Poeta bissexto

Poeta bissexto

Coração de poeta bissexto
eclodiu na estação dos amores
 e vibrou nos outonos amarelos de Paris.

Nos flocos brancos do inverno
fermentou sementes escondidas
de versos semeados ao acaso.

Os flamboyants, os matizes do verde e o azul da ilha
libertaram sem medo os poemas
represados no coração.

Do que vale a beleza entesourada
nas sombras da memória
nem sequer pelo amor apercebida?

Florianópolis, 2019

Relógio de cordas

Relógio de cordas

À noite o medo paralisa a alma de esperança
e desperta os fantasmas que assustam o coração.
Os sonhos abrem diálogo com os anjos
projetando imagens do infinito.

Ao acordar me invadem pela janela
o canto dos galos, o gorjeio dos pássaros,
o clarão do sol e a alegria de viver!

As flores de manacá pintam o azul do mar de roxo e branco,
sob a contemplação do biguá
que plaina vigilante ao vento
em busca do alimento
sem temor da solidão.

E assim escoa a vida como um relógio de cordas!

Florianópolis, 2019

Pássaros

Pássaros

Da sacada do escritório
acompanho o bonito voo dos pássaros
sem saber quando retornarão ao jardim,
por que fizeram o ninho na chaminé da lareira
ou quantos ovos chocarão na primavera.

Como pássaro alado
voo em sonho a distantes mares e penhascos
olho com deslumbre o desabrochar das damas da noite
e choquei cinco ovos na primavera da vida.

Por que cantam os pássaros com tanta alegria?

Florianópolis, 2017

Reconciliação

Reconciliação


Mesmo assim,
não chegamos ao fim!

Ontem, tão feliz começo,
hoje, o mundo ao avesso!

Não me fales exaltada,
sorrir é lindo, não custa nada!

Vem cá, dá-me as mãos por um momento,
esquece ressentimentos!

Do amor guardo tão boas lembranças,
me abrace, silenciosa e mansa!

Nosso amor jamais terá um fim,
você é eternamente para mim!

Florianópolis, 2016

A Saga de Helga

A Saga de Helga

Eu subi aquela escada de dois lances pulando degraus, feliz de poder passar um fim de semana em casa de meu tio Roberto, irmão de minha avó materna, a Oma Müller. Eles moravam juntos há muito tempo, já que minha avó ficara sozinha quando seus três filhos ainda eram pequeninos. O quarto de hóspedes se encontrava no segundo piso. Tinha duas grandes camas de madeira maciça e escura, colchão de molas e um farto cobertor de penas.

Meu primo Érico Max também viria, e assim as brincadeiras estavam asseguradas. Enquanto este não chegava, aproveitei para acomodar minha sacola de roupas e escolher depressa a melhor cama. Era uma casa tipicamente alemã, de alvenaria, com vários cômodos bastante amplos no andar térreo. A sala de jantar e a cozinha davam em uma varanda cujo parapeito culminava em canteiros suspensos, repletos de plantas ornamentais. Havia ainda um hall na entrada principal da casa, e um cômodo reservado para tio Roberto, onde este guardava sua biblioteca repleta de revistas de horticultura, fruticultura e criação de animais domésticos. Uma prateleira guardava também uma preciosa coleção do Tesouro da Juventude, na qual, estranhando a grafia antiga cheia de ph para formar um f, em dias de chuva, decifrávamos as fábulas de Esopo.

No piso superior, além do quarto de hóspedes havia o quarto da Oma, sempre meticulosamente arrumado e arejado. Ao lado ficava o quarto do tio Roberto, quase uma cela de eremita, solteiro e sóbrio que fora por toda a sua vida. Mais adiante havia um amplo banheiro, onde em um copo com água, à noite, descansava, solitária, uma dentadura. Dois outros cômodos e uma pequena sala completavam o ambiente. Em um deles dormia Vera, filha adotiva, órfã de pai e mãe e que fora trazida bem pequenina de Camboriú, onde viveram seus pais pescadores. O outro quarto pertencia à Ur-Omama, minha bisavó, já quase centenária. Tudo era muito despojado, e apenas alguns poucos quadros adornavam as paredes. No corredor, logo à frente da escada, havia uma mesinha sempre coberta com uma linda toalha bordada pela Vera, e sobre ela uma moringa e um copo. Essa era uma peça importante naquela época, pois assegurava água fresca e pura para beber no verão enfadonhamente quente de Blumenau.

Em uma salinha ao lado havia uma cadeira de balanço. E foi aí que eu a encontrei, a velha senhora, cantarolando, no lento vai-e-vem, totalmente perdida em seus sonhos. Cantava sempre e incansavelmente, uma eterna ladainha de melodias incompreensíveis, tremidas na sua voz de velhice. Delas apenas guardo uma pequena estrofe, e parte apenas de sua melodia. Apagada da memória dos que a conheceram, esta pequena canção estará perdida para sempre. Era, certamente uma fina sátira da família alemã, pois versava assim:

– Grosse Frau will tanzen gehen , jeh, oh jeh..
– Kleiner Man will auch mit gehen , –
– nani, nani, nani, upsalala, hopf in die Hê (Höhe)

– Mulher grande quer ir dançar, iê, o iê,
– Pequeno homem também quer ir,
– nani, nani, nani, upsalala, pule para o alto.

A canção dizia ainda que a mulher não permitiu sua ida, e correu atrás do pobre homem com um rolo de macarrão. Apavorado este pulou então em um grande pote de bater manteiga para se esconder. Não conseguiu escapar.

