Partículas ou Particular

Partículas ou Particular

Estes fragmentos são partículas da minha vida, sem a pretensão de constituírem em seu todo uma autobiografia, nem com ambições literárias e muito menos com cuidados cronológicos.

Tive e tenho uma vida muito rica em vivências, de emoções e de ações. Privilegiada que fui no tempo de nascer (final da segunda guerra mundial), em um ambiente bastante estimulante, conflituoso, mas seguro, abastado (ma non tropo) fui cercada de pessoas fortes, inteligentes e autoconfiantes. Princípios morais numerosos e dogmáticos, germânicos, moldaram meu comportamento e a maioria de minhas atitudes. Acho que fui bastante fiel ao conselho de meus pais diante da vida: Halt die Ohren steif (mantenha as orelhas de pé), o que me legou um temperamento um pouco assustado e alerta, talvez um pouco exagerado, diante dos eventos comuns e incomuns do dia a dia.

Privilegiada também fui no tempo de crescer e vir a ser, quando no pós-guerra surgiram tantas inovações tecnológicas, tantas transformações sociais, tantas manifestações políticas que se concretizaram na música popular, como o rock nos Estados Unidos e Inglaterra, da bossa nova e em movimentos sociais como os golpes militares. As novas conquistas da mulher na rede social, sua afirmação como ser pensante, atuante e quiçá igualado, fizeram parte de minha vida sem que delas tivesse muita consciência, participante que fui de uma onda que aportava então (tardiamente, pois os meios de comunicação eram precários) no Brasil.

A perda precoce de meu pai (meu herói) me golpeou como jamais antes nada o fizera e me tatuou no coração o sabor da morte. Ficou minha mãe, a bela, forte, distinta e irrequieta dama, que sempre amou viajar e que até hoje, na casa dos noventa, adora estar a par dos acontecimentos e se possível controlar tudo que está ao seu alcance. Tive dois irmãos. O mais velho, que até hoje administra a casa da família, e cuja alma vagueia entre a filosofia e a natureza e seu bom manejo pelo homem. E minha irmã artista, poderosa escultora, que viveu todos os conflitos de um ser que habita um outro tempo, mas que tem que conviver com as contingências estéreis e supérfluas da realidade cotidiana a qual nunca lhe parecia justa. Partiu muito cedo, deixando um grande vazio. Será para sempre “um grande coração” em sua nova dimensão, guardando assim a essência de sua vida conosco.

A descoberta do amor sucedeu-se quase simultaneamente após a morte do meu pai, amor à primeira vista, forte, poderoso e passional, ao qual sou fiel até hoje. Desconfio que foi um presente póstumo de meu pai, vigilante da minha integridade e bem-estar, como sempre fora.

Os estudos em boas instituições, tanto em minha terra natal, Blumenau, quanto em São Paulo e posteriormente na França, me proporcionaram uma boa formação intelectual e profissional, e, através do conhecimento, fui ampliando gradativamente meu grande amor pela natureza.

Experiências internacionais temperaram minha personalidade em diferentes períodos de minha vida, enchendo-me de grandes prazeres e descobertas.

Minha vida profissional foi generosa e criativa, trabalhosa e cansativa também, mas compensada largamente pelo indescritível e singular prazer que nos permite saborear a pesquisa científica e o professorado.

A vida me presenteou com cinco belos, saudáveis e queridos filhos, que criamos com muito amor e união em família. Florianópolis, mágica e ensolarada Ilha, emoldurou nosso dia a dia com suas belas paisagens, praias e montanhas, sua gente amável e pelos inexoráveis ventos sul e nordeste e ainda as chuvosas lestadas. Santo Antônio de Lisboa, da centenária igreja e casas coloniais, dos pescadores de camarão, de ostras e mexilhões, nos aceitou, no início da década de setenta, como primeiros forasteiros, com carinho, hospitaleiros que são os tradicionais açorianos.

Depois vieram, e virão, espero, ainda muitos netos. Oferenda dos deuses, que nos concedem a graça de podermos nos deliciar com os encantos desses anjos sem o ônus das tarefas mais duras da criação de um filho. Sou a Oma, palavra que me soa como música, e me desperta para as doces tarefas de avó.

Minha saúde nem sempre correspondeu às minhas expectativas. “Desbravadora da Amazônia”, como por vezes me chamava o preocupado maridão companheiro, sobretudo quando percebia os exageros nas minhas pretensões de trabalhos, era essa minha postura. Queria sempre fazer mais e melhor do que podia, do que meu físico permitia. São coisas do signo de Capricórnio. Pré-disposições genéticas, estresses frequentes e emoções contidas despertaram meus males físicos. Minhas atitudes frente a eles, bons médicos e o precioso apoio incondicional da “pequena e da grande família” e dos amigos, permitiram, no entanto, que pudesse enfrentá-los e vencê-los repetidas vezes. E aqui estou, agora, na casa dos sessenta, feliz de poder viver e conviver nesta terra, e, após toda essa minha “odisseia”, poder falar um pouco sobre minha vida e dos que a moldaram e enriqueceram.

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