CRÔNICA DA ITÁLIA 1 – EMILIA ROMAGNA E SAN MARINO

CRÔNICA DA ITÁLIA 1 – EMILIA ROMAGNA E SAN MARINO

 Queridos amigos,

Motivados pelo curso de italiano com a Professora Neusa Piva em Florianópolis, no Centro di Cultura Italiana, programamos viajar à Itália por três meses para melhorar o aprendizado desta língua.

Chegamos a Milão no dia 20 de abril, no Aeroporto de Malpensa, onde nos aguardava o agente da Renault com o carro Megane-Berline diesel e automático, 0 km, com GPS, adquirido com cláusula de revenda ao final da viagem, e nele seguimos diretamente para Reggio nell’Emilia, reconhecida pela Unesco como cidade modelo na área educacional, realizando um dos sonhos de Rosa que era conhecê-la. A cidade é um brinco de beleza, história e organização. Proporcionou-nos a primeira excelente impressão da Itália. Visitamos o bonito centro histórico e fizemos nossa primeira excelente refeição na cucina típica emiliana da Taverna dell´ Áquila.

No dia seguinte, visitamos Bolonha, a caminho de San Marino.

Bologna foi uma bela surpresa! O centro histórico é todo construído em cor e estilo próprios com arcos de passeio centenários. As due torri de asini (duas torres de burros), chamadas assim como crítica aos ricos senhores que disputaram o poder pela construção da torre mais alta junto às suas casas, mostram como é efêmera a vaidade humana. No ristorante Grassilli fizemos outra ótima refeição e tomamos excelente vinho: sangiovese riserva privata 2007.

Na Republica de San Marino, chegamos ao anoitecer. Estamos hospedados no Hotel Rosa dentro das muralhas da cidade, localizado na parte mais alta, a 750 m de altitude, próximo das fortalezas e torres de proteção construídas na idade média. É um lugar lindo para celebrar a Páscoa e amanhã iremos à missa na Chiesetta di San Pietro anexa à Basílica de San Marino. Hoje visitamos as três torres que formam um conjunto defensivo arquitetônico incrível e nos dão uma ideia muito precisa das condições de vida dos séculos passados. Como é bom viver nos dias de hoje! O centro antigo de casas e monumentos se parece com Assis. A comida é excelente e estamos bebendo o sangiovese produzido pelos 20.000 habitantes desta mais antiga república do mundo em seu território de apenas 61 km².

A escolha do carro Renault foi um acerto. Temos a placa francesa BL 469 WW e é bem cômodo e econômico. Para terem uma ideia precisa, enchemos o tanque de diesel por 77 Euros, já percorremos 470 quilômetros e ainda não consumimos sequer a metade do combustível.

O clima de montanha é agradável embora um pouco frio. Os italianos estão sendo muito gentis e temos falado o tempo todo. Se continuar assim, mais as leituras e as aulas que estão programadas, vamos mesmo voltar falando a língua italiana, tão importante para nossa formação cultural brasileira.

Abraços, Diomário Queiroz

San Marino, 20 de abril de 2011.

CRÔNICA DA ITÁLIA 2 – ABRUZZO

CRÔNICA DA ITÁLIA 2 – ABRUZZO

 Queridos amigos,

 Ontem saímos de San Marino, passando por Ravena, Rimini, Pesaro, Ancona. Cittanova, Marche, San Benedetto del Tronto, Pescara, Chietti e Torre dei Passeri, onde entramos para Pietronico, vilarejo medieval, chegando à noite por pequenas estradas do interior na Ripalda Agroturismo. É uma típica casa de campo pertencente a um casal de agricultores muito simpático, Alfonso e Biancarosa que aí vivem com sua filha Chiara. A recepção foi excepcionalmente gentil: a senhora Biancarosa nos preparou excelente comida caseira, acompanhada com agradável vinho de produção própria, mesmo sendo tarde da noite, que jantamos em companhia da família.

 Na manhã seguinte fomos a Aquila, cidade antiga, construída pelo Rei de Nápoles Frederico II. para dar apoio às Cruzadas. Esta cidade templária passa por ampla reconstrução depois de sofrer intenso terremoto em 2009. A maioria dos locais estava ainda sem visitação, mas valeu insistir em conhecê-la. Era uma das curiosidades do roteiro. Fomos pelo caminho dos bosques de reserva nacional, paisagem lindíssima, entre as montanhas e vales com os vilarejos incrustados nas pedras das montanhas e bem no alto. Retornamos pelo caminho mais curto e igualmente belo com árvores floridas, cidadelas, campos e plantações. A temperatura hoje está em 5 graus. Amanhã visitaremos a propriedade da família, o cultivo das oliveiras, da uva, as galinhas, o gado…

No outro dia, após amigável despedida quando Alfonso nos presenteou com seu vinho de qualidade superior, partimos em direção a San Giovani Rotondo. Aproveitando o roteiro, visitamos Sulmona, a antiga e acolhedora cidade dos confetti, pequenos doces coloridos muito lindos. São obras de arte!. Acompanhamos uma manifestação comemorativa do dia da independência da cidade. Banda, cavalaria, povo, polícia desfilando atrás da banda, bem interessante. Passeamos um pouco e continuamos rumo a Fogia onde paramos para ver um monumento de Federico II. Mas boa parte da cidade histórica foi destruída pelos americanos durante a Segunda Guerra Mundial, tendo também sofrido com o terremoto de 2009.

Chegamos em San Giovani Rotondo. Fica no alto de uma montanha. As ruas têm nome de santo. O Hotel Santa Crocce, no qual nos hospedamos, situa-se a 2 km do famoso santuário do Pe Pio onde fomos à missa. Visitamos a igreja original da época em que viveu o Pe. Pio e a nova catedral imensa, construída para abrigar sua tumba e acolher a multidão de peregrinos. É emocionante o caminho que conduz até a capela onde está depositado o corpo de.San Pio, repleta de obras de arte em mosaico com as ilustrações douradas da vida e sonhos do Santo. É indescritível a emoção que se sente ao entrar no local. Ao lado impressiona também muito o enorme hospital construído para atender aos feridos da Segunda Guerra mundial e que continua prestando solidário atendimento à saúde da população necessitada.