Eram estas canções, o derradeiro testemunho de sua incrível musicalidade. Quando jovem, aprendera, de ouvido, tocar acordeom. E como naquela época não havia outra forma de fazer música, senão tocando ao vivo, ela era a encarregada de “abrilhantar” a dança. Desta forma nunca pudera ela própria dançar. Os dançarinos, todos jovens de famílias conhecidas, encontravam-se nos finais de semana e riscavam o assoalho ao som das alegres valsas e marchas germânicas. Ainda conheci aquele acordeom, cor de vinho, em seus braços, anos antes, quando, sentada na sala principal da casa, tirava alguns acordes sonoros e harmônicos para o deleite da família reunida.

Agora a velha senhora não descia mais as escadas. Quando completara noventa anos decidira nunca mais descer. Desde então restringiu suas atividades ao segundo piso, e quem quisesse vê-la que tratasse então de subir. Na verdade, seu mundo há muito havia migrado para o interior de sua mente, no qual vivia remoendo seu surpreendente passado.

Acheguei-me então da bisavó, e com um delicado beijo interrompi sua cantoria. Seu rosto, marcado com profundas rugas, se iluminou e feliz segurou-me a mão. Seus dedos eram longos e frios, e uma pele fina e quase transparente cobria sua mão marcada de inúmeras manchas escuras e veias saltadas. Ela nunca abandonara o hábito de usar vestidos longos de cores sóbrias, e vê-la assim caracterizada, parecia-me uma dobra do tempo, em que o passado se fazia presente. Com sua voz apagada e trêmula revelou-me sua história de vida, serena e ciente da urgência de repassar seu passado para mim, seus genes repassados e depositários de sua memória.

Por volta de 1859 seu tio Heinrich Krohberger, nascido em Baireuth na Alemanha e filho de Daniel Krohberger, com apenas 22 anos emigrou para o Brasil para estabelecer-se na jovem colônia de Blumenau. Esta contava então com apenas nove anos de fundação. Engenheiro arquiteto por formação, recebeu de Dr. Blumenau, heroico fundador da colônia, a missão de desenhar o plano diretor da cidade. Trabalhou arduamente para poder realizar este projeto, pois as terras estavam então ainda em grande parte cobertas por esplêndida e densa floresta tropical, com imensas árvores repletas de bromélias multicoloridas e de um emaranhado de trepadeiras das quais pendiam inúmeras lianas. Incontáveis espécies de aves faziam a algazarra no amanhecer. Tão bela era a mata, era, porém, também habitada por milhares de insetos e por temidas cobras. Penetrar aquela floresta era um verdadeiro desafio. Difícil entender como esses pioneiros conseguiam se orientar nesse verdadeiro labirinto vegetal.

O fato é que todo o traçado inicial do centro de Blumenau se deve ao seu trabalho. Foi ainda o construtor de várias pontes e, sobretudo, das duas igrejas, a evangélica luterana, e a católica. Esta última, que diziam de rara beleza, foi lamentavelmente destruída para na sequência ser substituída por uma bem maior e mais “moderna”. Este curioso modismo de erradicar o velho e proclamar o progresso com obras de grande vulto prevaleceu por toda uma geração, em grande parte do século passado em nosso Estado, e muitos municípios perderam belíssimos elementos arquitetônicos diante dessa discutível e inexorável filosofia. De nossa família, de qualquer forma, se perpetuam nesse mesmo local os traços talentosos de sua sobrinha tataraneta Elke, nos vitrais que adornam a nova igreja. Dentre suas obras destaca-se o antigo Palácio do Governo, na Praça XV em Florianópolis. Esta obra, no entanto, foi assinada por outro arquiteto, perdendo assim na história sua real autoria.

Vendo que a colônia evoluía satisfatoriamente, Tio Henrique, como era chamado, mandou trazer da Alemanha seu irmão mais velho, Bartolomäus Joseph, já casado com Elizabeth Neuman, uma senhora rica e de origem nobre. Tiveram apenas uma filha de nome Sophie. A pobre Elizabeth nunca se acostumou à simplicidade e rudeza da vida na colônia e morreu de tristeza. Minha mãe, muitos anos mais tarde, ainda utilizou sobras de seus finos panos, cuidadosamente guardados em baús, para confeccionar trajes de festa. Com Bartolomäus vieram seus irmãos mais novos, Jean, Karoline, a tia Lina e nossa tataravó Maria Sophia Johanna. Jean perdera uma perna trabalhando na famosa indústria alemã Krupp. Aposentado precocemente, sua perna foi substituída por uma ruidosa perna de pau. Quando velhinho foi acolhido na casa de Tio Roberto, indo morar em um pequeno cômodo no sótão. Muito tímido e introverso, descia apenas para ir sorrateiramente ao banheiro. Seu caminhar com a perna de pau e constante isolamento criara um estranho clima de temor e de curiosidade nos três sobrinhos netos, Lia, Érico e Heini. Vez ou outra, sentindo a proximidade das crianças, lançava um punhado de balinhas pela janela, as quais eram rapidamente catadas pelo trio. De quão profunda e carinhosa solidão devia sofrer o pobre ancião.

Johanna, nascida em 27 de janeiro de 1845, chegou moça feita ao Brasil e se adaptou bem ao clima tropical, desenvolvendo-se com boa saúde. Casou-se com Carl Friedrich Wilhelm Danckwardt. Esta família, é provavelmente originária de Lübeck, no norte da Alemanha, onde ainda pode ser encontrada uma velha ponte de nome Dankwardsbrücke. Vieram com as primeiras levas de imigrantes alemães que aportaram em Desterro, (antigo nome de Florianópolis) e foram assentados em Santa Isabel e logo após em São Pedro de Alcântara. São Pedro foi fundada em 1929, porém as dificuldades apresentadas pelo relevo acidentado da região motivaram muitos colonos a procurarem outras paragens mais favoráveis para se estabelecerem. Férteis vales ainda inabitados situados nas redondezas foram escolhidos por essas famílias, criando assim vários novos povoados, dentre eles Antônio Carlos.

