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Atividades de Professor e Reitor da UFSC

Discurso Cidadão Honorário do Município de Antônio Carlos

Exmo. Sr. Prefeito Municipal de Antônio Carlos, Sr. Ari João Martendal e Sr. Vice-Prefeito, Geraldo Pauli
Exmo. Sr. Presidente da Câmara Municipal de Antônio Carlos, Vereador Silvério
Petri
Ilmo. Pe. Alfredo Yunkes, MD representante do Bispo Auxiliar de Florianópolis, Dom Vítus Schlikmann
Prezada Vice Reitora da UFSC, Nilcéa Lemos Pelandré e Pró-reitores Júlio Wiggers e Mário Bittencourt
llmo. Vereador Ivens Antônio Scherer, Propositor do Decreto Legislativo n° 36/95 de concessão do Título de Cidadão Honorário de Antônio Carlos
Senhores Vereadores, Senhores Secretários Municipais
Querida esposa Maike e queridos familiares e amigos
Senhoras e Senhores,

Desde a infância, uma das sábias lições que aprendi de meu pai Alexandre Muniz de Queiroz foi a de jamais esperar a gratidão ou o reconhecimento. Diomário, dizia-me ele “faça o bem, sem ver a quem e sem esperar reconhecimento ou gratidão, pois quando vêm, com frequência, só depois da morte.” E assim me eduquei na vida.

Por esta razão, quando o reconhecimento surge de maneira tão generosa e inesperada, na forma do Título de Cidadão Honorário do Município de Antônio Carlos, por ato magnânimo da Câmara Municipal, em honroso Decreto Legislativo, venho recebê-lo alegre e feliz nesta sessão solene em que se comemora o Trigésimo Aniversário da Instalação do Poder Legislativo Municipal. E meus sentimentos, certamente correspondem aos de Don Vitus Schlikmann Roetger, por sua vida de humildade cristã, capaz igualmente de apreciar a sublimidade rara de momentos como este, em que se é homenageado por uma comunidade digna, valorosa, trabalhadora e de tradições tão belas, como o é a do Município de Antônio Carlos. Apraz-me, a partir de hoje, assumir a sua cidadania.

Ao mesmo tempo, porém, externo publicamente a consciência de que os méritos da homenagem que se faz em meu nome se devem à Universidade Federal de Santa Catarina, a seus professores, alunos e servidores que ao exercerem com competência sua função social e de integração foram o efetivo “agente do grande projeto que contempla o Município de Antônio Carlos com o Plano Diretor que possibilitará a consolidação e expansão urbana, a articulação de usos e fluxo de bens, serviços e pessoas, os espaços privados e abertos para uso comum”, na correta expressão da justificativa do Vereador Ivens Antônio Scherer, que motivou a concessão do título.
 Assim, expresso especialmente ao Professor Ivo Sostisso, coordenador desse projeto, a admiração pelo cumprimento exemplar de suas funções, solicitando-lhe estender esses cumprimentos ao Departamento de Geociências, ao programa de pós-graduação em Geografia, ao Centro de Filosofia em Ciências Humanas e especialmente a todos os integrantes da sua equipe de trabalho, incluindo os técnicos que asseguraram o apoio do Instituto de Planejamento Urbano de Florianópolis.

Infiro também que Don Vitus Schlikmann, independentemente dos valores pessoais tão fecundamente dedicados à comunidade de Antônio Carlos na função de Reitor e Professor do Seminário “participando efetivamente de todas as ações político-sócio-econômicas do Município, destacando-se sua atuação direta na dragagem do Rio Biguaçú, a implantação da Rede de Energia Elétrica e o apoio substancial à agricultura” como expôs com justiça o Vereador Ivens Antônio Scherer na sua justificativa da outorga do título, enquanto sacerdote compartilha com prazer os méritos da honraria com seus irmãos do Seminário e da Igreja Católica.

Identifico dentre as razões para honorar-me e a Don Vitus com a cidadania do Município de Antônio Carlos um traço comum em nossas biografias e personalidades: o desejo profundo de servir ao próximo e a determinação para liderar pessoas e organizações a favor do social, do bem comum, da felicidade. Foi este, sem dúvidas, o sonho apostólico de Don Vitus. E esta a força maior, o referente íntimo que conduz todas as decisões e ações da minha vida, o compromisso primeiro no exercício da reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina.

Assim, luto pela universidade aberta, solidária, que, pela ação social, transfere conhecimentos às comunidades, contribuindo, por um processo de desenvolvimento humano sustentável, a combater a situação de fome e de miséria e a proporcionar a melhoria da qualidade da vida para todos. É por esta concepção de universidade que foi elaborado o Plano Diretor de Antônio Carlos, envolvendo prefeitos, vereadores e líderes comunitários num trabalho sistematizado de discussão e gestão democrática do desenvolvimento urbano da cidade. 

Em caráter pessoal e no de Don Vítus Schlikmann, cabe,  finalmente, agradecer a toda a população de Antônio Carlos, nas pessoas do competente, amigo e dinâmico Prefeito do Município, Sr. Ari João Martendal, do ilustre Presidente da Câmara Municipal, Vereador Silvério Petri, de todos os dignos vereadores e, com ênfase, do estimado Vereador Ivens Antônio Scherer pela sua lembrança de nossos nomes para figurar na galeria restrita de cidadãos honorários desta cidade. Na condição de antoniocarlenses, sentimo-nos emocionalmente ligados à sua população e motivados, em quaisquer funções que exercemos ou que venhamos a exercer, a continuar atuando em benefício deste encantador Município, para corresponder ao título que hoje se incorpora ao nosso currículo.

Muito obrigado.

(Discurso proferido por Antônio Diomário de Queiroz, em 15 de novembro de 1995, por ocasião da concessão do título de cidadão honorário de Antônio Carlos, em sessão solene nesse Município, em nome pessoal e de Don Vítus Schlikmann).

Discurso de Posse na Reitoria da UFSC

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA

Exmo. Sr. Ministro da Educação,

Tomo posse, neste ato, pelas mãos dignas de Vossa Excelência, do cargo de Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina.

Assim o faço, com plena consciência das responsabilidades que assumo, juntamente com a Vice-Reitora, NILCÉA LEMOS PELANDRÉ, e os demais membros da comunidade universitária que comporão nossa equipe de trabalho.

Sabemos da importância da missão que nos é delegada, de dirigir, por quatro anos, uma das mais destacadas unidades do sistema brasileiro de educação superior, em consonância com as políticas e diretrizes lideradas por Vossa Excelência. Aceitamos somar nossos esforços para, em conjunto, fazer avançar, no Brasil, a educação básica e o ensino superior, a nível de graduação e de pós-graduação, na direção da competência e da qualidade. Isto só será possível , se situarmos o ensino no contexto da pesquisa, da extensão, da cultura e da liberdade.

É plena, também, nossa consciência de que, em administração, toda
responsabilidade, para ser efetiva, deva acompanhar-se do grau correspondente de autoridade. Isto é, responderemos integralmente pela responsabilidade de nossos atos, mas precisamos ter asseguradas as condições indispensáveis pana o exercício das funções que nos são confiadas!

Em Florianópolis, temos convicção de haver reunido estas condições básicas. Contamos com o respaldo da comunidade universitária e da comunidade catarinense para nossa proposta de trabalho.  Estabelecemos firme compromisso a favor da universidade de qualidade, pública, autônoma e gratuita, aberta à comunidade externa, nacional e internacional.  Expressamos claros princípios e diretrizes de ação, e a determinação política de proceder as necessárias mudanças estruturais, num motivado ambiente de trabalho de professores, servidores técnicos administrativos e estudantes.

Necessitamos, outrossim, a nível federal, de boas condições de gestão. Gostaríamos de estabelecer relações sérias de convivência. Queremos ser submetidos à rigorosa avaliação institucional de resultados. Para tanto, são pressupostos, dentre outros, a liberação oportuna, para a universidade, dos recursos orçamentários aprovados pelo Congresso Nacional, em valores suficientes para custeio e investimento; uma política justa de pessoal e de salários; a vitalização do sistema nacional de apoio à ciência e tecnologia; o exercício correto da autonomia universitária constitucional.

