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POLÍTICAS DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA PARA SANTA CATARINA

POLÍTICAS DE CIÊNCIA E TECNOLOGIA PARA SANTA CATARINA

RESUMO – SULMAT 2004

2° Congresso em Ciências de Materiais do Mercosul

 Antônio Diomário de Queiroz

Diretor Geral da FUNCITEC

O processo de expansão das Instituições do Ensino Superior (IES) em Santa Catarina está sendo orientado por políticas de educação, ciência e tecnologia que visam dar sustentação aos programas de desenvolvimento regional num novo modelo de descentralização.

As IES devem se articular com os agentes econômicos e sociais, a nível local, através das Secretarias de Desenvolvimento Regional, coordenadas em âmbito estadual pela Secretaria de Planejamento, Orçamento e Gestão. Os Conselhos de Desenvolvimento Regional, dos quais participam as universidades, constituem o mecanismo para a articulação dos esforços de formulação das políticas de desenvolvimento local e regional.

A FUNCITEC, vinculada à Secretaria de Educação e Inovação, integra esse processo de desenvolvimento, proporcionando o acesso à rede estadual de ciência e tecnologia e apoiando as ações de pesquisa, extensão e inovação, por meio de diversos programas e editais voltados para a valorização das potencialidades dos arranjos produtivos locais.

Estimula-se assim a realização do ensino no contexto da pesquisa e da extensão. A Universidade tem a responsabilidade social de alimentar continuamente com novos conhecimentos o processo de desenvolvimento econômico e social de um país.

A qualidade da instituição se mede pelos resultados junto à sociedade.

Há que se raciocinar em termos da eficácia social das universidades, com resultados compatíveis com a realidade em que se situam e com o estágio recente de sua formação. Os sistemas tecnológicos se produzem socialmente e a produção social vem determinada pela cultura.

A era da informação, ao intensificar os meios e o processo de comunicação entre pessoas de todo o mundo, amplia o campo da extensão ao incorporar o conceito da inovação ao lado de ciência e tecnologia.

A inovação é a convergência da história de diversas pessoas para encontrar uma solução de futuro. Ela surge da formulação explícita ou implícita de pactos de controle público do processo de tomada de decisões e da definição concomitante dos mecanismos institucionais que assegurem a vigência de tais pactos. O conceito de inovação passou a ser enunciado como “o resultado de um conjunto de relações que unem três mundos sociais distintos, que possuem culturas próprias e, não raro, francamente conflitantes” (FLICHY, P. 1995. L’ innovation tecnique

). No conceito de inovação proposto por esse autor, a internet é instrumento facilitador das relações de três mundos sociais, assim estruturados:

relações internas à comunidade de pesquisadores com abordagens inovadoras;

relações entre a comunidade de pesquisadores e os agentes econômicos e sociais e

relações com os agentes do Estado e do Governo, operadores do sistema político-econômico.

As políticas públicas de Ciência, Tecnologia e Inovação promovem o desenvolvimento científico e tecnológico. Formam a base da dinâmica do processo de desenvolvimento econômico e social com distribuição justa de renda e inclusão social.

Em Santa Catarina, o papel da FUNCITEC é promover o desenvolvimento científico e tecnológico por meio do fomento à pesquisa e da interação, em todos os níveis, das instituições científicas, dos complexos produtivos, do governo e da sociedade. É nesse sentido que está apoiando a realização do 2° Congresso em Ciências de Materiais do Mercosul que reúne representantes dos setores industrial e acadêmico, direta ou indiretamente ligados a técnicas que fazem uso de materiais cerâmicos, poliméricos e metálicos. Deseja-se que o intercâmbio de informações via apresentação de trabalhos científicos e discussões técnicas proporcione o ambiente favorável ao surgimento de importantes inovações para o desenvolvimento econômico e social nessa área do conhecimento.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

ANÍBAL NUNES PIRES, PROFESSOR ALUNO

ANÍBAL NUNES PIRES, PROFESSOR ALUNO

 A lenda e a imagem de Aníbal Nunes Pires chegaram-me ao conhecimento antes de sua própria pessoa. Quando ingressei como professor no Instituto Estadual de Educação em 1963, Aníbal era percebido como um ícone, assim reverenciado pelos colegas de magistério.

Ele havia se aposentado recentemente do Instituto, e sua áurea de mestre ainda iluminava os ambientes da casa, animando as conversas das pessoas. Jovem professor de Português, ouvi do colega Silveira de Souza as lembranças do Círculo de Arte Moderna e do Grupo Sul. Destacava a liderança na literatura catarinense de Aníbal Pires, lente catedrático de matemática apaixonado por crônicas, contos e poesias.

Em 1965, aprovado no Vestibular, passei a freqüentar o Curso de Letras da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras da Universidade Federal de Santa Catarina. Naquela época, a matrícula nesse curso assegurava o direito ao registro de professor de Português no Ministério de Educação. Proporcionava-me também o aprendizado do Francês, com excelentes professores, preparando-me para o sonho do doutoramento na França.

Naquele ano, para minha surpresa, Aníbal Pires que já integrava o quadro da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, na condição de professor de literatura brasileira, apresenta-se como aluno e nosso colega de turma nas disciplinas Teoria da Literatura do professor Celestino Sachet e Literatura Portuguesa, da Professora Aurora Goulart. Certamente buscava nos ensinamentos desses dois extraordinários professores a complementação de sua formação em Economia, Direito e Contabilidade e de seu autodidatismo em Literatura. E o interessante é que se comportava em sala de aula como qualquer um de nós. Ajudava a animar o ambiente com suas perguntas, estórias e piadas. Quando as aulas se tornavam pesadas, cochilava. Tratava a gente com carinho e consideração, tendo prazer de filosofar e conversar sobre escritores e livros, avançando nos recreios e finais de aula, sem hora para terminar.

Em 1966, ele reapareceu como auxiliar do Professor Celestino Sachet nas saborosas aulas de Literatura Brasileira, que definia como “a expressão da realidade brasileira através da palavra”. Guardo as anotações dessas aulas. Aníbal, lendo-nos “O Anjo da Noite” de Cecília de Meireles, nos ensinava a crônica – “mensagem de fundo atual versando assunto contemporâneo que com o tempo perde o valor total do sentido”. A partir do Espelho Partido de O Trapicheiro de Marques Rebelo, nos conceituou o conto. Ele não teorizava muito. Pela entonação emotiva e inteligente da leitura, com pausas que davam o tempo para a gente aprender, ia pouco a pouco nos comprometendo de corpo e alma com a literatura.