Outros optaram por colônias que estavam sendo implantadas como Blumenau, onde esperavam poder contar com algum apoio institucional. Foi certamente em sua passagem por Blumenau, onde aportou em 1858 que o tataravô Carl se encantou com a bela Johanna. O jovem casal, porém, logo se transferiu mais para o Sul, estabelecendo-se no pequenino vilarejo denominado Aratingaúba, que lhes pareceu mais promissor para trabalhar a terra. Situada do lado oeste da Lagoa Mirim, até hoje o lugarejo reflete a arquitetura germânica em algumas de suas moradias ainda conservadas. Assentada sobre o alto de um monte, oferece uma belíssima vista sobre um longo e verdejante vale que se afunila ao norte sob um colar de montanhas da Serra Geral. Nestas solitárias paragens cultivavam a terra e criavam gado para seu sustento. Consta também que Carl, entre outras atividades, provia dormentes para a ferrovia Tereza Cristina. Assim Helga nasceu em 13 de novembro de 1865, em meio às suas irmãs Lela (Daniela), Alma, Lidi, e Delminda e mais uma maninha que faleceu ainda pequenina, nessa remota colônia alemã, com esse sonoro e curiosamente indígena nome de Aratingaúba O Pastor, já que a comunidade era tradicionalmente Evangélica Luterana, vinha apenas uma vez por mês, lá da Laguna. Era a ocasião de presenciar um culto, de realizar casamentos, batizados e confirmações.

Ali Helga passou seus primeiros seis anos. Por falta de escola, seu tio Henrique veio buscá-la para que se alfabetizasse em um bom educandário alemão em Blumenau. Sem estradas nem outros meios de locomoção foram então a cavalo, por picadas, cruzando vales, montanhas, riachos e rios caudalosos. Durante o dia, ora a galope ora passo a passo, seguiam pelo estreito caminho ladeado por densas florestas. Assovios de índios à espreita, os bugres como então eram chamados, assombravam vez ou outra sua temerária viagem. À noite dormiam em casa de colonos, hospitaleiros que eram estes pioneiros desbravadores das então remotas paragens da região costeira de Santa Catarina. Assim, por três longos e cansativos dias rumaram para o norte, até a dinâmica colônia fundada pelo Dr. Blumenau. Completados seus quatro anos primários voltou, novamente a cavalo, para Aratingaúba, agora alfabetizada e pronta para logo ser encaminhada na vida. Seus pais mudaram-se então para Laguna.

De cultura e arquitetura tipicamente portuguesa, Laguna orgulhava-se por constar no Tratado de Tordesilhas e também de seu passado glorioso da Revolução Farroupilha, quando sua filha Anita se aliara com galhardia ao Italiano Garibaldi, lutando lado a lado, por causas consideradas então tão nobres. Laguna era então uma movimentada cidade portuária, e o pai de Helga optou por entrar no setor de transporte de mercadorias. Adquiriu um navio de nome Heiliger Peter, São Pedro, e transportava produtos da terra para o Rio de Janeiro, de lá trazendo as novidades da capital do império, em meio a produtos das mais diferentes paragens do Brasil e do exterior. Dos segredos guardados a sete chaves pela família emerge uma passagem bem apimentada. Dizem que …. ao embarcar suas mercadorias em Laguna, imbuído do autêntico espírito das docas, embarcava também um certo número de belas lagunenses, pele dourada pelo sol da praia do Gi, e saia rodada com muitas fitas.

Johana, durante esses tempos de aventuras no mar administrava com mãos de ferro uma venda de secos e molhados, com os produtos trazidos pelo marido do Rio. Desgostosa e cansada das falações que das docas vazavam para ruelas que longeavam o poético casario colonial da Laguna, acabou por despachar este infiel consorte. Assim ele partiu para sempre. Sem jamais dar notícias. Rumo ao Paraguai, onde, sabe-se seu sobrenome se perpetuou. Já aqui, como só teve filhas, seu nome, permanece apenas nas lápides do cemitério evangélico de Blumenau. Sozinha, agora, naquelas paragens, Johana não tinha como manter suas filhas. Tio Henrique veio então resgatar a família, que encontrou em Blumenau o apoio para seguir seu destino. Minha mãe lembra-se de ter visto um dia, quando ainda bem pequenina, Helga chorar copiosamente.
– Por que choras Omama? – Perguntara-lhe curiosa.
– Porque faleceu alguém que me era muito querido. – Respondera-lhe ela tão simplesmente.

Teria sido seu pai? Haveria alguma comunicação secreta? Naqueles tempos um tal evento, escândalo imperdoável, seria sempre abafado e mantido como tabu para todo o sempre, se possível. E muitas lágrimas rolaram por certo nesse enclausuramento da dor.

Mas muito antes disso, em Laguna, por volta dos 14 anos, quando ainda brincava de bonecas, Helga conheceu seu futuro marido. Johan Paul Maximo Baier era um decidido jovem alemão. Originário da Saxônia, cresceu em uma família tradicionalmente ligada à marinha. Literalmente, todos eram marinheiros. Sentindo o apelo da mesma vocação, tentara se alistar para ali fazer sua carreira. Mas para seu desespero, foi-lhe negado ingressar nesta valorosa instituição alemã. Era míope! Então, desolado, tomou um navio inglês e rumou para a América do Sul, arriscando sua juventude em uma grande aventura. Neste navio vinham engenheiros ingleses contratados para executar a construção de uma ponte de ferro sobre o sangradouro da Lagoa Mirim, na Cabeçuda, para que a estrada de ferro Tereza Cristina pudesse trazer o carvão diretamente de Imbituba até o porto da Laguna. Como não havia ainda tecnologia brasileira para um tal empreendimento, uma firma inglesa fora contratada para realizar o projeto. Mas, como se comunicar com os brasileiros? Era impossível estabelecer um diálogo suficientemente consistente para concretizar tarefas tão precisas e complexas.