Exmo.  Sr.  Ministro,

Nós assumimos a Reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina porque mantemos o otimismo e a esperança no Brasil! Acreditamos ter chegado ao ponto de mutação descrito por FRITJOF CAPRA,  em que,  após um período de decadência, surge um movimento natural a favor da introdução do novo no sistema educacional brasileiro. Temos certeza de que este sistema, sob a direção de Vossa Excelência, saberá aproveitar, da melhor maneira possível, este momento histórico.

De nossa parte, nos harmonizaremos com este movimento, num processo de repensar para mudar, que conduzirá toda a nossa futura gestão.

Solicitamos a Vossa Excelência que encaminhe ao Excelentíssimo Senhor Presidente da República nosso reconhecimento pelo ato de nomeação. Reconhecimento que estendemos a Vossa Excelência e a toda sua equipe de trabalho,  pela confiança que nos é atribuída.

Disse!

Discurso proferido pelo Magnífico Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina, Professor Antônio Diomário de Queiroz, a 23 de abril de 1992, por ocasião da cerimônia de posse, perante o Excelentíssimo Senhor Ministro de Estado de Educação, Prof. José Goldemberg, em Brasília.

POLÍTICA SOCIAL E A REVOLUÇÃO NO COTIDIANO

UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA DEPARTAMENTO DE SERVIÇO SOCIAL
NÚCLEO DE ESTUDOS SOBRE DESENVOLVIMENTO DE COMUNIDADE
SEMINÁRIO: POLÍTICA SOCIAL E A REVOLUÇÃO NO COTIDIANO PERÍODO: 07 e 08 DE JULHO DE 1986
ABERTURA: PROF. ANTÔNIO DIOMÂRIO DE QUEIROZ

1. INTRODUÇÃO
A filosofia do encontro: reflexão sobre o mundo de hoje. A visão do homem neste mundo. A política social que está se formando hoje. A escolha dos temas e dos painelistas.

2. A REVOLUÇÃO NO COTIDIANO

A revolução é um processo de transformação social que ocorre sempre no presente. É um processo de mudanças nas pessoas e em suas relações entre elas. A revolução só é possível agora, e não no futuro.

“O que em geral se chama revolução, é apenas uma mudança ou continuação da direita, de acordo com as ideias da esquerda. A esquerda, afinal de contas, é a continuação da direita, sob forma modificada. Se a direita tem seus fundamentos nos valores sensoriais, a esquerda não é mais do que uma continuação dos mesmos valores com diferença apenas de grau ou de expressão. Por conseguinte, a verdadeira revolução só poderá realizar-se quando vós, o indivíduo, vos tornardes bem cônscio das coisas, em vossas relações com outrem. Por certo, o que sois em vossas relações com outra pessoa, com vossa esposa, vosso filho, vosso patrão, vosso vizinho, é que forma a sociedade. A sociedade, por si só, não existe. A sociedade é aquilo que vós e eu criamos, em nossas relações, é a projeção exterior de todos os nossos estados psicológicos interiores. Portanto, se vós e eu não nos compreendermos, a simples mudança do exterior, o que é a projeção do interior, não tem significação, absolutamente; isto é, não pode haver alteração ou modificação significativa da sociedade, enquanto eu não compreender a mim mesmo, nas relações convosco. Se estou confuso, nas minhas relações, crio uma sociedade que é a réplica, a expressão exterior daquilo que sou. É um fato óbvio, susceptível de investigação. Podemos investigar se a sociedade, a expressão exterior, me produziram ou se eu produzi a sociedade.(…)
A compreensão de mim mesmo não depende do tempo; posso compreender-me neste momento exato. Se digo “compreender-me-ei amanhã”, estou atraindo o caos e o sofrimento, minha ação é destrutiva. Quando digo que haverei de compreender, introduzo o elemento tempo e, portanto, já estou envolvido na onda de confusão e de ruína. A compreensão existe agora, não amanhã. 0 amanhã é para a mente preguiçosa, a mente que não tem interesse. Quando estais interessados numa coisa, e a fazeis instantaneamente, há compreensão imediata, transformação imediata. Se não vos transformardes hoje, nunca mais vos transformareis, porque a
transformação que fica para amanhã é simples modificação. A transformação só se realiza imediatamente; a revolução só pode ser agora, e não amanhã.”
(KRISHNAMURTI, “A primeira e última
liberdade”).

3. POLÍTICA SOCIAL

Poderia haver aparente incoerência em aceitar a ideia de que toda transformação só pode ser hoje e a proposição de políticas sociais. Política ê uma regra para selecionar uma decisão. Mas as decisões também ocorrem sempre no tempo presente, no cotidiano.
“Uma política adequada é uma regra que leva em consideração as condições relevantes que prevalecem na ocasião em que a ação é requerida. As políticas, por isso, permitem a utilização de toda a informação relevante de que se dispõe na ocasião da decisão. Por esta razão, elas proporcionam mais flexibilidade do que decisões específicas. Consequentemente, o planejamento deve preocupar-se com decisões somente no momento exato e com as políticas quando se requer uma ação no futuro.”
(ACKOFF, Russel L., “Planejamento empresarial”).

Por conseguinte, a definição de políticas é a base do pro cesso de planejamento e baseia-se na crença de que o futuro pode ser melhorado através de uma intervenção ativa no cotidiano. Como define este mesmo autor “A sabedoria é a qualidade de perceber a longo prazo as consequências das ações presentes(…). 0 homem sábio tenta controlar o futuro.” A Política Social nos proporciona, pois, regras para selecionar nossas ações e nossas decisões cotidianas, procurando conformar um futuro desejável.

4. DUAS CARACTERÍSTICAS DE NOSSO COTIDIANO
4.1. Crise mundial de instabilidade social.

“Situações de instabilidade social ocorreram um sem número de vezes na história da humanidade, mas nenhuma se aproximou em relevância à que a humanidade vem enfrentando nas duas últimas décadas.
Enquanto ao passado os conflitos, por mais gerais que fossem, se restringiam às populações de apenas parte do globo, hoje, as evidências são de que praticamente toda a humanidade está envolvida no processo: A crise atual de instabilidade social é mundial! e isso é um fato novo; que a distingue das demais.”
(Prof. Crodowaldo PAVAN, Aula Magna UFSC).

4.2. Emergência de uma nova civilização abrindo novos e fascinantes horizontes para a humanidade, a qual Alvin TOFFLER denomina de A Terceira Onda.
“Por espantoso contraste, a civilização da Terceira Onda resultou ter muitas características — produção descentralizada, escala apropriada, energia renovável, desurbanizaçao, trabalho em casa, altos níveis de prossumo, para nomear apenas algumas — que realmente lembram as encontradas na Primeira Onda. Estamos vendo algo que parece notavelmente uma réplica dialética.”

(TOFFLER, Alvin, “A Terceira Onda”).

TOFFLER vislumbra nessa civilização um novo papel para as sociedades como a nossa, a brasileira.
“As estratégias de “desenvolvimento” de amanhã virão não de Washington ou de Moscou ou de Paris ou de Genebra, mas da África, da Ásia, e da América Latina. Elas serão indígenas, adaptadas às verdadeiras necessidades locais. Não super enfatizarão a economia à custa da ecologia, da cultura, da religião ou da estrutura da família e das dimensões psicológicas da existência. Não imitarão qualquer modelo de fora.”
(TOFFLER, Alvin, “A Terceira Onda”).

Concordamos com o autor que, a partir do momento em que tenhamos condições de colocar em relevo nossos valores, estaremos contribuindo para a formação da sociedade do futuro.

5. POLÍTICA SOCIAL, REVOLUÇÃO NO COTIDIANO E UNIVERSIDADE

“Uma Universidade democrática, amplamente aberta às massas, proporcionando ao mesmo tempo cultura geral e formação profissional, aberta ao mundo exterior, praticando em todos os níveis uma seleção-orientação, cultivando a diversidade (e permitindo, portanto, uma certa concorrência entre as universidades e os diplomas que elas conferem), fornecendo à pesquisa e à qualidade um lugar fundamental: estas são as linhas básicas de um projeto de Universidade moderna mais ou menos válido para todos os países avançados.”
(SCHWARTZ, Laurent, “Para salvar a Universidade”) .

