A Saga de Helga

A Saga de Helga

Eu subi aquela escada de dois lances pulando degraus, feliz de poder passar um fim de semana em casa de meu tio Roberto, irmão de minha avó materna, a Oma Müller. Eles moravam juntos há muito tempo, já que minha avó ficara sozinha quando seus três filhos ainda eram pequeninos. O quarto de hóspedes se encontrava no segundo piso. Tinha duas grandes camas de madeira maciça e escura, colchão de molas e um farto cobertor de penas.

Meu primo Érico Max também viria, e assim as brincadeiras estavam asseguradas. Enquanto este não chegava, aproveitei para acomodar minha sacola de roupas e escolher depressa a melhor cama. Era uma casa tipicamente alemã, de alvenaria, com vários cômodos bastante amplos no andar térreo. A sala de jantar e a cozinha davam em uma varanda cujo parapeito culminava em canteiros suspensos, repletos de plantas ornamentais. Havia ainda um hall na entrada principal da casa, e um cômodo reservado para tio Roberto, onde este guardava sua biblioteca repleta de revistas de horticultura, fruticultura e criação de animais domésticos. Uma prateleira guardava também uma preciosa coleção do Tesouro da Juventude, na qual, estranhando a grafia antiga cheia de ph para formar um f, em dias de chuva, decifrávamos as fábulas de Esopo.

No piso superior, além do quarto de hóspedes havia o quarto da Oma, sempre meticulosamente arrumado e arejado. Ao lado ficava o quarto do tio Roberto, quase uma cela de eremita, solteiro e sóbrio que fora por toda a sua vida. Mais adiante havia um amplo banheiro, onde em um copo com água, à noite, descansava, solitária, uma dentadura. Dois outros cômodos e uma pequena sala completavam o ambiente. Em um deles dormia Vera, filha adotiva, órfã de pai e mãe e que fora trazida bem pequenina de Camboriú, onde viveram seus pais pescadores. O outro quarto pertencia à Ur-Omama, minha bisavó, já quase centenária. Tudo era muito despojado, e apenas alguns poucos quadros adornavam as paredes. No corredor, logo à frente da escada, havia uma mesinha sempre coberta com uma linda toalha bordada pela Vera, e sobre ela uma moringa e um copo. Essa era uma peça importante naquela época, pois assegurava água fresca e pura para beber no verão enfadonhamente quente de Blumenau.

Em uma salinha ao lado havia uma cadeira de balanço. E foi aí que eu a encontrei, a velha senhora, cantarolando, no lento vai-e-vem, totalmente perdida em seus sonhos. Cantava sempre e incansavelmente, uma eterna ladainha de melodias incompreensíveis, tremidas na sua voz de velhice. Delas apenas guardo uma pequena estrofe, e parte apenas de sua melodia. Apagada da memória dos que a conheceram, esta pequena canção estará perdida para sempre. Era, certamente uma fina sátira da família alemã, pois versava assim:

– Grosse Frau will tanzen gehen , jeh, oh jeh..
– Kleiner Man will auch mit gehen , –
– nani, nani, nani, upsalala, hopf in die Hê (Höhe)

– Mulher grande quer ir dançar, iê, o iê,
– Pequeno homem também quer ir,
– nani, nani, nani, upsalala, pule para o alto.

A canção dizia ainda que a mulher não permitiu sua ida, e correu atrás do pobre homem com um rolo de macarrão. Apavorado este pulou então em um grande pote de bater manteiga para se esconder. Não conseguiu escapar.

Eram estas canções, o derradeiro testemunho de sua incrível musicalidade. Quando jovem, aprendera, de ouvido, tocar acordeom. E como naquela época não havia outra forma de fazer música, senão tocando ao vivo, ela era a encarregada de “abrilhantar” a dança. Desta forma nunca pudera ela própria dançar. Os dançarinos, todos jovens de famílias conhecidas, encontravam-se nos finais de semana e riscavam o assoalho ao som das alegres valsas e marchas germânicas. Ainda conheci aquele acordeom, cor de vinho, em seus braços, anos antes, quando, sentada na sala principal da casa, tirava alguns acordes sonoros e harmônicos para o deleite da família reunida.

Agora a velha senhora não descia mais as escadas. Quando completara noventa anos decidira nunca mais descer. Desde então restringiu suas atividades ao segundo piso, e quem quisesse vê-la que tratasse então de subir. Na verdade, seu mundo há muito havia migrado para o interior de sua mente, no qual vivia remoendo seu surpreendente passado.

Acheguei-me então da bisavó, e com um delicado beijo interrompi sua cantoria. Seu rosto, marcado com profundas rugas, se iluminou e feliz segurou-me a mão. Seus dedos eram longos e frios, e uma pele fina e quase transparente cobria sua mão marcada de inúmeras manchas escuras e veias saltadas. Ela nunca abandonara o hábito de usar vestidos longos de cores sóbrias, e vê-la assim caracterizada, parecia-me uma dobra do tempo, em que o passado se fazia presente. Com sua voz apagada e trêmula revelou-me sua história de vida, serena e ciente da urgência de repassar seu passado para mim, seus genes repassados e depositários de sua memória.

Por volta de 1859 seu tio Heinrich Krohberger, nascido em Baireuth na Alemanha e filho de Daniel Krohberger, com apenas 22 anos emigrou para o Brasil para estabelecer-se na jovem colônia de Blumenau. Esta contava então com apenas nove anos de fundação. Engenheiro arquiteto por formação, recebeu de Dr. Blumenau, heroico fundador da colônia, a missão de desenhar o plano diretor da cidade. Trabalhou arduamente para poder realizar este projeto, pois as terras estavam então ainda em grande parte cobertas por esplêndida e densa floresta tropical, com imensas árvores repletas de bromélias multicoloridas e de um emaranhado de trepadeiras das quais pendiam inúmeras lianas. Incontáveis espécies de aves faziam a algazarra no amanhecer. Tão bela era a mata, era, porém, também habitada por milhares de insetos e por temidas cobras. Penetrar aquela floresta era um verdadeiro desafio. Difícil entender como esses pioneiros conseguiam se orientar nesse verdadeiro labirinto vegetal.

O fato é que todo o traçado inicial do centro de Blumenau se deve ao seu trabalho. Foi ainda o construtor de várias pontes e, sobretudo, das duas igrejas, a evangélica luterana, e a católica. Esta última, que diziam de rara beleza, foi lamentavelmente destruída para na sequência ser substituída por uma bem maior e mais “moderna”. Este curioso modismo de erradicar o velho e proclamar o progresso com obras de grande vulto prevaleceu por toda uma geração, em grande parte do século passado em nosso Estado, e muitos municípios perderam belíssimos elementos arquitetônicos diante dessa discutível e inexorável filosofia. De nossa família, de qualquer forma, se perpetuam nesse mesmo local os traços talentosos de sua sobrinha tataraneta Elke, nos vitrais que adornam a nova igreja. Dentre suas obras destaca-se o antigo Palácio do Governo, na Praça XV em Florianópolis. Esta obra, no entanto, foi assinada por outro arquiteto, perdendo assim na história sua real autoria.

Vendo que a colônia evoluía satisfatoriamente, Tio Henrique, como era chamado, mandou trazer da Alemanha seu irmão mais velho, Bartolomäus Joseph, já casado com Elizabeth Neuman, uma senhora rica e de origem nobre. Tiveram apenas uma filha de nome Sophie. A pobre Elizabeth nunca se acostumou à simplicidade e rudeza da vida na colônia e morreu de tristeza. Minha mãe, muitos anos mais tarde, ainda utilizou sobras de seus finos panos, cuidadosamente guardados em baús, para confeccionar trajes de festa. Com Bartolomäus vieram seus irmãos mais novos, Jean, Karoline, a tia Lina e nossa tataravó Maria Sophia Johanna. Jean perdera uma perna trabalhando na famosa indústria alemã Krupp. Aposentado precocemente, sua perna foi substituída por uma ruidosa perna de pau. Quando velhinho foi acolhido na casa de Tio Roberto, indo morar em um pequeno cômodo no sótão. Muito tímido e introverso, descia apenas para ir sorrateiramente ao banheiro. Seu caminhar com a perna de pau e constante isolamento criara um estranho clima de temor e de curiosidade nos três sobrinhos netos, Lia, Érico e Heini. Vez ou outra, sentindo a proximidade das crianças, lançava um punhado de balinhas pela janela, as quais eram rapidamente catadas pelo trio. De quão profunda e carinhosa solidão devia sofrer o pobre ancião.

Johanna, nascida em 27 de janeiro de 1845, chegou moça feita ao Brasil e se adaptou bem ao clima tropical, desenvolvendo-se com boa saúde. Casou-se com Carl Friedrich Wilhelm Danckwardt. Esta família, é provavelmente originária de Lübeck, no norte da Alemanha, onde ainda pode ser encontrada uma velha ponte de nome Dankwardsbrücke. Vieram com as primeiras levas de imigrantes alemães que aportaram em Desterro, (antigo nome de Florianópolis) e foram assentados em Santa Isabel e logo após em São Pedro de Alcântara. São Pedro foi fundada em 1929, porém as dificuldades apresentadas pelo relevo acidentado da região motivaram muitos colonos a procurarem outras paragens mais favoráveis para se estabelecerem. Férteis vales ainda inabitados situados nas redondezas foram escolhidos por essas famílias, criando assim vários novos povoados, dentre eles Antônio Carlos.

Outros optaram por colônias que estavam sendo implantadas como Blumenau, onde esperavam poder contar com algum apoio institucional. Foi certamente em sua passagem por Blumenau, onde aportou em 1858 que o tataravô Carl se encantou com a bela Johanna. O jovem casal, porém, logo se transferiu mais para o Sul, estabelecendo-se no pequenino vilarejo denominado Aratingaúba, que lhes pareceu mais promissor para trabalhar a terra. Situada do lado oeste da Lagoa Mirim, até hoje o lugarejo reflete a arquitetura germânica em algumas de suas moradias ainda conservadas. Assentada sobre o alto de um monte, oferece uma belíssima vista sobre um longo e verdejante vale que se afunila ao norte sob um colar de montanhas da Serra Geral. Nestas solitárias paragens cultivavam a terra e criavam gado para seu sustento. Consta também que Carl, entre outras atividades, provia dormentes para a ferrovia Tereza Cristina. Assim Helga nasceu em 13 de novembro de 1865, em meio às suas irmãs Lela (Daniela), Alma, Lidi, e Delminda e mais uma maninha que faleceu ainda pequenina, nessa remota colônia alemã, com esse sonoro e curiosamente indígena nome de Aratingaúba O Pastor, já que a comunidade era tradicionalmente Evangélica Luterana, vinha apenas uma vez por mês, lá da Laguna. Era a ocasião de presenciar um culto, de realizar casamentos, batizados e confirmações.

Ali Helga passou seus primeiros seis anos. Por falta de escola, seu tio Henrique veio buscá-la para que se alfabetizasse em um bom educandário alemão em Blumenau. Sem estradas nem outros meios de locomoção foram então a cavalo, por picadas, cruzando vales, montanhas, riachos e rios caudalosos. Durante o dia, ora a galope ora passo a passo, seguiam pelo estreito caminho ladeado por densas florestas. Assovios de índios à espreita, os bugres como então eram chamados, assombravam vez ou outra sua temerária viagem. À noite dormiam em casa de colonos, hospitaleiros que eram estes pioneiros desbravadores das então remotas paragens da região costeira de Santa Catarina. Assim, por três longos e cansativos dias rumaram para o norte, até a dinâmica colônia fundada pelo Dr. Blumenau. Completados seus quatro anos primários voltou, novamente a cavalo, para Aratingaúba, agora alfabetizada e pronta para logo ser encaminhada na vida. Seus pais mudaram-se então para Laguna.

De cultura e arquitetura tipicamente portuguesa, Laguna orgulhava-se por constar no Tratado de Tordesilhas e também de seu passado glorioso da Revolução Farroupilha, quando sua filha Anita se aliara com galhardia ao Italiano Garibaldi, lutando lado a lado, por causas consideradas então tão nobres. Laguna era então uma movimentada cidade portuária, e o pai de Helga optou por entrar no setor de transporte de mercadorias. Adquiriu um navio de nome Heiliger Peter, São Pedro, e transportava produtos da terra para o Rio de Janeiro, de lá trazendo as novidades da capital do império, em meio a produtos das mais diferentes paragens do Brasil e do exterior. Dos segredos guardados a sete chaves pela família emerge uma passagem bem apimentada. Dizem que …. ao embarcar suas mercadorias em Laguna, imbuído do autêntico espírito das docas, embarcava também um certo número de belas lagunenses, pele dourada pelo sol da praia do Gi, e saia rodada com muitas fitas.

Johana, durante esses tempos de aventuras no mar administrava com mãos de ferro uma venda de secos e molhados, com os produtos trazidos pelo marido do Rio. Desgostosa e cansada das falações que das docas vazavam para ruelas que longeavam o poético casario colonial da Laguna, acabou por despachar este infiel consorte. Assim ele partiu para sempre. Sem jamais dar notícias. Rumo ao Paraguai, onde, sabe-se seu sobrenome se perpetuou. Já aqui, como só teve filhas, seu nome, permanece apenas nas lápides do cemitério evangélico de Blumenau. Sozinha, agora, naquelas paragens, Johana não tinha como manter suas filhas. Tio Henrique veio então resgatar a família, que encontrou em Blumenau o apoio para seguir seu destino. Minha mãe lembra-se de ter visto um dia, quando ainda bem pequenina, Helga chorar copiosamente.
– Por que choras Omama? – Perguntara-lhe curiosa.
– Porque faleceu alguém que me era muito querido. – Respondera-lhe ela tão simplesmente.

Teria sido seu pai? Haveria alguma comunicação secreta? Naqueles tempos um tal evento, escândalo imperdoável, seria sempre abafado e mantido como tabu para todo o sempre, se possível. E muitas lágrimas rolaram por certo nesse enclausuramento da dor.

Mas muito antes disso, em Laguna, por volta dos 14 anos, quando ainda brincava de bonecas, Helga conheceu seu futuro marido. Johan Paul Maximo Baier era um decidido jovem alemão. Originário da Saxônia, cresceu em uma família tradicionalmente ligada à marinha. Literalmente, todos eram marinheiros. Sentindo o apelo da mesma vocação, tentara se alistar para ali fazer sua carreira. Mas para seu desespero, foi-lhe negado ingressar nesta valorosa instituição alemã. Era míope! Então, desolado, tomou um navio inglês e rumou para a América do Sul, arriscando sua juventude em uma grande aventura. Neste navio vinham engenheiros ingleses contratados para executar a construção de uma ponte de ferro sobre o sangradouro da Lagoa Mirim, na Cabeçuda, para que a estrada de ferro Tereza Cristina pudesse trazer o carvão diretamente de Imbituba até o porto da Laguna. Como não havia ainda tecnologia brasileira para um tal empreendimento, uma firma inglesa fora contratada para realizar o projeto. Mas, como se comunicar com os brasileiros? Era impossível estabelecer um diálogo suficientemente consistente para concretizar tarefas tão precisas e complexas.

Meu futuro bisavô, que dominava perfeitamente o inglês, apresentou-se então como um providencial gerente de obras. E foi contratado. O destino lhe trouxera enfim uma oportunidade de vencer na vida. Estava feliz e realizado.

Por aquela época poucas famílias alemãs habitavam Laguna. O encontro de Máximo e Helga foi, pois, inevitável, como inevitável sua paixão pela menina moça. Mandou-lhe então um poema declarando seu amor. Este documento, preservado por tantos anos, infelizmente se perdeu recentemente em uma acidentada mudança de endereços. De fato, a jovem mal se tornara moça e ainda brincava de bonecas, mas já era considerada pronta, pois casava-se muito cedo naqueles tempos. E assim, logo, por ocasião em uma daquelas passagens do Pastor pela região, realizou-se o casamento de Helga e Maximo, ou Max, como era denominado pelos familiares. O registro do casamento consta nos documentos da paróquia de Teresópolis, sede de onde o Pastor partia para suas visitas às longínquas colônias de paroquianos. O jovem casal fixou residência nas proximidades da ponte, já em construção.

A velha casa ainda existe. Em ruínas. E quem a vê hoje, tão desolada, não pode imaginar quanta vida e história ali se desenrolou naquelas últimas décadas do século XIX. Localizada próxima à cabeceira sul da ponte, é uma casa tipicamente portuguesa, majestosa, à altura do gerente da grande obra. E ali foram felizes. Tinham um terreno amplo com pastagem em torno da casa, onde mantinham um belo cavalo, importante meio de transporte, e que podia eventualmente ser atrelado a uma aranha, ou carroça, se preciso. Tinham também, como a maioria dos colonos, algumas vaquinhas leiteiras para assegurar o alimento para as crianças, já então numerosas: tio Roberto, tio Otto, minha avó Joana, Tio Paulo e tia Rosália. Tio Roberto, repetindo talvez um traço de família, nunca se casou. Tio Otto foi pai de Roberto, mais conhecido por Robertinho, até hoje tabelião em Blumenau, cargo que lhe foi transmitido pelo Tio Roberto quando este se aposentou. Tio Paulo se formou joalheiro na Alemanha, e casou-se com uma brasileira, de Lages, Tia Mariana. Correndo os riscos da época, tia Mariana fora alvejada na cidade de Ascurra por uma flechada de índio botocudo, que lhe deixou pela vida afora um grande buraco nas costas. Tio Paulo consertou relógios em várias cidades até estabelecer-se por longo período em Florianópolis, onde se tornou proprietário de uma renomada joalheria no centro da cidade. Mudou-se depois para Blumenau onde instalou a Relojoaria Baier. Tia Rosália, Tante Röschen, como era conhecida, casou-se com Georg Weickert, originário da bela cidade de Beyreut da Alemanha. Estabeleceram-se em Blumenau e seus descendentes mantém até hoje aquela tradicional relojoaria. Contam que já velhinha, Tia Rosália guardava grande vigor, e chegou aos ouvidos de sua irmã mais velha, Joana, que esta atravessava perigosamente a Rua XV de Novembro, já então com certo tráfego de automóveis. Usando bengala, e com dificuldades de andar, pois quebrara recentemente sua perna, Joana, na altura de seus 92 anos, exclamou, com uma pontada de inveja:
– Na ja, (pois é), ela também é bem mais jovem que eu!
Tia Rosália tinha então 89 anos!

