não o permitissem, desataram a rir, copiosamente, até às lágrimas. Não achei nenhuma graça, e pedindo licença, saí da mesa aos prantos. Não ganhei o picolé. Ficou na saudade.

Os picolés, na época, eram na verdade feitos com xarope de groselha, tal qual o capilé, porém um pouco mais concentrados. Ou de limão ou uva, todos com a mesma receita. Assim, após chupar o suco, tinha-se no palito uma pedra de gelo totalmente sem gosto. Mas mesmo assim era muito saboroso. Fazíamos de tudo para poder comprar um picolé na venda do Pradi. Essa era a venda mais próxima da casa e nosso destino certo quando ganhávamos uma moedinha.

Um dia resolvi ganhar meu próprio dinheiro para poder saciar meus desejos “picoleiros”, e decidi vender nozes lá no portão. Tínhamos, na época, em nosso jardim, grandes árvores de Pekan, noz norte americana que se desenvolve muito bem em nosso clima tropical. A cada ano, no fim do inverno, cada árvore derrubava muitas e muitas dessas nozes, tão saborosas e nutritivas. Eram então coletadas periodicamente e colocadas a secar no sótão, para seu posterior aproveitamento em doces e principalmente para os festejos de Natal. Assim decidi coletar uns bons bocados desses preciosos frutos e expressando meus genéticos dons para o comércio pus-me a vender em pequenos lotes a minha preciosa colheita, bem ali, na calçada, perto do portão. Acho que fui bem-sucedida, pois mais e mais transeuntes compravam, a preço de banana certamente, as preciosas nozes. Feliz, vi meus picolés se multiplicarem em minhas contas de somar moedas. De repente mamãe surge ao meu lado, e muito indignada me arrastou para dentro do portão. Cheia de vergonha, do quê eu não sabia, ainda pude ver uma cliente em potencial parar e com os olhos cheios de surpresa acompanhar meu castigo em curso.

– Que coisa feia. Que vergonha! Nunca mais faça isso! Exclamou mamãe, levando-me para dentro de casa e tirando-me as nozes e o dinheiro tão gloriosamente conquistado.

E me senti a última das criaturas. Da glória para a vergonha. Do topo para o precipício. Uma queda doída que corroeu preciosos genes do meu DNA. Nunca mais pude vender nada. Era feio. Até hoje o é. Embora saiba que não o é. É ou não é? Acho que não poderei nunca resolver esse enigma da minha infância.

Aquela mesa, graças a Deus, era farta. Bifes com arroz e feijão, linguiças com batatas e chucrute, macarrão com carne assada e farofa, se alternavam com inúmeros outros pratos, mostrando, já naquela época, como as diferentes culturas que habitam nosso país se fundem e se completam.

Entre a sala de jantar e a cozinha havia um pequeno cômodo que através de uma escada levava ao porão. Era ali que meu pai guardava seus vinhos, ali curtia a saborosa cerveja de mel, e, sobretudo servia de depósitos de coisas velhas, descartadas, mas ainda não destinadas ao lixo.

Como de costume, num de seus rompantes, mamãe decidiu retirar a escada, já que atrapalhava as cozinheiras no transporte dos alimentos para a mesa. Poucos dias depois chegaram os pedreiros com toda a sua parafernália de instrumentos, cimento e tijolos, que foram depositados em grandes pilhas no jardim. Eu, ao contrário do restante da família, adorava essa invasão de privacidade e todos os incômodos que advinham dessa movimentação de estranhos. Fazia logo amizade com os trabalhadores e acompanhava com interesse a colocação dos tijolos, a preparação da massa, geralmente em um clima de muita descontração. O rádio de pilha ligado na transmissora local tocava as trovas alemãs e caipiras, que eram parcialmente acompanhadas em algumas estrofes e assovios por aqueles simpáticos obreiros. Um dia, porém, quando chegava toda feliz para acompanhar os avanços do trabalho, encontrei aquele homenzarrão debruçado sobre a pilha de tijolos, aos soluços. Eram lágrimas tão tristes e um choro tão sofrido que fiquei paralisada e perplexa que tal atitude pudesse brotar de um homem tão feliz em seu trabalho diuturno.
– O que aconteceu? Perguntei-lhe bem baixinho, ousando invadir seus sentimentos tão profundos.
Enxugando suas lágrimas desajeitadamente com suas grandes mãos cheias de cal, e controlando com dificuldade a voz embargada, respondeu-me:
– Morreu Getúlio Vargas!
De política sabia muito pouco. Algumas vagas lembranças me vinham sobre esse personagem através das intricadas conversas dos adultos, às quais raramente prestava minha atenção. Este episódio ficou marcado em minha memória como uma grande tristeza que abalou os pedreiros, e que, por isto, devia ser muito importante.