Meu futuro bisavô, que dominava perfeitamente o inglês, apresentou-se então como um providencial gerente de obras. E foi contratado. O destino lhe trouxera enfim uma oportunidade de vencer na vida. Estava feliz e realizado.

Por aquela época poucas famílias alemãs habitavam Laguna. O encontro de Máximo e Helga foi, pois, inevitável, como inevitável sua paixão pela menina moça. Mandou-lhe então um poema declarando seu amor. Este documento, preservado por tantos anos, infelizmente se perdeu recentemente em uma acidentada mudança de endereços. De fato, a jovem mal se tornara moça e ainda brincava de bonecas, mas já era considerada pronta, pois casava-se muito cedo naqueles tempos. E assim, logo, por ocasião em uma daquelas passagens do Pastor pela região, realizou-se o casamento de Helga e Maximo, ou Max, como era denominado pelos familiares. O registro do casamento consta nos documentos da paróquia de Teresópolis, sede de onde o Pastor partia para suas visitas às longínquas colônias de paroquianos. O jovem casal fixou residência nas proximidades da ponte, já em construção.

A velha casa ainda existe. Em ruínas. E quem a vê hoje, tão desolada, não pode imaginar quanta vida e história ali se desenrolou naquelas últimas décadas do século XIX. Localizada próxima à cabeceira sul da ponte, é uma casa tipicamente portuguesa, majestosa, à altura do gerente da grande obra. E ali foram felizes. Tinham um terreno amplo com pastagem em torno da casa, onde mantinham um belo cavalo, importante meio de transporte, e que podia eventualmente ser atrelado a uma aranha, ou carroça, se preciso. Tinham também, como a maioria dos colonos, algumas vaquinhas leiteiras para assegurar o alimento para as crianças, já então numerosas: tio Roberto, tio Otto, minha avó Joana, Tio Paulo e tia Rosália. Tio Roberto, repetindo talvez um traço de família, nunca se casou. Tio Otto foi pai de Roberto, mais conhecido por Robertinho, até hoje tabelião em Blumenau, cargo que lhe foi transmitido pelo Tio Roberto quando este se aposentou. Tio Paulo se formou joalheiro na Alemanha, e casou-se com uma brasileira, de Lages, Tia Mariana. Correndo os riscos da época, tia Mariana fora alvejada na cidade de Ascurra por uma flechada de índio botocudo, que lhe deixou pela vida afora um grande buraco nas costas. Tio Paulo consertou relógios em várias cidades até estabelecer-se por longo período em Florianópolis, onde se tornou proprietário de uma renomada joalheria no centro da cidade. Mudou-se depois para Blumenau onde instalou a Relojoaria Baier. Tia Rosália, Tante Röschen, como era conhecida, casou-se com Georg Weickert, originário da bela cidade de Beyreut da Alemanha. Estabeleceram-se em Blumenau e seus descendentes mantém até hoje aquela tradicional relojoaria. Contam que já velhinha, Tia Rosália guardava grande vigor, e chegou aos ouvidos de sua irmã mais velha, Joana, que esta atravessava perigosamente a Rua XV de Novembro, já então com certo tráfego de automóveis. Usando bengala, e com dificuldades de andar, pois quebrara recentemente sua perna, Joana, na altura de seus 92 anos, exclamou, com uma pontada de inveja:
– Na ja, (pois é), ela também é bem mais jovem que eu!
Tia Rosália tinha então 89 anos!

Aquele alegre quinteto de crianças, lá nas redondezas de Laguna, formava certamente uma escadinha encantadora e ruidosa. Posso imaginá-los correndo pelo pasto, trepando nas árvores para alcançar as frutas, brincando de roda, e por vezes explorando a densa e misteriosa floresta que limitava o terreno da casa. Max e Helga tinham verdadeiro orgulho de sua prole.

Uma voz conhecida roubou-me repentinamente a atenção dos cativantes relatos da bisavó:
– Maike, o Érico Max chegou! Gritou lá de baixo Guilhermina, a Mina, eterna e querida empregada do Tio Roberto.
– Volto depois, Ur-Omama, para ouvir tua história. Disse à velha senhora, que feliz pela atenção e companhia que lhe dera, apertou docemente minha mão. Compreensiva com minha ansiedade de brincar sorriu, e voltando para si mesma, mergulhou no seu sereno e melodioso balanço da vida.