No entanto, para o mesmo autor, “A Universidade não está bastante integrada na vida nacional, no mundo produtivo; ela vive voltada sobre si mesma, e é provavelmente aí que está a fonte de todos os seus males.(…)

Não há exemplo de país desenvolvido que possua uma Universidade subdesenvolvida; a degradação da Universidade nos conduz ao subdesenvolvimento, à perda da nossa identidade nacional e nossa cultura, uma das mais belas do mundo, enfraquecendo nossa tecnologia e baixando nosso nível de vida.”
E em relação à Universidade brasileira? Coloca-se para nós o desafio de desenvolver a Universidade para desenvolver a própria sociedade.

5.1. Ensino
Os alunos estão expostos a currículos estáticos e voltados para o passado, condicionados frequentemente a culturas alienígenas. A Universidade, no entanto, seleciona o aluno que será o profissional do futuro, devendo entrar no mercado de trabalho daqui a cinco anos. Há necessidade, pois, de uma revolução curricular que possibilite, desde hoje, infundir o futuro e a nossa realidade nos currículos.
“Eis o grande desafio ã ciência social contemporânea: criar e transmitir o conhecimento necessário a que se compreenda e faça frente a um futuro que continua em grande parte desconhecido. Para uma resposta adequada, talvez seja necessário nada menos que uma revolução na ciência social — revolução nas teorias e perspectivas dominantes, nas metodologias, no conteúdo do que se ensina, e nas próprias técnicas de ensino.

Os estudantes devem ser sensibilizados para correntes da mudança, para as probabilidades de futuros alternativos, para um rol de possibilidades futuras, para modos de adaptação, e para a ação corretiva e inovadora. Precisam ser estimulados a transcender a experiência passada, a inventar criativamente o futuro e a definir meios sadios de implementação. Precisam entender a natureza do poder social e sua capacidade decisória. A maneira pela qual as opções serão especificadas e o contexto de interesses conflitantes em que são selecionadas precisam receber uma significação na sala de aulas.

Ademais, tendo em vista que para dominar o futuro ê preciso que haja participação ativa, libertação dos meios passados e certo grau de escolha, o papel do estudante deve tornar-se menos passivo do que tem sido, ao mesmo tempo que sem permitir a rendição ao simples comodismo ou à expressão.”
(WENDELL BELL in “Aprendendo para o Futuro” de AIvin TOFFLER) .

5.2. Pesquisa e Extensão
0 desenvolvimento do ensino num contexto de pesquisa e extensão ê o único meio de quebrar as resistências mentais e corporativistas e de cultivar as ideias e as atitudes necessárias â revolução do cotidiano na Universidade.
“Na atividade universitária o mais difícil é romper as inibições e resistências mentais, quando se busca, pelo diálogo, criar algo em comum. Quando seguimos um expositor e ouvimos coisas realmente novas para nós, com frequência trabalhamos mentalmente para contradizê-lo, como se nos sentíssemos ameaçados de perder pé, de ver nossas referências se apagarem. 0 desafio com que se confronta o professor é vencer essas resistências.”
(FURTADO, Celso, “A Fantasia Organizada”).

0 aprendizado num ambiente de criação só pode se fazer num contexto de pesquisa e de extensão, com mentes abertas para novas ideias e atitudes, em que tenhamos condições de integrar o tempo. Temos de assimilar a nova noção de tempo presente que vem surgindo na ciência, conforme expõe Joêl de ROSNAY, em seu livro “Le Macroscope”, quando situa a energia, a informação e o tempo como elementos eternos dos quais depende nossa ação, a trama de todo o conhecimento e de toda significação, e que traduzimos:
“Pela observação e na certeza do tangível, descobrimos o mundo em uma direção análoga àquela que seguiriam as ondas divergindo a partir de uma fonte: a direção do tempo convencional. 0 universo nos aparece assim sob seu aspecto energético, quantitativo, material, objetivo. Pela ação criadora e sua riqueza do vivido, descobrimos uma outra face. A direção das ondas que convergiriam para um centro.

É o aspecto espiritual e subjetivo pelo qual o universo torna-se de mais em mais significante.

As duas entidades fundamentais que se reencontram ao final desta reflexão, como as duas faces de uma única realidade, são a energia e o espirito. Seus aspectos intermediários podem ser a matéria e a forma (ou a informação). Mas tudo aparece como se existisse no Universo apenas energia informada (a matéria), substrato do conhecimento; e espirito materializado (a informação), suporte da ação criadora. Se existe conservação do tempo, a liberdade está totalmente contida no instante presente.”

Na Universidade de Santa Catarina, estamos hoje diante da decisão tomada pelo Conselho Universitário de Reforma Universitária em pleno processo constituinte no País. É um momento histórico importante que se integra ao nosso cotidiano. É a hora de participarmos. De mudar nossas ideias, nossas atitudes, nossas relações interpessoais. É neste estado de espírito que lemos uma última mensagem positiva de Alvin TOFFLER.

“A responsabilidade da mudança, por conseguinte, está em nós. Devemos começar com nós mesmos, ensinando-nos a não fechar as nossas mentes prematuramente à novidade, ao surpreendente, ao aparentemente radical. Isto significa repelir os assassinos de ideias que arremetem para matar qualquer nova sugestão, alegando sua impraticabilidade, enquanto defendem o que quer que exista agora como prático, por mais absurdo, opressivo ou impraticável que possa ser. Significa lutar pela liberdade de expressão — o direito das pessoas de exporem suas ideias, mesmo que sejam heréticas.”
(TOFFLER, Alvin, “A Terceira Onda”).

Estas são as ideias que trazemos ã vossa reflexão, neste seminário. É assim que vemos a revolução no cotidiano de nossa Universidade.

Professor Antônio Diomário de Queiroz

 

UFSC: UMA INSTITUIÇÃO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO

UFSC: UMA INSTITUIÇÃO DE ENSINO, PESQUISA E EXTENSÃO

A universidade brasileira está em transição para um novo modelo, no qual a formação de recursos humanos deixa de ser o objetivo primordial. Neste modelo, além da busca e transmissão de conhecimentos, emergem os objetivos de investigação de novos conhecimentos e de difusão do conhecimento à comunidade. A universidade perde, então, seu tradicional e exclusivo caráter de instituição de ensino superior. Transforma-se em instituição de ensino, pesquisa e extensão.

É neste processo de transição que podemos situar a Universidade Federal de Santa Catarina. Desde os anos 60, seus dirigentes compreenderam que o ensino de qualidade poderia ser melhor alcançado no contexto da pesquisa e extensão. Como pré-condição, praticou-se política deliberada de privilegiamento da contratação de professores a tempo integral. Investiu-se maciçamente na formação a nível de mestrado e doutorado desses professores no país e no exterior. Importaram-se especialistas de alto nível. Criaram-se mecanismos de amparo e fomento à pesquisa e extensão.

Como fruto dessa prática sem interrupção, conta hoje a UFSC com um quadro de 1.816 professores, dos quais 1.259 a tempo integral, sendo 221 doutores, 748 mestres e 546 com especialização nas diversas áreas de conhecimento. Este potencial humano, que nenhuma outra organização pública ou privada iguala em Santa Catarina, com o apoio de quase 3.000 servidores técnico-administrativos, é responsável pela formação de aproximadamente 15.000 alunos, em 63 cursos de Graduação, dezesseis cursos de Mestrado, dois de Doutorado, e algumas dezenas de Especialização. Anualmente, cerca de 2.000 profissionais de nível superior são ofertados ao mercado de trabalho.

Mas a comunidade catarinense, com intensidade crescente, passou também a desfrutar os produtos e serviços de grupos, núcleos, laboratórios, centros e outros órgãos de pesquisa e extensão que se estruturaram na UFSC nos seus 25 anos de  existência.