No dia seguinte, fizemos um passeio até o Monte Santo Angelo, no qual existe uma gruta onde, segundo a tradição, apareceu o anjo San Michelle e que se tornou, desde a idade média, um centro de peregrinação. Subimos uma estradinha mais tortuosa do que a do Rio do Rastro para chegar na vila histórica construída nas rochas calcáreas do cume do monte totalmente tomado por espessa serração. A visita à Grota de San Michelle valeu. Participamos da procissão de um grupo de peregrinos italianos, cantando com eles, em cada um dos 80 degraus de descida até a imagem do anjo, o refrão facilmente aprendido: Viva San Michelle sull l’altare maggiore e ci guarda com gli occhi d’amore. Mi guarda San Michelle e con la spada in mano ci defendera. Ci guarda San Michelle. Após as orações, compramos produtos típicos numa linda loja. Rosa se encantou com as sopas tradicionais em porções compostas para cozinhar le zuppe della nonna, della primavera, dei contadini

Do percurso destaco também a visita que fizemos ao Castel del Monte, o mais extraordinário castelo dentre os 68 construídos na Puglia pelo Rei Federico II no século XII. Tem a forma de um poliedro octogonal com o pátio central em círculo e com diversos símbolos místicos representados em sua concepção. Comprei o livro “Il mistico Federico II”, obviamente em italiano, estou quase terminando sua leitura e conhecendo a vida desse famoso rei que foi Imperador do Império Sacro Romano, Rei da Sicília, Rei da Germânia, Rei de Jerusalém. E quando converso com as pessoas e indago sobre a vida de Federico II demonstrando algum conhecimento sobre suas obras e façanhas, a simpatia logo se estabelece, pois foi um rei muito amado, conhecido como o filho da Puglia, Puer Pugliae.

Finalmente, após breve visita à cidade de Bari onde almoçamos delicioso peixe, chegamos à pequena Mola de Bari, nosso principal destino. Na Scuola La Giara fomos recepcionados calorosamente pelo Professore Giovanni que nos instalou em uma linda casa antiga de dois andares, sacadas na cobertura e um típico porão, na qual viveremos por um mês à moda italiana.

Abraços, Diomário Queiroz

Mola de Bari, 2 de maio de 2011.

CRÔNICA DA ITÁLIA 3 – PUGLIA

 CRÔNICA DA ITÁLIA 3 – PUGLIA

 Queridos amigos,

 Hoje à tarde Rosa está aprendendo a fazer bonecas para as netas, começando por uma bonequinha italiana para a Ana Clara, e, com os e-mails em dia, tenho tempo para lhes contar alguma coisa a mais da Itália.

Do curso de italiano na Scuola Giara, gosto sobretudo das aulas de conversação no café da praça pública ou em visita a pontos culturais de Mola de Bari. Pela manhã, por exemplo, visitamos um velho poço medieval de água e que servia também de “geladeira” para os moradores, conhecemos um colono fabricante de excelente vinho caseiro (comprei quatro litros a 2 € cada) e ainda visitamos a casa antiga onde mora o Professore Gianni que nos explicou suas origens paisanas. Num dos dias da semana passada fomos visitar a barca do esposo pescador da Professora Ana Rita o qual nos falou da pesca, nos mostrou suas redes que estava consertando, nos falou das dificuldades da vida de pescador, semelhantes às que ocorrem no Brasil. Numa tarde, o professor nos levou a visitar o sítio arqueológico de Egnazia, con trenta secoli di storia, situado a poucos quilômetros daqui, e que apresenta túmulos e outros achados arqueológicos que datam desde a idade de bronze, século 16 antes de Cristo, alguns deles expostos no museu local que visitamos.

Da vida artística, adorei o Concerto Lirico “Ripercorrendo Napoli”, num lindo Palazzo de Mola, cantado por um tenore e duas sopranos acompanhados de piano e violino com a apresentação de tradicionais músicas napolitanas também muito cantadas no Brasil. A apresentação foi no domingo, dia das mães, e abriram com “Mamma” (sono tanto felice), seguiram com Funiculi, Funicula, Torna a Surriento, Non ti scordar di me, e tantas outras que ouvia a Dona Vitoria, Dona Dione e outros cantarem na SCAJHO em Joaçaba. Lembrei-me muito do Alexandre e Melissa que cantam tão bem como os italianos.

Agora, algumas recordações de nosso último final de semana. Realizamos um dos nossos sonhos de viagem, a visita aos truli de Alberobello, construções medievais cônicas, em pedras sobrepostas, de casas, igrejas, prédios públicos, das quais se preservam na região alguns milhares como patrimônio da humanidade. Alugamos um trulo (por 50 €) onde dormimos no sábado. Fomos recebidos pela simpática e gentil Dona Nella, com seus 90 anos, que nos falou emocionada de toda sua vida, feliz com nossa atenção à sua narrativa. Só em Alberobello existem 6000 truli, um mais lindo do que o outro. Visitamos a cidadezinha com a boca aberta de admiração. Numa casa comercial recomendada pelo professore Gianni, Dona Maria Concetta nos ofereceu para degustar vários produtos típicos. Compramos um Vinho 0 (zero) especial, enormes azeitonas, formaggi, figos secos, pane, laranjas de umbigo e outras especiarias locais com o que fizemos um jantar  inesquecível no trulo. Rosa não resistiu e comprou 4 tipos de macarrão colorido (5€ por 4 kg) e ontem nos preparou o primeiro almoço feito por ela em casa, excelente.

Antes de chegar a Alberobello, visitamos Monopolis, linda cidadezinha medieval junto ao mar, com suas ruelas e embarcações nas águas límpidas e frias do Mar Adriático. Compramos de um artesão um pequeno barco italiano para a coleção dos netos. Almoçamos, muito bem, numa taberna de peixes. Escolhemos na entrada, fresquinhos, os peixes prateados que saboreamos, preparados para Rosa ao forno com azeitonas, e para mim frito ainda com escamas como é o uso local. Na mesa ao lado almoçava um casal italiano com seu filho que selecionava as músicas tocadas e logo entramos num  bate papo legal. A senhora era apaixonada por Federico II e ao final nos convidou para visitar sua biblioteca de livros sobre o rei. Passou para Rosa por escrito a receita do licor de mandarino que nos ofereceram como gentileza para completar o almoço. O cameriere (garçon), que também se empolgou com as estórias de Federico II, ofereceu-me de presente uma garrafa do vinho reserva 2004 No rótulo, o infante apresenta a história da construção do pequeno castelo onde se encontra a vinha de origem das uvas utilizadas em sua produçao. O casal e seu filho, parlando, parlando, nos acompanharam até o carro , três quadras adiante, para as despedidas!