Bem mais tarde, após ter retornado do doutoramento na França e lotado no Departamento de Engenharia de Produção e Sistemas da UFSC, recebi um exemplar da Inútil Palavra de Aníbal Nunes Pires, Edições Sanfona. Li suas poesias com prazer e saudades. Marcou-me o Poema Mordaz de seus Três Rumos:

Amigos, sou candidato!

Adeus, amigos;

Fui eleito! 

Em três versos concisos, proporcionou-me uma reflexão profunda sobre a atitude de candidatos e eleitos que tenho levado em consideração por toda a vida.

Aníbal se foi muito cedo. Percebeu nos seus versos Três Aleluias que a morte que o levou era a libertação. Mas nos deixou a Dúvida:

A vida fechou o boteco.

Ai de mim!

Beberei na morte?

 

  Florianópolis, março de 2006

  Antônio Diomário de Queiroz.

 

O testamento de Jacó Anderle para a Educação

O testamento de Jacó Anderle para a Educação

Eixos estratégicos para o sistema público de educação de qualidade em Santa Catarina.

Senti o peso e a prioridade atribuídos pelo professor Jacó Anderle à Caravana pela Educação quando me convocou para participar dos encontros mesorregionais. Naquele momento, quando ocupava a função de diretor-geral da Secretaria de Educação, Ciência e Tecnologia, vinha me concentrando em problemas de origem administrativa e financeira, para que ele pudesse conduzir todo o projeto pedagógico de educação no Estado. Mas ao falar sobre a Caravana, me disse: “Nesta você tem que ir Diomário; ela é muito importante”.

De fato, Jacó buscou transmitir a todos os catarinenses nas oito reuniões mesorregionais sua visão estratégica da educação. A direção apontada para o longo prazo era a integração e articulação de todas as instituições, modalidades e níveis de educação na busca de qualidade para todos, de forma sistêmica. Jacó sonhava com a libertação dos catarinenses, oferecendo-lhes oportunidades de acesso democrático à educação de qualidade. O sistema preconizado pressupunha não só o ensino tradicional em sala de aula, mas o envolvimento dos alunos em projetos e programas de natureza comunitária e de desenvolvimento local.

Assim, o primeiro eixo estratégico apontado por Jacó tinha por objetivo abrir as salas de aula do ensino fundamental na direção do social. Almejava o ensino fundamental integrado ao entorno familiar e comunitário da escola e um processo educativo de tempo integral. Os três projetos estruturantes priorizados para romper as resistências do ensino fundamental praticado até então foram: Escola Aberta, Escola Pública Integrada e Escola Ambial.

Esses três projetos têm em comum o conceito de aprendizagem centrado na interação da criança com múltiplos atores sociais e na formação curricular enriquecida pela arte, pelo esporte, pelo lazer, pela convivência, pela aproximação com o mundo do trabalho. Tal visão educacional pressupõe respeito à criança e ao jovem e sua aceitação como sujeitos das relações humanas no ensino e na aprendizagem. Na caravana, Jacó expunha com entusiasmo seus ideais a esse respeito e conclamava as pessoas a se comprometerem com a expansão gradativa desses projetos a todas as escolas. Firmava o compromisso de melhoria da educação pública pelo regime de cooperação entre Estado e municípios para que se pudesse, ao longo do tempo, vir a beneficiar todas as crianças desde a educação infantil.

O segundo eixo estratégico diz respeito à integração do Ensino Médio com a Educação Profissional. Jacó percebia que as oportunidades de emprego e a valorização das potencialidades físicas de nosso Estado só se tornam possíveis pela qualificação do jovem para o mundo do trabalho desde a educação profissional de nível médio. Construir um sistema que atenda a essa condição constitui um desafio estratégico para o qual buscou articular um programa de ações. As experiências bem sucedidas na região de São Joaquim no projeto piloto voltado a dar suporte profissional à Vitivinicultura é o exemplo que citava com orgulho. Sonhava estender ao menos um projeto de integração dessa natureza a cada uma das regiões de Santa Catarina.

O terceiro eixo estratégico visa a articulação da educação básica com a educação superior. A idéia central decorre da convicção de que é possível estimular a atividade criativa e o espírito crítico das crianças na direção do desenvolvimento local. Acreditava que abrindo a escola básica se abria também o espaço de articulação dos jovens estudantes com os programas de extensão universitária, no compromisso de ação articulada em projetos locais prioritários de grande alcance social.

Sob sua liderança, intensificou-se o empenho da Secretaria de Estado da Educação, Ciência e Tecnologia em assegurar o cumprimento do apoio financeiro ao estudante universitário previsto no artigo 170 e em promover os Cursos de Formação dos Agentes de Desenvolvimento Regional, envolvendo os estudantes das universidades públicas e privadas. Propôs a contrapartida aos estudantes bolsistas na forma de horas de dedicação a programas considerados prioritários pelos Conselhos de Desenvolvimento Regional. A crença de Jacó na perspectiva de uma ação articulada de todos os níveis educacionais em programas benéficos à população de toda Santa Catarina, participando efetivamente do processo educacional que extrapola os limites da sala de aula, é uma das motivações que o levaram a liderar a implementação do processo de descentralização do governador Luiz Henrique.

Ao longo da Caravana pela Educação, defendeu vigoroso programa de capacitação docente, a valorização do magistério e o uso intensivo das novas tecnologias de comunicação e informação, como infraestrutura básica indispensável para viabilizar a consecução desses eixos estratégicos. Secretários de Desenvolvimento Regional, prefeitos, instituições universitárias, pessoas e agentes econômicos e sociais das mais expressivas origens manifestaram com unanimidade a admiração pela política transformada em práticas educacionais e em obras disseminadas por toda Santa Catarina pela Secretaria de Estado da Educação, Ciência e Tecnologia.