Desci correndo a escada, e lá estava ele, loiro, sorridente e amigo. Fomos logo para o jardim, subir nas árvores e contar lorotas. Érico Max era um poeta nato. Leitor assíduo, possuía uma imaginação riquíssima e muito criativa. Contava-me verdadeiras tramas de relacionamentos que estabelecera com personagens fictícios, as quais se tornavam reais e verdadeiras na minha mente, de tão detalhadas e dinâmicas que as descrevia. Era um mundo mágico e fascinante que comigo compartilhava. Um ano mais velho que eu, tinha saúde delicada. Sofria de asma desde pequenino, traço genético que permeia até hoje em um ou outro descendente desta família. Lembro-me de ouvi-lo chiando à noite, e sem poder dormir, deitava embaixo da cama, e ascendendo cuidadosamente uma vela, lia, escondido, grossos livros proibidos. A bombinha o acompanhava sempre, para uma eventualidade, dizia. Era também excelente cartunista e desenhista, e com este dom fez sua vida em São Paulo. Muitos anos mais tarde, já com família constituída, em forte crise, e na presença de seu belo e ainda pequenino filho Jan, faleceu sem poder obter socorro. Morte precoce de um poeta que deixou seu legado de poesias fortes e precisas.
– Crianças, ‘tá na hora de almoçar! Chamava-nos Oma, lá da varanda. Loucos de fome, e cientes da rígida disciplina de horário imposta pelo tio Roberto, corríamos para lavar as mãos e sentar à mesa. Esta era grande e sempre impecavelmente servida. Na ponta da mesa sentava Tio Roberto. De um lado a Vera e a Oma, e do outro lado Érico e eu. A comida era preparada com muito zelo e capricho pela Mina que em sua grande cozinha manejava com destreza seu fogão a lenha. Ela cortava as verduras sempre em tiras muito finas e em pedaços quase milimetricamente iguais transformando o prato simples em seu conteúdo em uma refeição refinada. Saborosa e variada, a refeição só tinha para mim um defeito. Serviam sempre chuchu refogado. Vastos baraços desta generosa trepadeira cresciam na extrema do terreno, sobre o barranco do Rio da Velha, bem próximo à sua desembocadura no Itajaí. Então constituía uma verdura barata e, em geral apreciada. Mas eu detestava chuchu! Seu fado sabor e consistência gelatinosa revoltavam meu estômago. Mas a disciplina imposta pelo severo tio não permitia escolha.
– O que tem na mesa é para ser comido! E, sobretudo, comportem-se. Vindo de Tio Roberto, isto significava comer calado.

Logo, Mina trazia a bebida. Era sempre suco de vinho com açúcar. Havia uma razão para tal. Tio Roberto colocava um prego de ferro no garrafão de vinho. Era uma fonte segura de ferro para o sangue, dizia. Como já era sábio aquele homem. Hoje ficou comprovado, por estudos científicos, que o vinho é saudável para o bom funcionamento do coração. Sem considerar que, de lambuja, aquele líquido cor de carmim era muito saboroso. Todo aquele silêncio à mesa, o olhar sério de Tio Roberto, e o submisso das duas mulheres mexia com nossa inquietude infantil. Assim entreolhando-nos subitamente sentimos uma grande vontade de rir. Para impedir uma desastrosa explosão eu pensava fixamente no chuchu, o quanto era ruim, e que sacrifício fazia naquele momento. Em vão! Até o chuchu me pareceu engraçado. Pouco depois desatávamos os dois a gargalhar incontrolavelmente. Que desastre. Fomos objeto de severo sermão do tio, e nossa vontade de rir sumiu tão rapidamente quanto surgiu.

Após o almoço tínhamos que descansar. Era lei! Muito a contragosto fomos ao quarto e fingindo dormir traçamos, sussurrando, os nossos planos para a próxima diversão. Fazendo extrema com o terreno ficava o Colégio Luis Delfino. Era uma escola pública primária com muitas salas de aula e um imenso pátio. Este ficava, porém, um bom par de degraus abaixo do nível do colégio e era todo gramado para as atividades esportivas dos alunos. Limitando este desnível de aproximadamente três metros, havia, ao lado da escada um grande muro de granito. Nos fins de semana não havia viva alma em todo aquele espaço. Tínhamos então grande vontade de brincar ali. Mas de que? Não tínhamos bola, nem havia árvores para trepar. Então tive a grande ideia! Pularíamos de paraquedas do alto daquele muro. Havia até um providencial monte de areia logo abaixo. Ele poderia amortecer a queda, se preciso. Tudo planejado e acertado em seus detalhes, esperamos o sinal para sair do quarto. Oma apareceu à porta, e antes que pudesse dizer alguma coisa disparei a falar:
– Oma, precisamos de pedaços de pano. Podem ser trapos. Mas dos grandes!
– E agulha e linha. – Completou Érico Max.
– Mas para quê?
– Queremos costurar uma coisa. – Disse-lhe sem ousar dar mais detalhes.
– Que ideia mais esquisita! Retrucou. E lá foi ela procurar o que pedíramos. Minutos após trouxe-nos um prodigioso saco cheio de retalhos de todos os tamanhos. Pusemo-nos então a costurar. Érico Max dispunha os panos, feito quebra-cabeças na forma de um suposto paraquedas, e eu costurava uns aos outros. Primeiro com pontos juntinhos e firmes que aos poucos foram se tornando mais largos e esparsos…. Trabalhamos a tarde inteira. À noite a sonhada peça estava pronta. Parecia-nos uma verdadeira obra de arte. E haveria de funcionar!

Adormeci naquela noite contemplando um quadro que em forma de charge representava meu tio Érico, pai de Érico Max, sentado em um barco a remo, esporte muito praticado nos tempos de sua juventude. Ele tinha a cabeça exageradamente aumentada, que em perfil exibia seu nariz reto e desproporcionalmente grande.