No retorno a Mola de Bari, visitamos ainda duas lindíssimas regiões medievais: Locorotondo e Martina Franca. Tomamos o café da manhã em Locorotondo (local redondo), cidadezinha construída em forma de círculo e totalmente preservada, também sobre a montanha. E almoçamos numa trattoria típica de Martina Franca, com suas construções barrocas, onde se realiza um dos festivais da associação europeia de música. Essas cidadezinhas têm igrejas e palazzos em cada quadra, com obras de arte sacras belíssimas. Só neste final de semana visitamos quase 15 igrejas, e participamos da missa de corpo presente da defunta Dona Maria Letizia, comungando junto aos familiares.

Abraços, Diomário Queiroz.

Mola de Bari, 6 de maio de 2011.

CRÔNICA DA ITÁLIA 4 – PUGLIA

CRÔNICA DA ITÁLIA 4 – PUGLIA

Queridos amigos,

Tendo encerrado hoje a segunda semana do curso de italiano, falarei um pouco mais das impressões e destaques desta viagem.

Quanto à comida, como já salientei anteriormente, aqui se mangia maravilhosamente bem. As massas são deliciosas, de todas as formas, de todos os sabores, com os mais variados molhos e condimentos. Das verduras e legumes, como diariamente os melhores tomates do mundo, adoro os finocchi (espécie de funcho) que conheci agora, com saladas de alface e radicchio roxo, com azeitonas enormes e alcachofras tenras. Frutos do mar e peixes servem com variedade e abundância, mas me encantei com o polvo e le seppie, espécie grande de calamare, parente das lulas. Das frutas, a doçura do melão é incrível, mas as maçãs perdem para as nossas, e o maior prazer nos proporcionam as cerejas que começaram a chegar da espécie belles de maggio; a cada dia aumentam de quantidade e tamanho e diminuem o preço. Da qualidade extraordinária do pão e dos queijos e dos salumi não é preciso falar. Das carnes, é frequente o consumo de ovelha e cabrito que gosto muito. Café, prefiro o lungho e o capuccino. À sobremesa, minha preferência são as frutas, embora Rosa se delicie com os doces e sorvetes. E os vinhos, que tomo diariamente para manter a boa saúde, em geral são excelentes, não tendo encontrado até agora nenhum que desse dor de cabeça e que não fosse pelo menos muito bom, inclusive os de colono.

Quanto aos costumes locais, em Mola de Bari sobrevivem algumas peculiaridades da piccola città. No horário das 13,30 às 15:30 horas, a cidadezinha fica deserta, todos almoçam e dormem. Algumas lojas e casas de serviço só reabrem pelas quatro ou cinco horas e fecham às 19:30 ou 20:00 horas. Nas praças locais, inclusive na principal, nel pomeriggio, depois das cinco horas da tarde, quase só passeiam homens, normalmente aposentados, em grupos, falando com alegria. Quando o mais falante tem necessidade de gesticular muito para animar a conversa, o grupo todo para e escuta-o parlare. Enquanto isso as mulheres encontram-se nas igrejas para rezar o rosário ou para conversar (chiacchierare). Pela manhã, Rosa sai olhando pelo lado de fora das casas das vizinhas para fazer a feira pois expõem à venda nas calçadas os produtos da colônia. As donas de casa vestem-se em geral com aventais para proteger-se e são muito simpáticas e curiosas para saber sobre o Brasil.

Quanto à vida no campo, é realmente muito interessante. No vinhedo do professor Gianni, por exemplo, que visitamos na aula de conversação nesta semana, foi preciso primeiro cavar em todo o terreno, com grande máquina, 80 centímetros de pedras calcárias, depois triturá-las com outras máquinas menores, para então, com pouco suplemento de terra e areia, plantar as vinhas que gostam dessas pedras para se enraizarem. O professor falou-nos de todas as tecnologias de plantio, cuidados e colheita. Mas o que me chamou mais a atenção foi o sistema cooperativo organizado para dar apoio ao colono tanto para a implantação do vinhedo quanto para sua colheita e comercialização. A uva que Gianni irá colher e exportar em julho, ele já está vendendo agora e recebendo à vista. Neste aspecto temos também muito a aprender com os italianos. O mesmo sistema vale para verduras e legumes de maior escala, embora convivam ainda pequenos agricultores que vendem em feiras, em caminhões ambulantes e nas calçadas de suas casas, conforme relatado.

Abraços, Diomário Queiroz.

Mola de Bari, 10 de maio de 2011.

CRÔNICA DA ITÁLIA 5 – BASILICATA

CRÔNICA DA ITÁLIA 5 – BASILICATA

 Queridos amigos,

Neste final de semana realizamos mais um dos sonhos que nos fizeram optar pelo Sul da Itália para nossa viagem: conhecemos os sassi di Matera, construções primitivas escavadas nas encostas calcárias da Basilicata, região também conhecida há séculos como Lucania, na qual foi exilado Carlos Levi, médico, pintor e escritor antifascista, penalizado por Mussolini como subversivo político.

A professora Neuza, no curso de italiano de Florianópolis, nos estimulou a ler o livro de Levi “E Cristo si è fermato a Eboli” que o escreveu na cidadezinha interiorana de Aliano onde foi confinado, num local tão isolado que nem Cristo, nem as tropas gregas ou bizantinas, quando invadiram a Lucania, quiseram conhecer. Sua leitura me deixara impressionado com as descrições do drama humano dos colonos que viviam de forma miserável nessas tocas de pedra (sassi) ou em casebres rústicos, com um só ambiente, onde dormiam os membros da família juntamente com suas cabras, seus porcos, galinhas e outros animais, em condições precaríssimas de higiene e saúde. Carlos Levi passou a medicar as pessoas, pintou vários quadros lindíssimos sobre o cotidiano familiar e descreveu as esplêndidas formações calcárias das montanhas locais, de uma agricultura de difícil sobrevivência humana, mas de uma beleza incomum em sua conformação física.

