Discurso de renúncia sapiens parque

Discurso de renúncia de Antônio Diomário de Queiroz ao Conselho de Administração da Sapiens Parque S/A.
Florianópolis, 19 de agosto de 2016.
(…)¹
A relação com a administração anterior da Universidade tomou o rumo desejado e se acertou o convênio existente entre as instituições e a retomada dos investimentos da Universidade no Sapiens Parque. Inclusive a minha presença neste Conselho era para segurar o lugar para a presença do Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, já que a Reitora Roselane não aceitava essa ideia por se sentir legalmente impedida.
Está ocorrendo hoje o fato inverso ao do momento de minha entrada: a Universidade está procurando com vários projetos a presença no Sapiens Parque, e, em função desta delicada situação financeira, não tenho conseguido sequer dar as condições para a entrada desses novos projetos da Universidade. Assim, também, ao projeto de saneamento do Rio do Braz e de toda a macro bacia do Norte da Ilha com propostas de pesquisadores do Rio Grande do Sul avalizadas pelos pesquisadores da Universidade Federal de Santa Catarina que, estou convencido e plenamente convencido, apresentam alternativas para solucionar todos esses problemas ambientais, inclusive os de Santo Antônio de Lisboa que tem toda rede de saneamento e esgoto construída há mais de 10 anos sem solução porque as subestações tradicionais não oferecem soluções que possam ser aceitas pela população local. (…)²
De outro lado, tenho participado do empenho extraordinário liderado pelo nosso Presidente Saulo para solucionar as necessidades de financiamento do Sapiens Parque, de sua luta para o convencimento de que havia realmente um compromisso de integralização de capital por parte do Estado, que inicialmente era negado, cuja integralização jamais ocorreu.
O empenho do Secretário Murilo Flores viabilizou ao Sapiens 3,5 milhões de reais ao final do ano passado com recursos oriundos de sua própria Secretaria, mas desse total recebemos apenas 1 milhão e duzentos mil e o restante dos recursos se perdeu em áreas que não são aquelas das necessidades da Ciência e Tecnologia e especificamente as do Sapiens Parque. Se aquele dinheiro houvesse sido liberado integralmente não estaríamos hoje nesta condição.
De outro lado, impulsionados pela necessidade, nossos diretores, liderados pelo Fiates, abriram dois processos de venda de terrenos através de licitação pública, que a crise do país inviabiliza. Embora houvesse interesse dos empresários, a crise tira a tranquilidade para novos investimentos imobiliários no Sapiens Parque.
A terceira licitação, que está sendo trabalhada em novo edital, mesmo que venha a ter sucesso, não conseguirá resolver os problemas de curto prazo para a sobrevivência da própria instituição.
A Fundação CERTI é que normalmente nos salvava dessas necessidades de curto prazo. Até hoje, todos sabem que a Fundação CERTI antecipava os recursos na esperança de um retorno que não teve. Por outro lado, com a situação crítica do país, e sendo membro do Conselho Consultivo da Fundação CERTI, tenho acompanhado o esforço extraordinário liderado pelo Prof. Schneider, e agora pelo Dr. Fiates, para superar a condição de crise e garantir a continuidade da própria instituição inclusive a direção do Sapiens Parque e os investimentos da Fundação CERTI. Mas efetivamente, ou a CERTI sobrevive ou socorre o Sapiens Parque. A própria sobrevivência e sucesso da Fundação CERTI é fundamental para o sucesso e o futuro do Sapiens Parque.
Outra fonte que nos socorria no curto prazo, em vários momentos e de forma extraordinária, era a FAPESC! E acontece que a FAPESC hoje não tem como apoiar projetos de 50 ou 100 mil reais que seja, porque está se cometendo um crime contra o futuro do nosso Estado e o futuro da nossa cidade por não se viabilizar o compromisso constitucional da Lei da Inovação de aplicar os 2% das receitas liquidas do Estado na área de Ciência, Tecnologia e Inovação para o desenvolvimento sustentável de Santa Catarina. Ao contrário, os orçamentos da FAPESC chegaram a um nível crítico. Por ter sido Presidente da FAPESC por vários anos, sei que jamais alcançamos tão baixo volume de recursos durante toda nossa gestão. É outra fonte alternativa de financiamento que se esvaiu!
Ciente dessas dificuldades, como membro da Diretoria do Sapiens e deste Conselho de Administração, e percebendo o esforço do Presidente Saulo de liderar uma alternativa de solução junto ao Estado, e também as frustrações das promessas não cumpridas, tive o cuidado de alertar o Presidente da Federação das Indústrias, o amigo Glauco Corte, sobre a importância que tem o setor empresarial para salvar os investimentos no Sapiens Parque, pois vem inclusive antecipando recursos, como os alocados pela Softplan, para viabilizar a sua decisão de ali se instalar, destacando-se a decisão da Federação das Indústrias de implantação do Instituto de Inovação em Sistemas Embarcados e a Escola do Futuro do SENAI. Alertei o Presidente da Fiesc, nosso amigo Glauco, sobre a crise orçamentária e grave por que passava o nosso empreendimento.
Também por ocasião da posse da nova Presidência do Conselho Estadual de Educação, em reunião presidida pelo Vice-Governador Eduardo Pinho Moreira, ao final tive uma conversa com ele, alertando-o que a situação era de fato grave e urgente, o que estava levando ao Saulo e a todos ao esgotamento. Nesse momento informei-lhe que eu estava prestes a viajar para a França por um mês e apelei que tomasse as iniciativas a favor do Sapiens Parque, prevenindo que se não fosse encontrada uma solução para o problema até o retorno de minha viagem eu me sentiria obrigado a me afastar da direção do empreendimento.