Levantamos muito cedo, e tivemos que esperar pelo café que Mina coava em um grande saco de pano. Tio Roberto, que levantara de madrugada para colher ovos e tratar das galinhas, sentara-se à mesa, pensativo e mexia incansavelmente o café, que transbordando enchia lentamente o pires. Contaram-me que uma destas manhãs, tio Roberto foi ao galinheiro e estranhando que as galinhas ainda estavam empoleiradas, tratou de empurrá-las para o pátio. As pobrezinhas, tontas e atordoadas cacarejavam num preguiçoso cóóó, cóóó… Estranhando o comportamento de suas preciosas galináceas, tio Roberto voltou para casa e conferiu o relógio. Eram quatro horas da manhã! Então disfarçadamente voltou para seu quarto. Não sem ter sido visto por Mina, que já se levantava para preparar o desjejum. Foi motivo de muitas risadas, especialmente das mulheres que só esperavam uma oportunidade para se divertir às custas deste severo senhor da casa. Naquela manhã, esperamos ansiosos pela sua permissão para sair da mesa. Então, bem nutridos pelo magnífico pão cozido em forno a lenha e coberto generosamente com uma saborosa “chimia” de banana, partimos para nossa aventura. Este termo, já consagrado no vocabulário catarinense, origina-se do verbo alemão Schmieren, que significa passar no pão. Curiosamente esta palavra não existe em forma de substantivo no vocabulário germânico.

Sabíamos que era proibido entrar no Colégio e, longe dos olhos dos adultos, pulamos o muro. Com o paraquedas debaixo do braço corremos até o muro de pedras.
– Meu Deus, que altura! Exclamou Érico Max. Lá da janela parecia mais baixo…..
Despistando meu medo, que não era menor, disse-lhe:
– Não é tão alto assim. E se não fosse alto, de que serviria o paraquedas? Depois tem um monte de areia ali, estás vendo?
Não muito convicto meu primo retrucou.
– Então pula primeiro!
Encurralada, enchi-me de coragem e vesti o traje. Havia apenas duas alças feitas de estreitas tiras de pano que se ligavam às quatro pontas do quadrado de aproximadamente um metro de lado. Vacilei por um tempo. Mas não querendo me “mixar” diante do primo, fechei os olhos, respirei fundo e pulei. A queda parecia interminável naqueles poucos segundos que me separavam do monte de areia. Aterrissei com bastante elegância, sem me ferir. Não foi, certamente graças ao paraquedas, o qual naturalmente não funcionou. Acho que foram as asas de meu anjo da guarda que amortizaram a queda!
– Bem, agora é a tua vez! Disse, orgulhosa de meu feito, ao pobre primo.
Pálido, mais pálido do que naturalmente, contemplava-me do alto do muro. Vendo a inutilidade de nossa engenhoca que nos roubara tantas horas para ser fabricada, percebeu que contava apenas com sua coragem pura e nua. E, coitado, não era essa sua maior virtude. Passar do imaginário ao real. Que dilema para aquele poeta tão jovem. Senti seu vacilo, mas fingi não ver.
– Então desce pela escada. Vamos inventar outra brincadeira. Disse-lhe para aliviar sua angústia.
Mas ele permanecia lá como que petrificado. Machucado em seu brio. Era um homem. Não podia se expor assim à sua prima. Então pulou. Assustada, aproximei-me daquele corpo pálido caído na areia. Mas ele levantou rapidamente. Deu um largo sorriso e disse orgulhoso.
– Pronto. Agora podemos brincar de outra coisa.
Também ele tinha seu anjo da guarda. Muitos anos mais tarde, em 1964, pelas Edições Ultra de Blumenau, o então já consagrado poeta publicaria um poema: Um anjo morto na encosta. Reflito sobre quanto lhe marcara na lembrança esta forte vivência quando leio as primeiras estrofes:

Uma repleta hemorragia transita em mim.

Eu escorri meu sangue sobre a terra confusa
para formar a argamassa indestrutível.
Eu compus gargalhadas inúteis pelo dia nervoso,
gangrena de luz e sombras,
num testamento de duendes noturnos;
fui primário em delírio de árvores.
E do meu sangue e corpo eu construí na terra um início,
na flor um roteiro, no pássaro o guia,
no vento a mensagem, no rosto o enigma,
na criança o impulso.
E encontrei nos abismos uma gestação infinita,
nas nuvens uma falta de sentido.

Recuperados do susto corremos de volta ao seguro jardim do Tio Roberto para explorar outras aventuras. O paraquedas esquecido. Superado pela nossa coragem. Provado por nós. Reprovado pela Oma, que vira tudo da janela, e nos passou um pito daqueles…
– Por favor, Oma, não conta para o Tio Roberto. Imploramos.
Carinhosamente guardou nosso segredo. E passamos a amá-la ainda mais, a querida Omama.

Tia Cordélia e Tio Érico vieram cedo buscar o primo. Tinham algum compromisso no domingo à tarde. Fiquei sozinha, sentindo o vazio do adorado primo. Logo, porém me lembrei da Ur-Omama e de sua fascinante história. Encontrei-a agora em seu quarto, sentada em uma confortável poltrona.
– Oi, Ur-Oma. Quer me contar mais um pouquinho?

Surpreendentemente séria pensou longamente e me revelou preciosas passagens de sua saga.

O seu marido viajava frequentemente por conta das obras da ponte. Passava dias longe de casa e voltava cansado de suas lidas e, sobretudo, não podia nunca prever com precisão quando retornaria. Numa dessas noites, sozinha em casa, Helga acordou com um ruído no telhado. São bugres, pensou, só podem ser bugres. Estes realmente ainda vagavam pelas florestas adjacentes, e constituíam real ameaça para os brancos, pois os atacavam de surpresa à noite para tomar suas provisões, armas e utensílios. Apanhou então do armário a espingarda do marido, armou-a com um cartucho de pólvora e mirou para o telhado. Lentamente as grandes telhas portuguesas foram sendo retiradas uma a uma, cuidadosamente, e um rosto surgiu naquele vão obscurecido pela parca e trêmula luz de vela que alumiava o cômodo. Decidida Helga colocou o dedo no gatilho e quando ia apertá-lo ouviu uma voz conhecida chamando:
– Helga, Helga, sou eu, o teu Max …….
A tempo ela baixou a arma, o coração aos pulos e disparou a falar:
– Mas o que fazes aí, no telhado. Por que não me chamastes? ‘tais maluco Max? Bebestes?
– Não mulher. Fiquei com pena de te acordar em uma hora tão avançada da noite então resolvi entrar pelo telhado. Desculpa. – Retrucou, também com o coração acelerado.
– Que susto, Max. Não faz mais isto, pois uma noite destas acabas tomando chumbo! 