No sábado, Rosa e eu partimos inicialmente em direção de Matera, capuologo de Basilicata. No caminho, seguindo a trilha das obras de Federico II, visitamos em Gioia del Colle o belíssimo castelo que construiu para Bianca Lancia, aquela que mais amou dentre as suas diversas mulheres. Assistimos, por sorte, a uma emocionante interpretação de Bianca Lancia feita por uma jovem, vestida como se fosse a Rainha, que falava de sua vida para um grupo de crianças de cinco e seis anos, que reagiam à narrativa com perguntas e gritos de alegria e admiração. No castelo, além de suas torres singulares, visitamos também a magnífica exposição arqueológica de achados sobre o tema específico da vida das crianças nos tempos pré-históricos da região.

Em Matera, conhecemos um pouco mais da vida de Carlos Levi e belíssimos quadros que doou para o Museo Nazionale d’ Arte Medievale e Moderna della Basilicata, assim como uma coleção preciosa de peças medievais e de achados arqueológicos, como, por exemplo, o tesouro encontrado em 1936 no Monte Sannace, uma jarra com centenas de moedas da época da Magna Grecia, dos séculos VI e VII antes de Cristo. Mas o mais impressionante foram os sassi, aquelas habitações em pedra hoje apenas conservadas para visitação turística. Na praça da cidade, os senhores Matarazzo e Amoroso, que fizeram questão de nos pagar um cafezinho, nos estimularam a partir para Aliano, o que fizemos após o saborosíssimo almoço no Casino del Diavolo, no qual o destaque foram os fungos regionais e os aspargos selváticos.

Para atender a curiosidade do Lafaiete, informo que completamos o tanque de diesel próximo de Aliano, depois de ter rodado mais de 1100 km, pagando 71 €. A cidadezinha fica realmente no fim do mundo, próximo do céu, onde chegamos ao anoitecer, e fomos direto para a Locanda com Gli Occhi, recomendada pelo Nino, dono do posto de combustível onde abastecemos, que telefonara para prevenir sobre nossa chegada. O casal Vincenzo e Rosalia nos aguardava com alegria, nessa linda casa, com duas janelinhas no alto, as quais eram para Carlos Levi os olhos pelos quais as senhoras espiavam, escondidas, a vida das pessoas que frequentavam a pequena praça em frente.

Enquanto preparavam o jantar, pudemos dar uma volta na rua principal da cidadezinha onde estavam os homens a conversar e alguns jovens para os encontros de sábado.

Na sala de jantar, ocuparam as duas mesas ao lado da nossa, Luigi de Lorenzo e sua mulher Rosa em uma delas, ele candidato da Lista N. 2 da eleizione del sindaco e del consiglio Comunale di Aliano, a realizar-se domingo e segunda-feira como em toda Itália; noutra estavam Federico, advogado, e outros cinco cabos eleitorais de Lorenzo, do movimento Aliano Oltre, Cultura, Identità, Futuro. Logo se estabeleceu uma conversação animadíssima, como se fôssemos velhos amigos. Ofereceram-nos o melhor vinho local, comemos alcachofras e tripas à moda da casa, rimos, contamos estórias do Brasil e da Itália até duas horas da manhã. Então Vincenzo nos levou ao pequeno apartamento em que se transformara um daqueles casebres descritos por Carlos Levi. Nele dormimos muito bem (por 40€), e voltamos às 9 horas para tomar o café da manhã na Locanda com gli Occhi. Compramos duas belas cerâmicas e Vincenzo fez questão que aceitássemos a excelente prima collazione como gentileza da casa. Depois de visitarmos o centro histórico e a antiga morada de Levi, retomamos a viagem em direção a Grassano.

Grassano, situada também no pico de uma montanha alta e isolada, é a primeira cidadezinha na qual Levi foi confinado por quase um mês antes de ser levado a Aliano. Subimos e descemos outras montanhas por estradas de muitíssimas curvas, através das florestas de Lata do Parque Nacional dos Apeninos Meridionais. Foi uma nova grande emoção que vivemos. Chegamos à piccola città perto das duas horas quando todos começavam a se recolher para o sono da tarde.

No Bar e Ristorante Nuovo Fiori, só os donos, Rosa, Pepe e o filho Antonio ainda almoçavam. Convidaram-nos a sentar à mesa com eles. Delicadamente nos serviram das mesmas massas deliciosas e da carne de carneiro ao forno que ainda dispunham. Depois de passar pelo centro histórico, descemos a montanha em direção a Mola de Bari, onde tínhamos ainda os deveres de italiano para fazer, dentre eles uma redação “Le miei impressioni su Matera”. Como veem, foram as melhores impressões!

 Abraços, Diomário Queiroz.

Mola de Bari, 17 de maio de 2011.

CRÔNICA DA ITÁLIA 6 – PUGLIA

CRÔNICA DA ITÁLIA 6 – PUGLIA

 Queridos amigos,

 Hoje pela manhã visitamos as Grotte di Castellana, impressionantes cavernas naturais localizadas a apenas 18 km de Mola de Bari. Fizemos o itinerário subterrâneo completo a pé, andando por mais de três km em duas horas, deslumbrados pela beleza das formações rochosas, stalattiti e stalagmiti de várias dimensões, cores e formas. Diversas grutas se formaram a 60, 100 metros de profundidade, conhecidas por nomes sugestivos como, por exemplo, Pequeno Paraíso, Caverna do Altar, Torre de Pisa, Caverna dos Monumentos, Caverna do Precipício, terminando na mais linda de todas, a Gruta Branca, um espetáculo sem igual de pedras de alabastro considerado pelos italianos il più splendente del mondo! A visita é acompanhada por guia especializado, em um percurso de excelente iluminação, calçadas bem feitas, corrimões e pessoal de apoio, o que possibilita a formação de grupos de visitantes de todas as idades. No nosso grupo, havia uma sala de escolares de 9, 10 anos, com suas professoras e alguns pais, todos emocionados com o percurso que passa também pelo Corridoio del Deserto, uma muralha rochosa longa de 450 metros e ainda por uns 500 metros de cavernas mantidas na escuridão para simular o ambiente e o silêncio da profundeza em que trabalhavam os espeleólogos. Penso que nossos netos gostariam de visitar Castellana, porque, além das cavernas, há um Museo Speleologico, um Observatorio Astronomico, um Parque dos Dinossauros e outro de Animais Selvagens, e toda uma programação anual de eventos didáticos para aprendizagem das crianças.