O Secretário Jacó superou condições físicas muito dolorosas e exauriu suas últimas forças tentando completar com sua presença e voz o conjunto dos oito encontros programados nas mesorregiões. Coube-me completar essa sua obra. Independentemente de sua presença carismática, sua mensagem foi transmitida e aceita com carinho, convicção e respeito em toda Santa Catarina. Seu legado foi sintetizado em meu discurso de posse, quando assumi o compromisso público de dar continuidade ao avanço na direção por ele indicada:

“a construção de um sistema de educação de qualidade para todos os catarinenses, integrado e articulado em todas as modalidades de ensino, num processo de aprendizagem aberto e comprometido com o social, no qual, mais do que instruir se educa o cidadão, estimulando sua criatividade e seu espírito crítico, no contexto da pesquisa e das relações comunitárias, para construir uma vida e um mundo melhores”.

Antônio Diomário de Queiroz

Secretário de Estado da Educação, Ciência e Tecnologia

Florianópolis, setembro de 2005.

 

 

 

 

ORIGENS E AFIRMAÇÃO DO PÓLO TECNOLÓGICO DE FLORIANÓPOLIS

ORIGENS E AFIRMAÇÃO DO PÓLO TECNOLÓGICO DE FLORIANÓPOLIS

O Pólo Tecnológico de Florianópolis se tornou uma realidade. O sonho perseguido com tenacidade por alguns visionários, ao longo das últimas décadas, se configura em milhares de empregos de elevada renda em centenas de empresas inovadoras de base tecnológica. A cidade se projeta exponencialmente como centro dinâmico de inovações neste século do conhecimento, concebendo e viabilizando o Sapiens Parque e desenvolvendo arranjo produtivo avançado em informática e eletrônica.

A transformação extraordinária de uma pacata cidade administrativa e turística num conglomerado universitário irradiador dos resultados da pesquisa acadêmica para a sociedade não se deu espontaneamente. Desde a instalação da Universidade Federal de Santa Catarina, em 1962, seus dirigentes compreenderam que o ensino de qualidade poderia ser melhor alcançado num ambiente de pesquisa e extensão. No Centro Tecnológico da instituição, sob a liderança do Professor Erich Caspar Stemmer, praticou-se, pioneiramente, política deliberada de contratação de professores dedicados a tempo integral às atividades universitárias. Investiu-se maciçamente na pós-graduação desses professores no país e no exterior. Firmaram-se vários programas de cooperação técnico-científica internacional. Construíram-se centenas de laboratórios. Promoveram-se cursos de mestrado e doutorado.

Asseguradas essas pré-condições, consolidaram-se gradativamente no conjunto da UFSC diversos grupos de pesquisa de excelência. Dentre eles foram se afirmando as competências nas áreas de informática, mecânica de precisão e automação industrial, base da interação tecnológica com o setor produtivo.

Nesse contexto, como registrou José Fernando Xavier Faraco, em 1984 propôs-se articular a ação da universidade, do governo e das empresas de Florianópolis para o desenvolvimento de um complexo industrial de microinformática. A criação de um pólo de informática representaria para Florianópolis “uma opção industrial limpa e silenciosa, sem prejuízo para o meio ambiente e para as belezas naturais da Ilha.”

A dinâmica de construção desse pólo de informática estava centrada em dois empreendimentos inovadores: o Centro Regional de Tecnologia em Informática – CERTI, e o Condomínio Industrial patrocinado pela Associação para a Telemática e a Eletrônica em Santa Catarina – ACATE.

A idéia inicial de instalar em Florianópolis o Centro Regional de Tecnologia em Informática, conforme testemunho de seu idealizador, Professor Carlos Alberto Schneider, nasceu em 1982 por ocasião das discussões do plano de eletrificação para o ano 2000 das Centrais Elétricas do Sul do Brasil, ELETROSUL. Nele se previa a construção de 10 novas usinas termoelétricas e a importação de toda a instrumentação eletrônica necessária a seu funcionamento. No entanto, prosperou a idéia de utilizar o “savoir faire” disponível na UFSC para o desenvolvimento da indústria brasileira no domínio da automação, incentivando-se a criação do CERTI. O estatuto desse Centro previa também o estímulo à criação de empresas de base tecnológica. Nesse sentido, implantou, desde 1987, a Incubadora Tecnológica de Empresas.  

A ACATE, em 1986, reuniu em condomínio várias pequenas empresas que se constituíram em Florianópolis no campo das telecomunicações, estimuladas pela Empresa de Telecomunicações de Santa Catarina – TELESC, que lhes assegurava o mercado para os novos produtos. Segundo José Fernando Xavier Faraco, “a idéia do Condomínio era essencialmente a utilização comum de uma mesma infraestrutura de equipamentos e de serviços para poder permitir às pequenas empresas economias de escala até sua consolidação financeira.”

A implantação do Pólo de Informática de Florianópolis fundamentava-se na crença em sua sinergia como mecanismo integrador de esforços. A concepção original de transposição das empresas incubadas e consolidadas para um distrito industrial evoluiu para a implantação de Parques Tecnológicos – PARQTECs com área destinada à implantação de empresas de alta tecnologia em informática, telecomunicações, eletroeletrônica, instrumentação, mecânica de precisão e automação industrial. O Pólo Tecnológico de Florianópolis seria constituído por vários parques tecnológicos com espaços programados no plano diretor da cidade. O Parqtec Alfa, na Br. SC 401, foi implantado com sucesso, tendo incubado uma centena de empresas de base tecnológica. É referência no país.

Concomitantemente a esses avanços, foram-se afirmando as fundações de apoio às universidades , os centros de pesquisa e desenvolvimento, o sistema de educação superior em Santa Catarina, a Rede de Ciência e Tecnologia, a FUNCITEC depois transformada em FAPESC, e inúmeros outros mecanismos e instituições que se consubstanciaram no fortalecimento de um Sistema Estadual de Ciência, Tecnologia e Inovação. Superando todas as dificuldades das freqüentes crises institucionais e de governo, o conceito de pólo tecnológico se expandiu ao Estado de Santa Catarina em diversas áreas do conhecimento. Basta citar a existência atualmente de 33 incubadoras de empresas nas diversas regiões como base de sustentação científica e tecnológica ao processo de desenvolvimento dos arranjos produtivos locais.

É muito importante que se faça o registro histórico da evolução do Pólo Tecnológico de Florianópolis. É um testemunho da eficácia das universidades nas relações com os agentes econômicos e sociais. O acesso direto ou indireto desses agentes às bases tecnológicas e às competências dos quadros de pesquisadores lhes possibilita integrar um processo de desenvolvimento autônomo e sustentável equiparável àquele que anima os países desenvolvidos.