Somente no Centro Tecnológico, constituíram-se 46 laboratórios, alguns deles com instalações, instrumentos e equipamentos de elevada tecnologia e custo, através dos quais têm sido resolvidos para as empresas nacionais problemas de alta complexidade e tecnologia de ponta. No campo da pesquisa, igualmente, se disseminam os projetos em temas estratégicos como desenvolvimento de isoladores elastoméricos para aeronaves, ímãs de terras raras, motorização da simulação do trabalho de parto, compressores herméticos, fluxo de cargas rodoviárias, valorização industrial da madeira, rede de dados de microcomputadores, ultra filtração do leite, tratamento de efluentes têxteis por carvão ativado, conversores para acionamento de Servo motor de corrente contínua, motores para combustíveis energéticos alternativos, automatização industrial, desenvolvimento de máquinas agrícolas, novas ligas de aço sintetizados, novos tipos de metal duro, controle de qualidade, sistemas de decisão, análise de carvões, bacteriologia sanitária, novas estruturas de madeira, modelos de habitação popular, produtividade de equipamentos na pavimentação de rodovias. O financiamento desses projetos é assegurado neste Centro, através de recursos extra orçamentários agenciados com o apoio administrativo e financeiro da Fundação de Ensino da Engenharia. Na área de automação e informática, o grande volume de projetos justificou a criação da Fundação Centro Regional de Tecnologia em Informática – CERTI, que lidera o processo de inovação tecnológica e transferência de resultados da pesquisa da Universidade, na formação do complexo industrial de microinformática de Florianópolis, assumindo a administração da Incubadora Empresarial Tecnológica. Para o desenvolvimento de novos produtos, a UFSC associou-se ao CNPq e a outros órgãos na criação do Laboratório de Desenvolvimento de Produto-Desenho Industrial, localizado em Canasvieiras, que alcança relevantes resultados neste importante campo de atividades.

A pesquisa e a extensão se alastram a todos os Centros da Universidade.

Nas áreas biológica e da saúde, afirmam-se, dentre outros, importantes grupos em estudos do mar, nativas florestais, toxicologia, plantas medicinais, saúde pública, micro parasitologia. A maturação dos projetos de pesquisa assegura os primeiros resultados expressivos, como a descoberta do antagonista da bradicinina , a partir de plantas, com potencialidade para desenvolvimento de nova família de fármacos, feito científico de repercussão mundial. A ação extensionista nestas áreas é muito fecunda. Somente no Hospital Universitário, em 1986, foram realizados 99.151 exames médicos, 2.303 atendimentos a pacientes, e 103.296 consultas ambulatoriais. Na Clínica Odontológica, a comunidade beneficiou-se de 89.104 consultas e serviços de restaurações, extrações, pequenas cirurgias. No presente ano, implanta-se a Farmácia Escola e a Maternidade.

Em ciências físicas, químicas e matemáticas, avançam as pesquisas sobre cristais líquidos e aproveitamento do carvão. Constituem-se equipes de trabalho em química fina e física dos plasmas. Inicia-se importante projeto de reator para tratamento com titânio de superfícies das ferramentas de cortes. Estuda-se o aproveitamento das cascas de siri, camarão e caranguejo na preparação de quitina e seus derivados químicos. No Laboratório de Matemática, são preparados materiais didáticos para o aprimoramento do ensino de primeiro e segundo graus no Estado.

Nas ciências agrárias, o programa de produção de post-larvas de camarão e o seu fornecimento para o cultivo intensivo em fazendas se tornou uma realidade pela implantação da Estação de Larvicultura na Barra da Lagoa. Cultivo de ostras, de trutas, de tainha, de camarão de água doce, estas e outras potencialidades catarinenses podem, desde agora, ser sustentadas por tecnologias geradas e disponíveis na UFSC. Em tecnologia do alimento, Destacam-se o desenvolvimento de processos de industrialização de maçãs de classificação inferior, a cura rápida de salames, a elaboração de produtos de longa vida de prateleira à base de aves, a produção do substituto do bacalhau a partir do cação, além de importante controle da qualidade dos alimentos para a FAE e COBAL. Desenvolvem-se, ainda, outros importantes projetos como a avaliação do bovino crioulo lageano, o arraçoamento de suínos, a depuração do despejo da indústria têxtil através da irrigação, o melhoramento e manejo do palmiteiro. A experimentação de alguns dos projetos se faz nos Colégios Agrícolas de Araquari e Camboriú, vinculados à UFSC.

Nas áreas humanas e sociais verifica-se igualmente o envolvimento cada vez mais amplo de professores e alunos em pesquisa e extensão. Nestas áreas, afloram projetos como a Universidade na Roça, ação integrada em vários municípios catarinenses, o Projeto Arqueológico Uruguai, levantamento de sítios arqueológicos nas áreas de inundação das usinas, o Estudo do Mercado Habitacional do Estado de Santa Catarina, o PORTEPRA, programa de aprimoramento do ensino de primeiro  e segundo graus nos municípios da Grande Florianópolis, o levantamento da situação das escolas de primeiro e segundo graus nos bairros vizinhos à Universidade, o mapeamento cultural de Santa Catarina. Surgem também os laboratórios, núcleos, grupos de pesquisa, como o Laboratório de Tradução, o Laboratório de Sensoriamento Remoto, o Núcleo de Estudos Catarinenses, o Núcleo de Estudos Latino-americanos, o Núcleo de Estudos da Terceira Idade, o Núcleo de Análise e Informação Ocupacional, o Grupo de Pesquisa em Economia Política, que se somam à prestação de serviços como os de Assistência Jurídica, Cursos Extra-Curriculares, promoções esportivas, assessoramento à rede de ensino estadual. Nestas áreas podem ser consideradas também as frequentes manifestações artísticas pela Universidade, as apresentações do Coral da Universidade e sua ação estadual através do PROCANTO, a criança na praça, os grupos de teatro, de dança, de poesia.

Observa-se ainda na Universidade, à medida em que os grupos de pesquisa e extensão vão-se consolidando, uma tendência à integração em torno de temas de natureza multidisciplinar, como o meio ambiente, e maior integração a nível internacional, através de vários programas de cooperação técnica, científica e cultural, coordenados pelo Escritório de Assuntos Internacionais.

Todo esse conjunto de atividades de pesquisa e extensão encontra apoio em vários órgãos da Universidade.

O Biotério fornece as cobaias necessárias à pesquisa. A Biblioteca Central coloca à disposição de professores e alunos um acervo bibliográfico de 160.000 exemplares e vários serviços de consulta externa. O Museu Universitário mantém acervos de material etnográfico e arqueológico aberto às visitas orientadas de aproximadamente 20.000 pessoas ao ano. A Editora da UFSC, através de três linhas de título – Série Didática, Série Geral e Publicações Periódicas – alcança mais de 200 títulos editados. A Ilha de Anhatomirim é mantida como infraestrutura à pesquisa do mar e ao turismo educativo. O Campus Aproximado dos Vales do Araranguá e Mampituba, CAVAM, é base para programas de extensão de vários departamentos. A Fundação de Amparo à Pesquisa e Extensão Universitária – FAPEU, com abrangência em toda a Universidade, agiliza e torna flexível a administração dos projetos.

A Pró-Reitoria de Pesquisa e Extensão, atendendo às orientações superiores do Conselho de Ensino, Pesquisa e Extensão, proporciona a supervisão geral e a coordenação do conjunto, conduzindo suas ações de apoio através do Departamento de Apoio à Pesquisa e do Departamento de Apoio à Extensão. Para estímulo a pesquisadores iniciantes, oferece o FUNPESQUISA, através do qual financia projetos de professores, alunos e servidores técnico-administrativos. Um programa de Bolsas de Iniciação à Pesquisa promove a integração do estudante aos grupos de pesquisa, sob orientação de pesquisadores experimentados.

O quadro acima descrito resume a evolução recente da UFSC. As atividades de pesquisa e extensão surgiram com tanta força que romperam a estrutura tradicional da Universidade, concebida em função do ensino. A pesquisa e a extensão abriram seus espaços e determinam a necessidade de uma nova forma de organização. Por isso a Reforma Universitária que se inicia. Ela deverá transformar a UFSC em uma instituição nova, com estrutura, métodos e processos adequados às suas funções de instituição de ensino, pesquisa e extensão, em condições de assumir plenamente as responsabilidades de agente do desenvolvimento e sua vocação regional.

Antônio Diomário de Queiroz, 1987
PRO-REITOR DE PESQUISA E EXTENSÃO DA UFSC

FÉRIAS COINCIDENTES

FÉRIAS COINCIDENTES

No momento em que as universidades públicas federais lutam pela sua autonomia, por mais recursos, pelo pagamento das dívidas trabalhistas, é fundamental que cada uma das instituições mostre-se competente à sociedade, pautando sua ação na coerência e na ética. Num país em que 32 milhões de pessoas passam fome e com seu desenvolvimento comprometido por tecnologia obsoleta e atraso científico, os cidadãos esperam que a universidade pública contribua decisivamente para a criação de melhores condições de futuro. É este o compromisso social da universidade. Por ela ser de todos, precisa honrar seu contrato público de trabalho.

