As Festas – A Páscoa

As Festas – A Páscoa

Na véspera de Páscoa a caminhada pela floresta com o Vati, – papai – era obrigatória, quando, acompanhada pela minha irmã Elke e meu irmão Klaus, íamos colher “Moos”, musgo, ao longo do caminho. Essa planta tem a forma de delicado pinheirinho peludo, a qual, mais tarde, como botânica, pude identificar como sendo uma pteridófita do gênero Lycopodium, plantinha primitiva que cresce abundantemente em barrancos.

Passávamos assim toda uma manhã descobrindo as mais frescas e belas plantinhas. Com uma grande cesta repleta desse “musgo” voltávamos então triunfantes para confeccionar os ninhos para o “coelho”. Era uma tarefa demorada, mas divertida, essa de trançar pinheirinho com pinheirinho, sob o olhar atento do pai, até obter a forma ideal para a “postura” dos ovos coloridos. Os ninhos eram depois cuidadosamente escondidos no jardim, um para cada um, cada qual em seu território, para dessa forma assegurar a esperada visita do coelho na madrugada seguinte.

Era a grande e carinhosa mão do pai que punha então cedinho, cedinho, os ovos aqui e acolá, no ninho e entre flores e arbustos, antes mesmo que acordássemos. Que festa procurar cada ovinho, colocá-los na cestinha até abarrotá-la, e então saborear pouco a pouco o tão sonhado gostinho da Páscoa. Mal sabíamos nós, que essa estratégica saída com o pai para a floresta permitia que a Mutti – mamãe – a verdadeira “coelha”,  pudesse preparar os ovos longe da nossa vista. As cascas de ovos eram reservadas já desde janeiro, pintadas com tinta óleo, e decoradas com desenhos de coelhos, flores, patinhos e, na véspera da Páscoa, recheados com amendoins-doces, balinhas e chocolates. Ovos cozidos e coloridos com tintas vindas especialmente da Alemanha eram presença obrigatória à mesa do café especialmente decorada para a ocasião. Era muito trabalho, feito por mamãe com muito capricho, às escondidas, principalmente à noite ou quando estávamos na escola.

Achados todos os ovos (por vezes mais tarde os cachorros se encarregavam de encontrar algum ovo excessivamente bem escondido) íamos à mesa tomar um lauto e divertido café. Tradicionalmente cada um comia seu ovo colorido, quebrado com sonoras batidas na testa. Que sabor tinha aquele ovo! Totalmente diferente daquele ovo cozido do dia a dia. É verdade! Era incomparável! Teria sofrido uma transmutação de sabor? Teria a “renovação”, o verdadeiro espírito da Páscoa incorporado um néctar divino àquela célula gigante preparada com tanto amor? Quem sabe!

O fato é que em um daqueles anos comi oito ovos na manhã da Páscoa. Três em casa, três em casa do Opa Max, avô paterno, para onde íamos logo que encerrado o café, e mais dois na casa da Oma Müller, avó materna, nosso último compromisso pascoal. E, pasmem, todos aqueles ovos, aparentemente tão pesados para a digestão, não me fizeram nenhum mal. Ovos abençoados pela Páscoa da minha infância!

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