O tempo

O tempo

A vida voa cavalgando o tempo

dos meus amores

dos meus amigos

do meu labor

e voa tão alto que não a alcanço

vai tão longe que não sei aonde

corre veloz

com cores tão lindas para cativar.

 

O tempo que leva o tempo

desperta paixões e sorrisos

é sempre tempo de amor

para viver e cantar

para saudades sem fim

com esperança eterna,

orações, choro e perdão

em dias que se renovam

na efêmera felicidade.

 

Não vejo o tempo passar

porém o espelho revela

sulcos que invadem a testa

pálpebras caídas

e espaços abertos

pelo cabelo branco que se esvai.

 

Às vezes me falta tempo

e nunca o tenho a sobrar

os anos ficam mais curtos

os filhos agora adultos

os netos sempre maiores

porém as noites menores

e o relógio na parede

que soava tão alegre

com as cordas já tão gastas

se recusa a tocar!

 

Florianópolis, 2019

 

 

 

 

 

Meu quarto cor-de-rosa

Meu quarto cor-de-rosa

 

A monotonia de meu quarto cor-de-rosa

me abre suas torneiras

e me ri sua chaminé

liberando azulejos

que fazem mover os moinhos de vento

e as barcas da Holanda.

 

A calma de meu quarto cor-de-rosa

galga o sol e a brisa

que violentam as janelas

e defloram as cortinas

do meu sono

para me fazer lembrar o mundo.

 

O silêncio de meu quarto cor-de-rosa

grita nos livros da estante

versos à imaginação

e o marrom me enudece

escondendo as florestas.

 

O isolamento de meu quarto cor-de-rosa

deita sob a carne e a alma

do ser que vive em mim

as molas e os colchões

demônios da tentação

para me roubar os olhos.

O crucifixo do meu quarto cor-de-rosa

liberta da parede o Deus Fosforescente

que não sabe existir monotonia

nem calma

nem silêncio

nem isolamento

e me diz

que não estou só.

 

Florianópolis, 1963

 

 

 

 

Magia

Magia

 O menino se entristeceu

com a revelação materna:

“os chocolates da pedra

e da gaveta mágica

são ali colocados pelo vovô!”

 

A menina também chorou

pois sabia com certeza

do poder que têm os chocolates

e as balas da pedra e da gaveta

de adoçar a vida!

 

O vovô sorriu e nada disse

pois também sabia com certeza

que correr em torno do jardim

para fazer a pedra brotar chocolates

e que deixar uma cartinha ao Papai Noel

no velho sapato da sala

para receber presentes

com luzes iluminadas do pinheirinho

são ritos da felicidade!

 

A magia guardada no coração

consola por todo o tempo

as lágrimas da ausência,

atenua problemas diários,

frustações e desenganos.

 

A vida e a felicidade são efêmeras

como a magia divina

das bolas coloridas do Natal,

e dos chocolates

da gaveta e da pedra do jardim!

 

Florianópolis, 2019

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Ah! se soubessem os deuses

Ah! se soubessem os deuses

 

Ah! Se soubessem os deuses

quanta agonia pode existir

nos cristais que choram

a vida teria alegrias

e os olhos do céu

que veem tantas vezes

as almas em luto

não se recordariam da escuridão

e do medo das lágrimas

que rolam nos abismos amarelos.

 

Ah! Se soubessem os deuses

que parti meu coração

e as águias devoram a saudade

ouviriam os lamentos

e os gemidos

que brotam das bocas famintas dos pardais.

 

Ah! Se soubessem os deuses

que aspiro a eternidade

não me fariam mortal

e a alma não existiria

para não morrer

e meu ser seria frio

sem o calor do inverno

sem neves e vales.

 

Ah! Se soubessem os deuses

que só restam recordações

voltaríamos ao futuro

que passou

e brilhariam esperanças

nos olhos mudos das estátuas.

 

Ah! Se soubessem os deuses…

(Publicado no Álbum do Cinquentenário de Joaçaba, 1967)

 

Flamboyant

Flamboyant

 

Meu coração flamboyant florido

vermelho do verão

ao vento balançando baila

e tomba sempre.

 

Neste ciclo flamboyante

liberto da prisão as ânsias

e os planos em perspectivas

que dormem nas estrelas.

 

Volta coração vermelho

à agonia cadenciada

das etapas!

 

Explode rubro poeta flambloyant

cascalhos e folhas verdes

em janeiro!

 

Florianópolis, 25 de janeiro de 1975.