No dia a dia nossas atividades se completavam no subir e descer as escadas que ligavam os dois andares da casa. E não apenas os afazeres costumeiros nos obrigavam a utilizá-las com frequência durante o dia. Havia aquelas falhas de memória. Ah, esqueci minha pasta de aula. Lá subia os dois lances e o descia aos pulos, economizando o máximo de degraus. Mas o que mais me chateava era quando mamãe esquecia seus óculos. Era muito frequente seu apelo:
– Maike, hohle meine Brille! (Maike, busca meus óculos!), Du hast ja jüngere Beine als ich! (Pois você tem pernas mais jovens que eu!).
Que argumento indiscutível este! Para meu desespero deduzi logo que jamais poderia recuperar esse tempo de vida que separava nossas pernas. Então eu subia e procurava, procurava, em todos os cantos de seu quarto, até que, frequentemente ouvia lá de baixo seus gritos:
– Ah, habe sie schon gefunden! (Ah, já os achei!) Auf mein Kopf… (Sobre minha cabeça…) Que sensação de tempo e energia desperdiçados! Interrompera minha brincadeira com os cachorros no jardim! Em vão! E essas minhas pernas que seriam sempre mais novas…. E descia as escadas lentamente, sem saber se a brincadeira interrompida ainda fazia sentido, pois os cachorros já tinham encontrado outros atrativos no jardim.

O sótão

Acima do andar dos quartos, separado também por dois lances de escada havia um sótão. Ali, como no porão, era também um local de descarte. Berço sem utilidade, baús repletos de roupas velhas, livros e cadernos de estudo superados, enfim, ali se amontoavam todos aqueles objetos sem utilidade, por vezes sutilmente interligados por teias de aranha e criando aquele ambiente soturno, intrigante e estranhamente atrativo dos sótãos. As escadas de acesso rangiam a cada passada, o que criava um clima de grande suspense. Era um dos locais adorados por nós crianças para brincadeiras de fazer de conta.

Subia ao sótão vez ou outra com minhas amigas, preferencialmente após o almoço. Passo a passo, “Psst, mamãe está dormindo”, pois era a hora de seu repouso, junto com papai, pisávamos os degraus cuidadosamente, evitando aqueles que mais rangiam. E lá brincávamos por horas a fio. Nem sei mais de que. Mas era bom, muito bom deixar a imaginação vagar por aqueles objetos inúteis, um espaço encantado, capaz de se transmutar ora em castelo ora em um lar, em que éramos princesas e mães, heroínas e amorosas. Sinceramente, acredito agora que a transmutação realmente acontecia, acessível apenas às almas mais puras. Das crianças. A ciência agora já presume esta sutil dualidade da matéria. E no presente procuro subir novamente estes degraus, agora na esfera espiritual. Para o reencontro, a redescoberta dessas poderosas dimensões já experenciadas.

De volta à mesa

Por vezes estávamos sozinhos à mesa, nós três irmãos, já que meus pais se ausentavam para curtas viagens pelo país. Para um breve descanso. Quando viajavam para a Europa, o que era raro, felizmente, ficavam ausentes por, no mínimo três meses. A viagem naquela época era por navio e levava por volta de quinze dias. Assim fica fácil compreender a longa duração dessas ausências. Nessas ocasiões a Oma ficava conosco, fazendo, com muito carinho, as vezes de mamãe.

Mas naquele dia estávamos só nós, irmãos. Eu sentei na ponta da mesa, no disputado lugar de papai, e Klaus na outra ponta, que dava para uma parede e uma vasta janela. Foi-nos servido queijinho branco e nata para comer com pão. Meus irmãos resolveram incrementar o queijo, adicionando fartas doses de pimenta preta o que me parecia muito apetitoso. Então decidi acompanhá-los nessa aventura gastronômica. Pedi a pimenta. De imediato, e em pleno acordo responderam-me em coro:
– Nada disso. Você ainda é muito pequena para pimenta!
– Mas eu quero! Respondi, percebendo logo a pobreza do meu argumento.
– Não, você não pode. O papai certamente também não permitiria.
– Mas eu quero! Tornei retrucando, sem achar melhor argumento, e percebendo outra vez que seria sempre a mais pequena, irremediavelmente mais jovem e proibida de provar o sabor de poder saboreá-lo.

E assim a discussão continuou por algum tempo, sem sucesso. Repentinamente uma força estranha me subiu pelas entranhas, e foi subindo e subindo, até que em um impulso incontrolável tomei meu queijinho na mão e o arremessei com mira certeira contra meu irmão. Com bom reflexo o mano perplexo se abaixou e a massa branca, sem pimenta, mas ardendo de raiva, se estatelou na parede. Havia liberado minhas energias represadas, e apesar de chateada por não ter acertado meu alvo, senti-me um pouco mais velha e melhor preparada para enfrentar desafios.

Aquele queijo grudado na parede e lentamente deslizando para o chão voltou curiosamente à minha memória, quando anos mais tarde, no lugar da mesa, dispuseram o esquife de meu pai. Eu, adolescente, completamente perdida na inaceitável irretroatividade da morte, o olhar fixo na imobilidade desse pai que nesse mesmo lugar imperara por tantos anos à ponta da mesa, procurava uma relação entre meu gesto de revolta e a morte que aproximara a sua cabeça dessa fatídica parede branca. Culpa, talvez, pela má energia que despejara ali, conexões misteriosas dos meus axônios e dendritos, completamente desordenadas pela violência dessa perda.

Um comentário em “Vivências da minha Casa de Infância.”

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