                            Florianópolis, 12 de outubro de 2005.

                            Antônio Diomário de Queiroz.

 

 

 

A eficácia social da FAPESC

A eficácia social da FAPESC

O incomparável economista Celso Furtado, em suas aulas na Sorbonne, Paris, ao fazer a defesa intransigente e estratégica do investimento na educação, na ciência e na tecnologia, levava em conta o conceito de responsabilidade social das universidades, do Governo e do setor produtivo. Entendia que os benefícios das inovações tecnológicas e dos avanços científicos deveriam, necessariamente, ser democratizados e melhorar a qualidade de vida das pessoas. Ao aceitarmos o convite para dirigir a Funcitec, atual Fapesc, incorporamos, ao paradigma de Celso Furtado, o conceito de eficácia social em que a qualidade de uma instituição se mede pelos resultados junto à sociedade.

Afinal, não se deve perder de vista o caráter dos bens públicos em um país que precisa ser de todos para reverter o efeito concentrador de um processo de desenvolvimento nefasto, que leva à exclusão social, à fome e à miséria. Uma universidade tem a responsabilidade social e ética de alimentar com novos conhecimentos o processo de desenvolvimento econômico, social e cultural de um País, de um Estado ou de uma região.

Esses princípios, coerentes com a Política de Descentralização implementada em Santa Catarina pelo governo Luiz Henrique-Pinho Moreira, nortearam nossa participação na implantação e implementação da Política Científica e Tecnológica. A FUNCITEC, ao recuperar a credibilidade política junto à sociedade e reconquistar a confiança da comunidade científica e tecnológica, pôde contar com a efetiva participação dos pesquisadores, das organizações sociais, das universidades e das empresas na construção de novas perspectivas para o processo de desenvolvimento de SC, sempre na certeza de que Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação só se sustentam pela eficácia social e efetiva transferência dos resultados das pesquisas para a maioria da população.

A transformação social é o sentido último da pesquisa. Cabe à ciência diminuir progressivamente o sofrimento das pessoas e das nossas comunidades e construir um mundo melhor e mais justo. Ou seja, a inovação tecnológica e o acesso às novas tecnologias precisam criar impacto social. O que fez a FUNCITEC e o que faz a FAPESC é trabalhar para que a inovação tecnológica viabilize a eficácia social das atividades de ciência e tecnologia, integradas e associadas à educação, à cidadania e ao meio ambiente.

Em nosso mandato, embora permaneça como meta a aplicação constitucional de 2% da arrecadação líquida do Estado, muito se avançou em comparação ao passado. O mesmo pode-se afirmar em relação à qualidade e aos critérios adotados para os investimentos. Todas as áreas do conhecimento foram contempladas e, obedecendo à filosofia governamental, a CT&I foi disseminada em todas as regiões do Estado, envolvendo todas as instituições de educação superior e nutrindo as ações das 30 Secretarias de Desenvolvimento Regional. Um exemplo emblemático foi a semeadura, sem precedentes, de incubadoras empresariais, gerando tecnologia, emprego, renda e inclusão social em toda SC. Essa ação complementa, de alguma forma, os pólos e parques tecnológicos e a consolidação e o surgimento de novos Arranjos Produtivos Locais. Aproximando Governo, academia e empresa, a FAPESC tem proporcionado suporte para áreas e setores estratégicos ao desenvolvimento sustentado, incrementando e disponibilizando ferramentas que possibilitam a melhoria da competitividade e qualidade dos produtos catarinenses. Não poderíamos deixar de evocar, neste contexto, o apoio da FAPESC para projetos relacionados à Mata Atlântica, ao efeito estufa e aos aqüíferos Guarani e Serra Geral.

A pesquisa experimentou outros saldos qualitativos nesses quatro anos. Dentro de uma visão de educação plena, ela ganhou vitalidade com a vinculação à Secretaria de Estado da Educação, Ciência e Tecnologia. Além disso, com a unificação da FUNCITEC e do FEPA, o sistema de CT&I saiu da reforma administrativa rejuvenescido e legitimado pela sociedade, já que esse avanço é fruto da vontade da comunidade científica, manifestada em seminários e nas conferências estaduais. Sistematicamente rebelde à burocracia, a CT&I fez um gol de placa quando entrou em vigor o chamado Termo de Outorga, que autoriza a FAPESC a repassar recursos diretamente para os pesquisadores. Quer dizer, foram plantadas as bases para uma Política de Estado para a Educação, Ciência, Tecnologia e Inovação, capaz de sobreviver a governos, partidos e dirigentes.

Tanto na Fundação como na Secretaria de Estado da Educação, Ciência e Tecnologia, trabalhamos de forma multidisciplinar, privilegiando simultaneamente os conhecimentos da ciência básica, da ciência aplicada, da tecnologia e os conceitos de redes sociais que se entrelaçam. A lógica de rede prevalece no conjunto das relações e também dos esforços da CT&I para formação social e o desenvolvimento regional.

Cumprindo e superando o Plano 15, em SC prevaleceu a Declaração Mundial de Budapeste, da Unesco, que ressalta a dimensão ética de socializar o conhecimento para todas as pessoas. Basta lembrar que a Rede Catarinense de Ciência e Tecnologia (RCT), financiada e implementada pela FAPESC, vem viabilizando a inclusão social, via inclusão digital, do cidadão na sociedade da informação e do conhecimento.

Aplicando o conceito de eficácia social e as lições de Celso Furtado, inserimos a CT&I num processo de inclusão e educação plena em todos os níveis, incluindo a universidade, a educação básica e o ensino profissionalizante.

Na certeza de que nada faríamos sozinhos, atribuímos o mérito de tudo o que foi feito ao trabalho coletivo, reflexo da vontade política de um Governo comprometido com o social.  

   Professor Antônio Diomário de Queiroz – Ex-presidente da Funcitec e da FAPESC, 2010

  

  

 

 

 

Desafios para a educação básica no Brasil

Desafios para a educação básica no Brasil 

O problema da educação básica é crônico. No Brasil, um dos desafios estruturais da educação superior consiste em eliminar o descompasso com a educação básica. Somente no ensino fundamental o país conseguiu alcançar níveis próximos à universalização, com qualidade questionada pela sociedade, com número e formação inadequada de professores e com evasão superior a 50% nas ciências básicas. Os reflexos dessa realidade sobre a qualidade da educação superior são muito negativos.