A UFSC é uma universidade respeitada, aberta o ano todo à sociedade. Localizada em uma cidade cuja população se multiplica nos meses de verão em função do turismo, a UFSC mantém em funcionamento várias atividades prioritárias de administração, pesquisa, extensão e cultura. Museu, fortalezas, Hospital Universitário, Fórum Judiciário, Biotério, Biblioteca, serviços de manutenção, eventos culturais e projetos de pesquisas preenchem a pauta de compromissos da UFSC nesse período.

Por isso estou convicto de que cada servidor, aluno e professor comunga com nosso orgulho de pertencer a uma universidade participativa, elogiada pela sociedade. Cada um de nós, sem dúvida, sente prazer de ter o seu serviço reconhecido como útil pela sociedade, quando amargamos os efeitos graves de uma crise econômica e política sem precedentes. Nosso melhor ato de resistência a esta crise é exercer bem nossas funções, quaisquer que sejam as adversidades.

As férias coincidentes surgiram como proposta da comunidade universitária, para compatibi1izar o justo direito ao descanso de todos com a racionalização dos meios disponíveis e o cumprimento do compromisso social da instituição. Elas dão liberdade para que cada unidade acadêmica ou administrativa se programe conforme suas peculiaridades. As condições  estão criadas para que cada um faça a sua parte… E que, pelo processo contínuo de avaliação e planejamento, aprimore sua programação para os próximos anos.

Ao término deste, dirijo a todo servidor, professor, alunos e seus familiares, votos de um Natal Feliz, um Ano Novo marcado por paz e felicidade e boas férias.

Antônio Diomário de Queiroz

Reitor da UFSC

Florianópolis, dezembro de  1992

Universidade: caminhos da sobrevivência

SERVIÇO PÚBLICO FEDERAL
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA
GABINETE DO REITOR
CAMPUS UNIVERSITÁRIO — TRINDADE — CEP: 88040.900 — FLORIANÓPOLIS — SC

Universidade: caminhos da sobrevivência

As instituições públicas e privadas, como os organismos vivos, quando deixam de exercer suas funções, perdem identidade e não sobrevivem. Quando, ao contrário, cumprem sua missão no sistema social e no meio-ambiente a que pertencem, se fortalecem, se expandem, asseguram sua efetividade.

Assim, a maior ameaça à sobrevivência da Universidade é a perda de sua identidade, num mundo de mudanças em que prevalece a necessidade de enfrentar e construir novos paradigmas. Com efeito, a revolução técnico-científica deste século, ao invés de resultar nas prometidas soluções para o gênero humano, ampliou as diferenças de rendas entre países e entre famílias, agravando as condições de fome, miséria e desemprego. A utopia da Universidade pressupõe ir além da sobrevivência e fortalecer-se pelo exercício de funções socialmente reconhecidas que contribuam para assegurar a qualidade de vida para todos, num processo de desenvolvimento humano sustentável.

Neste contexto, diferentes valores se impõem: a solidariedade, o pluralismo ideológico, o resgate da ética, da moral e da espiritualidade, o respeito aos cidadãos e às minorias, a substituição da lógica de exploração da natureza, que leva à destruição dos recursos naturais, antes considerados inesgotáveis, pela dinâmica da valorização desses recursos que assegure sua preservação, em convivência harmônica com os homens.

Este cenário se abre à humanidade e a todas as instituições que adentram o século XXI, sendo condição para sobreviver e prosperar, adaptar-se a esses novos paradigmas. É o desafio que se impõe também à Universidade.

Tendo como função precípua formar jovens, o ensino não pode limitar-se às aulas tradicionais de quadro e giz com uma visão particular do mundo. O futuro impõe uma visão aberta para o exercício profissional e a renovação permanente do conhecimento, sendo este, adequadamente integrado e rapidamente aplicado, a fonte de quase todo valor econômico e social.

Nos vários campos do saber, a educação de qualidade se definirá pela formação do profissional crítico e criativo, agente transformador da sociedade, consciente de sua cidadania, capaz de enfrentar e solucionar problemas, com a mente receptiva a um processo contínuo de aprendizagem. A educação sairá dos limites escolares, tornando-se acessível a todo cidadão desejoso de aprender. A instituição universitária se afirmará, então, como centro irradiador do conhecimento e da cultura, integrada a redes de comunicação a distância e a redes de trabalho. Vislumbra-se como cenário do mundo novo a diluição do espaço físico da Universidade e das fábricas em milhares de pontos de acesso a essas redes, onde habitam professores, alunos e trabalhadores.

A racionalização do efêmero, do inconstante, da insensatez, do novo ou se fará através de um processo educativo global com a participação da Universidade, ou não se fará.

O conhecimento sempre foi e continuará sendo objeto da Universidade. Numa sociedade com base no conhecimento, como a do futuro, as pessoas serão estudantes a vida toda.

Para que a educação superior se tome pública e universal, realmente de todos, um dos paradigmas da Universidade há de ser o exercício da efetiva indissociabilidade entre o ensino, a pesquisa e a extensão. Sua sobrevivência impõe o reconhecimento pela sociedade de que a Universidade desempenha com eficácia social sua missão de “produzir, sistematizar e socializar o saber filosófico, científico, artístico e tecnológico, ampliando e aprofundando a formação do ser humano para o exercício profissional, a reflexão crítica, a solidariedade nacional e internacional, na perspectiva da construção de uma sociedade justa e democrática em defesa da qualidade da vida” (Assembleia Estatuinte, 1993, UFSC).

O caráter público da educação só será assegurado se a Universidade puder estabelecer um estado de permanente simbiose com a sociedade, enquanto componente dessas redes de comunicação e de trabalho, comprometida com todos os setores sociais.

É esse compromisso social que justifica desde agora a necessidade prioritária de investimentos na Universidade, para que esteja apta a acompanhar e a liderar os avanços técnico-científicos da era da informação. Os investimentos na Universidade, pela lógica sistêmica das redes de comunicação e de trabalho, são investimentos em toda a sociedade, no conjunto de suas instituições. Oferecem, por conseguinte, uma alternativa pública de acesso ao mundo novo, democratizando os benefícios da informação.

É esta perspectiva que determina também desde agora a necessidade de assegurar-se autonomia, avaliação pública e liberdade acadêmica à Universidade, para que o equilíbrio social, no futuro, seja determinado pela busca constante dos ideais do bem comum.

Os caminhos da sobrevivência da Universidade passam pelo desafio de evitar a perpetuação da injustiça social no próximo milênio, o que ocorreria pela formação de uma nova elite privilegiada, dona do conhecimento, e de uma classe de excluídos das redes informatizadas. Trata-se, pois, de superar a globalização da fome, da miséria e do desemprego.

À Universidade brasileira se oferece a oportunidade de assumir a liderança desse processo num país de contraste social que, no entanto, reúne características e valores que são a síntese do mundo de hoje e que podem se afirmar como laboratório das esperanças do futuro.

Antônio Diomário de Queiroz
Reitor da Universidade Federal de Santa Catarina
Florianópolis, 1994

 

O ENSINO, A UNIVERSIDADE E O MUNDO NOVO

8* Congresso FENASOFT * Congresso Internacional de Tecnologia de / Software,, Telemáticae Informação
Palácio das Convenções de Anhembi – SP  19 a 22 de julho de 1994
Plenária: “Ensino, Universidade e o Novo Mundo”
Painelista: Antônio Diomário de Queiroz
Reitor da UFSC

O ENSINO, A UNIVERSIDADE E O MUNDO NOVO
O mundo novo, na visão de Tom Peters, em “Liberation Management”, é um mundo a caminho da moda, do inconstante, do efêmero, do instável, de organizações malucas, de mercados malditos e da insensatez, onde a definição de cada produto e serviço está mudando.” Neste mundo, “é preciso tornar-se soft, cada vez mais soft, o mais soft possível”.