Aquele alegre quinteto de crianças, lá nas redondezas de Laguna, formava certamente uma escadinha encantadora e ruidosa. Posso imaginá-los correndo pelo pasto, trepando nas árvores para alcançar as frutas, brincando de roda, e por vezes explorando a densa e misteriosa floresta que limitava o terreno da casa. Max e Helga tinham verdadeiro orgulho de sua prole.

Uma voz conhecida roubou-me repentinamente a atenção dos cativantes relatos da bisavó:
– Maike, o Érico Max chegou! Gritou lá de baixo Guilhermina, a Mina, eterna e querida empregada do Tio Roberto.
– Volto depois, Ur-Omama, para ouvir tua história. Disse à velha senhora, que feliz pela atenção e companhia que lhe dera, apertou docemente minha mão. Compreensiva com minha ansiedade de brincar sorriu, e voltando para si mesma, mergulhou no seu sereno e melodioso balanço da vida.

Desci correndo a escada, e lá estava ele, loiro, sorridente e amigo. Fomos logo para o jardim, subir nas árvores e contar lorotas. Érico Max era um poeta nato. Leitor assíduo, possuía uma imaginação riquíssima e muito criativa. Contava-me verdadeiras tramas de relacionamentos que estabelecera com personagens fictícios, as quais se tornavam reais e verdadeiras na minha mente, de tão detalhadas e dinâmicas que as descrevia. Era um mundo mágico e fascinante que comigo compartilhava. Um ano mais velho que eu, tinha saúde delicada. Sofria de asma desde pequenino, traço genético que permeia até hoje em um ou outro descendente desta família. Lembro-me de ouvi-lo chiando à noite, e sem poder dormir, deitava embaixo da cama, e ascendendo cuidadosamente uma vela, lia, escondido, grossos livros proibidos. A bombinha o acompanhava sempre, para uma eventualidade, dizia. Era também excelente cartunista e desenhista, e com este dom fez sua vida em São Paulo. Muitos anos mais tarde, já com família constituída, em forte crise, e na presença de seu belo e ainda pequenino filho Jan, faleceu sem poder obter socorro. Morte precoce de um poeta que deixou seu legado de poesias fortes e precisas.
– Crianças, ‘tá na hora de almoçar! Chamava-nos Oma, lá da varanda. Loucos de fome, e cientes da rígida disciplina de horário imposta pelo tio Roberto, corríamos para lavar as mãos e sentar à mesa. Esta era grande e sempre impecavelmente servida. Na ponta da mesa sentava Tio Roberto. De um lado a Vera e a Oma, e do outro lado Érico e eu. A comida era preparada com muito zelo e capricho pela Mina que em sua grande cozinha manejava com destreza seu fogão a lenha. Ela cortava as verduras sempre em tiras muito finas e em pedaços quase milimetricamente iguais transformando o prato simples em seu conteúdo em uma refeição refinada. Saborosa e variada, a refeição só tinha para mim um defeito. Serviam sempre chuchu refogado. Vastos baraços desta generosa trepadeira cresciam na extrema do terreno, sobre o barranco do Rio da Velha, bem próximo à sua desembocadura no Itajaí. Então constituía uma verdura barata e, em geral apreciada. Mas eu detestava chuchu! Seu fado sabor e consistência gelatinosa revoltavam meu estômago. Mas a disciplina imposta pelo severo tio não permitia escolha.
– O que tem na mesa é para ser comido! E, sobretudo, comportem-se. Vindo de Tio Roberto, isto significava comer calado.

Logo, Mina trazia a bebida. Era sempre suco de vinho com açúcar. Havia uma razão para tal. Tio Roberto colocava um prego de ferro no garrafão de vinho. Era uma fonte segura de ferro para o sangue, dizia. Como já era sábio aquele homem. Hoje ficou comprovado, por estudos científicos, que o vinho é saudável para o bom funcionamento do coração. Sem considerar que, de lambuja, aquele líquido cor de carmim era muito saboroso. Todo aquele silêncio à mesa, o olhar sério de Tio Roberto, e o submisso das duas mulheres mexia com nossa inquietude infantil. Assim entreolhando-nos subitamente sentimos uma grande vontade de rir. Para impedir uma desastrosa explosão eu pensava fixamente no chuchu, o quanto era ruim, e que sacrifício fazia naquele momento. Em vão! Até o chuchu me pareceu engraçado. Pouco depois desatávamos os dois a gargalhar incontrolavelmente. Que desastre. Fomos objeto de severo sermão do tio, e nossa vontade de rir sumiu tão rapidamente quanto surgiu.

Após o almoço tínhamos que descansar. Era lei! Muito a contragosto fomos ao quarto e fingindo dormir traçamos, sussurrando, os nossos planos para a próxima diversão. Fazendo extrema com o terreno ficava o Colégio Luis Delfino. Era uma escola pública primária com muitas salas de aula e um imenso pátio. Este ficava, porém, um bom par de degraus abaixo do nível do colégio e era todo gramado para as atividades esportivas dos alunos. Limitando este desnível de aproximadamente três metros, havia, ao lado da escada um grande muro de granito. Nos fins de semana não havia viva alma em todo aquele espaço. Tínhamos então grande vontade de brincar ali. Mas de que? Não tínhamos bola, nem havia árvores para trepar. Então tive a grande ideia! Pularíamos de paraquedas do alto daquele muro. Havia até um providencial monte de areia logo abaixo. Ele poderia amortecer a queda, se preciso. Tudo planejado e acertado em seus detalhes, esperamos o sinal para sair do quarto. Oma apareceu à porta, e antes que pudesse dizer alguma coisa disparei a falar:
– Oma, precisamos de pedaços de pano. Podem ser trapos. Mas dos grandes!
– E agulha e linha. – Completou Érico Max.
– Mas para quê?
– Queremos costurar uma coisa. – Disse-lhe sem ousar dar mais detalhes.
– Que ideia mais esquisita! Retrucou. E lá foi ela procurar o que pedíramos. Minutos após trouxe-nos um prodigioso saco cheio de retalhos de todos os tamanhos. Pusemo-nos então a costurar. Érico Max dispunha os panos, feito quebra-cabeças na forma de um suposto paraquedas, e eu costurava uns aos outros. Primeiro com pontos juntinhos e firmes que aos poucos foram se tornando mais largos e esparsos…. Trabalhamos a tarde inteira. À noite a sonhada peça estava pronta. Parecia-nos uma verdadeira obra de arte. E haveria de funcionar!

Adormeci naquela noite contemplando um quadro que em forma de charge representava meu tio Érico, pai de Érico Max, sentado em um barco a remo, esporte muito praticado nos tempos de sua juventude. Ele tinha a cabeça exageradamente aumentada, que em perfil exibia seu nariz reto e desproporcionalmente grande.

Levantamos muito cedo, e tivemos que esperar pelo café que Mina coava em um grande saco de pano. Tio Roberto, que levantara de madrugada para colher ovos e tratar das galinhas, sentara-se à mesa, pensativo e mexia incansavelmente o café, que transbordando enchia lentamente o pires. Contaram-me que uma destas manhãs, tio Roberto foi ao galinheiro e estranhando que as galinhas ainda estavam empoleiradas, tratou de empurrá-las para o pátio. As pobrezinhas, tontas e atordoadas cacarejavam num preguiçoso cóóó, cóóó… Estranhando o comportamento de suas preciosas galináceas, tio Roberto voltou para casa e conferiu o relógio. Eram quatro horas da manhã! Então disfarçadamente voltou para seu quarto. Não sem ter sido visto por Mina, que já se levantava para preparar o desjejum. Foi motivo de muitas risadas, especialmente das mulheres que só esperavam uma oportunidade para se divertir às custas deste severo senhor da casa. Naquela manhã, esperamos ansiosos pela sua permissão para sair da mesa. Então, bem nutridos pelo magnífico pão cozido em forno a lenha e coberto generosamente com uma saborosa “chimia” de banana, partimos para nossa aventura. Este termo, já consagrado no vocabulário catarinense, origina-se do verbo alemão Schmieren, que significa passar no pão. Curiosamente esta palavra não existe em forma de substantivo no vocabulário germânico.

Sabíamos que era proibido entrar no Colégio e, longe dos olhos dos adultos, pulamos o muro. Com o paraquedas debaixo do braço corremos até o muro de pedras.
– Meu Deus, que altura! Exclamou Érico Max. Lá da janela parecia mais baixo…..
Despistando meu medo, que não era menor, disse-lhe:
– Não é tão alto assim. E se não fosse alto, de que serviria o paraquedas? Depois tem um monte de areia ali, estás vendo?
Não muito convicto meu primo retrucou.
– Então pula primeiro!
Encurralada, enchi-me de coragem e vesti o traje. Havia apenas duas alças feitas de estreitas tiras de pano que se ligavam às quatro pontas do quadrado de aproximadamente um metro de lado. Vacilei por um tempo. Mas não querendo me “mixar” diante do primo, fechei os olhos, respirei fundo e pulei. A queda parecia interminável naqueles poucos segundos que me separavam do monte de areia. Aterrissei com bastante elegância, sem me ferir. Não foi, certamente graças ao paraquedas, o qual naturalmente não funcionou. Acho que foram as asas de meu anjo da guarda que amortizaram a queda!
– Bem, agora é a tua vez! Disse, orgulhosa de meu feito, ao pobre primo.
Pálido, mais pálido do que naturalmente, contemplava-me do alto do muro. Vendo a inutilidade de nossa engenhoca que nos roubara tantas horas para ser fabricada, percebeu que contava apenas com sua coragem pura e nua. E, coitado, não era essa sua maior virtude. Passar do imaginário ao real. Que dilema para aquele poeta tão jovem. Senti seu vacilo, mas fingi não ver.
– Então desce pela escada. Vamos inventar outra brincadeira. Disse-lhe para aliviar sua angústia.
Mas ele permanecia lá como que petrificado. Machucado em seu brio. Era um homem. Não podia se expor assim à sua prima. Então pulou. Assustada, aproximei-me daquele corpo pálido caído na areia. Mas ele levantou rapidamente. Deu um largo sorriso e disse orgulhoso.
– Pronto. Agora podemos brincar de outra coisa.
Também ele tinha seu anjo da guarda. Muitos anos mais tarde, em 1964, pelas Edições Ultra de Blumenau, o então já consagrado poeta publicaria um poema: Um anjo morto na encosta. Reflito sobre quanto lhe marcara na lembrança esta forte vivência quando leio as primeiras estrofes:

Uma repleta hemorragia transita em mim.

Eu escorri meu sangue sobre a terra confusa
para formar a argamassa indestrutível.
Eu compus gargalhadas inúteis pelo dia nervoso,
gangrena de luz e sombras,
num testamento de duendes noturnos;
fui primário em delírio de árvores.
E do meu sangue e corpo eu construí na terra um início,
na flor um roteiro, no pássaro o guia,
no vento a mensagem, no rosto o enigma,
na criança o impulso.
E encontrei nos abismos uma gestação infinita,
nas nuvens uma falta de sentido.

Recuperados do susto corremos de volta ao seguro jardim do Tio Roberto para explorar outras aventuras. O paraquedas esquecido. Superado pela nossa coragem. Provado por nós. Reprovado pela Oma, que vira tudo da janela, e nos passou um pito daqueles…
– Por favor, Oma, não conta para o Tio Roberto. Imploramos.
Carinhosamente guardou nosso segredo. E passamos a amá-la ainda mais, a querida Omama.

Tia Cordélia e Tio Érico vieram cedo buscar o primo. Tinham algum compromisso no domingo à tarde. Fiquei sozinha, sentindo o vazio do adorado primo. Logo, porém me lembrei da Ur-Omama e de sua fascinante história. Encontrei-a agora em seu quarto, sentada em uma confortável poltrona.
– Oi, Ur-Oma. Quer me contar mais um pouquinho?

Surpreendentemente séria pensou longamente e me revelou preciosas passagens de sua saga.

O seu marido viajava frequentemente por conta das obras da ponte. Passava dias longe de casa e voltava cansado de suas lidas e, sobretudo, não podia nunca prever com precisão quando retornaria. Numa dessas noites, sozinha em casa, Helga acordou com um ruído no telhado. São bugres, pensou, só podem ser bugres. Estes realmente ainda vagavam pelas florestas adjacentes, e constituíam real ameaça para os brancos, pois os atacavam de surpresa à noite para tomar suas provisões, armas e utensílios. Apanhou então do armário a espingarda do marido, armou-a com um cartucho de pólvora e mirou para o telhado. Lentamente as grandes telhas portuguesas foram sendo retiradas uma a uma, cuidadosamente, e um rosto surgiu naquele vão obscurecido pela parca e trêmula luz de vela que alumiava o cômodo. Decidida Helga colocou o dedo no gatilho e quando ia apertá-lo ouviu uma voz conhecida chamando:
– Helga, Helga, sou eu, o teu Max …….
A tempo ela baixou a arma, o coração aos pulos e disparou a falar:
– Mas o que fazes aí, no telhado. Por que não me chamastes? ‘tais maluco Max? Bebestes?
– Não mulher. Fiquei com pena de te acordar em uma hora tão avançada da noite então resolvi entrar pelo telhado. Desculpa. – Retrucou, também com o coração acelerado.
– Que susto, Max. Não faz mais isto, pois uma noite destas acabas tomando chumbo! 

E assim o meu marido se safou de uma boa dose de chumbo no focinho, disse-me sorrindo. Ri um bocado de sua inusitada aventura.
Seu olhar tornou-se então mais sério.
– Mas um dia vieram os gaúchos. Falou com voz rouca. Seguiu-se um longo silêncio. Era no período da revolução federalista. Em 1891, o vice-presidente Floriano Peixoto assumira o poder da jovem República, uma vez que o Marechal Deodoro fora deposto. Como não pretendia convocar novas eleições, segundo narrativa de Sílvio Coelho dos Santos em sua Nova História de Santa Catarina (1995), “Os ânimos se acirraram em diversos pontos do Brasil”. Como já era de praxe o Rio Grande do Sul gerou um movimento armado “com objetivo de hostilizar o governo da República e, se possível, promover a separação do sul do Brasil”. Em 1893 eclodiu a Revolução. Assim tão vizinha, Santa Catarina foi logo contaminada com as ousadas ideias separatistas dos destemidos gaúchos. Logo os então denominados maragatos, separatistas, enfrentaram os governistas, pica-paus, em várias frentes e progressivamente se infiltraram entre os catarinenses arregimentando assim seus simpatizantes. Consta na história que em 1894 grandes atrocidades foram cometidas na Fortaleza da Ilha de Anhatomirim. Muitos catarinenses identificados como maragatos foram ali fuzilados sem que tivessem direito sequer a um prévio julgamento. Mas também violências foram praticadas pelos separatistas. “As facções de luta praticaram toda a sorte de atrocidades… A “sangra” e o fuzilamento de prisioneiros foram comuns de parte a parte.” detalha Santos em seu livro tão revelador. Para sacramentar a vitória, neste mesmo ano de 1994 Nossa Senhora do Desterro foi oficialmente rebatizada para Florianópolis. Muitos descendentes das famílias afetadas pelas mortes se sentem revoltados até hoje por este arrogante golpe contra os injustiçados Ilhéus.

Assim em meados de 1893 já corriam os boatos da chegada de tropas do Rio Grande para tomar Laguna. Na primeira vez chegaram na fazenda para roubar o gado. Poucas e preciosas vacas. Levaram todas. Max, revoltado, encheu-se de coragem e foi reclamar esta injustiça junto ao comandante da tropa. Ódios e sentimentos de vingança se criaram diante desta ousadia contra tão orgulhosos e prepotentes federalistas. Então eles voltaram para buscar o cavalo. Max vira-os chegar ao longe, montando seus cavalos brilhantes de suor, identidade traída pelo lenço no pescoço, pela bombacha e chapéu. Sabia de sua coragem, ousadia e determinação. Correu para dentro de casa e mandou que as escravas fugissem com as crianças para o mato. Naquele tempo os portugueses costumavam ter escravas para os trabalhos domésticos. Já os alemães quando as contratavam tornavam-nas libertas, pois não admitiam o tratamento que lhes era conferido pelos lusitanos. Com sua arma em punho, Max recebeu os gaúchos à bala! Lutou valentemente. Vendo-se então acuado pela inegável supremacia dos invasores, refugiou-se na casinha. Era assim que chamavam o banheiro, pequena casa de madeira construída a pouca distância da casa, bastante reforçada, onde tão simplesmente uma tábua com dois buracos redondos, um maior e outro menor ofereciam certo conforto para as necessidades dos adultos e das crianças. Helga, que esperava mais um filho, escondida na casa, acompanhava apavorada os acontecimentos espiando pela janela.

Raivosos os homens se aproximaram daquela solitária edificação e, não conseguindo abrir a porta, passaram a enfiar por todos os lados através das largas frestas suas afiadas espadas. Gritos de ódio e dor ressoaram por aquelas encostas por longos minutos. Logo a porta se abriu e Max deu alguns passos cambaleantes tentando estancar com a mão o sangue que saltava de várias chagas abertas no peito. Helga, aterrorizada, perdeu o medo, aproximou-se correndo, e rasgando desesperada sua anágua branca de sob sua longa saia, tentava fazer tampões para conter o sangue do marido que jorrava sem parar. Vendo-o ali caído, tão miserável e mortalmente ferido, ainda não se deram os federalistas por satisfeitos. Carregaram-no para dentro da casa, levando junto, à força, a indefesa Helga. Deitaram o corpo já inerte sobre a grande mesa de jantar, e aos olhos estarrecidos de sua mulher o esquartejaram meticulosamente. Cortaram-lhe os membros, um a um, com incontido júbilo, e ao final abriram-lhe a braguilha e cortaram suas partes e as lançaram com a espada aos pés de Helga. Então, satisfeitos, laçaram o cobiçado cavalo e retiraram-se orgulhosos com largas gargalhadas e comentários de escárnio, deixando para trás uma tragédia imensurável e totalmente sem sentido.