A UNESCO alerta que para universalizar o ensino básico de qualidade é preciso aumentar o número de professores e os investimentos na capacitação contínua, com medidas que promovam o respeito à profissão e melhorem as condições de trabalho.

Porém, mesmo em estados como Santa Catarina, que detém um dos melhores índices brasileiros de desenvolvimento da educação básica, as condições apresentadas estão longe do ideal. No ensino médio, por exemplo, existem 250 mil alunos matriculados, correspondendo a apenas 60% de atendimento dos jovens entre 15 e 17 anos de idade. No ensino profissionalizante e na educação infantil a situação é ainda mais precária. O Estado gasta 35% do orçamento com a educação. Mesmo com esse elevado percentual de investimentos não consegue superar alguns problemas estruturais da educação básica, inclusive o de valorização dos professores, com remuneração digna e formação atualizada.

Diversas iniciativas têm sido tomadas para a superação dessa distorção. Na Universidade Federal de Santa Catarina, um programa de extensão para a capacitação docente da educação básica originou o MAGISTER da Secretaria do Estado da Educação, focado sobretudo na habilitação de professores das disciplinas das ciências exatas, com reconhecido sucesso. Os programas de Educação à Distância da Universidade do Estado de Santa Catarina viabilizaram a capacitação pedagógica de milhares de professores da rede estadual. A interiorização pelo SENAI do ensino profissionalizante e programas como os da SOCIESC – Sociedade Educacional de Santa Catarina   e da FABET – Fundação Adolpho Bósio de Educação no Transporte, de formação do trabalhador para o emprego qualificado de nível médio, têm obtido excelentes resultados.

Porém, muito mais precisa ser feito para que se aproveitem as imensas oportunidades que oferece a sociedade em rede contemporânea que provoca importantes mudanças no conteúdo e nas formas de emprego, com a utilização das avançadas tecnologias da comunicação e da informação nos sistemas produtivos. A utilização didática dessas novas tecnologias favorece o processo pedagógico da proposta curricular no mundo novo. E exponencializa as oportunidades de qualificação profissional que extrapolam o espaço limitado da sala de aula. A mudança decorrente no conceito de escola implica na realização de reforma educacional em todos os níveis e amplia as esperanças para solucionar os desafios da educação.

ANDIFES

III SEMINÁRIO DE PROFESSORES NA EDUCAÇÃO BÁSICA: DIAGNÓSTICO E PROPOSTAS

Brasília, 11 e 12 de dezembro de 2007

Antônio Diomário de Queiroz

 

 

Uma nova escola para o novo mundo

Uma nova escola para o novo mundo 

O advento das novas tecnologias da informação e da comunicação proporciona o repensar do processo ensino-aprendizagem. O ensino circunscrito à sala de aula, pressupondo o domínio pelo professor de uma determinada disciplina ou área do conhecimento, avança na direção de um processo aberto de aprendizagem em que todos os atores têm oportunidades quase infinitas de acessar bases de informações e experiências que fluem de todas as partes do mundo pela rede informatizada de comunicações.

O fato novo é que o acesso a essas bases de dados e informações está aberto a todas as pessoas. Estamos passando pela revolução das tecnologias e dos sistemas de comunicação que enriquecem a capacidade dos cidadãos de gerar conhecimento em nível local. A sua utilização possibilita uma reflexão crítica e elaborada da realidade, gerando inovações que melhoram o mundo onde vivem. As pessoas aprendem a transformar o seu cotidiano a partir das vivências universais. Por exemplo, em Rancho Queimado, um professor preparou uma aula de Geografia no ensino fundamental, comparando a agricultura da região com imagens e conteúdos relacionados ao desenvolvimento das técnicas agrícolas no período greco-romano. Com a comunicação em rede, valorizou de forma criativa e interessante a sua disciplina.

        As pessoas não mais aprendem apenas com a informação limitada à sabedoria de alguns poucos professores ou das tradições familiares ou do convívio comunitário. Não há como esconder dentro do espaço da sala de aula as limitações do conteúdo de um professor por mais bem formado e preparado que seja. A sala de aula escolástica foi construída para proteger a relativa ignorância do mestre medieval. Hoje o mestre convive com alunos que acessam pela televisão, pelo computador, pelo telefone, por livros, bases de informação abertas, o que torna impossível dominar todas elas. Os alunos trazem também as vivências do cotidiano. É impraticável uma só pessoa acessar o conjunto de saberes transmitidos pela tradição e pelos meios de comunicação da atualidade.

A mudança desses meios de comunicação leva necessariamente à mudança do processo de ensino-aprendizagem. Não há como ser um bom professor, ditando aos alunos trechos de uma apostila amarelada ou de um livro-texto que não acompanha a dinâmica de renovação das informações que fluem através das redes em permanente atualização. Essa mudança atinge todos os níveis e modalidades de educação. Desde crianças, as pessoas têm acesso a interações de alto conteúdo comunicativo. Os jovens e as crianças de hoje são sujeitos de aprendizagem ativos e rebeldes a uma prática pedagógica unidirecionada ao aluno. Cabe então ao professor de sucesso exercer o importante papel de líder e facilitador do processo interativo de ensino-aprendizagem.

A realidade contemporânea rompe o currículo departamentalizado de domínio exclusivo de alguns professores e a privatização do saber. Na escola tradicional os professores se sentem donos de uma área do conhecimento. Daí prevalecer a relação magister dixit: o que o professor fala é a única verdade! Pela cópia do quadro negro ou pelo ditado do professor se cultiva a ilusão de assimilar o seu conhecimento. No processo aberto de ensino-aprendizagem, prevalece o interacionismo entre professor-aluno e outros agentes da educação, como os pais, a direção da escola e as pessoas que vivem na comunidade ou no mundo do trabalho. O que se deve buscar é criar as condições que favoreçam o aprendizado das pessoas. Todos são percebidos como sujeitos de aprendizagem porque todos se comunicam num processo de geração de conhecimento, subjetivo e coletivo ao mesmo tempo. São as pessoas que aprendem e aprendem individualmente. Mas o esforço interativo de aprendizagem confere caráter social à educação. O conhecimento se dá em benefício de todos.