Em direção ao mundo novo, ninguém pode se esconder das mudanças. Todos convivemos com a crise das pretéritas utopias e com a necessidade de construção de novos paradigmas. Com efeito, a revolução tecnológica deste século, ao invés de resultar nas prometidas soluções para o gênero humano, ampliou as diferenças de rendas entre países e famílias, agravando as condições de fome e miséria. E a crise do sistema socialista, com base na presença hegemônica do Estado, evidenciou a dificuldade de estabelecer-se um sistema de igualdade entre os homens.

Neste contexto, diferentes valores se impõem: a solidariedade, o pluralismo ideológico, o resgate da ética, da moral e da espiritualidade, o respeito aos cidadãos e às minorias, a substituição da lógica de exploração da natureza, que leva à destruição dos recursos naturais, antes considerados inesgotáveis, pela dinâmica da valorização desses recursos que assegure sua preservação, em convivência harmônica com os homens. “A condição para a sobrevivência do homem pede que seja óbvio a cada ser humano que os recursos naturais sejam bens comuns, tanto mais meus quanto mais de todos, decorrente disto que não se possa fazer com eles, com qualquer um deles, aquilo que não se gostaria de ver ou ter visto feito por outrem (…)”, na expressão de Antônio Houaiss em “Repensar”.

Este cenário se abre a todas as instituições e agentes econômicos que adentram o mundo novo, estando aptos a sobreviver e a prosperar os que souberem se adaptar aos novos paradigmas. É o desafio que se impõe também à Universidade.

Tendo como função precípua formar os jovens através do ensino, este não pode mais limitar-se às aulas tradicionais de giz e quadro negro. Pois, no futuro, o exercício profissional exigirá uma permanente aptidão para assimilar, sistematizar e gerar conhecimento, sendo este, adequadamente integrado, dentro e fora da empresa, e rapidamente aplicado, a fonte de quase todo o valor econômico. Na fábrica do ano 2.000, segundo o Professor Caspar Erich Stemmer, “o pessoal deverá ter uma escolarização do mais alto nível para se tornar mais eclético e flexível, pois a rápida evolução tecnológica obrigará a mudanças radicais na carreira, talvez quatro ou cinco vezes durante a vida(…). As regras de trabalho deverão ser flexíveis, permitindo que os trabalhadores executem uma ampla variedade de tarefas diferentes. O nível de escolarização deverá ser mais elevado, com mais profundo conhecimento de matemática e ciências, permitindo rápida adaptação às mudanças de características dos empregos”.

Em todos os campos de conhecimento, o ensino de qualidade se definirá pela formação do profissional crítico, agente transformador da sociedade, consciente de sua cidadania, capaz de enfrentar e solucionar problemas, a mente aberta para um processo contínuo de educação. O ensino sairá dos muros da Universidade e será acessível a todo cidadão desejoso de aprender. A instituição universitária se afirmará, então, como centro irradiador do conhecimento, integrada a redes de comunicação à distância e a redes de trabalho.

A racionalização do efêmero, do inconstante, da insensatez, ou se fará através do ensino, ou não se fará. Pois o conhecimento sempre foi e continuará sendo objeto da Universidade. Numa sociedade com base no conhecimento, as pessoas serão estudantes a vida toda.

Mas para que o ensino se tome universal, um bem realmente de todos, há que se repensar a Universidade. Seu paradigma, a indissociabilidade entre o ensino, a pesquisa e a extensão.

Sua finalidade, “produzir, sistematizar e socializar o saber filosófico, cientifico, artístico e tecnológico, ampliando e aprofundando a formação do ser humano para o exercício profissional, a reflexão crítica, a solidariedade nacional e internacional, na perspectiva da construção de uma sociedade justa c democrática em defesa da qualidade de vida” (Estatuinte, UFSC). Seu caráter público, o estado permanente de simbiose com a sociedade, enquanto componente de redes de comunicação e de trabalho.

Outrossim há que se priorizar os recursos necessários para que a Universidade se instrumente e possa efetivamente entrar em simbiose com a sociedade. É necessário ampliar os recursos para que se informatize e que se consolidem seus grupos de pesquisa e extensão. Que a sociedade perceba que o investimento na Universidade, pela lógica sistêmica das redes de comunicação e de trabalho, é um investimento na própria sociedade, no conjunto de suas instituições e empresas. Em especial, estes investimentos possibilitarão à universidade brasileira assumir plenamente sua responsabilidade social, neste país do contraste entre riqueza e miséria, que no entanto reúne características e valores que são a síntese do mundo de hoje e que podem se afirmar como laboratório das esperanças do mundo do futuro.

A POLÍTICA DE EXTENSÃO DA UFSC: REFLEXOS NO ENSINO DE SERVIÇO SOCIAL

“A POLÍTICA DE EXTENSÃO DA UFSC: REFLEXOS NO ENSINO DE SERVIÇO SOCIAL”.
Prof. Antônio Diomário de Queiroz

Embora não exista oficialmente uma política de extensão definida pelos conselhos superiores da UFSC, as normas que estão atualmente sendo propostas ao CEPE pela Câmara de Pesquisa e Extensão incorporam as principais diretrizes norteadoras da ação extensionista em nossa Universidade, que serão melhor explicitadas através de alguns comentários.

I- COMENTÁRIOS À DEFINIÇÃO DE EXTENSÃO DAS NORMAS DE EXTENSÃO APROVADAS PELA CÂMARA DE PESQUISA E EXTENSÃO.

“Art. 19 – A Extensão, entendida como uma das funções básicas da Universidade, é a interação sistematizada desta com a comunidade, através da mútua prestação de serviços, visando contribuir para o desenvolvimento dessa comunidade e dela buscar conhecimentos e experiências para a avaliação e vitalização do Ensino e da Pesquisa”.

1. Função básica da Universidade…

A Universidade surge tradicionalmente centrada na atividade de Ensino, que preenche o tempo de seus recursos humanos, ocupa seus espaços físicos e absorve os recursos orçamentários. É o Ensino que condiciona e define a estrutura organizacional da Universidade. É ao Ensino que se atribui aquele que é considerado o principal produto da Universidade: o profissional para o mercado de trabalho.

A segunda função historicamente atribuída à Universidade é a função Pesquisa. A Universidade se torna uma instituição geradora de novos conhecimentos. O professor dedica parte de seu tempo à investigação científica. Como produto, publica artigos em revistas especializadas, apresenta comunicações em congressos, escreve livros. A estrutura da Universidade se amplia através de laboratórios, institutos e outros órgãos de Pesquisa. Verbas específicas se adicionam aos orçamentos da Universidade, captadas por meio de Projetos de Pesquisa.

A função Extensão é a mais moderna, o estágio mais avançado da Universidade. Não existe ainda hoje a plena aceitação e compreensão da Extensão na Universidade. O tempo dos professores e alunos dedicados a esta função é muito pequeno. Os recursos financeiros, escassos e, quando existem, estão via de regra limitados a
atividades assistenciais e culturais. A existência de órgãos extensionistas constitui-se raridade na estrutura da Universidade. E não se distingue claramente qual o produto gerado pela Universidade através da Extensão.
A experiência da UFSC não foge à regra do desenvolvimento histórico da Universidade. A nossa Universidade também teve sua origem no Ensino e ainda hoje é essencialmente uma Universidade de Ensino, embora em transição para um novo modelo que incorpora a Pesquisa e a Extensão.

Basta citar a favor desta constatação alguns fatos:

1. a contratação de novos professores e a utilização do tempo dos docentes nos Planos Departamentais se justificam fundamentalmente pela atividade de Ensino, sendo as de Pesquisa e Extensão consideradas complementares;

2. a legislação federal e as normas internas da UFSC (Res. N° 40 do CEPE) estabelecem número mínimo de horas para o Ensino e número máximo de horas para a Pesquisa e Extensão;

3. recente legislação criou incentivo de produtividade para o professor (GRAPE) somente pelas horas de Ensino em sala de aula;

4. a estrutura e a organização curricular exigem dedicação quase exclusiva do tempo do aluno à atividade de Ensino em sala de aula;

5. o orçamento para a Extensão é muito pequeno e são relativamente raras as fontes externas para o seu funcionamento;

6. a estrutura universitária comporta uma Pró-Reitoria de Ensino e outra dividida para a Pesquisa e Extensão e não existe representação de pesquisadores e extensionistas nos órgãos colegiados superiores;

7. os Departamentos ditos “de Ensino” e os Colegiados de Curso vivem frequentes conflitos de atribuição, por se sobreporem ao exercício da mesma função Ensino;

8. coordenadores de Pesquisa e Extensão de Departamentos e Centros, com frequência, não encontram atividades suficientes para preencher produtivamente as horas de trabalho que lhes são atribuídas para o exercício de suas funções.