Na semana passada terminamos a primeira fase do aprendizado do italiano e o curso em Mola de Bari. Houve entrega de certificado e convidamos os professores para um jantar, sábado à noite, no restaurante do Nino, localizado no Porto. Para terem uma ideia da fartura do cardápio, à entrada do recinto lê-se a frase “Magna Bene e Caga Forte”, que é o que aconselham os italianos para quem queira ter uma vida longa. E para isso é preciso acompanhar a comida com bom vinho, o que fizemos bebendo 3 jarras do chardonnay local. Presenteamos as pessoas com as joias do Alexandre que agradam muito e são bem elogiadas. Ao Matteo, esposo da Professoressa, que é pescador, demos uma toalhinha com formato de peixe do nosso artesanato da Ilha e ele emocionou-se ao ponto de quase virem as lágrimas. Valeu a comemoração, pois em um pouco mais de um mês na Itália nosso italiano melhorou muito. Sábado fomos ao cinema e não tivemos dificuldades de acompanhar todo o belo filme Il primo incarico, sem legendas. Também  pudemos aproveitar muito bem a aula de conversação organizada como visita à fabrica de óleo de soja Il Poliganese, Olificio Sociale Cooperativo, atentos às explicações do simpático Presidente Stefano sobre o processo de cultura das oliveiras e produção do excelente óleo extra virgem local. Nossa capacidade de compreensão da TV e das leituras também aumentou muitíssimo e falamos o suficiente para animar os papos com as pessoas que são bastante compreensíveis em relação aos muitos erros que ainda cometemos.

Abraços, Diomário Queiroz.

Mola de Bari, 26 de maio de 2011.

CRÔNICA DA ITÁLIA 7 – PUGLIA

CRÔNICA DA ITÁLIA 7 – PUGLIA

 Queridos amigos,

Sábado dia 21, motivado pela leitura do livro I templari a Barletta, fui com Rosa conhecer Barletta, cidade do Mar Adriático, principal porto de partida para Jerusalém na Terra Santa dos peregrinos, cruzados e cavaleiros de diversas ordens, bem como de mantimentos e navios com armadas para dar suporte às diversas cruzadas cristãs. Várias ordens cavalheirescas instalaram-se na cidade, construindo aí suas hospedarias, templos e conventos. Dentre elas, destaco a dos Cavalheiros do Santo Sepulcro, os Gerosolomitânios de Lázaro, os Teutônicos, Os Cavalheiros da Ordem de Malta e os Templários.

O conhecimento da ação dos Templários me motiva muito, pois quando foi extinta sua Ordem na França em 1309, pelo Rei Felipe o Belo, com o apoio do Papa Clemente V, para se apoderar de seus tesouros, alguns deles se refugiaram em Portugal, recebidos pelo Rei Dom Henrique o Navegador. Este os abrigou na Ordem de Cristo, da qual se tornou o Grão Mestre, criou a Escola de Sagres, e com os mapas que os templários trouxeram da África, deu início ao grande período de navegação, que culminou com a “descoberta” do Brasil. Em Urubici, existem vestígios gravados em pedra, que já visitei e fotografei, pois o meu amigo biólogo Helio e alguns outros da região afirmam que as figuras desenhadas testemunham uma das viagens exploratórias de navegação dos templários às costas de Santa Catarina, antes do século 15.

A visita a Barletta foi emocionante. Conhecemos a Basílica do Santo Sepulcro, que guarda relíquias dos templários, trazidas quando eles foram expulsos de Acre (hoje em Israel), último bastião que mantinham na Terra Santa, dentre elas a cruz patriarcal com o lenho da cruz de Jesus, a qual só é exposta em poucas ocasiões. A Igreja é protegida por enorme estátua de um cavaleiro, Il Colosso, de mais de 5 m de altura, abandonada por um navio atingido por tempestade no retorno da IV cruzada em 1208. Assistimos bela missa de casamento na Igreja Catedral de Santa Maria Maggiore, visitamos a Igreja Paroquial de San Leonardo em homenagem ao nosso neto do mesmo nome. Fotografamos para o Rogério a Chiesa de San Ruggero. Visitamos o Castello Normanno-Svevo com a beleza característica dos castelos de Federico II. Passeamos pelo porto e pela cidade histórica e almoçamos num belo restaurante, La Buca dei Tredici, ambiente frequentado na idade média por famosos treze cavaleiros espanhóis. À tarde, voltamos para Mola de Bari e participamos do jantar de conclusão do nosso curso de italiano.

No domingo, viajamos para Lecce, onde ficamos hospedados por dois dias na pensione La Nonnaiole, em excelente apartamento (a 50 €, com café da manhã).

No caminho visitamos Ostuni, a cidade branca, situada no alto da montanha, cercada de grandes e lindas plantações de oliveiras. Da cidade, destaco a visita à Parrochia Maria SS. Assunta nella Chiesa Cattedrale com sua cripta medieval com 92 colunas.

Lecce é esplêndida, conhecida como a “signora del barocco”, com sua arquitetura renascentista presente em igrejas, monumentos, palácios e casas, num conjunto que impressiona. Foi a cidade mais densamente frequentada por turistas dentre as que visitamos nesta viagem. Por economia de tempo não descreverei a Piazza S. Oronzo, com seu anfiteatro romano escavado na rocha calcária, mas recomendo que quando viajarem ao Sul da Itália não deixem de vir nesta que é a capital da região Salento, cujo litoral percorremos no dia seguinte.

Abraços, Diomário Queiroz.