Pelo processo de comunicação as pessoas interagem, mas não perdem sua capacidade subjetiva de aprender. O conhecimento se dá nas pessoas. Ninguém pode aprender pelo outro, mas é possível criar condições de interação e comunicação que favoreçam a geração subjetiva do conhecimento. Se as comunicações ampliam a possibilidade de interagir, ampliam por conseguinte a possibilidade de aprender com prazer, já que o aprender proporciona a alegria de perceber o significado pessoal das informações que lhe transmitem os outros. Por isso os avançados sistemas de ensino-aprendizagem intensificam a prática do interacionismo subjetivista e social. Subjetivista, porque mesmo o conhecimento coletivo se dá a partir do aprendizado individual; e social, porque o processo de comunicação que favorece o novo conhecimento pressupõe no mínimo o diálogo de duas pessoas e se enriquece exponencialmente pela interação de um número maior de atores.

As novas tecnologias têm transformado todas as organizações contemporâneas, inclusive a escola. Tornam necessário construir uma escola diferente, gerida de uma forma diferente e com um processo diferente de ensino-aprendizagem. O diferencial é sair do modelo autocrático, pautado pela relação autoritária de comando e obediência, pela qual um manda e o outro obedece, um ensina e o outro aprende, para um processo democrático de gestão e de educação em que as pessoas interagem e se comprometem de forma coletiva com os objetivos educacionais e com a direção de futuro desejada.

É esta a escola aberta e integrada. Aberta, porque rompe os limites da sala de aula e dos muros da escola e se abre para enriquecer o processo de interação dos professores e alunos com as famílias, com a comunidade e com os demais agentes sociais, em atividades de aprendizagem que incluem, por exemplo, o lazer, a cultura, a arte nas suas diversas expressões (dança, música, literatura, artes plásticas, teatro), o esporte, os passeios ecológicos, a refeição em comum, as atividades cívicas. Os conteúdos curriculares são enriquecidos nesse processo em que todos contribuem para convergir informações e compartilhá-las. Daí a escola integrada: mais do que o tempo integral de convívio com as práticas tradicionais, integra-se na direção de novos conteúdos, de novas vivências e de novas relações com a comunidade.

Nesse sentido situa-se também a educação ambiental e alimentar. Estimula a relação de professores, alunos com o meio ambiente e a criação de hábitos alimentares coletivos num processo educacional que envolve a família e a comunidade. A escola é aceita como um locus da dinâmica educacional em que todos aprendem. E assim ela se torna efetivamente uma instituição importante para a melhoria da qualidade de vida das famílias. Ou seja, se a escola ajuda a irradiar informações que influenciam a formação de novos hábitos e atitudes em casa, ela amplia o espaço de geração do conhecimento. Irradia informações que ajudam as pessoas a aprenderem. É reconhecida como responsável por uma função social importante: a geração do conhecimento para todos.

A efetivação da proposta curricular situa-se nesse contexto de mudança, em que mais do que rejeitar a concepção seqüencial dos conteúdos dos currículos tradicionais busca inserir a escola no mundo de oportunidades que fluem pelos novos meios de comunicação. A utilização didática das novas tecnologias da informação e da comunicação favorece o processo pedagógico da proposta curricular no mundo novo. É, pois, obrigação ética de uma política pública de educação ampliar as possibilidades de utilização desse poderoso meio didático.

Daí o esforço pela inclusão digital nas escolas e pelo fortalecimento e ampliação dos núcleos das novas tecnologias educacionais. Ou seja, não é o currículo que muda, entendido apenas como uma seqüência de disciplinas. O que é possível mudar e enriquecer é o conteúdo da aprendizagem em um processo interativo de comunicação que tenha infra-estrutura atualizada de tecnologias educacionais. Também é possível ampliar os espaços para que o processo de ensino-aprendizagem se dê de uma maneira aberta, em que professor e alunos interajam com alegria na geração contínua do novo conhecimento.

Essa relação de mútua aprendizagem é normalmente prazerosa, já que pressupõe participantes ativos no processo. A idéia central é contextualizar a proposta curricular na era do conhecimento. A questão é situar o processo ensino-aprendizagem no mundo novo, em que se concebe uma organização escolar que também aprende. Isso pressupõe a gestão democrática, o respeito mútuo, o pluralismo de idéias, a educação inter e multidisciplinar, a integração com a comunidade e a humildade de aprender sempre em conjunto com os outros.

Antônio Diomário de Queiroz

Secretário de Estado da Educação, Ciência e Tecnologia

Florianópolis, setembro de 2005.

 

Pesquisa e Desenvolvimento Regional

Pesquisa e Desenvolvimento Regional

A iniciação científica é o ensino baseado no aprender a aprender que permite avançar no desconhecido. É formar integralmente o cidadão para criar, dominar e empregar conhecimentos científicos e tecnológicos na busca da qualidade de vida para si e para a sociedade como um todo. Contribui efetivamente para o aprendizado da pesquisa e educa para o acesso ao novo conhecimento. Fornece soluções inovadoras para o desenvolvimento sustentável.

Desenvolvimento é o processo de transição de determinada estrutura econômica e social a outras estruturas que possibilitem um nível mais elevado das forças produtivas. A pesquisa contribui para que ocorra esse processo de agregação de valor.

Os sistemas vivos seguem processos naturais: crescer, reproduzir, regenerar, reciclar, valorizar. Já os sistemas de colonização e de industrialização do Brasil obedecem ao fluxo linear de extrair, explorar, vender, usar, descartar. Enquanto a exploração leva à miséria, a valorização resulta na melhoria da qualidade de vida para a população.

A Educação, a Ciência, a Tecnologia e a Inovação são indutores do desenvolvimento científico e tecnológico, econômico e social com distribuição justa de renda e inclusão social pois geram o conhecimento necessário para que o mesmo ocorra. 

Entende-se como Ciência, o conjunto organizado dos conhecimentos relativos a um determinado objeto. Tecnologia é o processo contínuo através do qual a humanidade molda, modifica e gera a sua qualidade de vida. Inovação é a convergência da história de diversas pessoas para encontrar uma solução de futuro. Conhecimento é fator de produção determinante da formação do valor e do sucesso na nova economia e se dá nas pessoas. A criatividade é uma habilidade humana, a qual permite chegar a soluções novas para problemas a partir de associação de informações anteriores. A apresentação de novas dúvidas ou possibilidades, e o estudo de antigos problemas baseado em novos pontos de vista, requerem uma imaginação fértil e trazem real progresso para a ciência. Idéias criativas resolvem problemas científicos e geram inovações. A criatividade deve ser produtiva, direcionada para resultados de repercussão social.