Helga perdeu seu marido. Perdeu também do ventre o filho. Ficou ali inerte e perdida. Até perder também os sentidos. Contou-me os pormenores, a velha senhora, coisas que naquela época, por tabu, não se revelava nem aos adultos, muito menos para jovens como eu. Fiquei paralisada também. E orgulhosa ao mesmo tempo.

Helga, vendo-me ainda assim tão menina, confiara em minha compreensão, juízo de valor e sabedoria. Precisava que alguém registrasse aquele drama para a posteridade. Pois a história haveria por certo de omitir estes atos sombrios e seus detalhes, para enaltecer a coragem e hombridade dos pica-paus e maragatos e suas ditas nobres causas. Revoluções e guerras, o que trazem de bom? Ideologias traçadas por estrategistas cultos, fanáticos e distantes são forjadas com violência e sangue pelos pobres mortais, escravizados por lavagem cerebral e condenados a atos selvagens e depois relegados ao esquecimento ou, quando muito, mascarados por condecorações póstumas. Pois fiquem sabendo os contadores da história do Brasil. A Revolução Federalista teve momentos de crueldade gratuita e desenfreada. Que conste nos autos a triste saga de Helga.

Como não desvendar o terrível que há nos homens?

Eis o grito incontido de Érico Max.

Sozinha com os filhos naquela terra que lhe parecia agora vazia de sentido, Helga mandou avisar sua família em Blumenau. E, desconsolada, subiu a bordo de um navio com seus amados filhos, deixando para trás a Laguna, manchada de sangue e de lágrimas. Em Blumenau foi acolhida com carinho e protegida pela grande família. Beneficiada que foi pela ação inexorável do tempo, pela sua grande religiosidade e amorosidade e, também pela sua generosa saúde, Helga criou seus filhos e voltou a cantar e tocar as melodias de sua época. Já idosa foi morar com seu filho Roberto. Helga faleceu aos noventa e quatro anos, quando eu tinha apenas catorze, idade em que ela própria se casara. Foi a primeira morte na família que presenciei. Ainda sinto grande amor pela Ur-Omama. Doce, sofrida e sábia senhora do seu destino. Tão longe no tempo tento ainda desvendar o indecifrável da mente da velha senhora, mas já concluíra meu louro primo:

E os homens são anjos
que para sempre não se conhecem.

Anotações para o casamento feliz

Anotações para o casamento feliz
Diomário Queiroz, agenda de 2006

1.- Amar e respeitar um ao outro. O amor é um estado de equilíbrio dinâmico entre coração e razão a ser preservado todos os dias. É o desrespeito que mata o amor.

2.- Aceitar um ao outro como ele é, valorizando as diferenças. Quando as alternativas culturais conflitam, optar pelas que devam prevalecer na educação dos filhos e para a felicidade do casal. Sempre que possível somar as tradições familiares.

3.- Ser fiel aos princípios e valores fundamentais, como honestidade, bondade de coração, perseverança e paciência, a começar na relação entre os cônjuges e com os familiares, filhos e netos, mesmo nas pequenas coisas do cotidiano. Manter permanente clima de confiança mútua, evitando o ciúme exagerado.

4.- Trabalhar é fundamental, mas é a quarta prioridade da vida, depois de Deus, família e saúde. Buscar sempre a presença nos momentos importantes do cônjuge e dos filhos, para comemoração, apoio ou consolo. É a contrapartida das ausências impostas no dia a dia das pessoas.

5.- Manter a felicidade na alegria e na tristeza, na saúde e na doença. Agir em apoio ao cônjuge nas horas de dificuldade, evitando entrarem os dois em crise ao mesmo tempo. Algumas vezes é necessário superar-se para assegurar esse apoio.

6.- Cultivar o prazer de dormir juntos, como uma das melhores coisas do casamento. É o momento da comunhão do casal, de compartilhar sonhos, da confidencialidade, do abraço, da sexualidade em seu sentido amplo, que não se limita ao ato sexual, mas inclui a vigília amorosa do cônjuge.

7.- Criar permanentemente bons momentos de recordação pois proporcionam confiança em relação ao futuro. Quebrar a rotina para vivências especiais do casal ajuda a projetar a felicidade!

8.- Celebrar os bons momentos com alegria e neles se afirmar para enfrentar os maus momentos que virão inevitavelmente. Todas as pessoas têm problemas. Mas não há problemas que resistam ao bom enfrentamento conjunto.

9.- Manter transparência na comunicação. Falar sobre os seus sentimentos. Deixar claro o que quer e o que não quer, o que gosta e o que não gosta, o que espera do outro e o que se propõe a fazer. Dialogar sempre e sonhar juntos, com cumplicidade e convergência nas decisões e ações do casal.

10.- Respeitar a vida profissional do cônjuge. Aceitar que tenha seu espaço próprio de realização pessoal e profissional, com o apoio e a admiração da família.

11.- Viver em comunhão de bens, mesmo quando casados legalmente pelo regime de separação de bens. Assegurar a autonomia financeira de cada cônjuge, convergindo, porém, na direção de um planejamento financeiro com as principais prioridades acordadas em conjunto, sem as pequenas continhas diárias de débito e crédito.

12.- Ser generoso um com o outro. Ter prazer em ver o outro cônjuge realizado e surpreendê-lo com pequenos gestos, presentes, quebras de rotina e palavras amorosas, que reforcem sua felicidade.

13.- Educar os filhos com amor, respeito à sua identidade pessoal e responsabilidade de pai e mãe. Nunca deve o casal brigar diante dos filhos nem disputar o seu amor! Eles amam pai e mãe e por ambos são amados, naturalmente.

14.- Viver em harmonia com a grande família e com um grupo seleto de amigos. Recebê-los com alegria e festa, mas também com respeito e sem perda da intimidade e da independência do casal.

15.- Celebrar a presença de Deus na família, a dimensão espiritual do cotidiano, a leitura da Bíblia, a prática da oração e dos ritos, as ações de graça pelos milagres da vida!

Durma Profundamente…

Durma Profundamente…

Há dias um grande cartaz colorido içado na cinza parede frontal do Cine Busch anunciava:

Karl Maier
Grande Mestre da Hipnose
Apenas 3 apresentações.

Seguiam-se as datas e horários que, para a alegria de todos, coincidiam com o próximo fim de semana. O trabalho na semana era duro para todos, e poucos podiam se dar ao luxo de comprometer parte de uma noite de sono durante a semana. Naquele tempo a hipnose era uma atração que competia com vantagem com a arte da magia, esta última já bastante explorada e esgotada em sua criatividade. A arte da hipnose representava então uma grande novidade e atraia multidões. Karl Maier já era conhecido em âmbito nacional, e sua fama já chegara há algum tempo a Blumenau que esperava ansiosamente pela sua presença. Era o assunto da cidade, e muitos corriam para comprar seus ingressos com bastante antecedência. Eis um espetáculo que ninguém queria perder. E os ingressos esgotaram rapidamente.

Para minha grande alegria, meu pai, que ficou vivamente interessado neste novo procedimento que prometia trazer progressos na psicoterapia, no conhecimento dos mecanismos cerebrais e até para a medicina, me convidou para acompanhá-lo. Acredito hoje que tentara levar mamãe, que, se bem a conheço, não se interessou por espetáculo tão popular o qual julgava não passar de pura tramoia. Não sei se convidou minha irmã mais velha, ou se, conhecendo-me muito bem, e companheira que era, fiel, em seus passeios pela floresta, chácara e fazenda, julgou-me boa companhia para este inusitado evento. Fiquei alguns dias cheia de ansiedade e extremamente curiosa, imaginando como seria esta coisa chamada hipnose. Seria algo sobrenatural? Magia? Fingimento, como comentava mamãe? Ou havia ali a descobrir algum poder da mente?
Assim, com a imaginação fluindo a mil por hora, lá estava eu, ao lado de meu amado pai, sentada no meio da plateia ruidosa que, já bem antes do início do espetáculo lotava toda a sala. Alguns retardatários não se incomodavam em sentar no corredor sobre os degraus que guarneciam a declividade do piso. Todos pareciam, como eu, excitados com a iminência do início do espetáculo e ruidosamente trocavam palpites e explicações antecipadas sobre o misterioso processo hipnótico.

Finalmente a luz se apagou e a grande e pesada cortina purpúrea se abriu lentamente fazendo aquele chiado já conhecido do trilho que gemia sob o peso do pesado veludo. No pequeno palco havia apenas uma poltrona, um abajur e uma mesa sobre a qual descansavam alguns objetos impossíveis de distinguir daquela distância na platéia. Tudo estava mergulhado em uma certa penumbra que tornava o ambiente muito aconchegante. Silêncio se fez na platéia. Então um senhor impecavelmente vestido em traje de gala anunciou:
– Temos o grande prazer de lhes trazer o mestre da hipnose, o grande Kaaaaarl Maaaaier!

Sob efusivos aplausos do público entrou aquele surpreendente personagem. Com grande classe, bem trajado, porém sem nenhum adereço especial, que seria, por exemplo de se esperar de um mágico, apresentou-se de maneira simples curvando-se respeitosamente diante da calorosa acolhida dos blumenauenses. Era alto, tinha um rosto bem delineado, no qual sobressaiam seus olhos escuros e brilhantes, adornados de sobrancelhas densas igualmente escuras. Seu cabelo era escasso, e não se esforçava, como a maioria dos homens o faziam na época, para esconder a calvície que já se anunciava visivelmente. Alguma coisa em seu comportamento, em seu olhar e, sobretudo na sua fala, na qual com uma voz doce mas firme explicava com palavras muito simples o que era hipnose, os procedimentos que faria, a ausência de risco para os participantes, enfim conselhos e pedidos de silêncio durante os procedimentos, me transmitiram grande confiança naquele homem. Não me parecia um impostor. Alguma coisa muito especial estava por acontecer. Estava fascinada com a grande expectativa das experiências que haveria de presenciar.

Então ele chamou alguém da plateia, dentre os muitos voluntários, para subir ao palco e se submeter ao seu procedimento. Subiu um homem jovem, galego, forte, sorridente e feliz por ter sido premiado como primeiro voluntário, porém um pouco nervoso pela repentina exposição em público, e provavelmente pelo desconhecimento do que podia lhe acontecer. Karl Maier perguntou seu nome.
– Valdelino Batsch!
– Um blumenauense de verdade! Exclamou sorrindo.
Todos riram. Disse ainda alguma gracinha para descontrair seu cliente e a própria plateia. Pediu silêncio. Em seguida, com movimentos lentos e resolutos tomou um daqueles objetos da mesa. Era uma medalha dourada dependurada em uma corrente, longa de mais ou menos um palmo. Então olhou fixamente os olhos do homem. Entre os dois segurou a medalha pela corrente, de tal forma que esta girava lentamente imitindo pequenos reflexos da luz do abajur. Começou a falar, com a voz morna, uníssona, contínua e persistente:
– Olhe atentamente para a medalha. Ela está girando, girando, girando… E seus olhos estão ficando cansados. As pálpebras estão pesando, pesando, pesando… Você não consegue mais ficar com os olhos abertos…

Como em um passo de mágica aquele homenzarrão começou lentamente a fechar seus olhos. Toda a platéia ficou paralisada com aquela rápida reação do voluntário. Eu, então, fiquei maravilhada, e, cada vez mais atenta a cada palavra e gesto daquele verdadeiro mestre.
– Agora durma profundamente. Disse-lhe quando percebeu que Valdelino estava sob seu controle. – Durma profundamente. Você está se sentindo muito bem. Está relaxado e tranqüilo. E voltando para o público disse:
– Vou fazer um teste para ver se não está fingindo.
Todos riram.

Colocando-se um passo atrás do homem adormecido, e que balançava um pouquinho para um lado e para outro, disse-lhe:
– Agora deixe-se cair para trás!
E o homem obedeceu. Obediente despencou para trás, e foi cair qual uma estátua nos braços do hipnotizador.
Aplausos.
– Agora, Valdelino, está fazendo muito frio, muito frio mesmo! Lá fora tem uma geada daquelas, e você está sem casaco, sentindo muito frio.
O pobre homem começou a tiritar, cada vez mais, encolhendo-se todo, passando a tremer fortemente. Foi logo aliviado pelo novo comando que elevou rapidamente a temperatura virtual daquele palco. Chamou então outro voluntário, e fez Valdelino abraça-lo, dar-lhe seu relógio, e chorar efusivamente na triste despedida. Satisfeito com os resultados, disse-lhe:
– Quando eu contar até três e estalar os dedos, você vai acordar. Não vai se lembrar de nada que se passou, nem ficar com nenhum resquício da hipnose. Vai se sentir perfeitamente bem e voltar a ser quem sempre foi. Contou até três, estalou os dedos, e Valdelino abriu os olhos, um pouco espantado, mas totalmente dono da situação.

Novamente aplausos. Valdelino desceu triunfante os degraus do palco, que lhe assegurara cinco minutos de estrelato diante do público blumenauense.

Outros voluntários foram chamados. Usando vários objetos da mesa e outras técnicas, fez diversas performances provando a eficácia de seu poder. Demonstrou algumas cenas de regressão, experimentou diferentes emoções, sensações e ações, todas, porém, com muita discrição, sem expor as pessoas ao ridículo, nem a sofrimento exagerado. Demonstrou também seu poder de aliviar dores de cabeça e mal-estar. O público ficou atento durante todo o espetáculo. Parecia tudo muito simples, mas muito verdadeiro e deveras enigmático. Sua postura ética, seu domínio do ofício e sua simplicidade cativaram a todos. Os candidatos se multiplicavam e disputavam sua vez de subir ao palco. As horas passaram voando, e quando finalmente foi anunciado o fim do espetáculo, pareceu-nos a todos que o espetáculo mal começara. E os aplausos foram abundantes, de pé e persistentes. Como na sua entrada, inclinou-se, agradeceu e abandonou o palco com elegância e discrição.

Virando-me para meu pai, que ainda aplaudia eu disse:
– Isto eu também sei fazer!
Papai riu, e tomando-me pela mão, mergulhamos no caudaloso e tumultuado rio de gente que se apertava para sair da sala.
Eu não havia perdido um minuto sequer de atenção às palavras, gestos, cuidados e respeito com que o grande mestre realizava o seu trabalho. Tudo estava gravado na minha memória de meus 12 ou 13 anos. Já estava então no ginásio. Estudava no Colégio Sagrada Família, bastante rígido, dirigido por freiras que usavam ainda os rigorosos e longos trajes negros, deixando à mostra apenas as mãos e na cabeça engomadas armações brancas expunham, qual um passe-partout, apenas parte do rosto. Tal como alguns dos atuais famosos personagens de Star War, os enigmáticos Jedi, elas deslizavam silenciosamente pelos corredores e sumiam por uma porta, sobre a qual se lia: clausura. Ninguém, exceto elas, sabia o que ali se escondia e o que ali faziam. Era um segredo muito bem guardado, e quando a porta se abria, tratávamos de espiar para desvendar o mistério. Talvez tirassem aquela armação de sua cabeça, ou levantavam um pouco a saia para aliviar o calor, será? Aliás, qual a cor de seus cabelos? Ninguém sabia ao certo. Salvo, quando, por um descuido, uma mechinha escapara do rígido capuz. Então as alunas sussurravam umas para as outras:
– É preto, o cabelo dela é preto! E assim estas míticas personagens, por um momento, se tornavam pouco mais humanas, de extraterrestres passavam para a categoria de simples terráqueas. Um alívio para todas nós, alunas, carentes de contatos muito mais informais com os nossos professores.

Na semana seguinte às apresentações, Karl Maier foi o assunto das estudantes. As poucas que tiveram a oportunidade de vivenciá-lo, durante o recreio, gabavam-se, exagerando um pouco a grandeza do espetáculo, tirando assim vantagem de sua superioridade. As outras ouviam atentas e, chupando o seu dourado puxa-puxa, bastão de melado enrijecido por cozimento e pela manipulação intensa da massa, formavam um roda silenciosa em torno daquela feliz espectadora do espetáculo de hipnose. Enquanto isso, eu, que era tímida demais para ficar aí contando vantagens, comecei a montar minha estratégia de testar o poder de minha mente. Queria provar que também era capaz de hipnotizar, conforme afirmara ao meu pai.

Naquela semana, meu tempo livre foi todo dedicado ao treino. Arranjei uma corrente com uma medalha, e imaginando uma vítima à minha frente, comecei a articular toda uma seqüência de comandos conforme a ladainha usada por Karl. E repetia, e repetia. Até que senti fluência e quase automatismo nas frases que proferia. Em minha imaginação já hipnotizara dezenas de voluntárias imaginárias. Sentindo firmeza, convidei no colégio uma colega que morava na redondeza, perguntando se esta se prestaria como voluntária para que eu testasse meu poder hipnótico. Escolhera uma menina não muito forte de espírito. Um pouco lenta no raciocínio, como já me havia apercebido em sala de aula. Seria mais fácil, imaginava, dominá-la com meu trololó. Para minha surpresa, visto que era assunto de muitas conversas e de grande interesse em todo o Colégio, ela acedeu. Combinamos encontrar-nos em minha casa, para lanchar e fazer uma tentativa de hipnose.
– Só uma tentativa! Insistiu. – Mas prenda os cachorros. Principalmente aquele marrom, grande, pois tenho muito medo dele! Pediu-me, preocupada com a injusta fama de mau do Lux, nosso belo e garboso Setter Irlandês, orgulho de meu pai, seu companheiro de caçadas nos campos do planalto.
– Claro, pode vir tranquila. Ele vai estar preso. Afirmei, procurando transmitir-lhe a maior confiança possível demonstrando a seriedade de minhas intenções.

