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O JOVEM E A FORMAÇÃO ÉTICA E MORAL NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

CENTRO ARQUIDIOCESANO DE PASTORAL
ESCOLA MISSIONÁRIA DO MOVIMENTO DE EMAÚS
O JOVEM E A FORMAÇÃO ÉTICA E MORAL NO MUNDO CONTEMPORÂNEO

Antônio Diomário de Queiroz

Florianópolis, 14 de novembro de 2000

1.- A atualidade do tema

• No início da era do conhecimento, quando o amplo acesso às informações coloca o jovem diante da multiplicidade de valores, muitas vezes conflitantes entre si, gerando mais incertezas do que certezas, quando tudo se volatiliza face à rapidez das mudanças, quando se cobra cada vez mais a responsabilidade individual e social das pessoas, sem que no entanto essas pessoas saibam em quem possam confiar e a quem responder por seus atos, a questão do certo e do errado, do bem e do mal, ou seja, da ética e da moral, se  lhes impõe como inevitável.
• Nas empresas, prevalece a percepção de que, neste mundo volátil, os valores éticos de seu quadro de colaboradores é uma das poucas condições perenes que as pessoas podem contar para fazer face aos desafios do futuro e têm incorporado explicitamente esses valores em seus modelos de gestão estratégica.
• Na Política, ao perder-se em sua prática, frequentemente, a percepção do princípio fundamental de que existe para prover o bem comum de toda a sociedade, promove-se a descrença no cidadão que aspira por transparência e por ética no trato da coisa pública. O resultado das últimas eleições no Brasil traduz claramente essa aspiração: o povo votou pela ética na política. As revelações do resultado eleitoral da eleição ainda não definida nos Estados Unidos têm suscitado, outrossim, sérios questionamentos em todo o mundo sobre a liderança moral daquele país.
• Na própria Justiça, a percepção cotidiana de sua incapacidade de assegurar a plenitude da dignidade e dos direitos humanos induz as pessoas a interrogar-se permanentemente sobre a consistência de sua condição de cidadania.
• Que referência estável propor então ao jovem para ser feliz neste tempo em que os valores tanto flutuam? No que é possível crer ou não crer no meio de tantas incertezas? O que é o bem e o mal em nossas vidas?