Ora, durante a viagem à França recebi a grata informação de que houve até a marcação de uma audiência e visita ao Sapiens Parque do Vice-Governador, ocorrendo, porém, que a mesma foi suspensa. Mas voltando da viagem tivemos a última reunião deste Conselho onde este empresário em quem tenho confiança e ao qual dedico profunda admiração, o Costinha, apresentou uma solução para o Sapiens Parque a se realizar em três momentos: 1.- liberação imediata de R$ 200.000,00 para pagar os débitos com impostos; 2.- uma segunda parcela para sanar os compromissos financeiros de curto prazo; 3.- um processo de capitalização que daria condições ao Sapiens de superar seus compromissos deste ano. Aí me senti contemplado. O meu sentimento ao término daquela reunião foi de total satisfação, alívio e confiança na proposta aprovada.
De repente, ouço a notícia de que o Governo do Estado retirou R$ 120 milhões das reservas da SCPar, ou seja, praticamente inviabilizou a solução acordada! Senti na conversa anterior a esta reunião com nosso amigo Costinha que ele continua tentando viabilizar uma solução para a proposta aprovada na reunião passada, sem encontrar os meios.
Daí voltei à conversa com o Vice-Governador. Não sou homem de ameaçar. Não sou homem de dizer “vou fazer” e não faço! Havia alertado que se não houvesse uma solução eu deixaria a Direção do Sapiens Parque e a participação neste Conselho. Isto simplesmente porque não sinto apoio, nem consideração, nem respeito, nem uma relação de boa vontade com os projetos do Sapiens Parque. Sinto-me impotente para atender aos professores e pesquisadores da Universidade que propõem projetos e programas de pesquisa e saneamento e, inclusive, para atender aos reclames justos dos empresários que estão “fazendo das tripas o coração” para poder honrar os seus compromissos.
Não perco, porém, em nenhum momento, a crença firme no Sapiens Parque. É realmente o futuro de Santa Catarina, é um projeto de sucesso que precisa acontecer! Abandonei interesses de meus filhos para atender aos interesses do Sapiens Parque porque eu dizia a eles que estava trabalhando para o bem dos seus filhos, meus netos. E que aqui estavam sendo criados milhares de empregos para a juventude do Estado de Santa Catarina, pois tínhamos um projeto de futuro. Sacrificava o curto prazo da minha família para não sacrificar o futuro das outras famílias! Era este o argumento que me motivava! De repente estou sem argumentos junto à família…
O custo de oportunidade se torna muito grande! Então estou solicitando a demissão deste Conselho, assim como fiz ontem o pedido de afastamento da Direção do Sapiens Parque.
Comunico, no entanto, que este é um ato de apoio ao Sapiens Parque! Espero que, efetivamente, este ato ajude a despertar e a reafirmar a consciência dos governantes de Santa Catarina, da Prefeitura Municipal e do país, de que o único caminho certo para o desenvolvimento do Brasil é a Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação, mas que esta prioridade tem que ser consubstanciada e efetivada por orçamentos dignos, pelo compromisso de realizá-los, e não por falsas promessas que matam o entusiasmo.
Que os compromissos do governo sejam honrados: que se cumpra o dispositivo constitucional com a Ciência, Tecnologia e Inovação, que se viabilize a FAPESC, que se viabilizem os empreendimentos do Sapiens Parque; que se reforce a SCPar, entidade que faz os empreendimentos avançados do Estado!
Em síntese, o meu apelo ao fazer este gesto de renúncia a este cargo – que espero venha a ser ocupado pelo atual Reitor da UFSC, que manifestou esta disposição, porque o estava guardando para ele – é que os nossos governantes retomem o compromisso com o futuro do país, com a clareza de que o futuro melhor se constrói pelo caminho da Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação.
Enquanto as prioridades forem somente para o passado, para tapar os buracos das estradas do passado, para curar os males da saúde e da pobreza do passado, e não se der uma efetiva prioridade ao futuro, não poderemos ser o país que queremos ser!
Enquanto as despesas da burocracia consumirem os orçamentos, se avolumem e retardem todos os processos decisórios de construção do futuro, não seremos o país que tanto sonhamos!
Gostaria que este Conselho compreendesse que meu gesto de renúncia não é um gesto de fuga de responsabilidades, mesmo tendo-se chegado ao ponto de já estarmos respondendo no Sapiens Parque a processos junto ao TCE por não pagar impostos em dia. E a única razão para não pagar os impostos em dia é porque não recebemos em dia os recursos do Governo do Estado… Estas situações paradoxais põem em risco a própria credibilidade e condição bancária dos diretores do Sapiens Parque! Como continuar voluntário sendo tão maltratado? Como continuar sendo voluntário e tão maltratado, vindo isso ainda em prejuízo da família? Esta é a razão da renúncia!
Faria ainda um apelo ao amigo Costinha, encerrando minhas palavras, para que faça um esforço complementar para viabilizar aquela solução para o Sapiens Parque aprovada pelo Conselho de Administração, e que transmita ao Governador, ao Vice-Governador, ao Secretário Gavazzoni, aos outros membros do governo do Estado, a notícia desta renúncia, que vai junto com um apelo de solução que assegure o futuro deste empreendimento que se desenha de uma forma extraordinária!
Então me retiro com os agradecimentos a todos por me terem tolerado durante todo o período de gestão.

Antônio Diomário de Queiroz.

Texto salvo com base em gravação de José Eduardo Fiates.
( )¹ Não foi gravada a saudação inicial do discurso, relembrando minha posse na Direção do Sapiens Parque para exercer e intensificar a interface entre o Sapiens Parque e a UFSC.
( )² Segue trecho inaudível na gravação.