Após o almoço fiz rapidamente meus deveres. Depois revisei repetidamente meu palavreado, a entonação, a expressão do rosto, dos olhos, ensaiando diante do espelho. Eu tinha grandes e translúcidos olhos azuis, que contrastavam com meus longos cílios, sobrancelhas e cabelos, estes muito fartos e lisos. Haveria de me valer destes atributos para cativar a atenção da colega.

Ela chegou pontualmente. Assegurou-se primeiro de que o cão estava preso. Após um pequeno e saboroso lanche que estrategicamente já aguardava na copa, levei-a a um pequeno corredor que dava para a garagem da casa. Lá havia penumbra, semelhante àquela criada no palco, silêncio, e poucos atrativos que pudessem distrair a jovem. Postei-me diante dela, corrente com medalha em punho, olhar fixo e sereno, voz mansa e persistente:
– Olhe fixamente a medalha, ela gira, gira, gira, e seus olhos vão ficando pesados, pesados…. Estão se fechando lentamente. As pálpebras pesando, pesando…. E fui repetindo e insistindo na minha monótona ladainha. E não é que lá pelas tantas a menina começa a fechar os olhos e ficar durinha, durinha da Silva?
Um leve calafrio percorreu minha espinha. Como por um toque de mágica eu parecia estar no comando daquela pessoa, e solitária no meu medo, hesitei em continuar minha experiência. Mas logo uma golfada de entusiasmo e orgulho se apossou de mim e continuei meu trabalho:
– Você agora está totalmente sob meu domínio. Disse-lhe dando um passo para trás. – Agora deixe-se cair para frente!
E, como acontecera a Valdelino, ela caiu cheia de confiança em meus braços. Eu continuava meio incrédula, embora exultante, e pus-me a pensar em um teste definitivo para confirmar meu sucesso. Tranquilizei-a, dizendo que a deixaria por uns minutos, que permanecesse ali até minha volta. Então fui correndo até o cercado dos cachorros, soltei o Lux, e o trouxe pela coleira até junto de minha colega. Fiquei receosa de que ela se pusesse a gritar e saísse correndo, desfazendo assim um possível fingimento. Ficaria, por certo muito ressentida comigo, pois havia depositado tanta confiança em mim. Lentamente fui aproximando o cão, manso e dócil que era, e disse à minha colega:
– Olha só que cachorrinho bonitinho! Ele é tão manso e bonzinho. Que coisa linda. Dá-lhe um afago. Ele vai gostar. Acaricia seus pelos longos e macios. Veja como é bom…
E sem hesitar ela afagou o cão, sorrindo, um olhar meigo e carinhoso no rosto descontraído. Viva! Eu tinha conseguido! Ela estava verdadeiramente hipnotizada! Agora tinha certeza absoluta. Minha emoção foi enorme. Levei rapidamente o cão de volta ao canil, e seguindo os bons procedimentos do mestre, iniciei o procedimento de retorno ao estado de plena consciência. Não sem antes fazer mais um teste. Havia ela se queixado de dor de cabeça enquanto lanchávamos, então ordenei:
– Quando voltar a si, não sentirá mais nenhuma dor de cabeça. Ela terá ido embora, e você vai se sentir muito bem e aliviada…. Não se lembrará de nada do que fez sob hipnose. Vou contar até três….

Quando finalmente estalei os dedos, ela, para meu alívio, voltou imediatamente ao pleno domínio de seu espírito, embora um pouco confusa, sem entender o que se passara. A dor de cabeça efetivamente havia desaparecido, e ela ficou grata e satisfeita com o sucesso do nosso teste. Conversamos um bocado sobre tudo o que vivenciamos, porém omiti falar da experiência com o cão com medo que se zangasse comigo e não quisesse mais repetir a experiência.
Saiu contente, minha colega, prometendo voltar outro dia para repetir a sessão de hipnose. Havia gostado. Sobretudo por não sentir mais aquela terrível dor de cabeça.

Indescritível a sensação de orgulho, de poder, de força que tomou conta de mim. Parecia-me haver tocado o intangível, roçado as asas de um anjo, trespassado dimensões desconhecidas. Enigmático. Inexplicável. Mas factível. Tinha que continuar minha pesquisa. Tinha que medir meus limites. Tinha que desvendar o enigma. À noite, na mesa do jantar, pedindo licença a meus pais, já que assim ditavam as regras, contei minha aventura, olhos brilhando de orgulho, feliz da vida.
– Tais louca, Maike. Isto pode ser perigoso! O que tu achas, Víctor?
Sem conseguir esconder a surpresa e um pouco de preocupação, mas também uma boa dose de orgulho, respondeu:
– Ah não. Deixe-a fazer suas experiências. Não tem perigo. Mas, você tem certeza que conseguiu, Ziege? Era assim que me chamava, de cabrita, quando queria colocar em evidência minhas maluquices infantis.
– Sim Vati. Diminutivo de Vater, portanto paizinho. – Eu não disse que sabia fazer isto também? Então! E a prova é que ela passou a mão no Lux!
Todos se divertiram com minha ousada aventura. Pensavam por certo que a história acabaria por aí mesmo. Que estava satisfeita com a minha proeza.

No colégio logo minha fama correu, pois a colega contara a toda a turma o que se passara lá em casa. Meu cartaz ficou enorme. Maior do que aquele que ainda anunciava esquecido o grande mestre do hipnotismo na fachada do cinema.
Eu repetira ainda algumas vezes com aquela colega meus dons hipnóticos. Tanto que a coitada por fim não podia nem mais olhar para mim que suas pálpebras pesavam imediatamente…. Pediu-me então que não a olhasse mais assim tão profundamente, coitada. E assim fiz. Mas correu também a fama de que eu sarei sua dor de cabeça. Foi então que as outras colegas começaram a me pedir para que as hipnotizasse. Umas queriam somente experimentar, outras se curar de diversos pequenos dói dóis. Assim foi que no recreio passei a hipnotizar uma ou outra menina. Logo filas se formavam e eu atendia pacientemente uma após a outra. Algumas se submetiam rapidamente, outras exigiam maior esforço. E havia aquelas que não conseguia hipnotizar de jeito nenhum. E houve uma, Cora, menina inteligente e forte de espírito, que me assustou deveras. Postada diante do grande muro de granito que escorava a encosta sobre a qual se assentava o grande prédio do Colégio, passei longo tempo palavreando e sugestionando sua submissão. Até que ela se entregou. Então fiz o teste habitual:
– Cora, deixe-se cair para frente.
Ela tentou se afastar do muro, para cair, mas não conseguia. Tudo que podia era se deslocar para a esquerda ou para a direita. O muro, parecia-me, a prendia magneticamente. Esta força desconhecida e poderosa me assustou deveras. Sem hesitar chamei-a de volta à consciência, no que, felizmente, fui bem-sucedida.
– Bem, para hoje chega! Disse para as meninas que esperavam na fila. – Estou cansada.

A fila se desfez sob a promessa de que no dia seguinte continuaria meu espetáculo. Eu fiquei pensativa. Preocupada. Estava lidando com forças desconhecidas. Não sabia a que poderiam me levar. Poderiam me prejudicar, ou a minhas colegas? Muitas interrogações habitaram minha cabeça, até a pouco tão orgulhosa e segura de si. Chegara ao limite do meu poder? Mas qual é mesmo este poder? O que é? Como é? Não pude me concentrar na aula naquele dia.
No dia seguinte, porém, já havia esquecido minhas dúvidas. Voltei a arrebanhar simpatizantes. E passaram a vir para minha casa, pois o recreio era curto para todas as pretendentes. Filas se formavam então no vasto gramado e eu hipnotizava cada uma com a elaborada técnica que já dominava totalmente. As dores de cabeça eram os principais motivos de sua vinda. Porém sempre arrancava umas risadas quando simulava frio e a vítima tremia descontroladamente, ou quando as fazia reviver momentos da infância, e com linguajar de criança falavam carinhosamente com a boneca imaginária.

Então mamãe se preocupou.
– Não quero mais que faças isto! Disse-me um dia. – Você já é magra, e pode ficar mais fraca. Isto pode te fazer mal!
– Mas por que, mamãe?
– Não sei. Ninguém sabe. É melhor não brincar com estas coisas da mente.
– Mas….
– Nem mais nem menos! Acabou. Explica para suas colegas que eu proibi, e pronto!

Mexer com o intangível, bulir com o inexplicável. E depois, aquela história estranha que se passara com a Cora e o muro de granito. Mas, sobretudo como se opor a uma ordem daquelas, vindo de uma mãe preocupada e decidida? Como não obedecer? Ainda mais que papai, de tanto ouvir as lamúrias de mamãe, concordara com seus argumentos. Acabou meu espetáculo. Ponto final.
Será? Porquanto, anos mais tarde, já no Colégio Santo Antônio, exercitei meu poderoso olhar sobre um belo rapaz, esbelto, moreno, encantador, romântico, conquistador, inteligente e irresistível. E a atração foi tão grande, que poderosas energias amalgamaram amor e paixão ao longo de olhares sugestivos e sugeridos. Será? Quem o submetido, ele ou eu? O fato é que até hoje não ousei contar até três e estalar meus dedos!

Vivências da minha Casa de Infância.

Vivências da minha Casa de Infância.

A casa em que me criei é grande. É uma dessas casas sólidas, de dois andares, com forte traço germânico, típica de Blumenau daqueles tempos. Com as varandas bordadas de gerânios em cada quarto do piso superior, pé direito alto e com paredes duplas reforçadas para o exterior, mostra a sua adaptação ao clima tropical que castiga terrivelmente Blumenau nos meses de verão. O jardim de inverno, localizado em parte nobre da casa, no entanto, denuncia os fortes traços da arquitetura alemã, que face ao clima inclemente do demorado inverno europeu, exigia a criação de uma área especialmente reservada para o verde.

A casa está situada bem no início do Bom Retiro, onde permanece firme, sob a proteção do patrimônio histórico da cidade. Foi desenhada pelo então reconhecido arquiteto blumenauense von Knoblauch e construída especialmente para a união de mamãe e papai em meados dos anos trinta. Ela foi cuidadosamente alocada na parte mais alta do terreno e elevada ainda por um generoso aterro. Esta precaução já era tomada naquela época, em vista do risco de enchentes que assolavam periodicamente toda a cidade.

Um belo projeto de paisagismo cercou a casa com jardins de pedra, canteiros multicolores, passeios, escadarias, um lago e espaçosos gramados. Muitas árvores foram plantadas cultuando a memória germânica com pinheiros de várias espécies entremeadas com exóticas plantas tropicais e flores europeias. Hoje este jardim é esplêndido e suas frondosas árvores, entre elas um maravilhoso pau-brasil, ocultam, quase, a soberba casa. Abrigam centenas de aves canoras que ali residem, felizes com a proteção e alimento que lhes é assegurado. Ali moram ainda meu irmão e minha mãe, na altura de seus 95 anos, lúcida, usufruindo de suas inúmeras memórias quase centenárias. Fez-me saber um dia, que inicialmente nesse terreno havia um abatedouro, local, portanto, de muito sofrimento para a natureza, mas que mais tarde fora transformado em pasto onde o Opa Max, avô paterno, criou por uns tempos umas dengosas vaquinhas de leite.

O Opa

Isto me remete a uma passagem curiosa atribuída a meu Opa Max. Contaram-me fontes fidedignas que no início do século 20, naquelas paragens, meu avô, que morava em uma bela mansão, recebia diariamente o seu leite, como era de costume, trazido pelo sobrinho de Guilherme Jensen. Essa tradicional família se dedicou à indústria de laticínios por muitos anos, vindo a fabricar os deliciosos queijos da marca “Olho”, entre eles o famoso Kräuterkaese, jamais igualado em seu sutil sabor de ervas aromáticas, apesar de recentes esforços nesse sentido. Lamentavelmente, como ocorreu com muitas das empresas tradicionais da região, esta fábrica teve que fechar as portas diante dos desafios da desencontrada economia nacional e internacional.

Um belo dia, o jovem entregador, ao encontrar o Herr Max na soleira da porta para receber o esperado desjejum, preveniu-o que a partir daquela data o leite sofreria um pequeno aumento no preço, naquela época contado em alguns vinténs. O Opa ficou muito indignado com tal absurdo, e o advertiu:
– Ach so? (Ah, é?) Neste caso vamos comprar uma vaquinha para termos nosso próprio leite. Não vamos aceitar esse aumento escandaloso!
No ato, o audacioso Wolfgang respondeu-lhe, encarando aquele respeitado empresário têxtil:
– Neste caso, Herr Max, nós também vamos comprar um tear e fabricar nossas próprias camisetas!
E saiu disparado, não sem ouvir umas blasfêmias do meu Opa que esbravejava pela ousadia do rapaz.

Dias depois o ilustre Senhor Jensen receberia uma carta de meu avô, queixando-se das malcriações de seu sobrinho.
Então, foi por essas e outras, provavelmente, que o Opa criou as vaquinhas naquele terreno! Não acredito que tenha economizado no custo do leite, mas por certo curtiu a vingança pelo atrevimento daquele jovem que logo se fez homem e herdou a indústria de seu tio.

A mãe professora e arquiteta.

A casa de minha infância era cheia de vida, e sempre estava em obras. Minha mãe tinha um forte dom para a arquitetura, o qual, herdado provavelmente de seu tio avô, o grande arquiteto dos primórdios de Blumenau, Heinrich Grohberger, nunca pôde desenvolver. Chegaram a viver sob o mesmo teto, mas sua grande barba branca inspirava muito respeito e medo. Assim, os dois artistas, separados por duas gerações, nunca se encontraram em suas vocações. Eram muitas as restrições sociais que predominavam na época e para uma moça ficavam reservados os afazeres domésticos, ou quando muito, os estudos do Normal, em que se formavam os professores de primeiro grau. Mamãe, por sua vivacidade e inteligência, conquistou esse direito, e foi estudar em Florianópolis, na conceituada Escola Normal Dias Velho, recém construída junto à Marinha, nos altos da Saldanha Marinho. Atualmente o imponente prédio continua dedicado à educação, abrigando o curso de Pedagogia da UDESC. E foi com emoção que vi recentemente nossa caçula Ângela ali frequentar muitas aulas e obter seu diploma de Pedagoga.

Mamãe teve aulas com mestres de incontestável domínio da língua vernácula, como Antonieta de Barros, Francisco Barreiros Filho e Altino Flores. Todos professores de Português. Os dois últimos, segundo mamãe, verdadeiros rivais no ensino da nossa língua. Com Antonieta de Barros teve aulas particulares de Português. Fora morar com seus tios Paulo e Mariana Baier, na Rua Tenente Silveira, número 34, próximo à sua Relojoaria Müller, localizada na Trajano. A residência era emoldurada por um frondoso jacarandá-mimoso de fartas floradas azuis. Pobre árvore, que poucos anos depois teve que ceder seu perfumado espaço para as vorazes construtoras de progresso. Tio Paulo amargou dois roubos na sua loja, o que torna evidente que larápios são tristes personagens que assolam a humanidade provavelmente desde os primórdios dos pretensos Homo sapiens.

Esse tio estava deveras preocupado com o forte sotaque alemão e germanismos que mamãe trouxera de Blumenau. Para poupá-la de humilhações dos colegas de aula, contratou a já então afamada professora Antonieta para corrigir as imperfeições da fala. E que grande mestra! A jovem Eulália assimilou rapidamente seus ensinamentos, e passou mais tarde a ser invejada por muitos blumenauenses pela sua pronúncia perfeita e a capacidade de articular frases genuinamente brasileiras. Valeu-lhe essa conquista durante a segunda guerra, quando foi sempre respeitada pelos militares e governantes da época, os quais humilhavam e castigavam descendentes de arianos, supostamente simpatizantes do regime nazista e em sua maioria identificados tão simplesmente pelo seu carregado sotaque alemão.

O professor Barreiros Filho, baixinho que era, como grande parte da população ilhoa da época, era um professor de grande vocação e, no alvoroço do recreio costumava perguntar à minha mãe:
– Faz frio lá encima, Eulália?
Mamãe era alta, vistosa e de uma beleza quase impossível. Tímida, porém, respondia simplesmente com seu belo sorriso. Confessou-me, um dia, que suspeitava que o respeitável Professor mantinha por ela uma velada paixão, e a isto atribuía as excelentes notas em Português, sempre um pouco mais altas do que as julgava verdadeiramente merecidas.

Das suas andanças para a escola mamãe recorda-se ainda do cheiro da tainha frita, forte e penetrante, que exalava de cada casa com frequência nos dias de inverno. As portas das residências, que tipicamente davam diretamente na calçada ficavam abertas, e para receio de mamãe, mesmo à noite não eram chaveadas. Desde aquela época o prodigioso peixe já era pego em abundância nos lances dos pescadores e exposto em grandes pilhas no mercado público. A notícia da chegada do peixe se espalhava rapidamente naquela cidade ainda provinciana. Por falta de geladeiras, tinha que ser comprado muito cedo, consertado e preparado no mesmo dia. Por isso essa coincidência de cardápios. Quando mamãe chegava em casa, enojada, a surpresa: o prato do dia era … tainha frita! Ficou muitos anos sem poder sequer sentir aquele penetrante cheiro, a coitada.

Recorda-se também do bonde puxado a cavalo que transportava os passageiros desde a Praça XV até a Agronômica. E da inauguração da Ponte Hercílio Luz em 12 de maio de 1926. Naqueles tempos românticos todas as mulheres usavam chapéus. Esses eram tão somente retirados em público no cinema localizado próximo à Praça da Figueira, ainda mudo, em que Charles Chaplin era sonorizado por um piano tocado na sala, espirituosamente adequado aos episódios. Somente crianças ou estudantes uniformizados podiam transitar na cidade com cabelos ao vento. Tão importante era essa peça da moda, que mamãe aprendeu na escola a confecção de flores e adereços necessários para decorar esse indispensável elemento do traje de passeio. Então lá foi ela, para a grande inauguração, vestido esvoaçante, chapéu florido, acompanhada de sua grande amiga Olga Kirchner, um pouco mais velha, porém fiel confidente. Seu avô havia imigrado juntamente com o bisavô da Oma Müller. Esta identidade aproximava as duas moças como o elo de um passado convivido.