E assim o meu marido se safou de uma boa dose de chumbo no focinho, disse-me sorrindo. Ri um bocado de sua inusitada aventura.
Seu olhar tornou-se então mais sério.
– Mas um dia vieram os gaúchos. Falou com voz rouca. Seguiu-se um longo silêncio. Era no período da revolução federalista. Em 1891, o vice-presidente Floriano Peixoto assumira o poder da jovem República, uma vez que o Marechal Deodoro fora deposto. Como não pretendia convocar novas eleições, segundo narrativa de Sílvio Coelho dos Santos em sua Nova História de Santa Catarina (1995), “Os ânimos se acirraram em diversos pontos do Brasil”. Como já era de praxe o Rio Grande do Sul gerou um movimento armado “com objetivo de hostilizar o governo da República e, se possível, promover a separação do sul do Brasil”. Em 1893 eclodiu a Revolução. Assim tão vizinha, Santa Catarina foi logo contaminada com as ousadas ideias separatistas dos destemidos gaúchos. Logo os então denominados maragatos, separatistas, enfrentaram os governistas, pica-paus, em várias frentes e progressivamente se infiltraram entre os catarinenses arregimentando assim seus simpatizantes. Consta na história que em 1894 grandes atrocidades foram cometidas na Fortaleza da Ilha de Anhatomirim. Muitos catarinenses identificados como maragatos foram ali fuzilados sem que tivessem direito sequer a um prévio julgamento. Mas também violências foram praticadas pelos separatistas. “As facções de luta praticaram toda a sorte de atrocidades… A “sangra” e o fuzilamento de prisioneiros foram comuns de parte a parte.” detalha Santos em seu livro tão revelador. Para sacramentar a vitória, neste mesmo ano de 1994 Nossa Senhora do Desterro foi oficialmente rebatizada para Florianópolis. Muitos descendentes das famílias afetadas pelas mortes se sentem revoltados até hoje por este arrogante golpe contra os injustiçados Ilhéus.

Assim em meados de 1893 já corriam os boatos da chegada de tropas do Rio Grande para tomar Laguna. Na primeira vez chegaram na fazenda para roubar o gado. Poucas e preciosas vacas. Levaram todas. Max, revoltado, encheu-se de coragem e foi reclamar esta injustiça junto ao comandante da tropa. Ódios e sentimentos de vingança se criaram diante desta ousadia contra tão orgulhosos e prepotentes federalistas. Então eles voltaram para buscar o cavalo. Max vira-os chegar ao longe, montando seus cavalos brilhantes de suor, identidade traída pelo lenço no pescoço, pela bombacha e chapéu. Sabia de sua coragem, ousadia e determinação. Correu para dentro de casa e mandou que as escravas fugissem com as crianças para o mato. Naquele tempo os portugueses costumavam ter escravas para os trabalhos domésticos. Já os alemães quando as contratavam tornavam-nas libertas, pois não admitiam o tratamento que lhes era conferido pelos lusitanos. Com sua arma em punho, Max recebeu os gaúchos à bala! Lutou valentemente. Vendo-se então acuado pela inegável supremacia dos invasores, refugiou-se na casinha. Era assim que chamavam o banheiro, pequena casa de madeira construída a pouca distância da casa, bastante reforçada, onde tão simplesmente uma tábua com dois buracos redondos, um maior e outro menor ofereciam certo conforto para as necessidades dos adultos e das crianças. Helga, que esperava mais um filho, escondida na casa, acompanhava apavorada os acontecimentos espiando pela janela.

Raivosos os homens se aproximaram daquela solitária edificação e, não conseguindo abrir a porta, passaram a enfiar por todos os lados através das largas frestas suas afiadas espadas. Gritos de ódio e dor ressoaram por aquelas encostas por longos minutos. Logo a porta se abriu e Max deu alguns passos cambaleantes tentando estancar com a mão o sangue que saltava de várias chagas abertas no peito. Helga, aterrorizada, perdeu o medo, aproximou-se correndo, e rasgando desesperada sua anágua branca de sob sua longa saia, tentava fazer tampões para conter o sangue do marido que jorrava sem parar. Vendo-o ali caído, tão miserável e mortalmente ferido, ainda não se deram os federalistas por satisfeitos. Carregaram-no para dentro da casa, levando junto, à força, a indefesa Helga. Deitaram o corpo já inerte sobre a grande mesa de jantar, e aos olhos estarrecidos de sua mulher o esquartejaram meticulosamente. Cortaram-lhe os membros, um a um, com incontido júbilo, e ao final abriram-lhe a braguilha e cortaram suas partes e as lançaram com a espada aos pés de Helga. Então, satisfeitos, laçaram o cobiçado cavalo e retiraram-se orgulhosos com largas gargalhadas e comentários de escárnio, deixando para trás uma tragédia imensurável e totalmente sem sentido.

Helga perdeu seu marido. Perdeu também do ventre o filho. Ficou ali inerte e perdida. Até perder também os sentidos. Contou-me os pormenores, a velha senhora, coisas que naquela época, por tabu, não se revelava nem aos adultos, muito menos para jovens como eu. Fiquei paralisada também. E orgulhosa ao mesmo tempo.