A inovação é o instrumento específico dos empreendedores, o processo pelo qual eles exploram a mudança como uma oportunidade para um negócio diferente ou um serviço diferente. As empresas brasileiras são, geralmente, simples reprodutoras de conhecimentos alienígenas. No exterior as empresas são concebidas como núcleos de desenvolvimento. No Brasil freqüentemente só se atêm à função de fabricação, negligenciando-se a pesquisa e a inovação.

O novo paradigma do desenvolvimento é a economia baseada no conhecimento. A FAPESC tem por finalidade o apoio e o fomento à pesquisa científica e tecnológica, para o avanço de todas as áreas do conhecimento, para o equilíbrio regional, o desenvolvimento sustentável e a melhoria da qualidade de vida da população do Estado de Santa Catarina.

Ao longo dos últimos oito anos, a FAPESC consolidou-se como instituição de apoio à pesquisa científica e tecnológica para o desenvolvimento equilibrado e sustentável de Santa Catarina. Suas aplicações alcançaram o montante significativo de R$ 250 milhões em programas e projetos disseminados em todas as regiões do Estado. Foram criados programas de bolsas de estudo, eventos e publicações científicas, cooperação internacional, apoio a jovens pesquisadores e a grupos de excelência, implantação dos institutos nacionais de ciência e tecnologia, programas de pesquisa agropecuária e meio ambiente.

A Fundação promoveu o acesso gratuito à internet via RCT a mais de 1 milhão de jovens de todos os municípios catarinenses. Expandiu para 54 o número de incubadoras de empreendimentos de base tecnológica nas diversas mesorregiões e viabilizou o surgimento de parques tecnológicos. Articulou a ação de empresas, governo e universidades no INOVA-SC, que inclui o projeto SINAPSE para estimular as idéias criativas que resultam na geração de pequenos negócios inovadores. Fortaleceu o sistema estadual de ciência, tecnologia e inovação, aprovando a Lei Catarinense de Inovação e uma política de ação que define princípios, prioridades e eixos estratégicos para o futuro.

A Lei Catarinense da Inovação – Lei no 14.328, de 15 de janeiro de 2008, dispõe sobre incentivos à pesquisa científica e tecnológica e à inovação no ambiente produtivo no Estado de Santa Catarina, visando à capacitação em ciência, tecnologia e inovação, o equilíbrio regional e o desenvolvimento econômico e sustentável.

A Política de Ciência, Tecnologia e Inovação, é a síntese do passado de trabalho competente de muitas pessoas e instituições, e, ao mesmo tempo, o desafio estratégico que une governo, academia e agentes econômicos e sociais, visando à qualidade de vida dos habitantes e ao desenvolvimento de Santa Catarina, com sustentabilidade ambiental e equilíbrio regional. Tem por objetivo promover o avanço do conhecimento científico, tecnológico e de inovações no ambiente produtivo, nas instituições de ensino, pesquisa e extensão, nos agentes econômicos e sociais e nos órgãos de governo. Está pautada em quatro eixos estratégicos:

– I Expansão e Consolidação do Sistema Catarinense DE CT&I

– II Pesquisa Científica e Tecnológica
– III Inovação e Empreendedorismo
– IV Desenvolvimento Social e Regional Sustentável Mediante CT&I.

A Iniciação Científica, em síntese, abre ao estudante a oportunidade da educação plena, no contexto da pesquisa e inovação, base de valorização das pessoas e das potencialidades locais. Contribui a formar profissionais críticos, habilitados a repensar a realidade, agentes do desenvolvimento sustentável.

 

EVENTO: III Seminário de Iniciação Científica da Uniasselvi – 26 de maio de 2010.

PALESTRANTE: Antônio Diomário de Queiroz

 

 

Polo de Inovação em TIC&Mecatrônica – Florianópolis/SC

Polo de Inovação em TIC&MecatrônicaFlorianópolis/SC

Os segmentos de TIC e Mecatrônica estão sendo considerados peças fundamentais para o desenvolvimento mundial. No país, esses segmentos estão entre as prioridades da dimensão setorial do Plano Brasil Maior, já que possuem relevância e potencial de geração de valor muito grande como setores econômicos propriamente ditos, bem como transversalidade e capacidade de agregação de competitividade para outros setores importantes da economia.

Nesta linha, a região da grande Florianópolis destaca-se por apresentar uma base de competências e um conjunto de empresas concentradas nos segmentos de TIC orientada para cadeias industriais, particularmente com a presença marcante de sistemas mecatrônicos. Na região, são cerca de 500 empresas de base tecnológica, das quais mais de 80% concentradas nos segmentos de TIC e Mecatrônica, voltados principalmente para prover soluções ao segmento corporativo, isto é, indústria, agronegócios, comércio, serviços e governo.

Além disso, a região possui um ambiente propício para a inovação, contando com 6 incubadoras de empresas inovadoras, 3 parques tecnológicos, 7 complexos empresariais para Empresas de Tecnologia, 8 Centros de Tecnologia e 15 Entidades de Ciência, Tecnologia e Inovação, além do Sapiens Parque, Parque de Inovação concebido para promover o desenvolvimento de segmentos econômicos, sociais e culturais. Vale ressaltar que os segmentos de TIC e Mecatrônica foram escolhidos como clusters prioritários do Sapiens Parque desde 2002, quando foi realizado o benchmarking e o planejamento apoiado pelo MCT, os quais foram ratificados e fortalecidos por um novo projeto de apoio aprovado junto ao MCTI em 2011.

Contribuindo para o fortalecimento e consolidação desses segmentos na região, Santa Catarina conta com entidades importantes neste processo, tais como a Associação Catarinense de Empresas de Tecnologia (ACATE), cujos empreendimentos associados são especializados no desenvolvimento e comercialização de hardware, software e serviços para diversas áreas; o Sistema FIESC (Federação das Indústrias do Estado de Santa Catarina), cuja atual visão estratégica é a inovação tecnológica; a Associação das Empresas Brasileiras de Tecnologia da Informação (ASSESPRO/SC) e o Inova@SC, entidade vinculada ao Governo do Estado que tem por missão estabelecer e coordenar as estratégias e ações para promoção do desenvolvimento sustentável de Santa Catarina, baseado na inovação. Essas entidades vêm desenvolvendo projetos importantes para fortalecimentos dos segmentos de TIC e Mecatrônica, tais como o Projeto PLATIC – Plataforma de Tecnologia da Informação e Comunicação de Santa Catarina, que teve o objetivo de contribuir para o fortalecimento e ampliação do segmento de TIC no Estado.