2.- Conceito de ética e de moral

• Pequeno Dicionário Brasileiro da Língua Portuguesa: Ética é a ciência da moral. Ético é o concernente à moral. Moral: parte da Filosofia que trata dos costumes ou dos deveres do homem.
• Novo Dicionário Aurélio: Ética (e moral): estudo dos juízos de apreciação que se referem à conduta humana suscetível de qualificação do ponto de vista do bem e do mal, seja relativamente a determinada sociedade ou de modo absoluto.
• Emmanuel KANT, na Crítica da Razão Pura (1781), distingue ética e moral, ao afirmar que o homem é livre e que encontra em si mesmo o guia de sua ação, a lei moral, um imperativo categórico que o faz agir de acordo com sua natureza, a qual distingue, de maneira inata, o certo e o errado. Só quando alguém faz alguma coisa por considerar seu dever seguir a lei moral é que se pode então falar em ação moral. Só quando agimos segundo a lei moral é que agimos em liberdade. (História do comerciante que devolve o troco correto à menina ingênua: ao agir por dever, tem uma atitude moral; ao agir conforme o dever respeita a ética dos negócios). A moral é um imperativo categórico, a ética é um imperativo hipotético ou de prudência. A lei moral é universal. A ética constitui um compromisso entre a moral e o interesse. Ao contrário da ética inteligente animada por razões localizadas e temporais, a moral impõe deveres que desafiam a nossa própria condição de liberdade. (O mundo de Sofia, p. 356).
• Leonardo BOFF, em A águia e a galinha (1997), desenvolve, para minha surpresa, uma visão bem distinta de ética e moral. Partindo da etimologia dessas duas palavras, Ethos em grego designa a morada humana, e Mores em latim, os costumes e as tradições, infere que a moral esteja vinculada a um sistema de valores próprio de cada cultura, sendo, assim, por sua natureza, sempre plural. Nesse sentido, para o autor, “a ética assume a moral, quer dizer, o sistema fechado de valores vigentes e de tradições comportamentais (…) A ética desinstala a moral. Impede que ela se feche sobre si mesma. Obriga-a à constante renovação no sentido de garantir a habitabilidade da moradia humana: pessoal, social e planetária.” E conclui que “a moral deve renovar-se permanentemente sob a orientação e a hegemonia da ética “. (pp.  90 e ss). Como posicionar-se diante de conceitos tão contraditórios?
• Santo Agostinho, nas suas Confissões (pp. 397 e 398), se interroga sobre o bem e o mal. (pp. 163 e ss.). Tendo sido todas as coisas criadas por Deus, que não somente é bom, mas a própria bondade, sendo Ele o sumo bem e as criaturas bens menores, mas sendo todos bons, de onde então vem o mal?  Santo Agostinho compreende que o mal “não é uma substância existente em si, mas a perversão da vontade que, ao afastar-se do Ser supremo, que és tu, ó Deus, se volta para as criaturas inferiores; e, esvaziando-se por dentro, pavoneia-se exteriormente.”(p. 179)  Ao afastar-se de sua natureza espiritual, cedendo às aspirações da carne contrárias ao espírito, as pessoas se afastam da verdade e da felicidade que corresponde à presença de Deus em nossa memória.(pp. 274 e ss.) É pois no senso de Deus que se afirma, de maneira universal, o senso moral do homem. É nele que se fundamenta o poder ético de julgar do homem espiritual, feito à imagem de Deus, no seu afã de transformar o mundo. É a ética, pois, que se fundamenta na moral. Conforme observado por Santo Agostinho em sua leitura do livro do Gênesis: “Tu não disseste: Faça-se o homem segundo a sua espécie, mas façamos o homem à nossa imagem e semelhança, a fim de que possamos reconhecer a tua vontade. Para isso o teu servidor, gerando filhos pelo teu evangelho, não querendo que permanecessem sempre criancinhas aqueles que ele alimentara com o leite e que, como ama, criara, assim fala: Transformai-vos, renovando a vossa mente, a fim de poderdes discernir qual é a vontade de Deus, e o que é bom, agradável e perfeito. (Rm 12,2) Por isso não dizes: Faça-se o homem, mas façamos o homem. E não: segundo a sua espécie, mas à nossa imagem e semelhança. Quem tem a alma renovada, e contempla e compreende a tua verdade, não precisa das indicações de outro homem para imitar alguém da sua espécie. Graças aos teus ensinamentos, ele mesmo compreende a tua vontade, e o que é bom, agradável e perfeito.” (pp.  400 e ss). Daí decorre o poder de julgar do homem espiritual.