Helga, vendo-me ainda assim tão menina, confiara em minha compreensão, juízo de valor e sabedoria. Precisava que alguém registrasse aquele drama para a posteridade. Pois a história haveria por certo de omitir estes atos sombrios e seus detalhes, para enaltecer a coragem e hombridade dos pica-paus e maragatos e suas ditas nobres causas. Revoluções e guerras, o que trazem de bom? Ideologias traçadas por estrategistas cultos, fanáticos e distantes são forjadas com violência e sangue pelos pobres mortais, escravizados por lavagem cerebral e condenados a atos selvagens e depois relegados ao esquecimento ou, quando muito, mascarados por condecorações póstumas. Pois fiquem sabendo os contadores da história do Brasil. A Revolução Federalista teve momentos de crueldade gratuita e desenfreada. Que conste nos autos a triste saga de Helga.

Como não desvendar o terrível que há nos homens?

Eis o grito incontido de Érico Max.

Sozinha com os filhos naquela terra que lhe parecia agora vazia de sentido, Helga mandou avisar sua família em Blumenau. E, desconsolada, subiu a bordo de um navio com seus amados filhos, deixando para trás a Laguna, manchada de sangue e de lágrimas. Em Blumenau foi acolhida com carinho e protegida pela grande família. Beneficiada que foi pela ação inexorável do tempo, pela sua grande religiosidade e amorosidade e, também pela sua generosa saúde, Helga criou seus filhos e voltou a cantar e tocar as melodias de sua época. Já idosa foi morar com seu filho Roberto. Helga faleceu aos noventa e quatro anos, quando eu tinha apenas catorze, idade em que ela própria se casara. Foi a primeira morte na família que presenciei. Ainda sinto grande amor pela Ur-Omama. Doce, sofrida e sábia senhora do seu destino. Tão longe no tempo tento ainda desvendar o indecifrável da mente da velha senhora, mas já concluíra meu louro primo:

E os homens são anjos
que para sempre não se conhecem.

Anotações para o casamento feliz

Anotações para o casamento feliz
Diomário Queiroz, agenda de 2006

1.- Amar e respeitar um ao outro. O amor é um estado de equilíbrio dinâmico entre coração e razão a ser preservado todos os dias. É o desrespeito que mata o amor.

2.- Aceitar um ao outro como ele é, valorizando as diferenças. Quando as alternativas culturais conflitam, optar pelas que devam prevalecer na educação dos filhos e para a felicidade do casal. Sempre que possível somar as tradições familiares.

3.- Ser fiel aos princípios e valores fundamentais, como honestidade, bondade de coração, perseverança e paciência, a começar na relação entre os cônjuges e com os familiares, filhos e netos, mesmo nas pequenas coisas do cotidiano. Manter permanente clima de confiança mútua, evitando o ciúme exagerado.

4.- Trabalhar é fundamental, mas é a quarta prioridade da vida, depois de Deus, família e saúde. Buscar sempre a presença nos momentos importantes do cônjuge e dos filhos, para comemoração, apoio ou consolo. É a contrapartida das ausências impostas no dia a dia das pessoas.

5.- Manter a felicidade na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Agir em apoio ao cônjuge nas horas de dificuldade, evitando entrarem os dois em crise ao mesmo tempo. Algumas vezes é necessário superar-se para assegurar esse apoio.

6.- Cultivar o prazer de dormir juntos, como uma das melhores coisas do casamento. É o momento da comunhão do casal, de compartilhar sonhos, da confidencialidade, do abraço, da sexualidade em seu sentido amplo, que não se limita ao ato sexual, mas inclui a vigília amorosa do cônjuge.

7.- Criar permanentemente bons momentos de recordação pois proporcionam confiança em relação ao futuro. Quebrar a rotina para vivências especiais do casal ajuda a projetar a felicidade!

8.- Celebrar os bons momentos com alegria e neles se afirmar para enfrentar os maus momentos que virão inevitavelmente. Todas as pessoas têm problemas. Mas não há problemas que resistam ao bom enfrentamento conjunto.

9.- Manter transparência na comunicação. Falar sobre os seus sentimentos. Deixar claro o que quer e o que não quer, o que gosta e o que não gosta, o que espera do outro e o que se propõe a fazer. Dialogar sempre e sonhar juntos, com cumplicidade e convergência nas decisões e ações do casal.

10.- Respeitar a vida profissional do cônjuge. Aceitar que tenha seu espaço próprio de realização pessoal e profissional, com o apoio e a admiração da família.

11.- Viver em comunhão de bens, mesmo quando casados legalmente pelo regime de separação de bens. Assegurar a autonomia financeira de cada cônjuge, convergindo, porém, na direção de um planejamento financeiro com as principais prioridades acordadas em conjunto, sem as pequenas continhas diárias de débito e crédito.

12.- Ser generoso um com o outro. Ter prazer em ver o outro cônjuge realizado e surpreendê-lo com pequenos gestos, presentes, quebras de rotina e palavras amorosas, que reforcem sua felicidade.

13.- Educar os filhos com amor, respeito à sua identidade pessoal e responsabilidade de pai e mãe. Nunca deve o casal brigar diante dos filhos nem disputar o seu amor! Eles amam pai e mãe e por ambos são amados, naturalmente.

14.- Viver em harmonia com a grande família e com um grupo seleto de amigos. Recebê-los com alegria e festa, mas também com respeito e sem perda da intimidade e da independência do casal.

15.- Celebrar a presença de Deus na família, a dimensão espiritual do cotidiano, a leitura da Bíblia, a prática da oração e dos ritos, as ações de graça pelos milagres da vida!