Dos tempos de colégio, recorda-se de outra grande amizade, Rita da Costa Ávila, de Lages, mais tarde Senhora Malheiros. Esta, com vocação poética, e mamãe com grande facilidade para desenho, juntas fizeram um álbum ilustrado. Lamentavelmente este perdeu-se no tempo.

Da grande inauguração lembra-se ainda da multidão vestida com seus melhores trajes de domingo, dos homens engravatados e de chapéu, pois estes também raramente circulavam sem os mesmos. Foi um dia glorioso, inesquecível. Sobretudo, trazia um grande alívio à travessia daquele estreito braço de mar. Até então essa passagem era assegurada por balsas e barcos, sempre sujeitos aos humores do clima, ditado até hoje pelos frequentes e intrépidos ventos Sul e Nordeste.

Embora professora formada, apenas por poucos anos exerceu essa nobre profissão. Ali ao lado da residência de sua mãe, no Colégio…….. deu aulas para colegiais apenas poucos anos mais jovens, entre eles Neuza, que mais tarde se casou com o seu irmão Érico. Pouco tempo depois conheceu meu pai, recém vindo da Alemanha. Este logo se apaixonou por tão bela e culta moça. Logo casaram, e sua vida foi de dedicação ao lar e aos seus três filhos nascidos em grandes intervalos de tempo.

De volta para casa

Os dois andares da casa se comunicavam por dois lances de escada solidamente ladeados de um belo corrimão de madeira de lei. Era nosso escorregador e seguramente a maneira mais rápida de alcançar o térreo. No mezanino havia um quarto de hóspedes e a sala de costura, no qual nossa perpétua costureira, Ana, vinda especialmente de Brusque, duas vezes por ano, trabalhava freneticamente para reparar, readequar e elaborar novos trajes para toda a família. Mamãe teve sempre muito bom gosto para conceber roupas, e com ajuda da Burda, revista alemã que ditava a moda na época, elaborava modelos avançados e glamorosos que embeveciam suas amigas, todas muito conservadoras.

Mamãe foi elegante a vida toda, e mesmo agora, já quase sem visão, prima pela sua aparência, surpreendentemente jovem. Quando moça, sendo de família relativamente simples que não poderia se dar ao luxo de pagar costureira, já era assim, e gaba-se de muitas vezes ter comprado o tecido na sexta, cortado, alinhavado e costurado no sábado e vestido no domingo. Então derretia corações nas domingueiras e nos animados bailes do Schützenhaus, hoje Tabajara Tênis Clube. Era mesmo muito bela. Ia sempre acompanhada da sua mãe, que em um canto do salão, junto com outras mães zelosas, assistia o alegre rodopiar dos pares que se formavam após cada novo intervalo da orquestra. Depois, já de madrugada, voltavam a pé, por um longo caminho de terra, de sapatos na mão, os pés doídos, mas felizes da vida. Uma charrete puxada por dois cavalos e dotada de uma confortável cabina coberta de lona preta, a já aposentada Kutsche, era o recurso utilizado em necessidade extrema de chuva. O barro então era tanto, que a sombrinha não seria um alívio suficiente para esse cansado regresso.

No mezanino havia um tapete. Crime hoje, glória naqueles tempos de equivocada ilusão de abundância, era uma pele de onça. Com cabeça e tudo. Em um de seus lados, aquela abertura irreparável causada pela bala certeira. Para mim essa silenciosa criatura despertava todos os misteriosos perigos da mata, que pululavam em minha mente infantil quando sobre ela me sentava e inspecionava o enigmático olhar daqueles amarelos olhos de vidro. Por vezes, Klaus, meu irmão mais velho, sabedor de meus medos mais profundos, vestia a pesada pele, e apagando a luz quando eu subia distraidamente as escadas, soltava terríveis urros, fazendo despejar fortes doses de adrenalina no meu frágil corpo de menina. Meu terror era tão somente aplacado, quando nos braços de minha mãe descobria a fugidia dimensão que separa o real daquele imaginário tão intensamente vivido.

Klaus, meu irmão, primogênito da família, mais velho de quase uma década, era meu herói, ainda assim. Cedo saiu de casa para seus estudos de segundo e terceiro graus. Fora expulso do colégio de padres na cidade, pelas suas opiniões e atitudes, muito ousadas para aquela época, para as quais não havia espaço junto aos jovens naqueles tempos de cidade pequena. Mas quando chegava, nas férias, admiravam-me seus braços fortes, nos quais me balançava qual num ramo de goiabeira. Tinha ele uma trupe de amigos, o Mono e outros que se comunicavam por um código de assovio. Tipo assim: mi bemol, si bemol, mi bemol, si bemol terminando em uma ascendente seqüência de semitons impossíveis de descrever. Então tudo estava combinado. Por vezes, escapava à noite, sem que nossos pais percebessem, pela varanda de seu quarto, para a qual dava uma frondosa árvore, a qual emprestava seus galhos para a proibida aventura noturna. Em uma daquelas noitadas usurparam uma placa de trânsito de estacionamento proibido, que naquela época era apenas chumbada em uma placa de cimento. Para o desespero e vergonha de meu pai a placa foi localizada no caminho da floresta na Cia Hering, onde papai era Diretor.

Tinham mesmo uma imaginação fértil aqueles adolescentes. Brincando de índios, em um daqueles dias inspirados, amarraram minha irmã Elke em um grosso tronco do jardim, e ensaiaram acender uma fogueira a seus pés. Felizmente mamãe chegou a tempo para por fim a essa atroz brincadeira. Decepcionados, a fogueira foi então aproveitada para fritar algumas poucas linguiças, conquistadas com muita choradeira na cozinha da casa. Seu duvidoso sabor, meio queimado e fortemente temperado pela fumaça, deve ter dado àquela turma uma virtual sensação de autenticidade indígena.

Porém o que mais me impressionava em meu irmão, era sua agilidade em subir nas árvores. Valorizando nossas vocações mais remotas, sabia pular de uma árvore para outra, fazendo seus galhos se curvarem perigosamente, e remetendo-o depois para o alto, não sem seus gemidos secos e o forte farfalhar das folhas. Não sei se por isso, ou também por isso, passei a ler com grande interesse a revista mensal de Tarzan, o rei das selvas.

No piso superior ficavam os quartos. O de meus pais era amplo, com dois cômodos. No primeiro ficava a grande cama e armário, ambos de imbuia, madeira maciça, escura com seu inconfundível desenho contorcido de linhas ainda mais escuras. E no outro quarto todos os móveis eram importantes apenas para dar conforto ao meu pai para as longas horas diante do rádio, o qual em hora marcada, e precedida por uma curta e intermitente mensagem melódica, trazia as notícias internacionais da Deutsche Welle. Então o silêncio era imperativo, e meu pai ouvia coisas muito importantes, me parecia, ao meio dos silvos e uivos das interferências radiofônicas transmitidas por aquele precioso equipamento. Meu pai então dava suaves puxões no seu cachimbo, e um odor cativante, quase doce, quase amargo, penetrava minhas narinas. Seduzida, propus-lhe, em uma daquelas longas noites de trololó alemão no rádio, duas opções: ou permitia-me provar seu precioso cachimbo, ou dava-me um polpudo troco para compra de balas e picolés. Após alguns minutos de reflexão e olhando-me profundamente com seus tranquilos e doces olhos, estendeu-me sua mão com o cachimbo. Triunfante, tomei-o de suas mãos e desajeitadamente suguei com muita força aquela misteriosa fumaça. Não podia ser diferente. Saí correndo e tossindo compulsivamente, meu jovem pulmão violado em sua pureza, e definitivamente curado em seu desejo. Papai ficou tranquilo, acomodado em sua poltrona, fumando seu cachimbo, seguro que era de sua sabedoria paterna.

Por vezes era-me permitido dormir entre papai e mamãe. Essa sensação quase embrionária de aconchego, segurança, de puro amor e mistério deveria ser concedida por lei a cada ser, pelo menos uma vez na sua vida de criança. É o referencial vital do bom, do justo, do doce, do puro e meigo, do perfeito, do infinito vislumbrado. E antes de adormecer podia assistir ainda ao doce balé de figuras estranhas e alegres que se moviam em sombras projetadas na parede pelos gerânios balançados pela brisa da noite nos vasos da varanda adjacente.

Nós, duas irmãs, Elke e eu, de personalidades tão diferentes, e distantes de quatro significativos anos, partilhávamos outro quarto. Aliás, eram também dois cômodos, os quais alternavam seus papéis de tempos em tempos, seguindo os desejos de mudanças tão característicos de mamãe. Ora um era o quarto de dormir, ora era o outro. Havia também uma grande varanda com gerânios vermelhos, local de muitas brincadeiras e de alívio nas quentes noites de verão. Tão diferente que éramos, tínhamos, no entanto algo em comum. A vocação para a bagunça. Um terror para minha mãe, a qual ficava escandalizada cada vez que entrava em nosso quarto. Irritada exclamava:
– Mein Got, das sieht aus wie eine Reuber Höle. Meu Deus, isso parece com uma cova de ladrões.
Por um tempo eu pensava na história de Aladim, e estranhava que uma cova de ladrões pudesse ter outra coisa senão joias e pedras preciosas. Logo percebi que mamãe tinha razão. Era bagunça mesmo! Mas infelizmente seus esforços em corrigir suas filhas foram em vão. Até hoje não gosto de gastar meu tempo organizando coisas.

Elke era artista. Desde pequena. Necessariamente, aprisionada, abençoadamente, por fortes laços genéticos. De corpo e alma. De atitudes e desejos. Era cheia de energia e poderosa, mas divertida também. Deixou um legado de arte forte e eterna em suas esculturas geniais em bronze, madeira, vinil e cristal. Eu, naturalista. Desde sempre. Obrigatoriamente. Cargas genéticas, também. Mas delgada e fraca. Frágil e magra, de tal maneira que mamãe temia que fortes rajadas de vento pudessem me carregar facilmente, e me fazia entrar sempre que uma trovoada se anunciava.

Assim tão diferentes partilhávamos o mesmo quarto. Eu a admirava, por vezes temia, mas, sobretudo, a amava. Facilmente influenciável que eu era, e ainda sou, Elke conseguia sempre me convencer das coisas. Um dia fez-me posar, sentada sobre a cama, por horas a fio, imóvel, para fazer meu “portrait”. Concentrada desenhava e desenhava, o olhar sério e observador. Chamava-me severamente a atenção quando, irrequieta, ensaiava algum movimento para o alívio das dores e câimbras que já me acometiam. Finalmente a obra ficou pronta! Passou-me gentilmente o papel, e para minha grande surpresa e decepção …. ela desenhara uma cabra! Era assim que papai costumava me chamar, saltitante que era: cabrita “Ziege”. Fiquei tão indignada, mas tão indignada, que ousei ofendê-la da forma mais forte que podia naquele momento de grande raiva. Exclamei:
– Sua… irmã de um camelo!
E ela desatou a rir apontando-me o dedo:
– Irmã tua…….
Que frustração! Mas eu era assim mesmo. Incapaz de uma maldade. Pelo menos das grandes e raramente com meus irmãos…

Para chateá-la um pouquinho, decidi num daqueles fins de tarde, banho tomado, recolhidas já no quarto, desafiar sua paciência. Ela recebera em seu último aniversário um perfume que estava em grande moda, chamado Cachemire Bouquet. Seu perfume era forte e enjoativo, e eu sabia que o detestava, tanto que o frasco ainda se encontrava praticamente intocado. Fazendo ares matreiros, abri o frasco e arrisquei colocar umas gotinhas em sua cama. Seu olhar sério, que acompanhava atentamente meus movimentos, tornava-se progressivamente ameaçador. Mesmo assim insisti na perigosa brincadeira. De repente, Deus sabe como e porque, meu dedo escapou da abertura do precioso frasco e todo o perfume se derramou sobre seu leito. Os odores tornaram-se penetrantes e insuportáveis e ela saltou sobre mim. Tive tempo de refugiar-me em minha cama, mas com um forte tapa que visava meu rosto e que protegi com a mão, deslocou meu dedo. A dor foi tanta que abri um grande berreiro. Mamãe veio correndo, e quis saber do acontecido. Foi então que tudo mudou entre nós. Aos prantos culpei-me pelo desajeitado incidente, afirmando que havia caído de mau jeito. Minha irmã ficou tão surpresa com este meu gesto, que me abraçou efusivamente, e de lá para frente passou a admirar minha índole. De certo sabe ela agora, em sua dimensão etérea, que foi mais um ato de covardia do que de compaixão. Não me fez muito mal, acredito, este mérito não merecido.

O fato é que cresci muito com essa vivência. Mais tarde pude exercer a compaixão com um pouco mais de consciência. Numa daquelas brigas de infância, entre puxar cabelos e proferir blasfêmias, levei um forte tapa daquela menina, um pouco mais velha e visivelmente mais forte do que eu. Prima de minha prima, Marlise fazia parte da nossa turma de brincadeiras. Ardeu-me muito a bochecha e era então certa minha derrota. Em uma súbita inspiração, ofereci-lhe a outra face e disse-lhe:
– Bate, bate agora!
Marlise ficou paralisada e aos prantos saiu correndo para sua casa.
Esta vitória me deu muita força. Possivelmente nascida de puro medo, e copiada de minhas aulas de catequese, foi para mim um momento de glória e profundo aprendizado.

Minhas artes

Com os jardineiros da minha casa era bastante arteira. Tivemos um, de nome Adolfo, grande e forte, porém com um grave defeito. Tinha medo de sapos! Mas eu não! Os sapos faziam parte da minha lista de animais dóceis. Então lá um belo dia, tendo encontrado um grande sapo-cururu, que distraidamente se fazia visível em pleno dia, fiz o meu plano esperto. Peguei-o cuidadosamente, de maneira que suas grandes glândulas de veneno, que sobressaem como sinal de advertência ao lado de sua face, não encostassem nos meus dedos. E assim, de sapo em punho aproximei-me, pé ante pé, silenciosamente, daquele grande vulto encurvado que mecanicamente extraia da terra os bulbos das teimosas tiriricas que infestavam o canteiro de rosas.
– Te pego com o sapo! Exclamei, encostando as suas frias pernas em suas costas.
O pobre homem levantou-se num pulo só, e saiu disparado pelo jardim afora. Deveria ter sido inusitado para quem assistisse a cena. Aquele homenzarrão correndo desesperadamente, seguido de perto por aquela criança que agitava o desconcertado sapo em suas mãos. Deixei-os em paz, assim que me cansei. Adolfo me perdoou e continuamos amigos, como já o éramos antes. Era um homem bom, muito bom. O sapo, não sei se entendeu alguma coisa. Mas recoloquei-o no seu esconderijo, e à noite deve ter coaxado insistentemente como o fazia de costume.

Pior foi o trato que dei a um jovem jardineiro, recém contratado, aquele alemão, “alemão batata come queijo com barata” que nunca tinha saído da roça nem da barra da saia de sua mãe. O coitado ficou dias sem falar uma palavra sequer, não obstante nossos esforços para integrá-lo à harmonia da casa. Meu pai já estava preocupado e pensando em levá-lo de volta, quando um dia, retornando da chácara, trouxe um punhado de pequenos frutos amarelos, típicos de nossa floresta, dotados de uma polpa muito saborosa que envolve sua grande semente. Olhando-os atentamente, e abrindo um largo sorriso exclamou:
– Bacupariiiiii ! Com seu erre gutural tão característico dos colonos alemães. Era o nome daquele frutinho saboroso, que conhecia tão bem das matas de seu sítio. E nesse desabafo recuperou suas raízes e as plantou finalmente em nosso jardim.

Foi então que maquinei minhas traquinagens. Os fundos do nosso jardim dão, a uma certa distância, para um grande hospital da cidade. Nessa extrema do terreno eram depositados todos os restos de vegetais recolhidos no jardim, para lentamente se transformarem em adubo a ser então reutilizado nos canteiros. E como o jardim era bem grande, este monte também assim se tornou. Era um local escurecido pela sombra de grandes árvores, e ninguém transitava pelas redondezas. Eu tinha então já conquistado a confiança daquele galego, e comecei a lhe falar de almas penadas que vagavam infelizes nas redondezas do hospital, e que vez ou outra apareciam naquele canto do jardim. Ele ouvia minhas histórias com grande interesse. Eu havia recebido, em uma recente visita à minha madrinha em São Paulo, uma máscara de borracha, horrível, feia de verdade. Era uma grande novidade na época, e que não chegara ainda ao comércio blumenauense. Após alguns dias de doutrina, que devem ter povoado seus sonhos mais assustadores, coloquei a tal máscara e me escondi atrás daquele amontoado vegetal. Após alguns minutos, pude observar como se aproximava, com seus tamancos de madeira, carregando o carrinho de mãos lotado de folhas. Assoviava desconfiado, olhando para a direita e para a esquerda, os olhos atentos a qualquer movimento. Foi então que me levantei ligeiramente, a máscara à mostra, aos gritos de horror e de espanto. O alemão ficou estático por alguns segundos. Então deixou cair o carrinho e correu desabaladamente, os tamancos voando pelos ares e de olhos arregalados que, vez ou outra, arriscavam uma olhadela para trás. Voltei rapidamente para casa, e lá estava ele na cozinha, arfando, contando sua visão para nossa empregada:
– Eu fi, eu fi….
– Mas o que você viu? Perguntou a moça espantada.
– Eu fi a alma penada…. lá embaixo no chardim….
– Tais louco, isso não existe! Disse ela sem largar da colher de pau que remexia uma copiosa sopa.
– Eu não fou mais lá! Nunca mais! E se recolheu em seu quarto para remoer sua surpreendente experiência do outro mundo.
Voltou, sim, àquele lugar, desconfiado, para buscar seus tamancos e o carrinho de mão. A alma penada nunca mais voltou, e aos poucos ele recuperou sua autoconfiança.