3.- Ética e moral no mundo contemporâneo

• Alain ETCHEGOYEN, em La valse des éthiques (1991), observa como a transição da moral singular para as éticas plurais é um sinal dos tempos de hoje. “Os homens do poder sabem, desde Maquiavel, que a moralidade da imagem pode ser um poderoso elemento de eficácia concebido como fundamento essencial de sua ação. Se a ética funciona bem, é preciso dela usar e mesmo abusar. (…) Mas a obscuridade triunfa quando os atores sociais se investem de nova legitimidade em múltiplos lugares: propõem então sua ética àqueles que dominam, comandam ou controlam. O indivíduo, vagando entre essas esferas, não reconhece mais a voz da consciência. Ei-lo envolvido por uma valsa das éticas no ritmo dissonante de partituras heterogêneas cada vez orquestradas de modo diferente (…) A oferta de éticas responde mal à demanda de moral.” (pp.  14 e 15).
Para esse autor, a desmoralização nas práticas sociais e individuais desorienta o comportamento das pessoas e em especial dos jovens, que se subordinam aos discursos dominantes. Os direitos, desconectados da essência de sua dimensão moral tornam-se abstratos, considerando o homem como uma generalidade vaga, não mais o outro, ou o próximo; e no cotidiano nosso comportamento não pode ser conduzido apenas pelos grandes preceitos dos direitos dos homens. Porém no cotidiano, a destruição do sentimento religioso e dos valores tradicionais da família aumentam essa desorientação das pessoas. Por outro lado, a corrupção do político parece não mais poupar qualquer partido. O Estado oferece aos cidadãos, por todos os seus poderes, freqüentes exemplos da palavra descumprida. No mundo dos negócios, os valores éticos não correspondem também ao mundo da consciência, pois subordinados aos valores econômicos. O dinheiro, reconhecido como padrão internacional de valor, recompensa, mérito e sucesso, não responde também à questão moral da felicidade das pessoas.
Assim, conclui Alain ETCHEGOYEN, no mundo contemporâneo, “banida dos discursos, eliminada das ações, a moral continua, no entanto, a exercer uma fascinação essencial sobre o imaginário das pessoas.”  Como a distinção entre o bem e o mal é uma necessidade social e existencial, “o desejo de moral deriva de uma dupla exigência: precisamos de referências e da espiritualidade”. Os homens e as mulheres de hoje precisam de referências de valor, “mas não se deve multiplicá-las ao infinito. De tanto sofisticar as formulações, a gente se perde em valores infundados, ao passo que a consciência poderia apreender essas referências de maneira bem mais simples e imediata”.
• Luigi GIUSSANI, em O Senso de Deus e o Homem Moderno (1997), ao perguntar sobre o sentido exaustivo da existência, o significado último da realidade, o por que no fundo vale a pena viver, identifica no senso religioso a vocação da vida, que é, em síntese, “a própria essência da racionalidade e a raiz da consciência humana.” Daí compreende o renascimento religioso que aflora no mundo de hoje e percebe o cristianismo “como resposta imprevisível ao desejo que o homem tem de viver descobrindo e amando o próprio destino”. (…) “O senso religioso coincide com aquele sentimento de dependência original, total, que é a maior e mais impressionante evidência para o homem de todos os tempos, como quer que tenha sido traduzida, na imaginação primitiva ou na consciência mais evoluída e serena do homem civilizado. (…) É como se dentro de nós houvesse uma exigência que nos impele a uma devoção total, a algo do qual tudo depende. E é justamente este algo que se chama explicitamente, na tradição religiosa, Deus.” (pp.  9 e ss).
Essa compreensão se aproxima do entendimento de Santo Agostinho do senso moral do homem que carrega consigo a consciência do bem e do mal. “Deus é o destino, o sentido, Deus é o fim do homem. O homem deve ser livre diante Dele, porque liberdade significa responsabilidade no fazer a si mesmo, no realizar-se, isto é, no alcançar o próprio fim. Essa liberdade encontra um campo de ação já no primeiro passo em direção a Deus: reconhecê-Lo, descobri-Lo. E este primeiro passo se dá exatamente na interpretação daquele sinal que é o mundo.” (pp.  29 e 33) E por ter o homem o livre arbítrio, se afirma também o conceito do pecado: “ a incoerência entre a fé e as obras”. Quando a liberdade leva o homem a perder o significado da sua existência, à incapacidade de realizar a sua humanidade, afasta-se da sua própria condição humana que consiste na relação com o infinito. O homem entra “em desespero ético a respeito da possibilidade de uma dignidade ou de uma lealdade última” (pp. 122 e ss.).

4.- Conclusões
• Também no mundo contemporâneo, é no seu mais íntimo eu que o jovem encontra o senso moral impresso indelevelmente por Deus, de caráter, pois, espiritual e religioso, que dá significado à sua existência e que o coloca em comunhão com todas as existências, proporcionando-lhe a referência do bem e do mal para as práticas e decisões do cotidiano bem como para a afirmação, com liberdade, do próprio destino, de sua vocação e da sua felicidade.
• É no senso moral que estão as referências da consciência, capazes de livrar o jovem da solidão, do desespero e da valsa das éticas que perturbam a identificação do certo e do errado nas relações sociais que compõem a condição humana, pois se limitam freqüentemente a obedecer aos imperativos da razão e da lei, quando a verdade se origina do plano divino do mistério e da transcendência de Deus.

5.- BIBLIOGRAFIA

AGOSTINHO, Santo – Confissões. S.P.: Paulus, 1984.
BOFF, Leonardo – A águia e a galinha: uma metáfora da condição humana. Petrópolis, RJ: Editora Vozes, 1997.
DENIS, Henri – Histoire de la Pensée Économique. Paris: Presses Universitaires de France, 1967.
ETCHEGOYEN, Alain – La valse des éthiques. France: Editions François Bourin, 1991.
GAARDNER, Jostein – O mundo de Sofia: romance da história da filosofia. S.P.: Companhia das Letras, 1995.
GIUSSANI, Luigi – O senso de Deus e o homem moderno. S.P.: Editora Companhia Ilimitada, 1997.