Mola de Bari, 27 de maio de 2011

CRÔNICA DA ITÁLIA 8 – PUGLIA E SALENTO

CRÔNICA DA ITÁLIA 8 – PUGLIA E SALENTO

 Queridos amigos,

 Estando alojados em Lecce, capital del Salento, após termos visitado a feira de produtos coloniais na piazza S.Oronzo, onde degustamos várias especialidades locais, inclusive salumi di asinus, partimos, dia 23, para uma viagem pelas costas marítimas da região.

Seguimos inicialmente para Gallipoli, nosso primeiro contato com o Mare Ionico, sempre optando pelas pequenas estradas do interior. Chegamos num momento em que o mercado de peixes estava com os produtos fresquinhos expostos, e pudemos compará-los com os nossos. Os camarões são de todos os tamanhos (porém o sabor dos nossos é insuperável), as ostras vendidas são nativas, mas os mariscos e os vongoli (berbigãos) brancos e vermelhos mais grados são cultivados. Têm em abundância polvos, lulas e sepias, que temos comido muito, pois são tenros e gostosíssimos. Os peixes são em geral de tamanho pequeno, com exceção do atum, do alto mar. Os pescadores são gente muito boa como em todo o mundo e tinham prazer de serem fotografados por brasileiros.

Após visitar a linda cidadezinha turística e o porto, seguimos ao longo dos costões do litoral até Santa Maria di Leuca, localizada na ponta extrema do taco da bota italiana, onde o Iônico se encontra com o Mar Adriático. Como somos privilegiados em Florianópolis com nossas formosas praias de areias finas e brancas! Aqui, quando existe uma praia de areia de 30 a 50 metros de comprimento, ao lado constroem dois ou três hotéis turísticos e cada centímetro é pago pelo uso e disputadíssimo. Visitamos a piccola e linda Santa Caterina e almoçamos no Restaurante Dea Athena que está localizado bem defronte ao encontro do Iônico com o Adriático. Comemos os mencionados frutos do mar e postas de um tonno (atum) que o amigo do dono do restaurante pescou, depois de mais de 6 horas de disputa com o peixe, e disse que pesava un quintale (cem quilos)! As estórias de pescador também são iguais em todo o mundo!

Tendo eu bebido um excelente vinho branco, Rosa dirigiu então pelas curvas das escarpas das costas do Adriático até Otranto, outra cidade imperdível. É conhecida como a cidade dos mártires, em função da violenta ocupação turca na idade média, embora protegida pelas imponentes muralhas, torres de Federico II e Alfonsinas,, que visitamos. Alfonso de Aragona conseguiu recuperar a cidade em 1481. Suas defesas foram ampliadas e o centro histórico está muito bem preservado. Das visitas, destaco a Catedral caracterizada pelos maravilhosos mosaicos que retratam a versão babilônica da criação do mundo, com seus símbolos zodíacos, e que inspiraram Dante Alighieri a escrever a Divina Comédia, segundo consta na história local.

Depois de pernoitar em Lecce e de interessante fim de noite num Caffe Letterario, viajamos até Brindisi para conhecer outro belíssimo castelo de Federico II, “Castello di Terra”, para distingui-lo do Castelo Afonsino, circundado pelo mar, no imponente porto da cidade. Não pudemos visitá-lo por estar sendo utilizado como quartel pela marinha. Destaco a visita ao Tempio di San Giovanni al Sepolcro, que se origina na evangelização de São Lucas, no século VI e o Monumento aos Marinheiros.

Seguimos então por paisagens maravilhosas em direção a Taranto, com almoço em Manduria, terra dos melhores vinhos primitivi da Itália, que chegam até 20 graus alcoólicos. Depois de tirarmos fotos com os cultivadores de oliveiras, das baterias de energia solar para captação da forte insolação local e das plantações de flores e frutas, chegamos a Manduria, no horário em que a cidadezinha fica quase deserta. Felizmente o melhor restaurante da cidade estava aberto, onde almoçamos os pratos típicos comendo com colher, como é o costume local. Havia degustado em Mola de Bari um excelente vinho primitivo de 18,5 °, mas como estávamos viajando, limitei-me a um de “apenas” 14,0 ° servido em jarra.

À tarde visitamos Taranto. Como a crônica se alonga demais, destaco apenas no relato desta lindíssima cidade, seu Castello Sant’Angelo, seu centro histórico com vestígios romanos e arquitetura bizantina e greco arcaica, onde compramos algumas antiguidades. Visitamos a mais antiga catedral da Puglia, do século XI, Chiesa de San Cataldo, com lindíssimo batistério. Durante o passeio pela cidade, Rosa encontrou a Via De Cesaro, com o seu sobrenome, e nela entramos no Caffè Storico Principe, Bar Pasticceria onde tomamos o melhor sorvete da viagem e comemos excelentes doces italianos. Depois retornamos para nossa casa em Mola de Bari.

Anteontem começamos a fazer os preparativos para nossa segunda etapa da viagem à Itália, programada para Calábria e Sicília. Mas ontem fizemos ainda uma visita a Marguerita di Savoia, a suas famosas salinas e águas termais (que perdem para Mossoró e Caldas de Imperatriz, respectivamente).

No caminho, fizemos uma parada em Barletta para tirar algumas outras fotos da Chiesa di San Ruggero para enviar ao Rogério, e seguimos para Altamura, no planalto de Murge, uma região de campos com paisagem muito parecida com as de são Joaquim e Lages. Nosso objetivo era conhecer a catedral de Nossa Senhora Assunta, a única igreja construída por Federico II, com subordinação direta a ele e ao Papa, com a peculiaridade de apresentar um espaço para bispos e padres bem menor do que o reservado para a Corte. Valeu a viagem, pois a igreja é realmente bela e única. Rezamos também na Chiesa di Santa Teresa, onde a famosa santa está enterrada, e na Chiesa di San Nicola dei Greci. Altamura é também conhecida por ter o melhor pão da Puglia e os habitantes dizem que é o melhor do mundo. No dia em que lá estávamos, festejavam o fato de que o Mac Donald’s americano que se instalara na cidade entrou em falência por falta de clientela! Os habitantes se recusaram a comer o pão tipo americano! Almoçamos carpaccio de alcachofra com queijo e rúcula e um assado de ovelha acompanhado de maravilhoso vinho local, Pier delle Vigne, 2001, que se produz em homenagem a Federico II e que, como está escrito na garrafa, se deve “lascialo trionfare sulle carni di agnello arrosto”.