2. … interação sistematizada da Universidade com a
comunidade …

O processo de Extensão não pode ser pontual e intermitente. É necessário que a organização desta função permita um fluxo permanente e contínuo de atividades. Daí porque precisa de uma estrutura própria e de normas claras que definam a responsabilidade da Universidade como instituição pelos compromissos assumidos junto à Comunidade.

Na prática extensionista, uma das dificuldades observadas em alguns projetos de Extensão é que eles às vezes começam e não terminam, envolvendo negativamente o nome da Universidade, sem que ninguém seja responsabilizado.

Para assegurar que a interação entre a Universidade e a Comunidade ocorra de forma sistematizada, as novas Normas de Extensão propõem dispositivos de ao menos três ordens:

1. que definem as competências (CAP II) dos diversos órgãos da UFSC pelas atividades de Extensão, centrando no Departamento a autoridade e a responsabilidade básicas para o planejamento, aprovação, execução e avaliação das ações extensionistas;

2. que determinam a necessidade, para a aprovação das atividades de Extensão, de ser demonstrada a viabilidade de obtenção de recursos humanos e financeiros, e, para sua execução, que os recursos estejam garantidos;

3. que cada Departamento Acadêmico deva ter uma carga de Extensão média igual ou superior a 02 (duas) horas semanais por professor.

3. … através da mútua prestação de serviços …

A Extensão é uma atividade de dupla mão, de transferência e busca de conhecimentos, por conseguinte, de mútua prestação de serviços. O bem objeto de transação entre a comunidade e a Universidade é o saber. A sua transferência, pode-se dar na forma de “consultoria, assessorias, cursos, simpósios, congressos, conferências, seminários, debates, palestras, atividades assistenciais, artísticas, esportivas, culturais e outras atividades afins, realizadas interna ou externamente à Universidade, podendo ser remuneradas ou não”. (Art. 2° das novas normas de Extensão.

Entendida como uma mútua prestação de serviços, a Extensão pressupõe uma Universidade aberta a todas as ideias, a todas as pessoas e a todas as idades, com humildade suficiente para valorizar inclusive o saber não formal. Neste sentido, a Extensão significa a recuperação da unidade do conhecimento que fundamenta o Ensino e a Pesquisa, pois recupera sua dimensão do real.

4. … visando contribuir para o desenvolvimento da comunidade e dela buscar conhecimentos e experiên¬cias para a avaliação e vitalização do Ensino e da Pesquisa.

Este final da definição diz respeito aos objetivos da Extensão.

Pela Extensão, a Universidade assume plenamente sua responsabilidade social de agente do desenvolvimento. Ela ajuda a compreender a dinâmica do meio ambiente físico, econômico e social que a envolve. E transferindo conhecimento, dá sua contribuição às mudanças que assegurem às populações a transição a níveis mais elevados de vida.

Não quer isto dizer que a Universidade assuma todo o encargo da transformação social e do desenvolvimento.

O limite de sua ação extensionista se subordina ao objetivo de avaliação e vitalização do Ensino e da Pesquisa. A Universidade não deve substituir-se a outros órgãos com responsabilidades específicas de desenvolvimento. Mas só alcançará sua plenitude como instituição, quando tiver condições de libertar seus estudantes de uma for mação curricular livresca, fundamentada em ensinamentos, na sua maioria de natureza alienígena, envolvendo-os no contexto de conhecimentos adquiridos através da Pesquisa e do convívio com a nossa realidade.

II – AS ATIVIDADES DE EXTENSÃO NO SERVIÇO SOCIAL

O Pe. Fernando Bastos de Avila destaca como sendo da própria dinâmica do Serviço Social:

“a) fazer ‘com’ os indivíduos, os grupos e as comunida¬des e não ‘para’ eles;

b) ir às causas dos problemas para resolvê-los e não, apenas, atuar sobre os efeitos”.

Em razão desta dinâmica, pode-se inferir a importância do aprendizado de Serviço Social em estreita interação com a comunidade. De fato, como aprender a fazer com os indivíduos, grupos e comunidades e como buscar as causas de seus problemas sem um estreito contato com os mesmos?

A Extensão se harmoniza, outrossim, com a própria metodologia do Serviço Social, conforme explicitada pelo Prof. Vicente de
Paula Faleiras em sua exposição sobre “A questão das alternativas metodológicas da Pesquisa em Serviço Social”, no 2° Seminário Regional de Pesquisa em Serviço Social realizado em Florianópolis, em outubro de 1985.

“Uma tarefa que implica um “saber da historicidade que vivemos”, pois é situando o “caso social” ou a “realidade social” em seu contexto histórico que se desvenda o movimento social. Movimento que vincula os homens entre si, provocando entre eles, tanto exigências de participação social, quanto exigências pessoais das mais variadas qualidades. Em outras palavras, é preciso saber ler os temas das discussões que mobilizam as relações interpessoais. Descobrir os es tilos de críticas, os estilos de ação social, cujos efeitos práticos não satis fazem exigências humanas mais eminentemente práticas e concretas; uma tarefa que implica um “saber epistêmico”, ou seja, um conhecer específico referente às articulações do social, presentes no interior de “caso social”, ou na “realidade social”, responsável pelo desenvolvimento do processo; e, uma tarefa que implica um “saber pedagógico”, provocador direto ou indireto de uma nova dinâmica social. Pedagogia que visa provocar a constituição de uma comunidade onde seus membros sejam reconhecidos como pessoas, onde a consciência se torna “cada vez mais tensa em pura dialética com a liberdade e a verdade. Ela dá a sua medida”.

Se a aquisição da “historicidade que vivemos” assim como definida pelo autor se nos afigura como uma tarefa possível de realizar-se dentro do espaço da Universidade, não podemos imaginar a assimilação do “saber epistêmico” e do “saber pedagógico”, sem a atividade de Extensão.

No entanto, é forçoso reconhecer que essas atividades vêm sendo prejudicadas em seu desenvolvimento pelas mesmas dificuldades por nós anteriormente apontadas para o pleno exercício da função Extensão na Universidade.

Conforme diagnosticou a Professora Dymuth Meinicke em suas “Reflexões sobre a Extensão Universitária e sua operacionalização na UFSC” realizadas em setembro de 1979, pág.7, desde aquela época “respaldada na legislação federal e específica, a Universidade Federal de Santa Catarina demonstra estar cônscia da importância da função extensionista para todo o sistema universitário, e procura incrementá-la”.

Mas esse incremento parece ter encontrado seus limites, ou ao menos difícil obstáculo, que desestimula professores e alunos, na estrutura caduca da Universidade.

A consciência da importância da Extensão deve ser rea vivada, para que as atividades correspondentes a esta função possam sair do terceiro plano a que hoje se encontram relegadas nos currículos escolares e nos programas departamentais. Que a Reforma Universitária resgate a importância da Extensão na Universidade parece-nos condição indispensável para o fortalecimento de sua credibilidade junto à sociedade brasileira.
* * *
São pois nossos votos que o presente Seminário possa trazer importante contribuição do Serviço Social à valorização das atividades extensionistas da UFSC, mas também, que desde agora, embora no âmbito das limitações apontadas, mas na esfera do possível, resulte em novo ânimo para o maior envolvimento dos professores e alunos de Serviço Social em projetos e programas de Extensão.

Florianópolis, 21 de setembro de 1987.

Pró-Reitor de Pesquisa e Extensão da UFSC

 

VIABILIZAÇÃO TURÍSTICA DO PROJETO FORTALEZAS DA ILHA DE SANTA CATARINA

VIABILIZAÇÃO TURÍSTICA DO PROJETO FORTALEZAS DA ILHA DE SANTA CATARINA
Por Antônio Diomário de Queiroz.