O Instituto Federal de Santa Catarina (IFSC) possui, nas áreas de TIC e Mecatrônica, competência técnica consolidada pelo quadro de professores/pesquisadores (92 doutores e 122 mestres). Em 2009, foi criado o curso de Mestrado Profissional em Mecatrônica no Campus Florianópolis, que desde sua existência já formou 16 mestres e atualmente está com 48 alunos matriculados. Desse total, aproximadamente 80% estão vinculados com indústrias do estado de Santa Catarina. Neste contexto, o IFSC construiu uma rede de relacionamento com aproximadamente 40 empresas no desenvolvimento de pesquisas aplicadas, proporcionando a geração de soluções tecnológicas para as demandas industriais contribuindo, assim, no desenvolvimento das cadeias produtivas portadoras de futuro.

As condições favoráveis destacadas justificam a localização em Florianópolis do Polo de Inovação. em TIC&Mecatrônica proposto pelos Ministérios de Educação e Ciência e Tecnologia. Sua implantação potencializará a interação com a Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC) e com a Fundação CERTI, na condição de entidades parceiras do IFSC na realização deste projeto. É importante destacar que a UFSC é referência nacional nas áreas de TIC e Mecatrônica, contando com XX Doutores e XX laboratórios. Assim como, a Fundação CERTI é referência nacional em tecnologias inovadoras, tendo como caso de sucesso a implantação do LABelectron, laboratório-fábrica que fornece ao mercado soluções tecnológicas inovadoras, por meio do desenvolvimento de projetos e da manufatura de produtos eletrônicos. Esta última terá um papel importante no mapeamento e levantamento nacional das demandas industriais da cadeia produtiva estabelecida para o Polo.

O IFSC e o Sapiens Parque estão em tratativas para viabilizar a doação de espaço físico no parque para receber as instalações do Polo de Inovação. É importante destacar que o Sapiens Parque é um ambiente em funcionamento, com infraestrutura e espaço para abrigar empreendimentos, projetos e outras iniciativas estratégicas para o desenvolvimento do país.

Conforme exposto, a região de Florianópolis destaca-se por apresentar uma base de competências e um conjunto de empresas concentradas nos segmentos de TIC e Mecatrônica que, com a instalação do Polo de Inovação no Sapiens Parque, proporcionará o fortalecimento de um ecossistema de inovação capaz de atender as demandas industriais dos segmentos em prol da competitividade da indústria nacional.

Antônio Diomário de Queiroz, março de 2013

 

 

FAPEU: UM ESPAÇO EFETIVO DE AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA

FAPEU: UM ESPAÇO EFETIVO DE AUTONOMIA UNIVERSITÁRIA 

Quando, ao final de 1979, passei a dedicar-me em tempo integral à UFSC, o Reitor Ernani Bayer propôs-me a missão de avaliar o funcionamento da FAPEU, então instalada em pequeno espaço do prédio da Reitoria, em precárias condições físicas e difícil situação administrativo-financeira. Ele questionava a conveniência de mantê-la em funcionamento se não fossem solucionados seus problemas de gestão e viabilizados os meios para o pleno exercício de sua função de amparo à pesquisa e à extensão universitária. Na época a universidade brasileira procurava evoluir do modelo de atuação predominantemente voltado à formação profissional pelo ensino para um sistema universitário de múltiplas funções. Fortalecia-se a percepção da importância da geração dos novos conhecimentos e de sua contribuição social para o desenvolvimento do país.

Foi esse contexto de transição ao novo modelo a razão primeira que justificou naquela ocasião decidir-se pela continuidade e fortalecimento da FAPEU, após sanadas as questões operacionais. Argumentava-se que a atuação da universidade como organização pública, com processo decisório colegiado de muita delonga, não se ajustava à dinâmica e ao ritmo da pesquisa e da extensão. As fundações de apoio se revelavam interlocutor válido entre a universidade e o seu meio ambiente. A importância de sua função se evidenciava sobretudo no processo de transferência tecnológica dos resultados das pesquisas da Universidade para os agentes produtivos.

Já naqueles anos, havia o medo de algumas pessoas de que as fundações de apoio constituíssem séria ameaça ao ensino público e gratuito. Prevaleceu no entanto a percepção de que os recursos captados por pesquisa e extensão eram apenas complementares ao orçamento das universidades públicas. As fundações asseguravam à universidade a justa contrapartida dos usuários privados de seus bens e serviços públicos, possibilitando fomentar novas atividades de pesquisa e, por conseguinte, garantindo também o ensino público de qualidade.

Outra questão considerada relevante era a harmonia de objetivos entre as fundações e as universidades. Nesse sentido foi feito amplo trabalho de normatização das relações contratuais entre essas instituições, abrigado depois em leis federais. O bom relacionamento deveria efetivar-se ao longo do tempo pela afirmação da identidade das respectivas funções específicas, a competência acadêmica da universidade e a interface das fundações para difundir os resultados do seu trabalho à sociedade.

Ao propor-me escrever algumas palavras para a Revista da FAPEU, voltaram-me com vivacidade à memória o ambiente e os argumentos que justificaram a preservação da entidade. Já lá se vai um quarto de século. Felizmente a Revista está apresentando tantos projetos bem sucedidos de pesquisa e extensão que por si sós comprovam o acerto da decisão tomada naquela época. Esses projetos não teriam certamente o sucesso apresentado, não fosse o apoio da FAPEU. Eles são referência obrigatória para a afirmação e defesa da universidade pública e gratuita. No decorrer de todos esses anos, houve tantas e sucessivas crises de financiamento da universidade pública com recursos diretos do Tesouro Nacional, que esse sucesso só foi possível porque as fundações de apoio abriram um efetivo espaço de autonomia para o exercício pleno da competência da universidade pública e sua responsabilidade social.

                                                   Florianópolis, setembro de 2005

                                                       Antônio Diomário de Queiroz