Abraços, Diomário Queiroz.

Mola de Bari, 17 de maio de 2011

CRÔNICA DA ITÁLIA 9 – CALÁBRIA

CRÔNICA DA ITÁLIA 9 – CALÁBRIA

 Queridos amigos,

 Mola de Bari preserva algumas tradições de um paese medieval. Às vésperas de partir em viagem para a Calábria e Sicília, quando me encontrava na praça central, vi aproximando-se uma procissão de pessoas vestidas com saias brancas, blusas pretas, capuchos brancos, carregando longas velas ao som de uma música lenta e cadenciada. Pensei que fossem padres e freiras homenageando algum santo. Mas era um corteo funebre! Atrás dos personagens com as velas, seguia o caixão de defunto, a família e amigos em pranto vestidos de preto e ao final a banda também toda vestida em preto e branco, inclusive o menino do tambor e a menina da flauta que não passavam dos 10 anos. Alguns dos antigos habitantes ainda fazem questão de serem enterrados com o corteo.

Após liberarmos a confortável casa alugada, seguimos a viagem para Santa Severina, na Calábria, pelo litoral do Mar Iônico. No trajeto tivemos as surpresas de três belas emoções.

A primeira foi a visita ao Metaponto (Metapontium), na Basilicata, que havia sido a capital da Magna Grecia, fundada por Epeo, o mítico construtor do cavalo de Troia, ao qual, no retorno da famosa guerra, no século VII aC, se atribui a iniciativa de colonizar o litoral do mar Iônico.

Visitamos o belíssimo Museu Arqueológico Nacional da cidade, com peças arqueológicas lindas, retratando Hera, que havia edificado um templo ali, Orfeo, Dionisio, Helena e outros deuses da mitologia grega com seus símbolos e lendas. De então para hoje, a dimensão monumental da presença grega na Sicilia tem nos acompanhado diariamente. Percebemos entre as pessoas o lamento de que a dominação romana de toda a Sicilia tenha vindo interromper o esplendoroso ciclo troiano.

A segunda emoção não programada foi a visita à Cosenza. Como o Mario Pille me havia mencionado que nessa cidade moram seus parentes, fizemos um pequeno desvio de roteiro para visitá-la e valeu a escolha. Todo seu centro comercial foi transformado em movimentado calçadão para pedestres, dispondo de bancos confortáveis para apreciarem monumentos e obras de arte. E dentre elas, um 7 bello, carta de baralho, em homenagem ao jogo de cartas, elemento do cotidiano italiano. Fizemos a foto para enviar ao Pille e à turma da canastra, ao sogro Doralino e à família. Com a ocupação do centro urbano pelo calçadão, Cosenza tornou-se a cidade da Itália com maior concentração de automóveis, que estacionam em fila dupla ou tripla, numa confusão que só os italianos compreendem e a polícia de trânsito finge que não vê…

A terceira surpresa foi o contato com a Foresta di Sila, que adentramos pelas montanhas, no esplêndido Parque Nacional da Calábria, com belíssimas paisagens de flores e árvores. Programamos então um dia inteiro para visitá-lo, o que fizemos a partir de Santa Severina, subindo por estreitas estradas comunais até o Monte Donato, Lorica e o lago Arvo, Carmigliatelo e o lago Cecita.

Poderia também ter relacionado Santa Severina como uma bela surpresa, pois a escolhemos pela internet, por ser a capital cultural da Calábria e localizada próximo aos parques naturais sem outras referências. No entanto, ficamos maravilhados por encontrar uma cidadezinha medieval situada no pico de uma alta montanha, com abadia bizantina e extraordinário castelo normando, que visitamos a pé no dia seguinte, subindo e descendo milhares de degraus e ruelas e almoçando muito bem na Locanda Del Ré.

O agroturismo Le Puzzelle, no qual nos hospedamos, é confortável e florido, sendo um local de recepções bem movimentado, pois os italianos gostam de festejar. No dia em que chegamos, havia uma festa de promessa de matrimonio (noivado), toda a família vestida muito chic, e nos dias seguintes, duas festas de crisma e um aniversário. Salvatore, o cozinheiro, apresentava pratos gostosíssimos, regionais ou não, de seu livro de cozinha que presenteei para Rosa. Os proprietários, Vicenzo e Elvira Bisceglia, nos receberam com muito carinhosa atenção.

Estando em Santa Severina, cabe ainda ao menos mencionar as visitas que fizemos à Abbazia Forense e ao Museo Demologico dell’economia, del lavoro e della storia sociale silana, della comune di San Giovanni in Fiore e à cidade de Crotone. No museu demológico, as duas guias, cujos nomes eram coincidentemente Maria Teresa e Rosa, nos apresentaram quadros históricos e ambientes de vida caseira e de trabalho dos calabreses à época da emigração para as Américas. Reencontramos o cotidiano, os nomes de família e a luta pela vida dos nossos antepassados colonizadores. Em Crotone, estivemos no feriado nacional pela unificação da Itália quando estava tudo fechado, tendo-nos limitado à visita do centro histórico e da catedral dessa cidade onde nasceu Pitágoras. Preferimos então dar um pulo até Le Castella, uma pequena cidade litorânea, com magnífico castelo junto ao mar.

Abraços, Diomário Queiroz

Trapani, SicÍlia, 9 de junho de 2011.

CRÔNICA DA ITÁLIA 10 – SICÍLIA

CRÔNICA DA ITÁLIA 10 – SICÍLIA

 Queridos amigos,

Chegamos à Sicília atravessando de navio o estreito de 4 km de águas profundas que a separa do continente italiano. Há muitos anos se renova nas eleições italianas a promessa de construir uma magnífica ponte no local, mas até agora nada! Desembarcamos em Messina, bela cidade. Estando com muita fome, fomos direto ao Ristorante Il Ficodindia, especializado em peixes e frutos do mar. Encontramos um ambiente alegre e excelente comida. Fizemos tantos elogios que, ao final da refeição, o Sr. Salvatore nos presenteou, para levar de lembrança, uma garrafa do ótimo vinho branco igual ao que havíamos bebido no almoço!