Jamais lhe contei minha versão da alma, e o meu algoz, que hoje já deve estar na casa dos 70, deve ainda lembrar-se e talvez até rir desses seus medos vividos naquele jardim. Meus sentimentos vagavam então entre a glória e a pena. Um pouco de vergonha, sentida, talvez. Não sei mais. Foram sentimentos de criança que se diluíram com o tempo.

Voltando para dentro de casa.

Meu irmão tinha seu próprio quarto, que ao contrário do nosso era extremamente organizado. Assim mamãe sempre o citava como exemplo a seguir. Para nossa raiva, e como já disse, em vão. Como já mencionei anteriormente, ele raramente ocupava o quarto, na minha memória de criança, e quando, apenas nas férias. Então, seu grande amor pela natureza, herdada de papai, se manifestava com todas as forças.

Assim, em uma ocasião, manteve, para o pavor de todos da casa, um aquário no qual criava uma jovem jararaca. Uma daquelas cobras venenosas, facilmente reconhecível pelo seu desenho característico em V de cor marrom escura sobre seu delgado corpo bege. Belo espécime aquele, longamente estudado pelo meu irmão, que o alimentava com pardais caçados no jardim com sua espingarda de pressão. Mamãe teve que argumentar muito, e gastar todas as suas paciências, até que finalmente soltou a cobra lá no ribeirão que corta o jardim em seus fundos.

Em outra ocasião, resolveu que camundongos faziam parte do ecossistema e que seria crime envenená-los. Assim lembro-me ainda que sua população aumentou de forma alarmante, e que se tornou usual que um daqueles pequenos roedores peludos e cinzas cruzasse sobre nossas pernas quando brincávamos sentadas no chão. E fomos nos acostumando com esse novo elemento de nosso habitat caseiro. Até que um dia minha mãe deu um basta a essa duvidosa teoria, e eliminou todos, sob protestos do mano, com umas boas doses de veneno. Que alívio! Acho que meu irmão partilhou esse mesmo sentimento, embora não o tivesse jamais admitido.

 Ele é muito letrado, meu irmão Klaus. Filósofo e economista por formação, sempre tentou estimular suas irmãs para o exercício da lógica. Lembro-me de um daqueles invernos, que eram verdadeiramente frios em Blumenau. A geada chegava a queimar nossas alfaces e muitas bananeiras sucumbiam, tal sua intensidade. A lareira era a grande atração da casa nessas ocasiões e ela aquecia uma dependência do andar térreo que recebia o laudo nome de Herrenzimmer, o escritório de papai, com sua bela escrivaninha toda entalhada em madeira quase negra. Ali também ficava sua biblioteca, repleta de enciclopédias e romances, estes últimos a leitura preferida de mamãe. Tal era o frio naqueles tempos, que para dormir cobria-nos um volumoso cobertor de plumas de ganso, e mamãe passava o ferro na cama para que pudéssemos adormecer aquecidos. Hoje, as visíveis mudanças macro e microclimáticas se encarregaram de amenizar o clima, e raramente, creio, a lareira terá o mesmo significado daquelas décadas passadas.

Numa daquelas tardes frias de doer, em que curtíamos a inércia das férias de julho, aquecidos pelo fogo reconfortante, ele decidiu nos introduzir nos emaranhados caminhos da lógica. Iniciou a leitura, para nós duas, discípulas em potencial, os primeiros capítulos do renomado e volumoso livro do filólogo alemão, Werner Jaeger, a Paidéia ou “Die Formung des griechischen Mannes”, a Formação do Homem Grego. No início, tudo bem. Eu podia dispor das auspiciosas conexões que meus neurônios infantis me propiciavam. Mas logo, logo comecei a perder o fio da meada. Orgulhosa que era, e entreolhando minha irmã, que parecia perfeitamente à vontade com todo esse raciocínio, fazia os ares de menina prodígio. Mas a pressão foi aumentando e aumentando, até que perdi totalmente o controle de meus sentimentos, e desatei a chorar copiosamente, num misto desabafo de raiva, vergonha e decepção por minhas reveladas limitações no domínio da lógica. Decidi que não era essa a minha praia! Minha irmã confessou mais tarde que também estava literalmente “boiando” naquela nutritiva sopa filosófica.

Dias depois me vinguei do ultraje que sofrera. No quarto do mano tinha uma boa biblioteca com livros de filosofia. Criativamente colei alguns papéis sobre parte do título de alguns volumes, de forma que desfiguravam totalmente seu sentido. Lembro-me especialmente de um cujo título era “Du und die Filosophie”, Tu e a filosofia. Com minha intervenção o livro passou a se chamar “Du und die Sophie”. Tu e a Sofia. Ficou indignado, meu irmão, e silenciosamente curti a doce vingança.

A cozinha

A cozinha era grande e ocupava um importante espaço no andar térreo. Ali reinavam soberanas as cozinheiras que foram se sucedendo ao longo do tempo, todas elas marcando fortemente minha vida. Sob forte controle de mamãe, tinham, no entanto, bastante liberdade, e, sobretudo, exerciam um importante papel na minha vida pessoal.

Naqueles tempos todas as informações sobre as relações de homem e mulher eram estritamente omitidas às crianças, e mesmo aos jovens que experimentavam os primeiros apelos da puberdade. Assim eu nada sabia, nem ao menos suspeitava, até aos treze anos, mais ou menos. Um dia, em minhas idas ao Colégio Sagrada Família, em que estudava desde o jardim de infância, da minha inesquecível e querida Irmã Carmosina, observei uma coisa muito estranha. Próximo ao Colégio se situa aquele hospital das almas errantes. Na calçada que levava a este hospital, cruzei com várias mulheres, todas com um ventre muito inchado. Fiquei impressionada com essa aberração, e fiquei dias remoendo essa estranha visão. Um domingo, em casa da minha Oma Müller, onde tradicionalmente tomávamos o café da tarde, enchi-me de coragem e perguntei à Vera, filha açoriana adotiva da casa, o que era aquilo, tão estranho. Um pouco encabulada, com o rosto tornando-se curiosamente vermelho disse-me:
– Isto é uma doença! Que só dá em mulheres!

Fiquei apavorada! Nos dias que se seguiram vi, assustada, uma porção de mulheres naquela calçada, todas acometidas dessa terrível doença! Que coisa horrível. Foi uma empregada, a quem indaguei sobre esse monstruoso mal, que me desvelou o mistério. Da forma mais crua e nua. Levou-me ao anoitecer a um canto do jardim que divisa com uma praça. Sob uma soberba figueira havia uns bancos, meio escondidos pela vegetação. E lá estava um casal, apaixonado, aos abraços, beijos e suspiros. Atingiram finalmente o clímax dessa ardente paixão, ali, bem à minha frente, uma menina atônita, que brutalmente desvendou os mistérios do amor carnal, acocorada na matinha, entreouvindo as risadinhas maliciosas da empregada que se deliciava com o espetáculo.

Mais algumas explicações desajeitadas, e finalmente compreendi aquelas barrigas. Fiquei por muito tempo revoltada com o fardo que deviam carregar as mulheres, os homens saindo impunes. E eu, futura mulher, estaria sujeita a essas injustiças do gênero. Só mais tarde, os hormônios fluindo, me trouxeram a descoberta do verdadeiro amor, o que tudo torna mágico e maravilhoso, injustiças esquecidas, enterradas naquele canto do jardim.

Naquela cozinha se faziam maravilhas. Bolos, docinhos, patos e gansos assados, ou ao molho pardo, o famoso “Schwartzsauer”. Esse prato é resultado de um fino trato dado ao sangue recolhido com vinagre e preparado em bechamel. Este molho, cor de chocolate, era então derramado sobre miúdos da ave, preferencialmente de ganso, previamente ensopados com muitas ervas e ameixas pretas. De sabor suave, selvagem, vem acompanhado por um refogado de repolho roxo, este, por sua vez, agridoce. Para quem não tem preconceito de sangue de ave, é uma verdadeira delícia culinária. A história dessa curiosa receita remete ao tempo feudal na Europa. Naquela época as partes nobres das aves eram reservadas aos senhores feudais. Para os empregados sobravam os miúdos e o sangue. Assim elaboraram esse nutritivo ensopado, que lhes assegurava as energias para enfrentar as agruras do clima e dos duros trabalhos a que eram submetidos. Mais tarde, como aconteceu também com nossa saborosa feijoada elaborada pelos escravos, este prato passou a frequentar as mesas da burguesia que soube valorizar seu sabor e suas virtudes nutritivas.

Às vésperas do Natal, nessa mesma cozinha, em uma grande bacia, era preparada uma bebida milenar, receita herdada dos antigos bárbaros, o Meet. Atualmente denominada de Honigbier, cerveja de mel, o Meet é resultado da fermentação do mel, diluído em água, às custas de fermento biológico e aromatizado com fatias de gengibre. Por algum tempo a bacia descansava em um canto da cozinha, à espera da fermentação. Depois o líquido era engarrafado e lacrado com rolhas firmemente amarradas ao gargalo do frasco. Depositadas no porão da casa, onde a temperatura era mais amena do que os quase quarenta graus do úmido verão blumenauense, descansavam até os festejos natalinos. De baixo teor alcoólico, era-nos permitido degustar esta aromática e borbulhante bebida germânica. Assim, ficávamos atentos, e muitas vezes, à noite ouvíamos de nosso quarto o estouro da rolha de uma garrafa que não resistira à pressão da fermentação. Corríamos então para o porão e degustávamos, com o gosto do prazer antecipado, o saboroso líquido amarelo.

Em outra época, uma delícia do mesmo quilate era preparada em uma grande panela de cobre. O puxa-puxa. Melado de cana era cozido e mexido com uma grande colher de pau por horas a fio até atingir o exato ponto de poder ser esticado e esticado até tomar aquela sedutora coloração dourada. Era então cortado em pequenas varetas da espessura de um dedo minguinho, momento tão esperado por nós crianças para ser provado e aprovado por muitas vezes. A preparação do puxa-puxa era acompanhada impacientemente por mim em todas as suas etapas, ano a ano. Num daqueles momentos, minha irmã ficara encarregada de remexer o denso líquido, quase no ponto de fio. Angustiada perguntei-lhe se poderia provar a tão esperada guloseima. Sem titubear disse-me:
– Prove!
Feliz da vida, enfiei meu dedo naquele caldeirão escaldante. Não sei que temperaturas alcança uma massa líquida tão densa e borbulhante. Lembro-me apenas da dor terrível que se alastrou para toda a minha mão, e que me fez correr aos berros pela casa. Minha irmã, profundamente arrependida da insensatez de seu gesto, acompanhava-me solidária aos abraços, até que fui socorrida por mamãe. Não trago nenhuma cicatriz no dedo, e acho que não o afundei muito na puxa-puxa escaldante. A cicatriz ficou na alma da caçula traída em sua confiança para com a irmã quatro anos mais velha e tão amada.

A copa

Era ali, uma pequena sala anexa à cozinha, onde tomávamos o café da manhã e o lanche da noite, o “Abendbrodt”. Era ladeada por uma varanda, onde uma trepadeira de longos cachos de flores amarelas decorava a vista para o vasto jardim.

A hora do café era sempre fixa, às sete, porque papai tinha que ir à fábrica, religiosamente, de segundas à sábado, anos a fio, sem férias, as quais não se permitia pela responsabilidade de seu cargo de Diretor Técnico da Cia Hering.  Geleias, queijinho branco caseiro, o “Quark” sobre pão caseiro de trigo, de batata ou aipim e o café recém coado, com o gordo leite de vacas Jersey, trazido da chácara, eram desfrutados com a família reunida. À noite nos encontrávamos novamente ali, para um delicioso refogado das sobras do almoço, o mesmo pão da manhã, agora acompanhado de linguiça defumada, morcela branca, “Leberwurst” e morcilha vermelha, “Blutwurst”, os dois últimos preparados recentemente na chácara por mamãe, na ocasião de matança de um porco. Essas linguiças, depois de preparadas, respectivamente com o fígado ou o sangue misturado ao toucinho do porco e vários temperos verdes e pimenta preta, eram introduzidas por um funil nas vísceras do porco previamente lavadas. Em seguida eram cozidas em um grande caldeirão. Lembro-me de como mamãe furava as linguiças vez ou outra com um espinho de laranjeira para aferir o ponto de cozimento das mesmas. Assim formava-se um caldo de forte aroma, o qual era considerado uma guloseima por mamãe, e por isso servido à noite como uma sopa. Era chamado de “Metzgersuppe”, sopa de açougueiro. Não encontrei termo próprio em português para esse substancioso caldo. Na tradição açoriana a preparação das morcelas se fazia praticamente da mesma forma, mas o caldo era descartado para os porcos. À noite daquele intenso dia a sopa era tomada com devoção, pela sua raridade, e com introspectiva reverência àquele dia consagrado à matança do porco. Para mim era um verdadeiro martírio, pois detestava seu sabor. Sofrendo pela obrigação de corresponder ao entusiasmo de mamãe, perscrutava o rosto de meu pai e irmã à procura de alguma careta que traísse a falsidade no saborear do estranho líquido. Em vão. Não sei se realmente apreciavam a sopa, ou eram exímios atores nesse espetáculo festivo em torno do sacrifício desse pobre animal.

A sala de visitas.

A sala de visitas era o espaço reservado para recepções e festas. Com suas largas poltronas e sofás, ostentava um antigo tapete persa e era coroado de um amplo lustre de ferro trabalhado em tramas ondulantes portando muitas lâmpadas em forma de vela. Este espaço era ampliado pelo jardim de inverno, “Wintergarten”, que estava sempre decorado com inúmeras plantas de interior, cuidadosamente cultivadas por mamãe. Em setembro e outubro belíssimas orquídeas, principalmente lélias e catleias, ocupavam os locais de honra desse espaço e perfumavam sutilmente aquele ambiente. Posteriormente, numa dessas súbitas inspirações arquitetônicas de mamãe, foi adicionado um pequeno ambiente de bar. Pouco espaçoso, foi valorizado por um belíssimo mosaico de vidros coloridos concebido e concretizado pela minha irmã e que se harmonizava luminosamente com os preciosos líquidos ali depositados.

Tenho muitas lembranças boas dessa sala. Das noites de Natal, com a grande árvore toda enfeitada com bolas coloridas e decorada com “Lameta”, os longos fios prateados importados da Alemanha e que pendiam luminosamente dos galhos. Das inúmeras velas. Quando acesas, o encanto do Natal acontecia e em coro cantava-se Noite Feliz, em alemão, naturalmente. Dizem que quando pequena eu errava um trecho do complicado cântico. Com todas as minhas forças vocais, felizmente bem afinadas, eu cantava:
¬- Dorme na mofada paz…. “…schlaffe in schimlicher Ruhe, ….” o que resultava em disfarçadas risadas naquele solene momento. Todos reunidos, emocionados, com os melhores trajes, nós crianças, porém, tínhamos os olhos mais voltados aos presentes que se acumulavam sobre as poltronas do que para a árvore. Era um momento mágico e de grande confraternização.

Dessa sala também me recordo de grandes decepções. Reunidos tios e amigos de meus pais, todos riam e se divertiam tomando Whisky com soda. Partilhávamos, com admiração, aquela animada e variada conversação de adultos. Em determinado momento, porém, éramos convidadas a sair. Era a hora das piadas. Meus sentimentos eram de injustiça, revolta e até vergonha dos próprios pais. De longe ouvíamos estridentes risadas, que me soavam como traição aos bons princípios que nos eram incutidos diariamente por papai e mamãe. E assim a festa terminava em tristeza na alma da criança.

A lembrança mais forte e humilhante desses encontros me remete a um tio paterno, triste lembrança esta. Tendo sido afastada, como de costume, quase adolescente, fui tomar meu banho na gostosa banheira dos meus pais. Fiquei longamente imergida no tépido e relaxante líquido. Acho que remoía as lembranças vividas no longo dia daquelas férias de fim de ano. Repentinamente aquele tio adentrou a sala de banho e com uma grande risada e, ostentando seu glorioso Roleiflex, tirou várias fotos de mim, ali, indefesa e nua, como nunca me sentira antes e jamais depois. Ultrajada em minha mais profunda intimidade, ferida em minha privacidade tão jovem, jamais perdoei aquele tio. Tornou-se para mim um referencial. Um limiar. Nunca, mas nunca, ultrapassar o limite do respeito ao próximo. Sobretudo o respeito à criança, em sua individualidade, em seu ser, tão puro, tão verdadeiro, tão sublime. Jamais, meu tio, jamais faças isso de novo. Saberás agora, certamente, o que me fizeste. Porque deves ter evoluído nas esferas etéreas que saboreias já há tantos anos.

A sala de jantar.

Anexo à sala de estar se estendia a sala de jantar. Sua mesa de madeira escura tinha um mecanismo especial para aumentá-la um pouco mais para os dias de festa ou de eventuais visitas. Mas no diário era ali, naquela mesa, que era servido o almoço. Nas férias éramos cinco. O papai na ponta da mesa. Sempre se criava uma atmosfera solene, e profundamente respeitosa, quando papai, voltando da fábrica, anunciava todos os sucessos, infortúnios e prognósticos para aquela empresa, então ainda de caráter familiar.

O inverno não estava suficientemente frio, então os colonos comprariam poucas camisetas. Novas circulares recém-chegadas da Alemanha aumentariam a produção e certamente melhorariam a qualidade da malha. A língua oficial era naturalmente o alemão. Mamãe dava vez ou outra uma opinião sobre a notícia. E nós, calados. Pois a estrita educação germânica assim o determinava. Somente com licença obtida com muita sabedoria podíamos arriscar alguns comentários que nos pressionavam a garganta.

Havia também momentos de descontração naquela mesa, pois papai era muito espirituoso. Em uma ocasião ficou me falando durante vários minutos de curiosas histórias sobre o sal. Atenta à sua sabedoria, nem desconfiei de nada. Até que todos, rindo, me fizeram saber que ele queria que eu lhe alcançasse o precioso tempero.