Quando assumi a Reitoria da Universidade Federal de Santa Catarina em maio de 1992, já se encontrava em sua fase final o processo de restauração das fortalezas da Ilha de Santa Catarina, iniciado havia mais de duas décadas. Participara diretamente do imenso trabalho de recuperação e valorização desse património da humanidade desde os anos 80, quando Pró-Reitor de Pesquisa e Extensão. Como responsável pela administração do projeto, fiz inúmeras visitas às fortalezas para encaminhar providências administrativas ou para acompanhar visitantes da Universidade, que as tinha como belo cartão postal. Desde então as fortalezas me encantaram. Elas cativam por sua beleza arquitetônica, pela magnífica localização num dos cenários naturais mais bonitos do mundo, pelos valores da cidadania que evocam as obras de nossos antepassados portugueses.

Em 1992, a grande questão que se colocava à nossa equipe de trabalho na Reitoria era como associar esse processo de restauração a uma efetiva utilização dos espaços reconquistados, viabilizando não só culturalmente mas economicamente a preservação posterior dos monumentos. Concluídos os aportes de recursos da Fundação Banco do Brasil destinados especificamente para as obras, restava para a UFSC o ônus da manutenção do projeto, com custos elevados de mão-de-obra, transporte e energia, além da manutenção difícil e de baixa confiabilidade do gerador próprio a óleo diesel que operava na ilha de Anhatominm. A tentativa de transformar a ilha em um centro de pesquisas marinhas frustrara-se por essas dificuldades e pela percepção de que o acesso aos meios naturais de todo o ecossistema costeiro se fazia com mais facilidade a partir da própria ilha de Santa Catarina.

Procedida a análise do ponto de equilíbrio econômico das visitações às fortalezas, ficou clara a percepção de que a quantidade de 40.000 pessoas que procuraram as fortalezas em 1991 não seria suficiente para cobrir o total dos custos fixos do projeto, a não ser pela cobrança de taxa de turismo de preço inviável, dadas as condições precárias dos serviços oferecidos. Nosso desafio constituiu-se então em multiplicar o número de visitantes, melhorar as condições de acesso e permanência nos sítios históricos, e, ao mesmo tempo, ampliar a geração de recursos próprios e reduzir os custos fixos das operações. Para isso seria preciso integrar definitivamente as fortalezas ao roteiro turístico de Florianópolis, afirmando-as como uma opção segura e maravilhosa de turismo histórico e educativo.

Foi essa a diretriz e o compromisso que propus à liderança do Pró-Reitor Júlio Wiggers de Cultura e Extensão, aos seus colaboradores, Alaor Jesus Corrêa, Toni e Terezinha e aos demais servidores técnico-administrativos que se empenharam com muita vontade, amor e competência nesse trabalho. Já em 1995 foram registradas visitas de 145.000 pessoas às fortalezas e somente na temporada de verão de 1996 esse número foi superior a 100.000.

Para alcançar esses expressivos resultados, foi melhorada a infraestrutura colocada à disposição dos visitantes e realizada intensa programação cultural nos mais variados campos da arte.

O principal projeto de melhoria foi a iluminação da Ilha de Anhatomirim com energia elétrica, graças ao apoio e à intervenção pessoal do Governador Vilson Pedro Kleinubing. Merecem também destaque a reconstrução e o aumento dos trapiches, a aquisição de barco inflável, a recuperação dos aquários, a ampliação do número de sanitários, a instalação de bom restaurante e lanchonete, a melhoria da cozinha e dos dormitórios, a construção das guaritas de acesso à ilha, a instalação da telefonia celular. Em Ratones, além da complementação dos trapiches, implantou-se trilha ecológica para passeio na bela mata atlântica da ilha, recuperaram-se os canhões, gramou-se o patamar das bandeiras. Em São José, com o apoio da Prefeitura Municipal, realizou-se o calçamento de todo o entorno da fortaleza até a praia. Isso só foi possível após trabalhoso esforço de integração com a comunidade local, envolvendo árduas negociações com o Exército, ISPHAN, Habitasul e Clube Doze, até encontrar-se ponto de convergência para superar situação de conflito que se agravava. Elaborou-se então um Plano Diretor para o Forte de São José contemplando programa de valorização turística da área.

No âmbito da cultura, vale mencionar o resgate e a exposição permanente das peças arqueológicas relativas à alimentação e ao viver dos antigos habitantes das fortalezas, a criação da oficina de rendas de bilro, o treinamento de guias mirins e universitários para expor corretamente a história da colonização, a publicação de diversos livros e documentos de divulgação sobre as fortalezas, a aquisição de novas esculturas para a capela de São José da Ponta Grossa, a realização de diversas exposições artísticas, de concertos musicais e de grupos de teatro, intensificados durante a temporada de verão. Sempre que possível, compareci com prazer aos eventos programados, os quais me proporcionaram alguns dos melhores momentos de deleite no exercício das funções de Reitor. Era com orgulho que ciceroneava os convidados da Universidade às fortalezas, nessas e em outras ocasiões, certo de proporcionar-lhes uma visão esplendorosa da extensão universitária em toda a plenitude de seu alcance social. Pela mesma razão promovi com alguma frequência reuniões de estudo e trabalho em Anhatomirim com os demais dirigentes universitários, para que se envolvessem na compreensão real do caráter aberto da universidade como agente promotor do desenvolvimento da cidade e da região em que se insere.

Ao final do mandato, havíamos recebido do Ministério de Minas e Energia a notícia de aprovação da proposta de iluminação com energia solar da Ilha de Ratones e nos empenhávamos para captar junto ao Banco do Brasil recursos para restauração da Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição de Araçatuba. Também lutávamos para a construção de amplo estacionamento nas proximidades do Forte de São José, equipamento indispensável para melhorar as condições de visitação àquele sítio histórico.

Na essência, porém, acredito que, no mandato da alta direção da UFSC, com a dedicação extremada de todos os colaboradores envolvidos, contribuímos fundamentalmente para a viabilização turística, económica e cultural do projeto das fortalezas da Ilha de Santa Catarina, dando-lhe a dimensão e a infraestrutura necessárias para que se tornasse um processo irreversível, instrumento da vocação turística de Florianópolis.

Florianópolis, 11 de setembro de 2000.

CONVERGÊNCIA DE DIRETRIZES, SIM. LOTEAMENTO DE CARGOS, NÃO.

CONVERGÊNCIA DE DIRETRIZES, SIM. LOTEAMENTO DE CARGOS, NÃO.

Minha CARTA DE PRINCÍPIOS EM PROL DA UNIVERSIDADE revelou um ponto polêmico que desejo aprofundar e esclarecer o máximo possível, reiterando minha postura de princípio e respeito.

As pressões dos grupos na conquista do poder são legítimas, mas impõem uma disciplina ética também. No regime democrático, ninguém pode aspirar ao poder sem buscar a convergência de princípios e diretrizes com os grupos de pressão, legítimos, que representam as diferentes facções de um processo eleitoral. No caso da Universidade, por exemplo, qualquer candidato deve necessariamente se propor a administrar dentro da convergência de diretrizes propostas pela APUFSC, ASUFSC e Diretórios Estudantis. Essa convergência, além de ser objeto de debates, pode ser objeto de compromissos formais firmados pelos candidatos, para serem seguidos rigorosamente pela gestão administrativa que for eleita com base em tais compromissos formais.

É evidente que, formalizados tais compromissos, não poderão ser nomeadas para os cargos executivos dos mesmos, pessoas que deles discordem. Entretanto, dentre as pessoas que concordarem em executar rigorosamente as diretrizes firmadas pela convergência política dos grupos de pressão, cabe ao mandatário maior, no caso o Reitor eleito, escolher nomes de sua confiança, para que se executem rigorosamente os compromissos formalizados nas convergências de diretrizes com os grupos legítimos de pressão eleitoral e organizacional dentro da Universidade.

O mero loteamento de cargos, sem definição prévia da convergência de princípios e diretrizes, e abolindo o direito do mandatário maior de exercer o privilégio da confiança, dentro do respeito à convergência de diretrizes previamente definidas, é imoral, é corrupção dos processos políticos com base em meros interesses venais, por cargos.

Florianópolis, 12 de agosto de 1987.
Prof. ANTÔNIO DIOMÁRIO DE QUEIROZ