Arquivo da categoria: POESIAS

Solidão?

Solidão?

Olho esta casa tão grande
e as sombras do passado
trazem tantas recordações,
saudades e perguntas!
Por que as flores tão lindas
que colorem nosso jardim
não conseguem afastar a solidão
nem a angústia do dia-a-dia
nem o sorriso intranquilo
nem o sossego da vida
que teimam em brotar no coração!?
Será que existe mesmo a felicidade?

As vozes da TV,
a chuva que bate no telhado
e o relógio que canta as horas com prazer
quebram o silêncio da ausência
sem fazerem vibrar a alma.
E o sono tentador
me transporta em sonho
para onde cantam os anjos!

Será que a vida toda é uma miragem
e que até o amor seja devaneio
e que exista apenas efêmera alegria
e que o futuro se esgote
no próprio processo da criação?

Olha, amigo,
você não sabe como idealizei o mundo
e acreditei-me capaz de construir o paraíso
inconsciente das fraquezas
da condição humana!
Mas teimo que a felicidade existe
e que o amor vive em mim
e que a vida é um renovar de esperanças!

Avanço naturalmente todos os dias
na direção do Infinito
pois Deus é presença eterna
e nunca me deixa só!

Florianópolis, abril de 2019

Pouco é tudo

Pouco é tudo

Ele amanheceu chorando aos prantos
no carrinho onde dormia solitário
 às margens do rio Tubarão
pois lhe haviam roubado
 o dinheiro das vendas do siri
pescado nas praias da Laguna!

Seu choro encontrou o coração bondoso
de vovó Perpétua que correu em seu auxílio
e da criança que até então
desconhecia o tamanho da maldade no mundo!

Como pode alguém roubar tão pouco
de quem o pouco é tudo?

Esta interrogação martela a alma
da criança que ainda habita em mim!

Florianópolis, março de 2019

Poeta bissexto

Poeta bissexto

Coração de poeta bissexto
eclodiu na estação dos amores
 e vibrou nos outonos amarelos de Paris.

Nos flocos brancos do inverno
fermentou sementes escondidas
de versos semeados ao acaso.

Os flamboyants, os matizes do verde e o azul da ilha
libertaram sem medo os poemas
represados no coração.

Do que vale a beleza entesourada
nas sombras da memória
nem sequer pelo amor apercebida?

Florianópolis, 2019

Relógio de cordas

Relógio de cordas

À noite o medo paralisa a alma de esperança
e desperta os fantasmas que assustam o coração.
Os sonhos abrem diálogo com os anjos
projetando imagens do infinito.

Ao acordar me invadem pela janela
o canto dos galos, o gorjeio dos pássaros,
o clarão do sol e a alegria de viver!

As flores de manacá pintam o azul do mar de roxo e branco,
sob a contemplação do biguá
que plaina vigilante ao vento
em busca do alimento
sem temor da solidão.

E assim escoa a vida como um relógio de cordas!

Florianópolis, 2019

Pássaros

Pássaros

Da sacada do escritório
acompanho o bonito voo dos pássaros
sem saber quando retornarão ao jardim,
por que fizeram o ninho na chaminé da lareira
ou quantos ovos chocarão na primavera.

Como pássaro alado
voo em sonho a distantes mares e penhascos
olho com deslumbre o desabrochar das damas da noite
e choquei cinco ovos na primavera da vida.

Por que cantam os pássaros com tanta alegria?

Florianópolis, 2017

Reconciliação

Reconciliação


Mesmo assim,
não chegamos ao fim!

Ontem, tão feliz começo,
hoje, o mundo ao avesso!

Não me fales exaltada,
sorrir é lindo, não custa nada!

Vem cá, dá-me as mãos por um momento,
esquece ressentimentos!

Do amor guardo tão boas lembranças,
me abrace, silenciosa e mansa!

Nosso amor jamais terá um fim,
você é eternamente para mim!

Florianópolis, 2016

PERDÃO

PERDÃO

Perdão, seres desfigurados do Infinito
Prometo, seres de ouro do Infinito
Nunca mais, seres de bronze do Infinito!

Os cristais pululam na cascata
Os monstros urram
O fogo queima os cílios da rosa
As asas escondem o saber!

Guardai as unhas afiadas
e o marfim chamejante
Escolhei os raios na escuridão
Aguardai, seres desfigurados
de ouro e bronze do Infinito!

Perdão…prometo…nunca mais!

Rio de Janeiro, fevereiro de 1964

FANTASMAS DOS DESENGANOS

FANTASMAS DOS DESENGANOS

Só estão comigo os fantasmas
e o tempo desaparece
dentro das suposições
que montam as três lesmas do meu sol.

Só estão comigo os sobressaltos
das más caras desconhecidas
que veem o infinito
e não me veem.

Só estão comigo os desenganos
e as ilusões
roubam o vazio das esperanças
que não voltam.

Os sobressaltados fantasmas dos desenganos
atraem-me às dez bocas
que gritam o seu perdão.

Ela não vem pois foi ao encontro dos demônios!

Rio de Janeiro, março de 1964

NOVOS ESPÍRITOS

NOVOS ESPÍRITOS

Os bonecos ouvem a múmia
no sarcófago de marfim
das pirâmides de cinza
para gerar novos espíritos
que andam sob as árvores.

Os bonecos encarnam homens
acordam as divindades da noite
que lhes abrem os túmulos
para gerar novos espíritos
que invadem o mundo.

Os bonecos vestem os esqueletos
preenchem os vazios das catacumbas e
tomam esquisitas formas de duendes
para gerar novos espíritos
que dormem com as múmias.

Os bonecos são homens
as múmias são bonecos
os homens são múmias
para gerar novos espíritos
que se escondem nas estrelas.

Rio de Janeiro, março de 1964.

ASAS ESTENDIDAS

ASAS ESTENDIDAS

Não reconheço os urubus
que bailam como gaivotas medrosas
sob o azul
sobre o azul
dentro do branco dos cordeiros
mas sou
suas asas
a distância das longas melodias
que o vento carrega para o Sul das trevas.

Não reconheço os urubus
nem as gaivotas
mas danço no medo
de seus bicos aguçados
com apenas quatro asas estendidas
dentro do branco dos cordeiros
sob o azul que se agiganta
sobre o azul que se confunde
nos meus gestos!

Rio de Janeiro, fevereiro de 1964.