Após breve passeio, seguimos para Taormina. Foi a primeira cidade de colonização grega construída ao lado do mar na Sicília, fato ocorrido em 732 a.C,. com o nome de Naxos, Depois os habitantes migraram para a alta montanha protegendo-se dos invasores. Bem lá no alto se situava nosso Hotel Condor, como se fosse um ninho desse pássaro. A cidade é linda, densamente visitada por turistas. Ficamos felizes por tê-la escolhido em detrimento de Catania, nossa primeira opção, pretendendo dormir mais pertos do vulcão Etna. Mas ele também é visto muito bem de Taormina, como original cenário de um maravilhoso teatro grego construído na antiguidade, o palco voltado em direção às crateras.

Na manhã seguinte, subimos o Etna. Chegamos de carro próximo de 2.000 metros de altura, entrando nas duas pequenas Crateri Silvestri, na Stagione Sapienza. Dali para cima pode-se ainda avançar com transporte especializado até o topo da cratera principal, mas tivemos o juízo de abrir mão dessa aventura, pois, como diz o Rogério, “a gente começa a sentir a pressão alta”, ainda mais com o calor do vulcão que havia soltado fumaça e lavas há apenas duas semanas. Amplamente satisfeitos com a fascinante experiência, retornamos a Taormina. Sendo domingo, ainda tivemos fôlego para participar, na Igreja de Santo Antônio de Pádua, do terço, das ladainhas e da missa em homenagem e agradecimento ao nosso padroeiro, antes de jantar num típico restaurantezinho próximo ao hotel.

Na segunda-feira, visitamos o lindo centro da cidade, o comércio encantador dos gregos, bem como monumentos e outras igrejas. Concluímos pelo deslumbrante passeio panorâmico Antes de ir descansar, respondemos os testes de italiano para ingresso na Scuola Virgilio em Trapani, para onde seguimos no dia seguinte.

Atravessamos toda a Sicília, viajando pelo centro desta ilha de aproximadamente 25.000 km2, ou seja, correspondendo a pouco mais de um quarto do tamanho do Estado de Santa Catarina. Tem o formato triangular representado no seu símbolo histórico, a TRINACRIA, uma Medusa com tranças de serpentes, as três pernas dobradas na altura do joelho indicando os três pontos extremos da Sicilia: Capo Peloro di Messina, Capo Passero di Siracusa e Capo Lilibeo di Marsala. A ilha sempre representou uma posição estratégica no Mediterrâneo, por seus terrenos férteis, sendo grande exportadora de trigo, sal e vinho, constituindo-se Trapani no porto europeu mais próximo da África.

Antes de chegar a esta cidade de destino, passamos por maravilhosas paisagens tomadas por trigais amarelos em fase de colheita. Almoçamos em Piazza Almerino, onde visitamos a Villa Romana del Casale, sítio arqueológico caracterizado por fantásticos mosaicos de deuses, costumes antigos e símbolos do zodíaco.

Em Trapani, fomos recebidos ao anoitecer pelo Professore Stefano, que nos havia reservado um apartamento confortável pertencente à Scuola Virgilio, situado ao lado do seu, no centro histórico, Via delle Arti. Novamente fomos surpreendidos pela nossa boa sorte. Não esperávamos encontrar uma cidade tão bonita, um porto tão limpo, um comércio tão moderno e uma população tão bem vestida, alegre e feliz. Passamos a viver em um porto muito bem situado, na convergência do Mediterrâneo com o Mar Tirreno, próximo de diversas cidades lindas, de famosos sítios arqueológicos e de lugares históricos imperdíveis.

Assim, resolvemos fazer uma primeira viagem desde o primeiro final de semana, até Siracusa. Esta viagem mereceria uma crônica inteira. Vou resumi-la em dois parágrafos, porque já ando longe nos relatos.

Visitamos pela manhã a cidade de Salemi, “a primeira capital da Itália”, pois ali, em 1860, vindo por Marsala, Giuseppe Garibaldi, com seus 1.004 combatentes, venceu a primeira batalha pela unificação da Itália, recebendo do Decurionato, no dia 14 de maio, “la dittatura in nome di Vittorio Emanuele II di Savoia”, conforme registrado em placa no monumento em sua homenagem. Salemi simbolicamente foi a capital do país por apenas um dia. Tem um belo castelo Normanno-Svevo construído por Ruggero II d’ Altavilla, Rei da Sicília. Os monumentos da cultura árabe, suas igrejas e a tradição do pão santo mereceriam também maiores detalhes. Concluo, entretanto, com outra curiosidade: a visita ao Museo della Mafia, com documentação e testemunhos da vida dessa organização nos últimos 150 anos!

Prosseguindo em direção de Siracusa, visitamos o impressionante Valle dei Templi, di Agrigento, com vários templos dóricos muito bem preservados, de Hera, Concórdia, Ercole e Juno. Após esse mergulho na antiga civilização grega, fomos dormir em Scicli, conhecida como a capital mundial do barroco, situada em um vale, no qual chegamos no início do crepúsculo, impressionados com o iluminar de seus monumentos. Dormimos no belo Palazzo del Conte Ruggero, depois de haver saído para um alegre jantar na Osteria dei tre Colli durante o qual muito conversamos com um simpático grupo de pessoas da cidade.

Na manhã seguinte, entramos em Avola para comprar as típicas mandorlas (amêndoas) e o famoso vinho nero siciliano, e então prosseguimos até Siracusa. Visitamos magníficos monumentos e a Piazza di Archimedes, numa enfeitada carrocinha turística puxada a cavalo, que parava nos pontos principais, como o majestoso templo grego de amplas colunas transformado na catedral da cidade. A Rosa era percebida por alguns como a Lady Di da Inglaterra, e os turistas, e até mesmo os habitantes da cidade, não cansavam de nos saudar, filmar e fotografar. Nunca fomos tão fotografados na vida!

Um abraço, Diomário Queiroz.

Trapani, 14 de junho de 2011