Naquela sala se festejavam sempre os aniversários. Bolos e cucas de diferentes receitas, todos preparados pela nossa talentosa cozinheira, preenchiam aquela mesa. Canapés de queijo, de ovos cozidos e patês, ricamente decorados, completavam o cenário apetitoso. Café com leite e chá preto eram servidos em xícaras de coleção, todas elas diferentes entre si e belamente ornadas de flores e desenhos dourados sobre a fina porcelana Schmidt. Não se serviam refrigerantes na época de minha infância. Apenas o capilé, bebida feita à base de xarope de groselha diluído em água, era uma alternativa para as crianças. Havia ainda o suco de vinho, servido em casa de minha avó materna, Oma Müller, e preparado pelo tio Roberto, seu irmão. Vinho tinto colonial, ao qual era adicionado um grande prego de ferro, era diluído em água e adoçado fartamente, para nosso maior deleite. Era uma sábia e saborosa receita para prevenir anemia. Mas esse suco só era servido em casa da Oma. Nem sei porquê.

Cenas surpreendentes também se desenrolaram nessa mesa. Em um daqueles dias de verão o almoço decorria em relativo silêncio. Apenas papai mencionava um ou outro acontecimento do dia, mas todos sem muita importância. Foi então que comecei a ouvir ao longe o som daquela flauta de tons ascendentes assoprada em uma e logo em seguida em outra direção. Priiiii, Priiii……… e um pouco adiante outra vez, Priiiii, Priiii…. Era o código musical do vendedor de picolé. Meu Deus, era meu sonho chupar um picolé! E aquela música, era assim que soava aos meus ouvidos, se aproximava e se aproximava. No meu interior aquela melodia assumia um volume cada vez maior, até que meu corpo inteiro, vibrando fortemente em harmonia com aquela escala, ameaçava explodir feito um vulcão. Mas…. falar era proibido naquela mesa. Fiz um esforço descomunal por ainda alguns minutos. Quando o vendedor finalmente passou em frente ao portão com sua sedutora flauta mágica, não pude mais reter todo aquele desejo represado e desatei a gritar:
– Picolé, picolé, picolé……….

Todos à mesa me olharam atônitos, e embora as boas maneiras e o rígido ritual germânico não o permitissem, desataram a rir, copiosamente, até às lágrimas. Não achei nenhuma graça, e pedindo licença, saí da mesa aos prantos. Não ganhei o picolé. Ficou na saudade.

Os picolés, na época, eram na verdade feitos com xarope de groselha, tal qual o capilé, porém um pouco mais concentrados. Ou de limão ou uva, todos com a mesma receita. Assim, após chupar o suco, tinha-se no palito uma pedra de gelo totalmente sem gosto. Mas mesmo assim era muito saboroso. Fazíamos de tudo para poder comprar um picolé na venda do Pradi. Essa era a venda mais próxima da casa e nosso destino certo quando ganhávamos uma moedinha.

Um dia resolvi ganhar meu próprio dinheiro para poder saciar meus desejos “picoleiros”, e decidi vender nozes lá no portão. Tínhamos, na época, em nosso jardim, grandes árvores de Pekan, noz norte americana que se desenvolve muito bem em nosso clima tropical. A cada ano, no fim do inverno, cada árvore derrubava muitas e muitas dessas nozes, tão saborosas e nutritivas. Eram então coletadas periodicamente e colocadas a secar no sótão, para seu posterior aproveitamento em doces e principalmente para os festejos de Natal. Assim decidi coletar uns bons bocados desses preciosos frutos e expressando meus genéticos dons para o comércio pus-me a vender em pequenos lotes a minha preciosa colheita, bem ali, na calçada, perto do portão. Acho que fui bem-sucedida, pois mais e mais transeuntes compravam, a preço de banana certamente, as preciosas nozes. Feliz, vi meus picolés se multiplicarem em minhas contas de somar moedas. De repente mamãe surge ao meu lado, e muito indignada me arrastou para dentro do portão. Cheia de vergonha, do quê eu não sabia, ainda pude ver uma cliente em potencial parar e com os olhos cheios de surpresa acompanhar meu castigo em curso.

– Que coisa feia. Que vergonha! Nunca mais faça isso! Exclamou mamãe, levando-me para dentro de casa e tirando-me as nozes e o dinheiro tão gloriosamente conquistado.

E me senti a última das criaturas. Da glória para a vergonha. Do topo para o precipício. Uma queda doída que corroeu preciosos genes do meu DNA. Nunca mais pude vender nada. Era feio. Até hoje o é. Embora saiba que não o é. É ou não é? Acho que não poderei nunca resolver esse enigma da minha infância.

Aquela mesa, graças a Deus, era farta. Bifes com arroz e feijão, linguiças com batatas e chucrute, macarrão com carne assada e farofa, se alternavam com inúmeros outros pratos, mostrando, já naquela época, como as diferentes culturas que habitam nosso país se fundem e se completam.

Entre a sala de jantar e a cozinha havia um pequeno cômodo que através de uma escada levava ao porão. Era ali que meu pai guardava seus vinhos, ali curtia a saborosa cerveja de mel, e, sobretudo servia de depósitos de coisas velhas, descartadas, mas ainda não destinadas ao lixo.

Como de costume, num de seus rompantes, mamãe decidiu retirar a escada, já que atrapalhava as cozinheiras no transporte dos alimentos para a mesa. Poucos dias depois chegaram os pedreiros com toda a sua parafernália de instrumentos, cimento e tijolos, que foram depositados em grandes pilhas no jardim. Eu, ao contrário do restante da família, adorava essa invasão de privacidade e todos os incômodos que advinham dessa movimentação de estranhos. Fazia logo amizade com os trabalhadores e acompanhava com interesse a colocação dos tijolos, a preparação da massa, geralmente em um clima de muita descontração. O rádio de pilha ligado na transmissora local tocava as trovas alemãs e caipiras, que eram parcialmente acompanhadas em algumas estrofes e assovios por aqueles simpáticos obreiros. Um dia, porém, quando chegava toda feliz para acompanhar os avanços do trabalho, encontrei aquele homenzarrão debruçado sobre a pilha de tijolos, aos soluços. Eram lágrimas tão tristes e um choro tão sofrido que fiquei paralisada e perplexa que tal atitude pudesse brotar de um homem tão feliz em seu trabalho diuturno.
– O que aconteceu? Perguntei-lhe bem baixinho, ousando invadir seus sentimentos tão profundos.
Enxugando suas lágrimas desajeitadamente com suas grandes mãos cheias de cal, e controlando com dificuldade a voz embargada, respondeu-me:
– Morreu Getúlio Vargas!
De política sabia muito pouco. Algumas vagas lembranças me vinham sobre esse personagem através das intricadas conversas dos adultos, às quais raramente prestava minha atenção. Este episódio ficou marcado em minha memória como uma grande tristeza que abalou os pedreiros, e que, por isto, devia ser muito importante.

No dia a dia nossas atividades se completavam no subir e descer as escadas que ligavam os dois andares da casa. E não apenas os afazeres costumeiros nos obrigavam a utilizá-las com frequência durante o dia. Havia aquelas falhas de memória. Ah, esqueci minha pasta de aula. Lá subia os dois lances e o descia aos pulos, economizando o máximo de degraus. Mas o que mais me chateava era quando mamãe esquecia seus óculos. Era muito frequente seu apelo:
– Maike, hohle meine Brille! (Maike, busca meus óculos!), Du hast ja jüngere Beine als ich! (Pois você tem pernas mais jovens que eu!).
Que argumento indiscutível este! Para meu desespero deduzi logo que jamais poderia recuperar esse tempo de vida que separava nossas pernas. Então eu subia e procurava, procurava, em todos os cantos de seu quarto, até que, frequentemente ouvia lá de baixo seus gritos:
– Ah, habe sie schon gefunden! (Ah, já os achei!) Auf mein Kopf… (Sobre minha cabeça…) Que sensação de tempo e energia desperdiçados! Interrompera minha brincadeira com os cachorros no jardim! Em vão! E essas minhas pernas que seriam sempre mais novas…. E descia as escadas lentamente, sem saber se a brincadeira interrompida ainda fazia sentido, pois os cachorros já tinham encontrado outros atrativos no jardim.

O sótão

Acima do andar dos quartos, separado também por dois lances de escada havia um sótão. Ali, como no porão, era também um local de descarte. Berço sem utilidade, baús repletos de roupas velhas, livros e cadernos de estudo superados, enfim, ali se amontoavam todos aqueles objetos sem utilidade, por vezes sutilmente interligados por teias de aranha e criando aquele ambiente soturno, intrigante e estranhamente atrativo dos sótãos. As escadas de acesso rangiam a cada passada, o que criava um clima de grande suspense. Era um dos locais adorados por nós crianças para brincadeiras de fazer de conta.

Subia ao sótão vez ou outra com minhas amigas, preferencialmente após o almoço. Passo a passo, “Psst, mamãe está dormindo”, pois era a hora de seu repouso, junto com papai, pisávamos os degraus cuidadosamente, evitando aqueles que mais rangiam. E lá brincávamos por horas a fio. Nem sei mais de que. Mas era bom, muito bom deixar a imaginação vagar por aqueles objetos inúteis, um espaço encantado, capaz de se transmutar ora em castelo ora em um lar, em que éramos princesas e mães, heroínas e amorosas. Sinceramente, acredito agora que a transmutação realmente acontecia, acessível apenas às almas mais puras. Das crianças. A ciência agora já presume esta sutil dualidade da matéria. E no presente procuro subir novamente estes degraus, agora na esfera espiritual. Para o reencontro, a redescoberta dessas poderosas dimensões já experenciadas.

De volta à mesa

Por vezes estávamos sozinhos à mesa, nós três irmãos, já que meus pais se ausentavam para curtas viagens pelo país. Para um breve descanso. Quando viajavam para a Europa, o que era raro, felizmente, ficavam ausentes por, no mínimo três meses. A viagem naquela época era por navio e levava por volta de quinze dias. Assim fica fácil compreender a longa duração dessas ausências. Nessas ocasiões a Oma ficava conosco, fazendo, com muito carinho, as vezes de mamãe.

Mas naquele dia estávamos só nós, irmãos. Eu sentei na ponta da mesa, no disputado lugar de papai, e Klaus na outra ponta, que dava para uma parede e uma vasta janela. Foi-nos servido queijinho branco e nata para comer com pão. Meus irmãos resolveram incrementar o queijo, adicionando fartas doses de pimenta preta o que me parecia muito apetitoso. Então decidi acompanhá-los nessa aventura gastronômica. Pedi a pimenta. De imediato, e em pleno acordo responderam-me em coro:
– Nada disso. Você ainda é muito pequena para pimenta!
– Mas eu quero! Respondi, percebendo logo a pobreza do meu argumento.
– Não, você não pode. O papai certamente também não permitiria.
– Mas eu quero! Tornei retrucando, sem achar melhor argumento, e percebendo outra vez que seria sempre a mais pequena, irremediavelmente mais jovem e proibida de provar o sabor de poder saboreá-lo.

E assim a discussão continuou por algum tempo, sem sucesso. Repentinamente uma força estranha me subiu pelas entranhas, e foi subindo e subindo, até que em um impulso incontrolável tomei meu queijinho na mão e o arremessei com mira certeira contra meu irmão. Com bom reflexo o mano perplexo se abaixou e a massa branca, sem pimenta, mas ardendo de raiva, se estatelou na parede. Havia liberado minhas energias represadas, e apesar de chateada por não ter acertado meu alvo, senti-me um pouco mais velha e melhor preparada para enfrentar desafios.

Aquele queijo grudado na parede e lentamente deslizando para o chão voltou curiosamente à minha memória, quando anos mais tarde, no lugar da mesa, dispuseram o esquife de meu pai. Eu, adolescente, completamente perdida na inaceitável irretroatividade da morte, o olhar fixo na imobilidade desse pai que nesse mesmo lugar imperara por tantos anos à ponta da mesa, procurava uma relação entre meu gesto de revolta e a morte que aproximara a sua cabeça dessa fatídica parede branca. Culpa, talvez, pela má energia que despejara ali, conexões misteriosas dos meus axônios e dendritos, completamente desordenadas pela violência dessa perda.

As Festas – A Páscoa

As Festas – A Páscoa

Na véspera de Páscoa a caminhada pela floresta com o Vati, – papai – era obrigatória, quando, acompanhada pela minha irmã Elke e meu irmão Klaus, íamos colher “Moos”, musgo, ao longo do caminho. Essa planta tem a forma de delicado pinheirinho peludo, a qual, mais tarde, como botânica, pude identificar como sendo uma pteridófita do gênero Lycopodium, plantinha primitiva que cresce abundantemente em barrancos.

Passávamos assim toda uma manhã descobrindo as mais frescas e belas plantinhas. Com uma grande cesta repleta desse “musgo” voltávamos então triunfantes para confeccionar os ninhos para o “coelho”. Era uma tarefa demorada, mas divertida, essa de trançar pinheirinho com pinheirinho, sob o olhar atento do pai, até obter a forma ideal para a “postura” dos ovos coloridos. Os ninhos eram depois cuidadosamente escondidos no jardim, um para cada um, cada qual em seu território, para dessa forma assegurar a esperada visita do coelho na madrugada seguinte.

Era a grande e carinhosa mão do pai que punha então cedinho, cedinho, os ovos aqui e acolá, no ninho e entre flores e arbustos, antes mesmo que acordássemos. Que festa procurar cada ovinho, colocá-los na cestinha até abarrotá-la, e então saborear pouco a pouco o tão sonhado gostinho da Páscoa. Mal sabíamos nós, que essa estratégica saída com o pai para a floresta permitia que a Mutti – mamãe – a verdadeira “coelha”,  pudesse preparar os ovos longe da nossa vista. As cascas de ovos eram reservadas já desde janeiro, pintadas com tinta óleo, e decoradas com desenhos de coelhos, flores, patinhos e, na véspera da Páscoa, recheados com amendoins-doces, balinhas e chocolates. Ovos cozidos e coloridos com tintas vindas especialmente da Alemanha eram presença obrigatória à mesa do café especialmente decorada para a ocasião. Era muito trabalho, feito por mamãe com muito capricho, às escondidas, principalmente à noite ou quando estávamos na escola.

Achados todos os ovos (por vezes mais tarde os cachorros se encarregavam de encontrar algum ovo excessivamente bem escondido) íamos à mesa tomar um lauto e divertido café. Tradicionalmente cada um comia seu ovo colorido, quebrado com sonoras batidas na testa. Que sabor tinha aquele ovo! Totalmente diferente daquele ovo cozido do dia a dia. É verdade! Era incomparável! Teria sofrido uma transmutação de sabor? Teria a “renovação”, o verdadeiro espírito da Páscoa incorporado um néctar divino àquela célula gigante preparada com tanto amor? Quem sabe!

O fato é que em um daqueles anos comi oito ovos na manhã da Páscoa. Três em casa, três em casa do Opa Max, avô paterno, para onde íamos logo que encerrado o café, e mais dois na casa da Oma Müller, avó materna, nosso último compromisso pascoal. E, pasmem, todos aqueles ovos, aparentemente tão pesados para a digestão, não me fizeram nenhum mal. Ovos abençoados pela Páscoa da minha infância!

A mão

A mão

Essa mão, tão grande e especial, que sobrevive naquela foto, segurando o jornal de forma tão singular. Era a mão que nos acordava aos domingos aos acordes do piano. Tocando áreas populares dos anos trinta, quarenta e cinquenta. Não alcançou os sucessos dos anos sessenta…

Pulando da cama, eu corria escada abaixo, para perto do meu pai. Adorava observar a desenvoltura e força de seus dedos ao teclado, e atônita admirava a sonoridade que dele extraía, seu rosto embevecido, perdido no tempo e no espaço. Só muito mais tarde fui saber que em sua juventude, na Europa, tocava em bares noturnos para “faturar” um dinheirinho, enquanto a preciosa remessa não chegava do Brasil para assegurar seus estudos. Por isso essa desenvoltura, por isso os temas épicos, por isso esse olhar perdido.

Essa mão também segurava a minha, desde pequenininha, quando em dia de feriado, ou aos domingos, me levava à floresta. Era esse seu universo mais reservado e mais apaixonante. Cedo me acordava e, vestida de calça “bingolinga” – como eu pronunciava o recém chegado brim Coringa – botas de couro e facãozinho na cintura, lá íamos nós, para o mato da Companhia. Era assim que chamávamos a floresta que pertence à Cia Hering, de grande extensão, e que, na ocasião, assegurava o abastecimento de água para a tinturaria. Havia represas ao longo do riacho, e o caminho serpenteava ao longo do mesmo, no qual a Rural Wilis subia aos trancos e barrancos. O caminho levava até a velha cabana de madeira, ponto final, onde então partíamos para as “picadas”. Havia sempre um objetivo nessas saídas. Parava o carro repentinamente para observar um reflorestamento que o “Vati” – leia-se Fati, diminutivo de Vater, pai, portanto paizinho – fizera ao longo dos anos, introduzindo diversas espécies exóticas de pinheiros, vindas de diferentes partes do mundo. Então podava uma árvore, marcava outra para corte, sofria com os plantios que não evoluíam, e vangloriava-se do sucesso de outros.

Outras vezes ele caminhava por uma picada, facão em punho, passo firme, ensinando-me como pisar com segurança em subidas íngremes, como observar a presença de cobras, e como, em silêncio, acercar uma ave pousada no alto de uma árvore centenária. Não falava muito. Seu silêncio era tão eloquente. Dessa maneira ensinava-me a postura de respeito e amor pela natureza. Era também maroto, e em certa ocasião, julgando-me bastante crescida, cortou um cipó e ensinou-me a balançar por sobre um riacho, de barranco para barranco. Vi seus olhos brilharem e um incontido sorriso aflorar quando, qual uma macaquinha, atravessava a baixada zunindo, agarrada ao cipó. Foi uma aventura e tanto. Dessas que ensinam como agarrar um “cipó” quando necessário, ao longo das ravinas da vida.

Em outra ocasião levou-me ao limiar de dimensões mais remotas. Estas formas de percepção extra-sensorial que fazem despertar uma já quase adolescente para outros sentidos. Vejo-o ainda observando o tronco de um vigoroso Jacatirão, árvore pioneira, frondosa, retilínea, madeira valiosa para construir galpões, cerne escuro e resistente aos cupins. Avaliou sua frondosa copa de folhas miúdas e seu tronco robusto. Tocou-o então com as duas poderosas mãos, e permaneceu silencioso por longos minutos. Senti subitamente um calafrio percorrer minha espinha, pois percebi que a seiva da árvore circulava pelo corpo de meu pai, e os dois eram um. Depois, em sua sabedoria e talvez para disfarçar seus poderes, disse-me, quase num sussurro:
– Esta árvore ainda terá um papel importante, no futuro, para reflorestamentos.

Anos mais tarde, em minhas pesquisas com sementes, ao escrever um artigo sobre espécies nativas, incluindo o Jacatirão, do qual desvendei as sutis estratégias germinativas, lembrei-me de sua afirmação. Que visão tivera esse observador que amava a natureza. Que alegria a minha de contribuir de alguma forma para esse seu sonho.

Vejo ainda sua mão segurando o carretel de pesca. Os preparativos começavam na véspera, e eram demorados. Minuciosamente o pai acomodava linhas de naylon de diversas espessuras, chumbinhos de várias formas e pesos, anzóis grandes e pequenos, Plinkers, anzóis que imitavam peixes e que trouxera da Alemanha, e muitos outros apetrechos em um estojo especialmente fabricado para esse fim. Preparava também os carretéis e as varas de pesca. Uma era grande, desmontável e de material sintético, grande novidade naquela época, para seu uso pessoal, e outra pequena, de bambu, porém muito jeitosa, para mim. Naquele tempo passávamos as férias de verão em Camboriú. Que praia era aquela! Sete quilômetros de areia branca, bordejada ainda, em sua maior parte, por restinga, uma casa aqui, outra acolá! As águas eram límpidas, tanto no mar como no rio que deságua em sua extremidade sul. Então partíamos de madrugada, quietinhos, para não acordar ninguém, após um rápido lanche que a Mutti – mamãe, havia preparado. A estradinha de barro, que me parecia interminável, nos levava até a casa de um pescador, às margens do rio Camboriú. Era uma casinha de madeira, de chão batido, mas tão acolhedora, com um fumegante bule de café sobre o fogão à lenha. Que saboroso esse gole servido, em caneca esmaltada, por aquela senhora pequenina, por certo descendente de açorianos, tão digna e alegre em toda a sua simplicidade. Essa bebida nos aquecia o corpo e estimulava a alma para a tão esperada aventura. Seguíamos então para o rio, e, na canoa do pescador, acompanhávamos com admiração os seus lances de tarrafa que traziam as iscas vivas, petiscos irresistíveis para os robalos que já esperavam nossa chegada logo mais adiante. Chegava, enfim, o grande momento. A canoa deslizava lentamente rio acima, impulsionada pelo motorzinho de popa. Naquela alvorada que refletia na mansidão das águas ressoava o tuc, tuc, tuc, tuc, tuc, único ruído permitido nessa solitária espera pelo “puxão” no anzol. Já vínhamos arrastando nossas linhas em “coricó” no ritmo da canoa e segurando nossas varas, mal tínhamos tempo para acompanhar o voo de uma garça branca ou o salto de uma cobiçada tainhota. Preocupada em aprender com o pai o manejo correto do carretel, lembro-me do seu forte dedo indicador encostando delicadamente na linha para sentir a mais leve tensão ou mesmo a vibração da iminente abocanhada do peixe distraído. E no momento exato puxava fortemente a vara, e com elegância e domínio do ofício dava a linha e a trazia manejando seu moderno carretel importado. Depois, com o peixe debatendo-se fortemente ao lado da canoa e com auxílio de sua rede, o trazia para o interior da canoa. Seguia-se um pequeno momento de festa, de avaliação da qualidade do peixe, seu tamanho e modo de preparo. Depois, rapidamente o anzol era atirado para uma nova espera silenciosa.

Eu também tirava meus peixinhos da água, com o carretel pequenino, mas utilizado com habilidade e energia. É uma sensação maravilhosa, essa de pegar um peixe. E, pasmem, eu tinha a fama de ter sorte na pescaria. Pelo menos era isso que minha irmã Elke declarava. Pois ela quase não pegava nada, coitada. Por isso raramente nos acompanhava. Acho que não conhecia meu segredo. Eu sabia como chamar o peixe. Tinha a convicção de que determinados pensamentos podiam atraí-lo para perto da isca. Então eu pensava e pensava, demoradamente, divagando sempre sobre o mesmo tema. Aquele mesmo assunto que, em pensamento, eu tivera ao fisgar o primeiro peixe daquele dia.

Assim se passava a manhã. Poucos peixes na canoa, mas o coração cheio de emoções, e os olhos brilhantes de felicidade. E orgulho. Orgulho de poder acompanhar o pai nessa empreitada tão especial, de merecer esse espaço na canoa, essa canoa que era também seu coração, silencioso, paciente e amoroso.

A mão nas rédeas. Inesquecíveis aquelas viagens para Ilhota. Meu sonho! Andar a cavalo! Era uma vasta área do lado esquerdo do rio Itajaí Açu, que se situava nas proximidades do soberbo Morro Baú que ainda hoje é refúgio de florestas intactas. Essas terras de planície pertenciam à Cia. Hering, já há muito tempo. Contam que um antepassado da família havia idealizado para a gleba um modelo socialista de uso da terra, em que todos plantavam, colhiam e repartiam a colheita. Esse modelo foi tentado, mas rapidamente abandonado, pois todos disputavam, por justa causa, o melhor grão. A propriedade foi então transformada em pastagens para a criação de gado. Meu pai, que, dos diretores da indústria era o único com alguma experiência no ramo, ficou responsável pela sua administração. Visionário que era, planejou e executou a importação do primeiro lote de gado nelore, no qual via a rusticidade e aptidão para florescer neste nosso clima úmido e quente. Foi um sucesso! E cabia a ele avaliar o desempenho do gado, o correto manejo dos “piquetes”, seguindo o modelo “voisin”, método que propõe o rodízio do gado em parcelas cercadas, para permitir a recuperação das gramíneas após o pastoreio.

De novo, a bordo de seu Rural Wilis, azul e branco, lá íamos nós, o pai e eu. Naquele tempo “comia-se” muita poeira até chegar a Ilhota, e nas muitas curvas era imperativo buzinar para advertir um possível chegante. E então começava a aventura: atravessar o rio de balsa. Que coisa mais interessante, observar o balseiro dirigindo a pesada embarcação rio acima, para mais adiante, enganando a correnteza, abordar exatamente no início da estrada do outro lado do rio. Que sabedoria guardava aquele personagem rústico e habilidoso.
O responsável pela fazenda, já nos aguardava naquele pequeno cais, e, logo adiante, lá estavam os cavalos selados para o passeio de inspeção. Os dois seguiam à frente comentando e avaliando, ora o gado, ora o pasto. E eu, feliz da vida, trotava atrás, sobre aquele grande cavalo baio, manso que só e fingindo que era eu que estava no comando. Das coisas boas da vida, essas que a gente guarda na memória em cores, sons e sensações. Ver aquela boiada manchando de branco o pasto verde, suculento, como tão somente é o “verde vale do Itajaí”, emoldurado pelo céu azul e as montanhas escuras mais ao longe. Ouvir o barulho seco do casco dos cavalos fustigando o chão e, logo à frente, curtir a figura do meu pai, forte e elegante sobre o belo cavalo, suas grandes mãos segurando com destreza as rédeas, fazendo espumar o freio na boca do animal fogoso e impaciente.

Foi essa mão que me entregou um anel de ouro, como mérito pela conclusão do ginásio, hoje denominado de segundo grau. Foi um dia inesquecível. O vasto salão do Colégio Sagrada Família estava repleto de jovens e de pais ansiosos que se apressavam à procura de cadeiras vagas. Nas primeiras fileiras se agitavam as formandas, de uniforme festivo, cuidadosamente passado e engomado. Era uma veste de cor vinho, blusa branca, saia plissada sustentada por duas alças cruzadas nas costas. A alça esquerda ostentava as quatro linhas brancas em V que distinguiam as estudantes que completavam o quarto e derradeiro ano de estudos no Colégio. Essas quatro linhas impunham um enorme fascínio e respeito às estudantes das outras séries, e eram portadas com muito orgulho. Mais acima, no palco, uma mesa grande, ornada de flores, portava os cobiçados diplomas, devidamente enrolados em canudos. Sentada à mesa, na posição de honra, se posicionava a Irmã Diretora, muito séria, e, como todas as freiras daquela época, portava o traje de sua congregação: batina preta que cobria todo o corpo, a face emoldurada por um rijo tecido branco e o resto da cabeça coberta por tecido preto. Assim, das irmãs viam-se apenas as mãos e o rosto. Era para nós motivo de grande surpresa e de risadinhas marotas quando, por descuido, alguma mecha de cabelo emergia sob aquela máscara branca. Da irmã diretora recordo apenas o apelido. Diziam que era de família nobre, que fora casada, mas decidira dedicar sua vida a Deus. Era magra, alta, e, coitada, muito, mas muito feia. Por isso as impiedosas jovens deram-lhe o triste apelido de “bacalhau”.
Ao seu lado, à mesa, estavam o Senhor Inspetor, cargo muito respeitado e temido pelos professores e pelos alunos, e vários outros professores. A um sinal da Diretora todo o salão silenciou e ouviram-se os acordes do Hino Nacional.

Os melhores alunos de cada turma eram então chamados para receber sua medalha, a qual era presa nessa mesma honrosa alça esquerda. Depois uma a uma as formandas iam receber seus diplomas, sob as palmas dos pais encantados. E ali estavam eles, Mutti e Vati, orgulhosos e sorridentes, a ver sua caçula subir triunfante a escada do mérito e receber o seu canudo com as mãos trêmulas de emoção. Depois veio aquele abraço gostoso e demorado, e a felicidade estava completa. As mãos do pai procuraram então alguma coisa em seus bolsos, e encontraram uma caixinha azul. Que seria? Era um anel de ouro. Lindo. sobre uma pequena plataforma fosca estava inserida uma pedra de quartzo fumé. Disse-me então:
– Até agora, Maike, obriguei-te a estudar. Era a minha e tua obrigação. Agora, que concluíste o ginásio, és livre para decidir se queres continuar ou parar os estudos. Escolhe!
E ali mesmo, embevecida com esse forte gesto de libertação, decidi continuar. Decidi fazer o científico, passo que me permitiria aspirar o acesso a uma faculdade. E ele ficou feliz.

Meu pai não alcançou meu ingresso no científico. Logo após a formatura soubemos de sua doença, incurável naquela época, um câncer. A doença evoluiu rapidamente, e transtornada diante dessa inexorável aproximação da perda, segurei sua mão pouco antes de sua partida. E ele, já sem o poder da fala, mas consciente da minha presença amiga, apertou-me a mão, delicadamente, por preciosos minutos. E apertou-me o coração adolescente, incrédulo e assustado com os mistérios da morte que se aproximava. Assim perdi essa mão, que segura agora para sempre esse jornal, na moldura, sobre minha cama.

Partículas ou Particular

Partículas ou Particular

Estes fragmentos são partículas da minha vida, sem a pretensão de constituírem em seu todo uma autobiografia, nem com ambições literárias e muito menos com cuidados cronológicos.

Tive e tenho uma vida muito rica em vivências, de emoções e de ações. Privilegiada que fui no tempo de nascer (final da segunda guerra mundial), em um ambiente bastante estimulante, conflituoso, mas seguro, abastado (ma non tropo) fui cercada de pessoas fortes, inteligentes e autoconfiantes. Princípios morais numerosos e dogmáticos, germânicos, moldaram meu comportamento e a maioria de minhas atitudes. Acho que fui bastante fiel ao conselho de meus pais diante da vida: Halt die Ohren steif (mantenha as orelhas de pé), o que me legou um temperamento um pouco assustado e alerta, talvez um pouco exagerado, diante dos eventos comuns e incomuns do dia a dia.

Privilegiada também fui no tempo de crescer e vir a ser, quando no pós-guerra surgiram tantas inovações tecnológicas, tantas transformações sociais, tantas manifestações políticas que se concretizaram na música popular, como o rock nos Estados Unidos e Inglaterra, da bossa nova e em movimentos sociais como os golpes militares. As novas conquistas da mulher na rede social, sua afirmação como ser pensante, atuante e quiçá igualado, fizeram parte de minha vida sem que delas tivesse muita consciência, participante que fui de uma onda que aportava então (tardiamente, pois os meios de comunicação eram precários) no Brasil.

A perda precoce de meu pai (meu herói) me golpeou como jamais antes nada o fizera e me tatuou no coração o sabor da morte. Ficou minha mãe, a bela, forte, distinta e irrequieta dama, que sempre amou viajar e que até hoje, na casa dos noventa, adora estar a par dos acontecimentos e se possível controlar tudo que está ao seu alcance. Tive dois irmãos. O mais velho, que até hoje administra a casa da família, e cuja alma vagueia entre a filosofia e a natureza e seu bom manejo pelo homem. E minha irmã artista, poderosa escultora, que viveu todos os conflitos de um ser que habita um outro tempo, mas que tem que conviver com as contingências estéreis e supérfluas da realidade cotidiana a qual nunca lhe parecia justa. Partiu muito cedo, deixando um grande vazio. Será para sempre “um grande coração” em sua nova dimensão, guardando assim a essência de sua vida conosco.

A descoberta do amor sucedeu-se quase simultaneamente após a morte do meu pai, amor à primeira vista, forte, poderoso e passional, ao qual sou fiel até hoje. Desconfio que foi um presente póstumo de meu pai, vigilante da minha integridade e bem-estar, como sempre fora.

Os estudos em boas instituições, tanto em minha terra natal, Blumenau, quanto em São Paulo e posteriormente na França, me proporcionaram uma boa formação intelectual e profissional, e, através do conhecimento, fui ampliando gradativamente meu grande amor pela natureza.

Experiências internacionais temperaram minha personalidade em diferentes períodos de minha vida, enchendo-me de grandes prazeres e descobertas.

Minha vida profissional foi generosa e criativa, trabalhosa e cansativa também, mas compensada largamente pelo indescritível e singular prazer que nos permite saborear a pesquisa científica e o professorado.

A vida me presenteou com cinco belos, saudáveis e queridos filhos, que criamos com muito amor e união em família. Florianópolis, mágica e ensolarada Ilha, emoldurou nosso dia a dia com suas belas paisagens, praias e montanhas, sua gente amável e pelos inexoráveis ventos sul e nordeste e ainda as chuvosas lestadas. Santo Antônio de Lisboa, da centenária igreja e casas coloniais, dos pescadores de camarão, de ostras e mexilhões, nos aceitou, no início da década de setenta, como primeiros forasteiros, com carinho, hospitaleiros que são os tradicionais açorianos.

Depois vieram, e virão, espero, ainda muitos netos. Oferenda dos deuses, que nos concedem a graça de podermos nos deliciar com os encantos desses anjos sem o ônus das tarefas mais duras da criação de um filho. Sou a Oma, palavra que me soa como música, e me desperta para as doces tarefas de avó.

Minha saúde nem sempre correspondeu às minhas expectativas. “Desbravadora da Amazônia”, como por vezes me chamava o preocupado maridão companheiro, sobretudo quando percebia os exageros nas minhas pretensões de trabalhos, era essa minha postura. Queria sempre fazer mais e melhor do que podia, do que meu físico permitia. São coisas do signo de Capricórnio. Pré-disposições genéticas, estresses frequentes e emoções contidas despertaram meus males físicos. Minhas atitudes frente a eles, bons médicos e o precioso apoio incondicional da “pequena e da grande família” e dos amigos, permitiram, no entanto, que pudesse enfrentá-los e vencê-los repetidas vezes. E aqui estou, agora, na casa dos sessenta, feliz de poder viver e conviver nesta terra, e, após toda essa minha “odisseia”, poder falar um pouco sobre minha vida e dos que a moldaram e enriqueceram.

PERDÃO

PERDÃO

Perdão, seres desfigurados do Infinito
Prometo, seres de ouro do Infinito
Nunca mais, seres de bronze do Infinito!

Os cristais pululam na cascata
Os monstros urram
O fogo queima os cílios da rosa
As asas escondem o saber!

Guardai as unhas afiadas
e o marfim chamejante
Escolhei os raios na escuridão
Aguardai, seres desfigurados
de ouro e bronze do Infinito!

Perdão…prometo…nunca mais!

Rio de Janeiro, fevereiro de 1964

FANTASMAS DOS DESENGANOS

FANTASMAS DOS DESENGANOS

Só estão comigo os fantasmas
e o tempo desaparece
dentro das suposições
que montam as três lesmas do meu sol.

Só estão comigo os sobressaltos
das más caras desconhecidas
que veem o infinito
e não me veem.

Só estão comigo os desenganos
e as ilusões
roubam o vazio das esperanças
que não voltam.

Os sobressaltados fantasmas dos desenganos
atraem-me às dez bocas
que gritam o seu perdão.

Ela não vem pois foi ao encontro dos demônios!

Rio de Janeiro, março de 1964

NOVOS ESPÍRITOS

NOVOS ESPÍRITOS

Os bonecos ouvem a múmia
no sarcófago de marfim
das pirâmides de cinza
para gerar novos espíritos
que andam sob as árvores.

Os bonecos encarnam homens
acordam as divindades da noite
que lhes abrem os túmulos
para gerar novos espíritos
que invadem o mundo.

Os bonecos vestem os esqueletos
preenchem os vazios das catacumbas e
tomam esquisitas formas de duendes
para gerar novos espíritos
que dormem com as múmias.

Os bonecos são homens
as múmias são bonecos
os homens são múmias
para gerar novos espíritos
que se escondem nas estrelas.

Rio de Janeiro, março de 1964.

Informa sobre atividades de Antônio Diomário de Queiroz